10 mitos bem-estaristas sobre exploração animal, especismo e veganismo

Bem estarismo = Exploração animal

Achar que é possível ser “humanitário” explorando e matando animais é um dos mitos abordados neste artigo

Editado em 12/06/16 às 17h59

Há uma versão melhorada e atualizada deste artigo no livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética

O bem-estarismo, à primeira vista de quem ainda não se introduziu na defesa dos Direitos Animais, parece uma vertente válida de defesa dos animais não humanos. Mas uma análise mais crítica e cética das crenças e reivindicações dos “defensores do bem-estar animal” nos revela que ele é sustentado por mitos de fácil refutação.

Este artigo desmonta dez destes, de modo que se perceba que só é possível respeitar verdadeiramente os animais reconhecendo-lhes direitos fundamentais, libertando-os de toda exploração e objetificação e, no final das contas, deixando-os em paz. É conhecendo a essência do bem-estarismo que percebemos que ele favorece bem menos os animais não humanos do que quem os explora.

 

1. O problema central a ser abordado pelos defensores dos animais deve ser o bem-estar animal, ou seja, o combate aos maus tratos e à crueldade.

Lutar apenas contra os maus tratos deixa intocada a raiz de toda e qualquer violência contra os animais não humanos: a tradição de considerá-los “inferiores” aos humanos. Se considerar que o objetivo do bem-estarismo, a grosso modo, acaba sendo abolir a violência explícita contra os animais sem combater sua causa moral, ele nada mais faz do que enxugar gelo.

É comum nas hierarquias morais e sociais que os mais poderosos se sintam “autorizados” pela lei ou pela tradição a serem violentos contra os mais fracos. Isso também se aplica, de maneira extrema, à hierarquia especista dos animais.

Além disso, é evidente que o bem-estarismo não combate diversas das violências físicas que são inerentes à existência da pecuária, entre elas o ato de assassinar o animal – o abate. Nem reconhece várias vontades individuais dos animais não humanos, como a de quererem continuar vivos e serem livres. Ou seja, é um “combate à crueldade” incompleto e parcialmente tolerante ao tratamento violento de animais.

A consequência de se focar como problema central a crueldade explícita contra os animais resulta justamente na perpetuação de diversas crueldades – mesmo quando elas não parecem cruéis para olhos destreinados. É por isso que o abolicionismo animal critica o bem-estarismo e não aceita que só os maus tratos chocantes sejam combatidos.

 

2. Nós precisamos dos animais não humanos, no sentido de criá-los e utilizá-los para nosso benefício.

Bem-estaristas costumam defender que “não podemos” promover libertação animal porque “precisamos” e “não podemos prescindir” da exploração de seres sencientes. Mas é justamente esse pensamento que impede ou limita a massificação de alternativas e substitutivos que façam os humanos se livrarem de toda e qualquer dependência do uso de animais.

Se não houvesse esse conformismo de defensores do “bem-estar animal” e outros adeptos de crenças especistas, para se ter um exemplo, a comunidade científica já estaria num estágio bem mais avançado nas pesquisas e experimentos de substituição de cobaias não humanas por meios não sencientes de testes pré-clínicos de medicamentos. A ciência estaria ainda mais longe no atual processo de gradual eliminação de estudos com roedores, cães, porcos etc.

E foi pensando que não devemos continuar dependentes do uso de animais como coisas que o veganismo se desenvolveu, trazendo uma alternativa ética, saudável e poderosa ao consumo de produtos de origem animal e/ou vindos de empresas envolvidas com testes em animais. Se no âmbito do consumo também fosse pensado que “precisamos dos animais e não há como fugir disso”, o veganismo nunca teria sido fundado enquanto conceito.

O conformismo de crer que “precisamos imprescindivelmente” explorar animais não humanos gera um ciclo vicioso. Esse pensamento faz com que as atividades especistas continuem figurando como desprovidas de opções éticas. Essa ausência de alternativas fomenta a crença fatalista de que “precisamos dos animais”. E assim o giro continua infinitamente, enquanto não aparecem abolicionistas para pará-lo.

Ou seja, nossa dependência especista dos animais, ou o que ainda temos de dependentes, é consequência, em parte, do conformismo bem-estarista.

 

3. As fazendas, granjas e tanques que implementaram reformas e políticas de bem-estar animal são um exemplo adequado de simbiose entre seres humanos e animais não humanos.

