10 casos de ex-exploradores de animais que passaram para o “lado ético da Força”

Ric O'Barry, hoje defensor dos golfinhos

Ric O’Barry, ex-explorador de golfinhos, hoje defende a vida e a libertação deles. Foto: International Marine Mammal Project

Sempre que algum peão de rodeio, toureiro, caçador, pescador ou fazendeiro sofre algum revés fatal ou ferimento permanente do animal que estava tentando matar ou montar, muitas pessoas que dizem amar os animais ou ser veganas comemoram. “Um ser cruel com os animais a menos”, muitos dizem.

É uma extensão da lógica “Bandido bom é bandido morto” para a causa animal.

Mas tem algo que essas pessoas não percebem: o ser humano tem a capacidade de se arrepender, se conscientizar, mudar de lado.

É o que muitos ex-exploradores de animais nos mostram: é muito possível torcer não pela morte de quem maltrata animais, mas sim pela sua virada ético-moral.

Convido você a conhecer o exemplo de vida de dez pessoas que trabalhavam contra os animais, mas mudaram de coração e mente e se juntaram ao “lado ético da Força”. E garanto: a causa vegano-animalista tem muito a aprender com esses indivíduos.

 

Do especismo à compaixão animal: grandes exemplos de vida

Geoffrey Giuliano, ex-Ronald McDonald

Geoffrey Giuliano: de Ronald McDonald e Rei do Hambúrguer a defensor do vegetarianismo ético e do meio ambiente

1. Izumi Ishii, ex-caçador de golfinhos

Antigamente, Ishii vivia de matar golfinhos na costa leste do Japão, seguindo um costume relativamente recente de encurralar, atordoar e exterminar grupos inteiros desses animais. Ele passou décadas nessa carreira de assassinatos.

Porém, a partir de determinado momento, ele começou a perceber o quanto aqueles animais sofriam enquanto eram cercados e induzidos ao pânico, e quão numerosos eram os seres que ele e seus comparsas estavam impedindo de continuar vivendo.

Ele percebeu o quanto suas vítimas eram inteligentes e inofensivas. Segundo afirma, eles não ofereciam qualquer resistência, e sequer tentavam mordê-lo enquanto ele lhes cortava a garganta.

Desde o momento em que vivenciou essa mudança de coração, Ishii passou a trabalhar com ecoturismo e observação de golfinhos vivos e livres. E o melhor: hoje luta contra a pesca desses animais, a qual, segundo ele, sequer é uma tradição cultural japonesa, mas sim uma modalidade de exploração capitalista dos mares iniciada em 1969.

 

2. Ric O’Barry, ex-treinador de golfinhos

Hoje aliado de Ishii na luta pela paz aos golfinhos do Japão, O’Barry trabalhou na década de 1960 como treinador de golfinhos, tendo capturado, aprisionado e treinado cinco golfinhos que seriam explorados para o seriado de TV Flipper.

Isso até que, num dia de 1970, a golfinho-fêmea Kathy, a que mais havia atuado como a personagem Flipper no seriado, permaneceu dentro d’água, não buscando mais ar, e morreu no seu cativeiro, num provável ato desesperado de suicídio.

O’Barry teve uma epifania ética então e, no mesmo ano, fundou a ONG The Dolphin Project, que denuncia as crueldades de se capturar, aprisionar em cativeiro e treinar golfinhos para apresentações em parques aquáticos, filmes e programas televisivos.

Até hoje ele dedica sua vida para lutar pela libertação dos golfinhos, tendo recebido o prêmio Environmental Achievement Award (Prêmio de Realização Ambiental) em 2007.

 

3. Álvaro Múnera, ex-toureiro

Na juventude, Múnera matava touros em arenas de tourada da Colômbia e da Espanha, sendo conhecido nas “lutas” pelo apelido “El Pilarico”. Até que aprendeu a lição de uma maneira bastante dolorosa.

Aos 18 anos, foi gravemente ferido pelo touro Terciopelo, e perdeu para sempre o movimento das pernas, passando a viver pelo resto da sua vida como cadeirante. Meses depois, ele teve a infelicidade de ver seu melhor amigo, conhecido como “El Yiyo”, ser chifrado até a morte. E três anos após, o empresário dos dois se suicidou.

Hoje Múnera é um ativista tanto pelas pessoas com deficiência como pelo fim das touradas. Escreve artigos contra esse cruel entretenimento, e ex-fãs de touradas lhe escrevem agradecendo pelos textos.

Disse ele numa entrevista ao site Vice.com, em 2009: “Mas, e as pessoas que não podem me perdoar pelo que eu fiz com tantos touros? Eu tenho que dizer que eu os entendo e concordo, até certo ponto. Minha única esperança é ter uma vida longa para que eu possa alterar meus muitos crimes. Gostaria de ter o perdão de Deus. Se Ele não me perdoar, Ele tem boas razões para não fazê-lo.”

 

4. Jay WIlde, ex-pecuarista

Wilde cresceu numa fazenda bovina da Inglaterra, e herdou-a de seus falecidos pais, continuando o trabalho deles de explorar e matar vacas, bois e bezerros.

