10 mitos acreditados por vegans não interseccionais sobre o próprio veganismo

Feminismo antiespecista, veganismo interseccional

“Contra a opressão patriarcal, animal (especista) e capitalista – Feminismo antiespecista”

O veganismo, muitas vezes, aparece para as pessoas envolto numa névoa de mitos e preconceitos.

O pior desse fato é que ele se aplica também a muitas pessoas que já são veganas – incluindo gente veterana com décadas de experiência nesse modo de vida.

Em outras palavras, muitos veganos têm algumas noções no mínimo duvidosas sobre o modo de vida ético que praticam e defendem.

E acredite, boa parte da confusão dessa parcela dos próprios veganos sobre a natureza ético-moral do veganismo advém da convicção político-ideológica deles.

Convido você a saber, por meio deste artigo, como determinadas visões de mundo podem acabar limitando o conhecimento de seus adeptos sobre o que o veganismo realmente é, defende e almeja.

Para exemplificar isso, trago aqui dez mitos internos do veganismo comumente acreditados por muitos veganos que se declaram de direita (parte deles assumidamente anti-interseccionais).

 

Respondendo aos dez mitos

Imagens veganas de direita

1. “O veganismo é apenas pelos animais, não se importa com os seres humanos.”

O veganismo realmente especifica como seu foco o combate à exploração dos animais não humanos, de modo que, por exemplo, boicotar empresas que maltratam seus funcionários não é considerado uma prática inerente à seletividade do consumo vegano. Mas nada em sua definição delimita que a ética vegana desconsidere o dever de se respeitar outros seres humanos.

Não é obrigatório aos veganos aderir às causas humanas. Mas os princípios éticos dos Direitos Animais (leia a resposta à questão nº 11 desse artigo) deixam claro que nunca deixou de ser errado promover preconceito, violência, injustiça e discriminação contra minorias políticas humanas.

Ou seja, um vegano desrespeita a ética vegano-animalista ao promover machismo, racismo, elitismo, gordofobia, intolerância religiosa, capacitismo, heterossexismo, transfobia e outros ódios. Afinal, está causando exclusão moral, violência e sofrimento a seres que também são sencientes, dotados do desejo de viver com liberdade e qualidade de vida.

Não é à toa que entidades como a brasileira Sociedade Vegana, em sua definição do veganismo, consideram a violência opressora contra seres humanos tão gravemente antiética quanto a exploração animal especista. Negar e desafiar isso depõe contra a coerência ético-moral do vegano.

 

2. “É eticamente válido passar por cima de seres humanos para defender o veganismo e os Direitos Animais.”

Aviso de conteúdo: Esta resposta menciona comportamentos racistas e antissemitas de alguns “veganos”.

Muito pelo contrário: passar por cima da integridade e das necessidades dos seres humanos é preparar a derrota e a capitulação do movimento vegano-abolicionista. É impraticável fazer o veganismo e os Direitos Animais darem certo sem considerar que ambos passam por fazer pessoas adeptas de hábitos especistas compreenderem plenamente o veganismo e a ética animal e aderirem a ambos por meio do diálogo conscientizador e transformador da moral vigente.

Qualquer tentativa de esmagar violentamente as demandas humanas resultará ou no fracasso da campanha de conscientização, ou no deslocamento da exploração animal para a clandestinidade – nunca para a sua extinção.

Isso é evidente quando se tenta, por exemplo, veganizar pessoas negras comparando seus antepassados escravizados com os animais “de consumo”, ou atrair judeus não veganos para o veganismo comparando o Holocausto nazista com fazendas industriais de porcos (o porco é considerado um animal “impuro” pela lei religiosa judaica, e comparar um judeu com um porco é tido pela maioria dos judeus como um insulto severo).

Nessas atitudes malogradas, os veganos sairão como racistas e/ou antissemitas e grande parte dos negros e judeus abordados nutrirão uma imensa antipatia pelo movimento vegano-animalista.

Algo parecido ocorre em relação à questão dos sacrifícios de animais no candomblé. Muitos veganos defendem o uso da lei e da repressão policial para proibir esse tipo de ritual.