Ao contrário do que o senso comum e o bem-estarismo acreditam, os animais não humanos são vítimas, nunca beneficiários verdadeiros, da pecuária e da aquicultura. Essas atividades lhes impõem uma vida imensamente encurtada e completamente dependente do “dono” do rebanho, os proíbem de caminhar além dos limites territoriais da propriedade rural e os forçam a serem controlados e perturbados todos os dias pelos subordinados do “proprietário”.

Além do mais, aquele que se diz “cuidador” dos animais “de consumo”, o que supostamente os “protege de predadores e intempéries naturais”, é o próprio algoz deles. É ele que vai ordenar que seus funcionários os mandem para a morte violenta no abatedouro.

Nesse caso, o conceito biológico que se aplica à relação entre o criador e os animais explorados é de esclavagismo, e não de simbiose. O último é uma relação em que ambos saem ganhando, enquanto o primeiro faz o explorador impor uma vida de tragédias ao explorado e se beneficiar delas.

 

4. É possível tratar os animais ao mesmo tempo como propriedade privada e seres dignos de respeito.

A história humana, ao longo de vários milênios, provou que é impossível tratar com o mesmo respeito nivelado por cima seres livres e seres relegados ao estatuto de coisas. Aliás, reduzir o ser senciente à categoria de propriedade já é, por si só, um desrespeito, uma violência.

Quando o explorador tem sob seu poder seres considerados sua propriedade, ele é autorizado pela lei a usá-los de acordo com suas vontades. A Filosofia Política moderna já provou que isso é uma das mais básicas formas de opressão existentes, e que a reificação (redução do ser senciente à categoria de coisa) não pode ser relativizada e desvencilhada da dominação abusiva e da violência.

No caso dos animais não humanos, seu atributo jurídico de “bens” sob propriedade de humanos permite que sejam, por exemplo, assassinados em matadouros sem que haja qualquer sanção punitiva vinda do Estado. Sendo um objeto, o animal jamais terá o direito de continuar vivo, porque objetos não são sujeitos de direito nem têm uma dignidade própria reconhecida pela lei.

Ou seja, pela própria natureza do atributo jurídico de objeto, é impossível respeitar um ser objetificado tanto quanto se respeita um ser livre e reconhecido como sujeito moral. Com isso, a crença de que fazendas bem-estaristas “respeitam” os animais não faz sentido, e aqui o próprio conceito de “respeito” é manipulado de modo que se adapte a uma situação de franco desrespeito à vida senciente.

 

5. É possível criar animais para fins de consumo com respeito e compaixão.

Os conceitos de “respeito” e “compaixão”, no bem-estarismo, são distorcidos a ponto de mascararem uma situação de violência inclemente. É o que Tom Regan, no livro Jaulas vazias, chama de “arrogância de Humpty Dumpty”, que consiste no argumentador dar a uma palavra o conceito que ele quer que ela tenha.

Nessa crença bem-estarista, é possível ter “respeito e compaixão” por um animal enquanto lhe inflige uma desnecessária morte violenta, mesmo chamada de “abate humanitário”. O absurdo aqui fica evidente quando tentamos aplicar essa contradição a crimes contra seres humanos. Afinal, nada, racionalmente falando, pode nos levar a crer que um homicida, ao matar humanos com um tiro fulminante na cabeça, causador de morte instantânea, está de alguma maneira “respeitando” e sendo “compassivo” com suas vítimas.

Isso exemplifica que causar violência para violar a integridade física de um animal e impedir-lhe o desejo de continuar vivo é uma maneira muito forte de desrespeitá-lo e faltar-lhe com compaixão. Com isso, o argumento bem-estarista de que respeito e compaixão não são incompatíveis com exploração e violência assassina é absurdo.

 

6. Não há desvio de ética em abater animais para fins de consumo, desde que de maneira humanitária (sic) e indolor.

O único argumento possível para “justificar” que seja “ético” matar um animal não humano é considerá-lo inferior, portanto menos digno de continuar vivo, ao ser humano e indigno de ter o direito à vida. E fazer uma hierarquização na qual seres de interesses semelhantes (como desejar continuar vivo e querer a liberdade) tenham valor moral desigual é, em essência, uma falta de ética.

Com isso, se é antiético assassinar um ser humano, é simplesmente errado dizer que é “ético” eliminar um outro ser tão apegado à sua própria vida e integridade física quanto ele.

