10 mitos sobre a relação entre o veganismo e o capitalismo

meme de direita, veganismo capitalista

Meme feito por algum vegano de direita que acredita que o capitalismo é um “grande aliado” do veganismo

Você acredita que existe uma aliança entre o veganismo e o capitalismo?

Se sim, talvez tenha convicção que a economia capitalista é uma “grande aliada” do veganismo, ou mesmo que ela é “fundamental” para que esse modo de vida conquiste o mundo e liberte os animais.

Mas será que essa crença faz sentido mesmo? Ou melhor, será que as crenças que legitimam essa alegada aliança são verídicas?

Convido você a conferir isso neste artigo, que visa responder, sob a ótica do veganismo interseccional, a dez argumentos que defendem a existência de uma relação positiva entre o modo de vida vegano e a ordem econômica, social e moral capitalista.

Respondendo aos argumentos vegano-capitalistas

Compra da Mãe Terra pela Unilever

A compra da marca Mãe Terra pela Unilever foi um grande revés recente do “veganismo capitalista”

1. “O capitalismo é essencial para a propagação e a futura vitória final do veganismo.”

Essa crença é muito sedutora para muitos, afinal, desobriga os veganos do esforço de repensar sua posição político-ideológica em favor da ética e os faz acreditar que dá para se promover a libertação animal sem mudar a ordem social, econômica e moral vigente.

Só que, no fundo, ela não faz muito sentido. Desconsidera diversos problemas que tornam o capitalismo, no mínimo, um atrapalhador ou, no máximo, um obstáculo que precisa ser demolido para que haja um progresso real da causa vegano-abolicionista. Entre eles, estão os de que:

  • A relação entre capitalismo e veganismo é restrita ao consumo vegano, ou seja, à seleção e compra de produtos cuja produção não envolve práticas especistas. Não abrange a consciência ética antiespecista, o boicote a entretenimentos que exploram animais, o ativismo abolicionista, a recusa em montar animais e carroças de tração animal etc. Uma pessoa que é apenas adepta do consumo vegano e não assimilou essas outras práticas e a consciência animalista não é verdadeiramente vegana;
  • O respeito aos animais no capitalismo é condicionado à possibilidade de essa posição render lucros por meio da melhoria da reputação institucional da empresa e da conquista de um número elevado o suficiente de consumidores veganos. Nenhum capitalista (leia-se empresário detentor de capital) não vegano pensará na libertação animal se ela não lhe for economicamente interessante, ou seja, nas ocasiões em que a defesa dos Direitos Animais não inspira interesses empreendedores. É o caso de empresas que, diante da falta de perspectivas de lucrar com a causa vegana a curto prazo em muitos contextos, se negam a abandonar os testes em animais e persistem na produção intensiva de alimentos não vegetarianos;
  • O “veganismo capitalista” não tem uma base realmente ética, não defende os princípios éticos dos Direitos Animais, mas sim a libertação exclusivamente dos animais não humanos condicionada ao lucro das empresas. Assim sendo, muitos empreendedores “veganos” não hesitam em incorrer em atitudes antiéticas como explorar e maltratar seus funcionários, sabotar a concorrência e promover crimes ambientais como a biopirataria;
  • O capitalismo não dissemina o veganismo em locais onde ele é pouco ou nada conhecido. Apenas se aproveita da prévia disseminação da causa vegano-animalista em determinadas regiões das cidades e classes socioeconômicas, para assim obter uma base segura de clientes;
  • O empreendedorismo vegano focará predominantemente, quando não exclusivamente, em classes sociais e locais urbanos em que há menos riscos de fracasso. Ou seja, se não é lucrativo investir em refeições veganas num bairro pobre da periferia, então não vai ter nenhum restaurante vegano atuando ali;
  • Diversos valores (a)morais caros ao capitalismo são incompatíveis com os princípios éticos dos Direitos Animais, como o egoísmo, o supremacismo do lucro e do enriquecimento individual, a coisificação dos seres sencientes hierarquicamente abaixo dos privilegiados (como animais não humanos, trabalhadores e seres humanos em situação de miséria), o supremacismo antropocêntrico em detrimento da Natureza não humana, a demanda por crescimento infinito em detrimento da vida dos animais vitimados pela extração predatória de recursos naturais etc.;
  • Se por um lado empresas se beneficiam do veganismo para faturar em cima, por outro há um número centenas de vezes maior de companhias obtendo elevados lucros na exploração animal, e o empreendedorismo vegano sozinho nunca conseguirá reverter isso;
  • Muitos produtos industrializados considerados “veganos”, por serem livres de ingredientes de origem animal e serem de fabricantes que não testam em animais, possuem uma origem mais prejudicial à vida animal do que se acredita. Afinal, seus produtores são cúmplices em desmatamento, poluição e outras formas de degradação ambiental que acarreta a morte dolorosa de animais na Natureza. E isso não acabará enquanto essas empresas obtiverem lucros mais altos por meio da exploração predatória do meio ambiente do que por meios alternativos sustentáveis que exigem o sacrifício de parte significativa de seu faturamento.