Só que não percebem que isso tende não a aboli-lo e substituí-lo por cerimônias e crenças teológicas veganas, mas sim a fazê-lo ser realizado às escondidas, despertar o ódio dos candomblecistas ao veganismo e seus adeptos e deixar o meio vegano com a pecha de racista e intolerante-religioso.

 

3. “Veganismo não tem nada a ver com política.”

Essa crença geralmente possui um falso pressuposto: o de que política é algo que se faz apenas em partidos e nos Três Poderes. Nada mais equivocado, ainda mais num contexto de democracia, no qual a política acontece o tempo todo e em todo lugar.

O próprio veganismo é um exemplo de prática inerentemente política que não depende de partidos, governantes e parlamentares para existir. Passa por questionar, boicotar e enfrentar uma tradição moral, social e política específica para substituí-la por uma nova ordem, assim como as lutas políticas declaradamente progressistas.

Além disso, a crença de que o veganismo é apolítico é um grave reducionismo. Desconsidera que ele não é um simples hábito de consumo, nem um estilo de vida como alguns o definem, mas sim um conjunto de práticas e boicotes fundamentado por objetivos e reivindicações bem evidentes.

Lembre-se, aliás, que diversas das práticas vegano-abolicionistas são inspiradas em outras lutas sociopolíticas.

Para termos dois exemplos, o boicote a produtos não veganos e eventos especistas usufrui do legado dos boicotes promovidos pelo movimento negro nos Estados Unidos da época da segregação racial e pelos indianos liderados por Mahatma Gandhi na luta pela libertação da Índia da dominação britânica. E as ações diretas de libertação de animais em fazendas, matadouros e laboratórios tem influência das ações anarquistas contra indústrias e bancos capitalistas – tanto que muitos veganos de ações diretas também são anarcas.

O veganismo só deixa de ser uma prática política quando é reduzido a um estilo de vida consumista, desprovido do seu objetivo de libertar os animais da exploração e imbuído de razões individualistas (bem-estar, saúde, “boa forma”, prazer de pertencer a um grupo social “especial” etc.) ou puramente emocionais (pena de animais em sofrimento, ódio a quem os maltrata).

 

4. “Veganismo não é uma causa política, e sim um estilo de vida.”

A resposta ao mito anterior também serve a este. Além disso, o veganismo não pode ser considerado um estilo de vida, já que não implica um conjunto específico de gostos musicais, culinários (a culinária vegana é muito diversificada e compatível com as mais diferentes culturas e estilos de vida), turísticos, de lazer, espirituais, vestuários etc.

Não existe um “estilo de vida vegano” essencialmente distinto, por exemplo, do “topzera” de classe média, do evangélico, do punk, do new-age, do zen-budista etc.

O que acontece é que se confunde bastante o termo modo de vida, termo correto para definir o veganismo, com “estilo de vida”, embora ambos não sejam a mesma coisa.

 

5. “Minhas opiniões de direita não interferem em nada na minha defesa do veganismo e dos animais.”

A posição política do indivíduo vegano, ao contrário do que se costuma acreditar, influencia bastante a maneira como ele vivencia seu veganismo.

Por exemplo, um anarquista ou comunista tende a praticar o veganismo como uma maneira de enfrentar o sistema socioeconômico capitalista, a moral conservadora e o Estado favorecedor do empresariado. Afinal, ele tende a ser um vegano interseccional e, portanto, notar as relações entre o especismo, as diversas formas de exclusão moral humana e a dominação imposta pelo Estado e pelas grandes corporações.

Já um vegano neoliberal tende a valorizar mais o consumo de produtos veganos, encarar o empreendedorismo vegano como uma forma de contribuir para a libertação animal, acreditar que a expansão do mercado vegano é uma maneira de se aliar o veganismo com o capitalismo e assim tornar o mercado cruelty-free mais compensador e provedor de lucros do que o de produtos não veganos.

Além disso, existe a tendência de vegans de direita praticarem um veganismo de não agressão, que visa apenas o seu não envolvimento com o sistema econômico e cultural de exploração de animais não humanos. E a de vegans de esquerda de promoverem o veganismo de libertação, politicamente engajado, que almeja a erradicação do especismo por meio do enfrentamento direto dos interesses do empresariado da exploração animal.