 

7. Não faz diferença para os animais não humanos morrer cedo ou viver muito. O único interesse que eles têm e manifestam é o de viver com bem-estar.

Quando crê nisso, o bem-estarista é tão cruel quanto um torturador assumido de animais. Ambos ignoram, com sangue frio, que os animais não humanos “de consumo” lutam para continuarem vivos, a tal ponto que se desesperam quando sentem que estão diante de uma ameaça da qual não podem fugir, ou quando estão sofrendo em agonia. O peixe pescado, por exemplo, enquanto se debate em asfixia, tenta desesperadamente se mover pulando para voltar para a água.

Essa luta consciente contra ameaças à vida são uma implicação direta do desejo do animal de permanecer vivo o máximo de tempo possível. E nisso o abate “humanitário”, tão defendido pelos bem-estaristas, é bastante covarde, por esconder do animal uma ameaça gravíssima à sua vida e, por meio dessa não percepção, impedi-lo de fugir para preservá-la.

 

8. Defender direitos fundamentais para os animais não humanos, como se eles fossem humanos, é um radicalismo exagerado e desnecessário.

Todo e qualquer movimento defensor de direitos para categorias oprimidas já foi um dia tachado de “radical”, “exagerado” e “desnecessário”. Foi assim até mesmo com o liberalismo clássico, no século 18, quando era considerado uma ideologia revolucionária contra o feudalismo, o Direito Divino dos Reis e o absolutismo monárquico.

É comum em ideologias conservadoras tachar de “extremistas, logo erradas” correntes políticas que desafiam o status quo e propor, ao invés, reformas na ordem vigente para fingir mudanças enquanto mantém tudo como está. É assim também no bem-estarismo.

Essa semelhança entre bem-estarismo e conservadorismo se junta a outras, que explicitam como ambas defendem um estado de coisas baseado em violência, injustiça, desigualdade moral e dominação tirânica. Entre essas afinidades, estão a defesa da “naturalidade” e “harmonia” da ordem corrente – vide os argumentos de que “nós precisamos dos animais não humanos” e que a relação ecológica entre humanos e não humanos é “simbiótica” – e o beneficiamento dos interesses particulares dos detentores do poder econômico e político – desde nobres e magnatas da indústria e do comércio até pecuaristas e empresários da pesca.

O argumento de que os Direitos Animais são “radicais, logo ruins” é uma falácia, a redução ao extremismo. Eles são radicais apenas no sentido de que querem atingir a raiz de toda e qualquer violência contra os animais – o especismo –, não no de extremismo e violência intolerante.

E por mais que o bem-estarismo os tache de “desnecessários”, eles são profundamente necessários para os animais não humanos. Será graças ao abolicionismo animal que os não humanos do futuro poderão viver livres de qualquer dominação humana e, por tabela, de serem explorados e abatidos.

 

9. Consumir alimentos de origem animal com certificação autêntica de bem-estar animal é uma alternativa válida e menos radical ao veganismo.

Todo e qualquer alimento de origem animal, da carne mais dura vinda do animal mais torturado até o leite com o “selo da vaquinha feliz”, é originado da dominação violenta de animais não humanos por seres humanos. Todo ele implica a morte violenta dos animais considerados “imprestáveis” e “fora da vida produtiva” – inclusos os laticínios, os ovos e os produtos da apicultura – e, sobretudo, o uso deles como objetos sob propriedade de agroempresários, apicultores e pescadores.

Considerando que o veganismo é contra essas violências e condena toda e qualquer exploração animal, não sendo simplesmente uma forma de combater “maus tratos” e crueldades explícitas, não é correto achar que o não veganismo sustentado por produtos com selos de falso respeito aos animais é uma “alternativa menos radical” válida.

 

10. Não há necessidade de se difundir o veganismo no mundo, quando se pode muito bem exigir que a pecuária e a pesca reformem suas práticas e respeitem o bem-estar animal.

Aqui os bem-estaristas desconsideram que essa necessidade não é nossa, mas sim dos animais não humanos. Achar que existe uma “necessidade” de simplesmente reformar a exploração animal é crer que os animais “necessitam” continuar sendo tratados como propriedade de humanos e ter sua vida violentamente acabada de uma maneira diferente.

Quando se pensa que “basta promover reformas de bem-estar animal” e não a massificação global do veganismo, está-se sendo antropocêntrico. Está-se colocando os interesses privados de humanos acima da dignidade, vida, integridade física e liberdade dos animais não humanos.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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