Porém, na década de 2010, ele vivenciou uma generosa transição ética. Em 2011, após a morte de seu pai, ele deixou de explorar vacas “leiteiras”, e passou a “produzir” carne “orgânica” na fazenda. Até que, em 2017, ele também abandonou a pecuária orgânica “de corte” e doou todos os bovinos que ainda viviam ali para o Hillside Animal Sanctuary.

Diz ele que já vivenciava essa transição ética desde 1992, quando havia se tornado protovegetariano. E sentia uma grande pena dos animais quando via vacas e bezerros sendo cruelmente separados pela pecuária leiteira.

Então, em 2017 ele deu um basta a todo o histórico de exploração animal de sua fazenda, doou os animais para o santuário e passou a gerir um mercado rural de produtos veganos orgânicos para jardins, sem utilizar produtos animais nem fertilizantes.

 

5. Howard Lyman, ex-pecuarista

Assim como Jay Wilde, Lyman cresceu num ambiente rural repleto de exploração animal. A fazenda onde ele vivia era um típico exemplo daquele estereótipo publicitário de fazenda bucólica onde os animais pastam “em paz” e são chamados pelo nome por seus “donos”.

Ao longo de sua vida, ele foi percebendo que não era ético, nem compassivo, matar animais tão desejosos de viver, tão inteligentes. Porém, depois da adolescência ele cursou Agronomia e aprendeu técnicas modernas de criação animal.

Hoje ele se arrepende de seu passado pecuarista. E tem ojeriza de quando falam de “abate humanitário”, “bem-estar dos animais de produção” e outros termos bem-estaristas. Tanto foi que ele foi o “astro” de dois documentários animalistas: Mad Cowboy e Peaceable Kingdom: The Journey Home.

Outrora pecuarista e hoje defensor dos animais, hoje ele nos ensina: “Minha experiência de vida me deu uma melhor compreensão do que está acontecendo e do quanto é errado acreditar que existe algo chamado abate ‘humanitário’. Os animais têm famílias e sentimentos, e pensar que matá-los com “gentileza” é uma resposta é algo totalmente errado. Humanos não têm nenhuma necessidade de produtos animais. E quando consumimos esses produtos, não estamos apenas matando os animais. A longo prazo, estamos matando o planeta e a nós mesmos.”

 

6. Leandro Petry, ex-apicultor

O brasileiro Leandro Petry trabalhou durante seis anos na apicultura. Obtinha o mel das abelhas de uma maneira dita artesanal, mas que pouco se diferenciava dos métodos mais modernizados de exploração apícola.

Em todo esse tempo explorando abelhas, ele foi percebendo, pouco a pouco, o quanto a apicultura é uma atividade tão cruel quanto a pecuária e a pesca, e como as abelhas, ao contrário do que o senso comum crê, são sencientes.

Então, entre a década de 2000 e o início da de 2010, ele vivenciou sua epifania ética, abandonou a apicultura, tornou-se vegano e deu um revelador e emocionante depoimento para o site Vista-se em junho de 2012 (clique no título acima para ler o texto dele).

Segundo Petry, “a atividade, que ainda é vista de maneira passiva quanto ao bem-estar das abelhas, de nada faz jus a sua fama. A compaixão para com os pequenos insetos é inexistente. E a responsabilidade ambiental, se não ausente, é muito pouca.”

 

7. Luiz Henrique Mazza, ex-peão de rodeios

Filho de pecuarista, Mazza morou na zona rural até os 22 anos. Durante sua juventude no campo, atuou como peão mirim e competiu na modalidade infanto-juvenil em alguns rodeios de pequeno porte.

Só que, a cada rodeio mirim em que participava, ele percebia as crueldades desses eventos contra os animais. Ano após ano, ele ficou mais e mais incomodado com os rodeios, a exploração animal no interior brasileiro e o machismo dos peões.

Seu pai não gostava de rodeios, e ficava desgostoso sempre que seu filho participava daquelas competições. Então, aos 22 anos ele se mudou para São Paulo, pouco depois seu pai faleceu, e as responsabilidades da vida adulta e sem o pai o obrigaram a abandonar para sempre os rodeios e mesmo o ofício de locutor de montarias.

Hoje ele é opositor declarado dos rodeios e declara em alto e bom som seu compromisso pelos Direitos Animais e sua consciência política por um mundo melhor.

 

8. Dan Maio, ex-pescador

Antigamente, Maio usava múltiplos anzóis de uma só vez, e muito afiados, para ter a certeza de que os peixes que ele vitimava não iriam escapar de maneira nenhuma. E acreditava piamente no que sua família e amigos diziam: que “peixes não sentem dor e não têm inteligência para entender nada”.

Ele foi pescador por dez anos, até que pescou um dos peixes mais bonitos que havia visto até então. O animal definhava assustado, sufocado pela incapacidade de captar o oxigênio do ar. Maio viu-o morrer, e se viu como um babaca por tê-lo matado de maneira tão cruel.

