10 mitos acreditados por quem deixou de comer carne mas não quer largar outros alimentos de origem animal (Parte 2)

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Conheça as respostas a argumentos reproduzidos por quem acha o veganismo “muito radical” e não aceita o vegetarianismo como abstenção de todo e qualquer alimento de origem animal

Leia aqui a parte 1 do artigo

Esta é a continuação dos dez mitos (mais um bônus) nos quais creem aquelas pessoas que dizem “respeitar os animais” por não comerem carne, mas não querem largar os outros alimentos de origem animal.

 


5. As mamíferas leiteiras e as aves poedeiras não se importam de ter seu leite e seus ovos retirados pelos humanos.

A retirada do leite e dos ovos das fêmeas tem consequências muito graves, impossíveis de serem contornadas mesmo nas propriedades adeptas do “bem-estar animal”, para elas e seus filhotes. E elas se importam muito com isso.

As criações leiteiras e poedeiras as tratam como propriedade de pecuaristas e granjeiros. Com isso, são mantidas presas em fazendas, granjas e confinamentos das quais jamais poderão sair – exceto quando estiverem sendo levadas para o matadouro. Muitas vezes são aprisionadas em gaiolas e baias minúsculas.

Além disso, o leite das mamíferas será desviado dos filhotes por meios cruéis, como desmamá-los à força com poucos dias de vida. E os ovos não galados têm sua produção induzida por seleção genética, pela alimentação e por técnicas de “manejo” da granja, não sendo natural que produzam tanto e percam a plena capacidade de pôr ovos em tão pouco tempo.

E elas se importam muito com o fato de que serão assassinadas tão logo sua “produção” decaia. Nos abatedouros elas se desesperam com o fato de que lá estão morrendo animais. Lutam pela vida o quanto podem, ainda que em vão.

Elas sofrem horrores com todas essas violências. E isso é se importar, mesmo indiretamente, com o roubo de suas secreções pelo sistema que as explora.

 

6. Eu parei de comer carne e passei a comprar laticínios e ovos apenas de produtores que tratam bem seus animais. Portanto, sou uma pessoa que respeita os animais.

Essa postura é típica do bem-estarismo, que é um sistema de crenças que defende que as violações do “bem-estar animal”, e não o uso de animais pelos humanos, são o problema central da defesa dos animais não humanos. Uma das crenças centrais do bem-estarismo é que a criação animal não precisa ser extinta, mas sim meramente reformada para tratar os animais explorados com “bem-estar”.

A lógica de defender e financiar fazendas e granjas que “tratam bem” as fêmeas “produtoras” de leite e ovos é a de concordar que não há nada de antiético em considerá-las moralmente inferiores aos seres humanos e, portanto, passíveis de serem usadas em prol dos interesses destes.

Por mais que digam que “respeitam os animais”, aquelas pessoas que se abstêm de carne e compram outros alimentos de origem animal de criadores bem-estaristas não se diferenciam tanto assim de quem come a famigerada “carne feliz”, aquela que vem do açougue do supermercado com selo de certificação de “bem-estar animal”. Ambas as categorias de consumidores de produtos animais estão financiando a inferiorização, objetificação, exploração e abate em massa de animais, mesmo que com alegadas boas intenções de “respeito ao bem-estar animal” e “oposição à crueldade”.

 

7. A apicultura não agride nem mata as abelhas.

A violência e a invasividade dos procedimentos da apicultura são comparáveis à invasão e saque de cidades de um país por um exército estrangeiro agressor. O mel é tirado da colmeia, mesmo que tivesse sido produzido pelas abelhas para os fins e interesses próprios delas. A extração do mel, da própolis e do pólen processado faz com que muitas abelhas morram ao tentar defender sua sociedade. E a obtenção de geleia real implica o assassinato da abelha rainha.

A colmeia é simplesmente impedida de manter uma ordem independente e pacata. É literalmente uma colônia dominada pelo apicultor ou pela empresa de apicultura. As abelhas são reduzidas à servidão, e suas vidas pouco valem além da função de produtoras de mel, própolis, pólen processado e geleia real. Ou seja, a apicultura é muito mais violenta do que o senso comum de quem não quer ser vegetariano e vegano acredita.

 

8. O não consumo de carne é uma alternativa menos radical para o vegetarianismo e o veganismo.

O único aspecto “radical” do veganismo é o fato de ir à raiz do problema da violência contra os animais, que é o especismo. Ou seja, é o sentido etimológico do termo “radical” como algo que vai à raiz.