 

2. “É graças ao capitalismo que podemos ou poderemos comprar vegarela com B12, ‘peru vegetal’ feito de tofu, pizzas veganas congeladas, farturas de coxinhas de jaca etc. Num país socialista esses produtos nunca existiriam.”

Em primeiro lugar, também é graças ao capitalismo que esses produtos só podem ser comprados por uma pequena minoria da população. Famílias obrigadas a se sustentar com dois salários mínimos ou menos não poderão, de maneira nenhuma, se beneficiar, por exemplo, da vitamina B12 que fortifica aquela vegarela que custa R$60 o quilo, nem curtir os sabores de qualquer um desses produtos numa frequência maior que uma vez a cada seis meses.

Em segundo, nada impede que uma ordem econômica não capitalista produza esses mesmos produtos, a preços bem menores e visando não o enriquecimento de poucos, mas sim o sustento de muitos e a satisfação das necessidades humanas.

E em terceiro, ao contrário do que reza o pensamento binário de muitos veganos de direita, não existe apenas um tipo de socialismo. Socialismo pode representar diferentes sistemas socioeconômicos, incluindo anarquistas baseados na solidariedade e na economia descentralizada.

 

3. “É graças ao capitalismo e ao empreendedorismo que o veganismo pode se disseminar na sociedade.”

Como contra-argumentei em resposta ao primeiro mito, o capitalismo empreendedor não dissemina o veganismo, mas sim se aproveita da difusão prévia do veganismo (como modo de vida ético que reivindica o fim do especismo) ou do que o senso comum supõe que seja ele (um estilo de vida baseado em consumo, individualismo, crenças semirreligiosas e autoafirmação) para conquistar o público-alvo recém-criado.

A única situação em que se pressupõe que o contexto capitalista propicia a conscientização dos clientes de um empreendimento é se este, além de manter seu negócio principal (ser um restaurante, vender produtos veganos etc.), promove paralelamente a distribuição de panfletos que fazem pessoas leigas conhecerem a causa vegana, comercializa a preços baixos livros e livretos que têm esse mesmo fim e/ou sedia frequentemente palestras de difusão da causa.

Fora isso, mesmo que, por exemplo, um restaurante vegano esteja trazendo um número crescente de pessoas para o hábito alimentar vegetariano, não se vai passar disso – novos vegetarianos com pouco ou nenhum conhecimento sobre os Direitos Animais – se não houver transmissão, comercial ou não, de conhecimento.

 

4. “O acesso a produtos veganos é o elemento-chave para a expansão do veganismo.”

Para parte dos direitistas do meio vegano, o consumo de produtos veganos vem a ser ainda mais relevante para a prática e difusão do veganismo do que a própria conscientização ética. Só que não é assim.

O acesso de uma população de veganos novos e veteranos a uma variedade de produtos que até pouco tempo atrás não existiam ou não eram veganos pode sim ajudar, facilitando a adesão e manutenção de pessoas nesse modo de vida. Mas isso está longe de significar que esse acesso seja o “elemento-chave”.

O elemento central da disseminação do veganismo é e sempre será a divulgação do conhecimento sobre Direitos Animais. É este que faz a verdadeira diferença entre um vegano e um não vegano.

Considerar o acesso a produtos o elemento central da difusão do veganismo é rebaixá-lo a um mero hábito de consumo, retirando dele a essência de luta pela libertação dos animais.

 

5. “Misturar veganismo com política de esquerda não tem bons resultados.”

Essa crença geralmente lança mão de um conceito estereotipado e distorcido de esquerda política – como uma ideologia uniforme que defende o PT, o “comunismo totalitário”, a “supressão das liberdades”, o “empobrecimento geral da população” etc.

