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Há uma versão melhorada e atualizada deste artigo no livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética

Leia aqui a parte 2 do artigo

Muitas pessoas deixaram de comer carne, alegadamente, por respeito aos animais e oposição ao abate dos mesmos. Mas não estão dispostas a abandonar também os laticínios, ovos e derivados da apicultura – os chamados alimentos não cárneos –, e rejeitam mais ainda a adesão ao veganismo. Essa postura muitas vezes é “justificada” com base em crenças especistas, que não se sustentam diante de um questionamento sério.

Este artigo vem refutar diversas alegações dos chamados flexitarianos, pessoas que pararam ou diminuíram o consumo de carnes* mas não querem largar todos os alimentos de origem animal, e provar que parar na abstenção de carne não é uma alternativa “menos radical” ao vegetarianismo e ao veganismo.

*Muitos flexitarianos, por terem parado de comer carne mas continuado com os laticínios, ovos e derivados da apicultura, se autointitulam “ovolactovegetarianos”, termo que, na antiga definição de vegetarianismo, denominava a categoria “menos radical” de “vegetarianos”. Flexitarianos que abandonaram a carne e os ovos mas não estão dispostos a parar com os laticínios e os produtos apícolas se autointitulam “lactovegetarianos”.

 

1. Eu não como carne, mas continuo consumindo laticínios, ovos e/ou mel. Já que não como carne, sou vegetariano(a).

Até algum tempo atrás, o conceito de vegetarianismo incluía pessoas que não comem carne mas persistem em outros alimentos de origem animal, uma vez que se acreditava que a carne era de longe o alimento mais cruel consumido pelos humanos. Essa crença vinha desde a Antiguidade, quando pessoas como os gregos Pitágoras e Plutarco e os indianos Mahavira (fundador do jainismo) e Ashoka (rei budista da dinastia Maurya) criticavam o abate de animais para obtenção de carne e defendiam uma alimentação sem carne – e, no máximo, também sem ovos – como meio de não fazer mal a outros seres sencientes.

Mas ao longo dos últimos anos, tem sido provado numa frequência cada vez maior que a produção de leite e ovos é tão ou mais cruel do que a da própria carne, e que a de mel, própolis e geleia real também tem violências inaceitáveis. Tem-se evidenciado que persistir no consumo de qualquer alimento de origem animal é tanto uma afronta à milenar moralidade pró-vegetariana quanto comer carne.

Portanto, tem sido cada vez mais demandada, e promovida por cada vez mais indivíduos, que não querem esperar por uma redefinição oficial por parte de entidades como a International Vegetarian Union e a Sociedade Vegetariana Brasileira, uma mudança na definição de vegetarianismo. Argumenta-se que, como a história do vegetarianismo é uma história também de defesa dos animais, é mais do que hora de passar a defini-lo como alimentação rejeitadora também de laticínios, ovos, mel e qualquer outro alimento de origem animal.

Com isso, em respeito às ligações históricas entre o vegetarianismo e a moralidade de zelo pela vida senciente e, sobretudo, pelo respeito ético aos animais não humanos, considera-se hoje, cada vez mais, que o vegetarianismo não é mais a simples abstenção de carne, mas sim uma dieta livre de todo e qualquer ingrediente provindo de animais vivos ou mortos. Nessa lógica, tem-se percebido que pessoas que não intencionam abandonar os laticínios, ovos e apícolas são tão “vegetarianas” quanto consumidores de carnes brancas.

Ou seja, pessoas que consomem alimentos de origem animal, mesmo que tenham abandonado a carne há décadas, não são vegetarianas. Para abstêmios de carne que consomem um ou mais alimentos do tipo e quer transicionar ou está transicionando para o vegetarianismo ou o veganismo, há o conceito de protovegetariano, um intermédio entre o onívoro e o vegetariano. Quanto àquele que largou a carne mas não quer parar de consumir laticínios, produtos apícolas e/ou ovos, o termo flexitariano o define.

 

2. Abandonar o consumo de carne (e, no máximo, o de ovos) já é o bastante para se prestar respeito aos animais.

Muitos acreditam que é possível ser “respeitoso” para com os animais parando apenas de comer carne, e que isso é “menos ruim” do que continuar sendo onívoro. Mas alguém dizer que “respeita” os animais enquanto consome produtos originados de um sistema que os explora e mata é tão “lógico” quanto dizer que é possível um “meio respeito” aos animais.