Não há nada de extraordinariamente difícil no veganismo, da alimentação livre de componentes animais ao consumo seletivo que exclui empresas que testam seus produtos de maneira cruel. Nem há nele uma essência de intolerância, extremismo e coerção, típica daquelas ideologias cujo radicalismo significa fanatismo violento.

O que é extremo mesmo é a postura de quem não aceita que os animais não humanos são moralmente iguais a nós, sofrem e tem interesses individuais vitais tanto quanto nós temos e, portanto, merecem direitos fundamentais. É o supremacismo sutil de quem legitima que os não humanos continuem sendo tratados como seres inferiores, aprisionados, explorados e exterminados em massa em abatedouros. Ou seja, na dicotomia entre os veganos “radicais” e os flexitarianos “defensores da moderação e do não radicalismo”, estes últimos são os únicos que realmente seguem um sistema de crenças cheio de extremismo e violência.

Nessa lógica, a atitude de ser “ovolactovegetariano” sem intenção de aderir ao veganismo não tem nada de “moderado” e “não radical”, muito pelo contrário.

 

9. O veganismo é extremo demais, por isso é mais sensato e moderado simplesmente parar de comer carne.

A resposta ao mito anterior responde também a esse argumento. Recapitulando, no confronto entre o veganismo e a postura de quem não aceita se tornar vegan, o extremismo está na segunda “opção”, por implicar consequências típicas de ideologias extremistas.

 

10. É inconveniente os veganos insistirem que os lacto e ovolactovegetarianos deixem de consumir também leite, ovos e mel.

Convenhamos que a única inconveniência aqui é a de quem não aceita a conscientização vegana. Aqueles que têm essa atitude de rejeição estão mantendo um hábito de consumo extremamente inconveniente e nocivo para os animais, por tudo o que foi descrito na resposta aos itens anteriores.

Além disso, a atitude de não ouvir os veganos, quando não se tem como justificativa situações extremas em que, por exemplo, um médico exige que o paciente continue consumindo laticínios e este não tem forças psicológicas para questioná-lo, é movida pela mais pura conveniência individualista.

Em tal postura, o hábito não vegetariano é levado adiante pelo comodismo de não questionar aspectos de sua vida de maneira mais radical, ou seja, mais à raiz; o prazer de continuar consumindo pizzas, sorvetes, iogurtes, lasanhas etc. de origem animal e, muitas vezes, a dependência psicológica desses alimentos. São casos em que o flexitariano se acha diferente dos autodenominados “carnívoros” inveterados, mas no fundo compartilha com eles a superiorização do paladar sobre o respeito aos animais.

Ou seja, a conscientização vegana só é inconveniente quando o indivíduo quer conservar seus prazeres alimentícios e crenças pessoais especistas. Nesse caso, a atitude inadequada não é dos veganos – quando não agem com agressividade e coação –, mas sim de quem os rejeita.

 

Bônus: Termos como “protovegetarianos” e “flexitarianos” são ofensivos e desrespeitam os vegetarianos (sic) que não deixaram de consumir laticínios e/ou ovos. O melhor é que os veganos e os vegetarianos estritos continuem aceitando-os como vegetarianos.

Alguns indivíduos podem se sentir ofendidos quando são tratados com nomes como “protovegetarianos” e “flexitarianos” e têm sua autodenominação de “vegetarianos” negada pelos veganos e pelos verdadeiramente vegetarianos. Mas essa é uma resistência comum de ser encontrada quando movimentos de vanguarda política incomodam conservadores.

Durante o processo de popularização da nova definição de vegetarianismo, essa que é mais exigente e não tolera nenhum alimento de origem animal, é de se esperar que muitos flexitarianos se sintam incomodados. Mas a lógica que usam para tentar continuar se caracterizando como “vegetarianos” acaba não sendo lá tão diferente da de quem consome carnes brancas mas também se acha “vegetariano”.

O que realmente é um desrespeito é pessoas que não querem abandonar os alimentos de origem animal tentarem conservar aquele conceito obsoleto de vegetarianismo. Estão aviltando a história da alimentação vegetariana, que há milênios é vinculada às moralidades religiosas e seculares de respeito aos animais. Mesmo diante das evidências de que a produção de laticínios, ovos e mel são tão ou mais violentas e assassinas do que a de carne, insistem em manter uma alimentação desconectada dessa trajetória histórica ético-moral.

E o mais importante: antes de pensarem que serem chamados de “flexitarianos” é um “desrespeito”, o ideal seria pensarem o quanto estão desrespeitando os animais e lhes negando direitos básicos quando continuam consumindo as secreções roubadas de mamíferas e aves e financiando a matança delas e de seus filhotes.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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