Tanto é que a crença, já respondida, de que “veganismo e política não se misturam” é comum entre vegans de posição política conservadora, e bastante usada para rejeitarem o veganismo interseccional.

 

6. “Já tem muita gente defendendo causas humanas, nós vegans não precisamos aderir a elas também.”

Uma coisa é não ser obrigado a aderir a movimentos sociais humanos. Outra bem diferente é acreditar que eles “não precisam” de mais novos membros.

Esses movimentos têm uma enorme necessidade de novas adesões. Mais ainda numa época como a atual (ano de 2017), na qual a direita tem avançado e ameaçado seriamente os direitos que eles conquistaram desde o século 19.

Veganos, então, serão muito bem-vindos – pelo menos nos movimentos que possuem uma organização interna mais democrática e se abrem ao diálogo sobre os Direitos Animais.

Além disso, é bastante necessária a adesão da parcela socialmente combativa dos veganos às lutas dos trabalhadores, do movimento negro, do feminismo, do movimento LGBT, dos defensores da neurodiversidade, das minorias religiosas e irreligiosas etc.

Isso possibilitará que se estabeleça uma aliança permanente entre esses movimentos e a defesa dos Direitos Animais, e assegure-se que, no final das contas, ambos deem certo e o sonhado futuro melhor realmente não exclua ninguém de seus benefícios.

Ressalte-se, aliás, que esse mito é muito usado por veganos reacionários que querem proteger sua “liberdade” de proferir discursos preconceituosos, agir com grosseria e discriminar pessoas de determinadas categorias sociais.

Nesse contexto, fica evidente a falácia de argumento desconexo (conhecida também como non sequitur), já que a linha de raciocínio desse argumento é que “não sou obrigado a aderir a movimentos sociais de esquerda, portanto minha liberdade de ser preconceituoso e grosseiro deve ser respeitada” – a conclusão não tem nada a ver com a premissa.

De fato não existe a obrigação de integrar grupos sociopolíticos, mas nem isso, nem a adesão ao modo de vida vegano, anula os fatos de que continua existindo o dever ético de se respeitar outros seres humanos e que um vegano preconceituoso é tão antiético quanto um especista assumido.

 

7. “Não tem nada de errado em veganos misantropos.”

Pelo contrário, há tudo de errado.

Em primeiro lugar, os misantropos violam frontalmente a lógica dos Direitos Animais, que serve a todos os seres sencientes, não exclusivamente aos animais não humanos. A partir do momento em que eles declaram ódio à humanidade, estão discriminando e excluindo moralmente uma grande parcela dos seres sencientes e merecedores de direitos do planeta.

Em segundo, a misantropia é um perigoso veneno para a defesa animal. Afinal, rejeita dois dos princípios fundamentais da luta pela libertação animal: a educação vegana e a crença na capacidade do ser humano de ser ético e adquirir consciência de abandonar comportamentos prejudiciais.

E em terceiro, a existência de veganos misantropos é um fardo para a reputação do movimento vegano-abolicionista. É em parte por causa da atitude deles que muitos não veganos acreditam que vegans “gostam de animais porque odeiam humanos” e são “preconceituosos e intolerantes contra quem come carne”.

 

8. “Não há contradição em vegans que preferem bicho a gente.”

Existe uma forte contradição em alguém, ao mesmo tempo, ser vegan e preferir moralmente os animais não humanos aos seres humanos. Afinal, a pessoa não está promovendo a nivelação por cima da sua consideração moral ao seres sencientes, mas sim invertendo a desigualdade que, se antes prejudicava os animais não humanos, agora inferioriza os seres humanos.

Está, assim, violando a ética vegana, que defende a igualdade moral, o fim do preconceito por espécie e a promoção da cultura de paz no lugar das tradições coletivas e comportamentos individuais violentos.