Foi ali que sua vida de pescador chegou ao fim. Arrependido de ter matado peixes, hoje ele dá depoimentos sobre a alta capacidade dos peixes de sentir dor e manifestar sofrimento. Tem horror, inclusive, de quando o pescador captura o peixe e o solta a seguir.

Ele avisa, numa amostra de seu ensinamento: “Então, antes de você lançar a linha nesse verão, pense sobre as vidas e os lares que podem acabar por sua culpa.”

 

9. Geoffrey Giuliano, ex-mascote do McDonald’s e do Burger King

No início da década de 1980, Giuliano atuou no Canadá como o palhaço Ronald McDonald, fazendo a “alegria” de muitas crianças. Antes disso, no final dos anos 70, nos Estados Unidos, ele havia interpretado o “Maravilhoso e Mágico Rei do Hambúrguer” do Burger King.

Ao longo dos anos 80, ele viveu uma transformação da sua consciência, e passou de mascote de hambúrgueres com carne e queijo para defensor dos animais. No início dos anos 90, ele já aparecia nos jornais denunciando o quanto a propaganda das redes estadunidenses de fast-food ilude e engana crianças e jovens e os induz irracionalmente a consumir mais e mais sanduíches.

Ele passou a defender a alimentação vegetariana, o respeito aos animais e ao meio ambiente, e mudou totalmente de profissão, se tornando biógrafo de cantores e bandas de rock.

Hoje ele é aclamado como um exemplo de vida que saiu da perniciosa indústria do fast-food das carnes e queijos para se tornar um defensor daqueles seres que a pecuária e esse setor industrial transformam em massas de carne.

 

10. Susana Romatz, ex-pecuarista bem-estarista (neste mesmo link, conheça a história de nove outros ex-pecuaristas)

Romatz era uma criadora de cabras “leiteiras”, que aos 11 anos de idade havia decidido ser uma pecuarista bem-estarista depois de ver o quanto era cruel ordenhar uma vaca por métodos evidentemente violentos.

Pouco a pouco, ela percebeu o quanto era contraditório se dizer “compassiva” por aqueles animais torturados em fazendas não bem-estaristas e, ao mesmo tempo, ela mesma estar explorando animais, mesmo que de maneira supostamente “humanitária”.

Mesmo em sua fazenda, os cabritos gritavam de desespero ao serem tomados de suas mães logo depois de nascidos e, depois de alguns meses, eram vendidos a matadouros. Ela percebeu que sua fazenda definitivamente não era ética, nem promovia realmente bem-estar para os animais.

Então ela abandonou de vez a caprinocultura e passou a fabricar leite vegetal de avelã e cultivar cogumelos comestíveis. Hoje ela diz, com satisfação: “Viver sem laticínios ou carne não é mais difícil para mim. O que é difícil é ver as pessoas presas numa mentalidade em que suas decisões cotidianas se chocam violentamente com seus valores mais básicos. Nós podemos e devemos fazer melhor.”

 

As lições dessas pessoas

Mudança de consciência sim, matar não

Esses dez indivíduos, e dezenas de outros, têm uma lição muito valiosa para nos ensinar: para que defender morte e sofrimento para quem explora e maltrata animais, quando podemos simplesmente desejar que mudem de consciência?

Eles nos mostram que o ser humano possui a singular capacidade de se arrepender de seus erros, rever sua postura de vida, assumir uma postura moral diferente e passar a agir de uma maneira muito mais correta e ética.

Ou seja, a crença de que “pau que nasce torto morre torto” é falsa. O ser humano tem muito mais flexibilidade ético-moral do que muita gente pensa, não tem um estado de (i)moralidade rígido como um pedaço de madeira. Isso é ainda mais evidente em se tratando de tomar consciência de que os animais não humanos merecem respeito e libertação.

Muitas vezes, o costume de explorar animais é baseado não no sadismo, no desejo deliberado de fazer animais sofrerem e morrerem, mas sim na ignorância e na reprodução acrítica de crenças realimentadas por seus familiares, parentes e amigos.

Tanto é que temos hoje esses dez casos, e tantos outros, que nos fazem pensar que, ao invés de vingança e morte dolorosa para quem explora animais, devemos lhes desejar esclarecimento e conscientização.

 

Considerações finais

Mudança de coração

Defendamos mudança de coração e consciência, não vingança e morte, para quem explora animais

Fica claro que, ao invés de declarar que “pecuarista/pescador/peão/vaqueiro/toureiro/etc. bom é pecuarista/pescador/peão/vaqueiro/toureiro/etc. morto”, o mais correto a se fazer é defender que quem explora animais mude sua posição moral em relação a eles.

Sede de vingança e morte não nos levará a lugar nenhum. Pelo contrário, só à corrupção moral e corrosão do movimento vegano-animalista. Portanto, reencontrar o caminho da ética da não violência e da inclusão moral é mais que necessário.

Pratiquemos o que a difusão vegana tem de melhor a oferecer: a transformação de consciências por meio da educação esclarecedora. Não o ódio e o punitivismo, que não trarão ninguém para o lado dos animais.

Robson Fernando de Souza
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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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