Desconsidera que há toda uma diversidade de correntes na esquerda – tanto que é preferível referir-se às esquerdas ao invés de uma única esquerda. E entre as esquerdas, há incontáveis pautas que se aliam à bandeira dos Direitos Animais: feminismo, luta LGBT, luta contra o racismo, ambientalismo, direitos trabalhistas, descentralização da economia nas mãos dos trabalhadores, democracia direta etc.

Ao contrário do que parte dos veganos de direita acreditam, um veganismo que não se alia a essas lutas está fadado ao fracasso, pois tende a excluir a grande maioria da população – que é composta de classes sociais empobrecidas e minorias políticas diversas, justamente as categorias populacionais defendidas pelas esquerdas – e atropelar suas necessidades e histórias de vida.

Não é obrigatório ser ao mesmo tempo vegan e de esquerda, mas é necessário reconhecer que a forma como os veganos de esquerda defendem o veganismo e os Direitos Animais é essencial para o futuro sucesso da libertação animal.

 

6. “Os empreendedores veganos fazem muito mais pelo veganismo e pelos animais do que os que defendem misturar veganismo com esquerdismo.”

Este argumento se inspira nos cinco anteriores, superestimando a função e a importância do empreendedorismo vegano e utilizando um espantalho da(s) esquerda(s).

Além disso, é necessário ressaltar que o número de veganos assumidamente de esquerda é pequeno em comparação com a totalidade da população mundial – e também da brasileira. Eles fazem o que podem na difusão da ética vegana e na defesa dos animais, e não costumam se declarar “mais importantes” na divisão de tarefas e trabalhos do meio vegano do que quem funda e mantém empresas veganas.

É por isso que muitos acabam tendo a impressão de que os empreendedores são “mais importantes” do que os veganos de esquerda.

 

7. “O anticapitalismo não é compatível como o veganismo, como ficou comprovado em países como Cuba, Venezuela e Coreia do Norte.”

Os regimes de Cuba, Venezuela e Coreia do Norte são apenas três das muitas correntes anticapitalistas existentes no mundo. Há incontáveis outras maneiras, a maioria delas muito mais democráticas, de se defender a extinção do capitalismo e sua substituição por uma nova ordem socioeconômica.

Portanto, se Cuba, Venezuela e Coreia do Norte não são (tão) permissíveis à difusão local/nacional do modo de vida vegano e da ética abolicionista, isso é um problema que diz respeito aos casos específicos desses países, não a todas as correntes de esquerda.

É nesse universo de ideologias contrárias à ordem capitalista, aliás, que temos vertentes que podem ser consideradas bem mais vegan-friendly e afinadas com a Ética Animal do que o capitalismo liberal. Entre elas, estão o veganarquismo, o anarco-comunismo, o socialismo democrático e a socialdemocracia.

 

8. “O veganismo chegará para os pobres por meio do empreendedorismo dos micro e pequenos empresários.”

Se isso fosse verdade, estaríamos presenciando hoje um crescimento exponencial da população vegana na periferia. Afinal, há diversos restaurantes com opções veganas (incluindo o básico prato de feijão, arroz branco e salada com verduras e legumes) nas periferias das cidades brasileiras, além de pessoas que vendem alimentos vegetarianos artesanais a preços bastante baixos em muitas universidades brasileiras.

Mas esse desejado efeito cascata não está acontecendo. Ainda se fala muito pouco de veganismo, especismo e Direitos Animais em bairros pobres. A maioria da população de baixa renda tem pouco ou nenhum acesso à informação sobre a bandeira vegano-abolicionista.

Há muita gente nessas classes, aliás, que sofre privações tão pesadas que está simplesmente impedida de pensar em qualquer outra coisa que não a própria sobrevivência e o clamor a Deus por salvação.

Essas pessoas precisam de libertação das violências que sofrem para, enfim, poderem escolher o que consumir e não consumir, como construir um orçamento doméstico vegano, em que locais comprar, em que restaurantes comer etc. O capitalismo nunca lhes trará o veganismo – pelo contrário, tende a lhes dificultar o acesso econômico ao mercado vegano industrializado.

Além disso, como já foi dito duas outras vezes neste artigo, o empreendedorismo sozinho não divulga o veganismo, mas sim se aproveita de um público conscientizado já existente.