 

9. “O capitalismo é aliado do veganismo.”

diversos problemas em se considerar o capitalismo aliado da expansão do veganismo e da luta pela libertação animal:

  • Ele promove valores morais diametralmente opostos ao ideal dos Direitos Animais, como o egoísmo, a priorização do lucro sobre a ética, a coisificação da vida, a hierarquização social e moral e a inferiorização dos animais que vivem nos ecossistemas naturais, vítimas de poluição, desmatamento e outros crimes ambientais;
  • O empreendedorismo vegano só se expande entre classes socioeconômicas onde esteja havendo uma tendência maior de lucrar com a demanda, excluindo bairros e classes com pouca difusão do veganismo, sob pena de o negócio não prosperar e assim acabar fechando as portas;
  • Portanto, o empreendedorismo vegano só funciona como meio de se difundir o modo de vida vegano em lugares onde já há um histórico considerável de ativismo vegano-abolicionista e disseminação da consciência animalista;
  • O capitalismo oferece ferramentas para grandes empresas que exploram animais driblarem as demandas dos consumidores por um mercado mais ético, como o marketing bem-estarista, a redução de preços de produtos não veganos e o estabelecimento de oligopólios e cartéis que esmagam a concorrência de pequenas e médias empresas veganas;
  • A desigualdade social causada pelo capitalismo sem regulação estatal desempodera financeiramente bilhões de pessoas, alheando-as assim das maior parte das ofertas do mercado vegano e inibindo-lhes a capacidade de criar microempreendimentos veganos.

 

10. “Não há nada de errado em vegans considerarem não veganos pessoas podres, cruéis e desprezíveis e defenderem que eles sofram pelo mal que causam aos animais.”

Muitos veganos se apegam a exemplos de ativistas “cansados de tanta crueldade especista”, como Gary Yourofsky, para legitimar a possibilidade de se ter ódio generalizado de pessoas que reproduzem a moral especista.

Só que essa atitude é uma afronta direta aos ideais da defesa do veganismo e dos Direitos Animais. Induz o vegano a tratar com preconceito e desrespeito quem, na maioria dos casos, simplesmente ainda não compreendeu a ética vegano-animalista. Leva-o a jogar no lixo os princípios éticos abolicionistas da não violência e da igualdade moral. Faz a pessoa, assim como os misantropos, rejeitar a educação vegana.

Os não veganos não devem ser odiados e ter seu mal desejado, mas sim educados, conscientizados. Ódio nenhum vai fazê-los aprender sobre os Direitos Animais e parar de compactuar com a exploração animal.

Pelo contrário, o ódio a quem não entendeu a ética vegana só vai afastar essas pessoas do interesse de conhecer o veganismo. E tende, até mesmo, a lhes provocar uma intolerância aos veganos, por causa do eventual maltrato sofrido por aqueles que os odeiam por não serem veganos.

 

Bônus: “Não preciso ler teorias para ser um bom vegano. Basta eu ter compaixão, misericórdia e amor pelos animais.”

Esse mito não é tão comum de ser verbalmente usado, mas está guardado no senso comum de muita gente que, apesar de se declarar vegana, pouco sabe sobre os fundamentos ético-filosóficos e políticos do veganismo.

Não é bem obrigatório ler os livros, por exemplo, de Gary Francione e outros teóricos dos Direitos Animais para ser um bom vegano. Mas é necessário ter o mínimo de curiosidade para ler sobre:

  • Por que considerar o veganismo;
  • O que são conceitos como Direitos Animais, especismo, sujeito de direito, senciência e alteridade;
  • Quais são os direitos defendidos para os animais não humanos;
  • Quais as semelhanças e os elos de ligação entre os Direitos Animais e os Direitos Humanos;
  • Que princípios éticos o veganismo defende;
  • Quais os impactos ambientais e sócio-humanitários da exploração animal;
  • Como responder aos antiveganos que tentarem pôr em xeque sua convicção vegana;
  • Entre outras questões.

Uma vez que o acesso a livros sobre o assunto é bastante difícil no Brasil atualmente e grande parte da população não tem o hábito de ler livros e textos grandes, existe a opção de se ler sobre veganismo e Direitos Animais nos sites e blogs especializados nesses temas.

Essa leitura, ou o ato de assistir a vídeos e/ou ouvir podcasts veganos, é essencial para a convicção ético-moral vegana se tornar sólida, madura e indestrutível e as pessoas também terem o fervor necessário para promover formas individuais ou coletivas de ativismo pelos Direitos Animais.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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4 Comments on “10 mitos acreditados por vegans não interseccionais sobre o próprio veganismo

  1. Comentário grosseiro e desrespeitoso apagado. Se discorda do artigo, exponha sua discordância sem insultar. RFS

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