Insistir no consumo de alimentos não cárneos é permanecer no mesmo preconceito especista que sustenta o onivorismo, o de considerar apenas alguns animais dignos de respeito e aceitar a objetificação, exploração e morte dos outros.

O abstêmio de carne que não quer largar os outros produtos animais age como se os animais da pecuária “de corte” fossem os únicos dignos de serem salvos das violências dessa atividade. Deixa à mercê do uso como coisas e do abate as fêmeas “produtoras”, seus filhotes e os “reprodutores”. Permite que estes continuem sendo violentados em fazendas, granjas e matadouros. E isso de jeito nenhum pode ser considerado uma atitude de respeito aos animais, mas sim de frontal desrespeito e indiferença perante suas misérias.

Ou seja, parar na abstenção de carne, longe de ser um patamar mínimo aceitável de respeito, é autorizar a perpetuação da cultura de coisificação e matança de animais não humanos.

 

3. As fêmeas que nos fornecem leite e ovos não são abatidas, ao contrário dos animais que produzem carne.

Ao contrário do que crê um dos mitos mais comuns do flexitarianismo, todos os animais dados à luz na pecuária produtora de leite e ovos são assassinados. Desde as fêmeas “produtoras” que deixaram de “produzir” na quantidade desejada por seus senhores, passando pelos animais reprodutores, até os filhotes machos das fêmeas “fornecedoras de alimentos”, considerados “sem serventia” para as criações de leite e ovos e a pecuária “de corte”, nenhum tem o direito de continuar vivendo além das vontades do pecuarista e do granjeiro.

As mamíferas e aves obrigadas a fornecer ovos e leite deixam de produzir esses “alimentos” numa taxa “suficiente” em poucos anos, e são mandadas para o abatedouro tão logo seus ciclos de produção enfraqueçam. Há ainda aquelas que são abatidas muito antes, por motivos como abortos espontâneos e ovos deformados.

Os filhotes machos das mamíferas “leiteiras”, por sua vez, quando não são descartados como lixo, são mandados para a produção de vitela, na qual passam pela tortura de viver presos em caixotes nos quais mal podem se mexer e são induzidos a viver com anemia até o precoce abate. Já os pintinhos filhotes das aves “poedeiras”, depois de passar pela triagem, são jogados em máquinas que os trituram vivos.

Como diz Gary Francione, há ainda mais crueldade num copo de leite (e num ovo) do que num bife. E nesse contexto, os autointitulados “ovolactovegetarianos” contribuem tanto quanto os consumidores de carne para a morte violenta de incontáveis animais.

 

4. A produção de leite e ovos não tem associação com a produção de carne. Portanto, os lacto e ovolactovegetarianos não financiam a matança de animais.

Os cadáveres das fêmeas “produtoras” descartadas são muitas vezes convertidos em carnes de segunda, como no caso de vacas “leiteiras”, ou ingredientes de origem animal, como no de galinhas “poedeiras”. Estima-se que, em 2001, 43,3% de todos os bovinos mortos no Brasil para produção de carne eram vacas descartadas pela produção de leite. E dados de 2006 revelaram que o destino principal das galinhas “de descarte”, que perderam a capacidade de continuar pondo ovos por idade ou outros problemas, é terem sua carne convertida em ingrediente de sopas, concentrados e nuggets.

Já os pintinhos machos de galinhas “poedeiras”, triturados vivos por serem considerados “não aproveitáveis” para a produção de ovos e de carne, têm seus restos mortais ora descartados em aterros, ora aproveitados na fabricação de farinha de origem animal a ser usada na ração de outras aves. E muitos dos bezerros tomados de suas mães “leiteiras”, quando não descartados como lixo em aterros específicos, são mortos e têm seus cadáveres convertidos na já mencionada carne de vitela.

Ou seja, ao contrário do que se costuma acreditar, a produção de leite e ovos também “gera” carnes, sejam elas em estado bruto, como no caso da carne de vaca e da vitela, ou em forma de produtos industrializados, a exemplo das rações aviárias e das sopas de galinha vendidas em supermercados.

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Este artigo continua na parte 2.

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