 

9. “O livre mercado será essencial para a massificação do veganismo.”

Os efeitos da desregulamentação do mercado tendem a ser muito mais nocivos do que os veganos de direita possam acreditar.

Caso essa distopia viesse a acontecer, veríamos, por exemplo, com muito mais frequência do que hoje:

  • Pequenas empresas veganas serem engolidas por grandes corporações que testam em animais ou se aproveitam da causa vegana exclusivamente para lucrar em cima dela;
  • O aumento da população pobre ou em situação de miséria e, portanto, excluída da maior parte do mercado vegano industrial;
  • As grandes corporações que mantêm aliança com a pecuária e o setor pesqueiro sabotarem a concorrência vegana;
  • Os próprios valores éticos do veganismo serem esmagados num mundo em que valores completamente amorais determinam quem será próspero e quem padecerá no fracasso;
  • Empresas autorrotuladas como “veganas” deixarem de sê-lo da noite para o dia, por motivos como aquisição por empresas não veganas, adoção de testes em animais ou lançamento de produtos não veganos;
  • Os animais que vivem na Natureza serem exterminados pelo desmatamento e pela poluição causada pelas demandas do mercado por recursos naturais e descarte de lixo e outros poluentes;
  • As indústrias “comprometidas com o bem-estar animal” na obtenção de suas matérias-primas conquistarem um público esmagadoramente maior do que as que investirem na responsabilidade socioambiental vegana.

Ou seja, não seria um cenário nada razoável para o crescimento do veganismo e o progresso da luta pelos Direitos Animais.

 

10. “Promover e propagar o consumo vegano já é o bastante para o futuro êxito da libertação animal.”

Tenho minhas dúvidas se alguém acredita nisso mesmo. Mas, considerando a quantidade de pessoas que se dizem “veganas” sem entender o suficiente sobre Direitos Animais, acredito que, no fundo, bastante pessoas têm essa crença. Além disso, é o que o discurso de muitas delas deixa a entender.

Esse argumento se inspira no quarto mito respondido por este artigo. E é bastante frágil, ao deixar subentendido que veganismo seria simplesmente uma atitude de consumo e de não compactuação individual com a exploração dos animais não humanos, e não um modo de vida bem mais complexo e completo.

Lembremo-nos que defender os Direitos Animais não é o mesmo que meramente não participar das engrenagens da exploração de animais “de consumo”. É muito mais do que isso: também envolve ativismo, transformação da tradição moral vigente, boicotes a atividades que não podem ser consideradas bens materiais de consumo, conscientização das pessoas…

Com isso, a promoção do consumo vegano como atitude isolada não é a mesma coisa que a disseminação do veganismo. E nossa missão não é promover um nicho de mercado, mas sim uma mudança radical na forma com que a sociedade trata os animais não humanos e os seres humanos – que também são seres sencientes – em geral.

 

Bônus: “Se a esquerda conquistar o poder, o crescimento do veganismo vai parar, já que o incentivo ao empreendedorismo vai acabar, a economia vai ser planificada e o Estado é que vai ditar o que deveremos ou não comer.”

Esse mito também é baseado no espantalho de que a esquerda seria um sistema de pensamento único autoritário, tirânico e ultraestatista.

São muitas as correntes de esquerda contrárias à supressão de liberdades individuais, à planificação da economia por um Estado centralizador e a imposição de um código alimentar estrito pelo mesmo. Entre elas, estão desde a moderada socialdemocracia até o anarquismo. São esparsas – e adotadas por relativamente também poucas pessoas – as correntes que defendem um Estado muito forte e contrário às liberdades das pessoas.

Ou seja, depende muito de que esquerda vai conquistar o poder – e mesmo se haverá algum poder central e governante a ser conquistado, e não simplesmente derrubado. Se a vitória for, por exemplo, do veganarquismo, não haverá nenhum Estado para impor uma dieta específica para as pessoas e uma planificação econômica nacional.

Ou, se for da socialdemocracia, as pessoas continuarão empreendendo – só que com mais responsabilidade socioambiental, empatia e respeito por seus funcionários e outros propósitos além da obtenção de lucro e remuneração – e com liberdade de escolher, dentro do amplo universo de alimentos vegetarianos, o que vão comer.

Siga-me aqui

Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
Siga-me aqui

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *