10 motivos para você, se já é vegan, conhecer e considerar o veganismo interseccional

Liberte TODOS os seres sencientes

Você já ouviu falar no veganismo interseccional (também conhecido pela sigla VI)?

Amado por uns e odiado por outros, ele veio para ficar, e para incitar muitos debates.

Aliás, posso dizer com segurança, falar dele é fundamental para assegurar o sucesso da luta pelos Direitos Animais.

Por esse motivo, defendo que é supernecessário você conhecê-lo devidamente, livrando-se dos preconceitos sobre a intersecção entre a causa animal e as humanas, e que há pelo menos dez razões para você considerar apoiá-lo ou aderir diretamente a suas bandeiras, ou pelo menos respeitá-lo quando ele for defendido.

 

As dez razões: cada uma delas é um gol a favor da libertação animal

Ego vs. Eco

Afinal, libertar os animais não é colocar os não humanos acima de muitos humanos, mas sim igualar verdadeiramente por cima a todos

Ao contrário do que afirma quem tem preconceito contra o VI, na defesa e na prática dele todos saem ganhando:

  • Os animais não humanos;
  • Os seres humanos: minorias políticas, trabalhadores libertos do labor escravo ou semiescravo, pessoas salvas de problemas de saúde presentes ou futuros, os próprios veganos;
  • O meio ambiente.

Saiba como e por que todos serão beneficiados, conhecendo as dez razões para você conhecer e abraçar essa versão mais amadurecida da luta vegana pelos Direitos Animais:

 

1. Você terá mais consciência de que ética e respeito são para todas as pessoas, humanas e não humanas, e menosprezar os Direitos Humanos é fazer pouco caso também dos Direitos Animais

Compreendendo o VI, você entenderá que os Direitos Animais e os Direitos Humanos possuem os mesmos fundamentos, as mesmas razões de existir. Que ambos vêm com o objetivo de eliminar violências, privações, regimes de dominação e submissão, injustiças e discriminações morais.

Perceberá que a ética é para todos os seres sencientes, sejam animais não humanos ou seres humanos. Que vale para ambos os sentidos a máxima de que não devemos excluir nenhuma categoria de sujeitos morais do nosso conjunto de seres a terem seus direitos reconhecidos e respeitados.

Saberá também por que os veganos interseccionais dão o mesmo sangue, suor e lágrimas para os animais não humanos e os seres humanos e realçam que consentir ou promover machismo, racismo, heterossexismo, transfobia, elitismo, capacitismo, gordofobia, xenofobia, intolerância religiosa etc. é tão cruel quanto perpetuar o especismo.

 

2. Você estará sendo vegan realmente por motivos éticos, sem pecar pela seletividade e fragilidade de sua convicção

Você provavelmente se declara vegan por motivos como ética, consideração moral expandida, empatia e desejo do fim da violência contra seres vulneráveis. Por meio dos ensinamentos do VI, perceberá que esses motivos simplesmente deixam de fazer sentido quando a pessoa se diz vegana mas é indiferente ou mesmo favorável a atos de violação dos Direitos Humanos.

Ao compreender essa contradição moral, você de fato estará entendendo também que ética é ética, e violação de direitos é violação de direitos. Isso certamente irá reforçar suas posições filosóficas vegano-abolicionistas com uma armadura de aço blindada.

Afinal, você realmente está defendendo a lógica ética dos Direitos Animais. E saberá que estes, ao contrário dos especistas e dos “veganos” anti-humanistas, não aceitam excluir alguns sujeitos morais em benefício de outros.

 

3. Você evitará ser tão seletivo em termos de consideração moral quanto quem reproduz ou promove o especismo. E essa não seletividade fortalecerá sua bandeira vegana

Como vegano interseccional, gosto de ressaltar que “veganos” que assumem posições anti-humanistas cometem o erro de serem tão seletivos em sua consideração moral quanto os especistas que eles tanto repudiam.

Por promoverem uma delimitação seletiva de quais seres serão respeitados e quais serão excluídos, acabam, em parte, legitimando a própria lógica especista que dizem combater. Afinal, infligem ou consentem que terceiros inflijam a muitos seres humanos violências (físicas, psicológicas, simbólicas etc.) parecidas com as que os antiveganos, pecuaristas, pescadores, donos de zoológicos etc. promovem ou defendem contra animais não humanos.

Portanto, sua aderência à ética vegana antiespecista perde a razão de ser. Restam-lhes apenas motivos como pena emocional de animais em sofrimento, gosto por um “estilo de vida” vegano, desejo de autoelevação individual e o sentimento agradável de pertença a um grupo “especial” que são os veganos.

Com isso, por meio do VI você poderá solidificar, fortalecer, blindar sua convicção ética vegano-animalista. Compreenderá plenamente os pilares éticos dos Direitos Animais. E assim terá total consciência dos porquês de se lutar pela abolição do especismo e pela libertação dos animais – não humanos e humanos.

 

4. Você terá compaixão e empatia igualmente, niveladas por cima, pelos animais não humanos e pelos seres humanos, tal como a ética animal prega em sua essência, e poderá se engajar na libertação de ambas as categorias

Desde seu conceito, o veganismo e os Direitos Animais são muito claros ao defender a igualdade moral, nivelada por cima, de animais não humanos e seres humanos. Isso implica ter compaixão e empatia iguais entre os seres de ambas as categorias, além de desejar que ambos desfrutem de direitos e liberdades fundamentais.

Por meio do VI, irá ficar muito evidente para você que as consequências da desigualdade moral entre ambos, nos dois sentidos, são terrivelmente destrutivas e dolorosas. Perceberá (por) que tanto o especismo quanto o apoio ou indiferença ao sofrimento humano são igualmente inaceitáveis.

Assim, você irá desenvolver uma empatia e uma compaixão realmente inclusivas. Seu círculo moral será verdadeiramente expandido, ao invés de apenas deslocar suas fronteiras ao estilo de um cobertor curto que não pode cobrir a cabeça e os pés ao mesmo tempo.

E assim poderá se engajar tanto na causa animal quanto nas lutas pelos Direitos Humanos – ou, pelo menos, compreender a importância destas últimas e respeitar sinceramente quem as promove -, ajudando assim a construir um mundo realmente livre de sofrimento e privação de liberdades.

 

5. Você terá consciência de que o especismo é íntima e inseparavelmente ligado às diversas formas de dominação e exclusão moral de seres humanos

Muitas pessoas negam, mas não conseguem refutar uma verdade sobre o especismo: ele anda de mãos dadas com as mais diversas formas de exclusão moral e social humana – machismo, racismo, elitismo, antissemitismo, homofobia, xenofobia etc.

Como exemplos dessas ligações, contam fatos como esses:

  • A comparação com animais não humanos é costumeiramente usada, há séculos, como maneira de se depreciar e discriminar mulheres, pessoas negras, povos estrangeiros, povos indígenas, judeus, homossexuais, pessoas de castas ou classes sociais “inferiores” etc.;
  • Comerciais e “piadas” comparam mulheres a pedaços de carne, tratando-as como objetos sexuais a serem “consumidos” pelos homens heterossexuais;
  • A alimentação vegetariana é depreciada de maneira homofóbica por muitos antiveganos;
  • O consumo de carne vermelha e a dominação violenta imposta a animais “de consumo” são associados à masculinidade heterossexual;
  • Muitas mulheres costumam ser obrigadas por seus maridos a cozinhar carne para eles, que valorizam o consumo desse produto a partir de seus valores morais machistas, sob pena de serem agredidas;
  • A indústria alimentícia fornece alimentos de origem animal repletos de químicos sintéticos nocivos à saúde para pessoas pobres, aproveitando-se da dificuldade delas de optar por uma alimentação mais saudável;
  • Pessoas em situação sobrevivencialista – ou seja, que têm como maior preocupação sobreviver um dia após o outro resistindo à miséria e a toda sorte de violências e privações sociais – acabam “obrigadas” a consumir alimentos de péssimo valor nutricional, como carnes processadas, laticínios industrializados e ovos potencialmente contaminados, para não passarem fome;
  • Os pecuaristas elegem ou corrompem políticos para que estes sempre beneficiem os latifúndios, ainda que prejudicando severamente os trabalhadores rurais e urbanos, desprotegendo o meio ambiente e diminuindo direitos;
  • Pecuaristas, caçadores, empresários da pesca, organizadores de rodeios e vaquejadas etc. costumam ser capitalistas e conservadores convictos e concordar com a negação de direitos também aos seres humanos;
  • A lógica anti-igualitária e pró-egoísmo da direita contemporânea leva-a a defender também a perpetuação da desigualdade moral entre animais não humanos e seres humanos, legitimando assim os interesses dos exploradores de animais;
  • Trabalhadores, povos indígenas, quilombolas, ambientalistas, consumidores pobres e outras categorias humanas são fortemente violentados pela pecuária e pela indústria de alimentos de origem animal, por meios que vão desde o genocídio e o trabalho semiescravo até a má alimentação compulsória;
  • As difamações dirigidas ao veganismo como um modo de vida “inacessível” e “hostil” às classes populares atendem diretamente aos interesses dos produtores de alimentos de origem animal, que assim preservam o seu público;
  • Pessoas pobres alheadas do conhecimento e do acesso ao veganismo permanecem atadas ao consumo de produtos animais, o que dá ânimo para os conservadores interessados na exploração animal defenderem a perpetuação da exclusão social;
  • A desvalorização moral do que está fora da espécie humana, incluindo os animais não humanos e também os ecossistemas, abre as portas para pecuaristas e pescadores devastarem o meio ambiente e assim degradarem as condições de vida de diversas categorias de seres humanos.

O VI tem convicção de que, se as desigualdades sociais e os interesses conservadores não forem devidamente enfrentados por meio das lutas humanas – e da solidariedade mútua entre os movimentos sociais humanos e os da causa animal -, haverá pouca ou mesmo nenhuma condição de se retirar o poder político, econômico e cultural da exploração animal e do especismo.

Também sabe que os efeitos de uma luta puramente animalista, que despreza as necessidades e particularidades das diversas categorias de seres humanos e o contexto social, político e econômico no qual a exploração animal se insere, serão extremamente restritos, localizados e inócuos a longo prazo.

Em outras palavras, sem o devido respeito e solidariedade à luta pela libertação humana, não há chances de acontecer a tão sonhada libertação animal, por mais que os “veganos” anti-humanistas tentem promover esta última ignorando os problemas humanos.

 

6. Provavelmente você terá um interesse maior de ler e ouvir sobre os Direitos Animais, os Direitos Humanos e os movimentos sociais e suas lutas

Ao se interessar sobre o VI, é provável que você vá adquirir também – em especial se for estudante de algum curso universitário de Ciências Humanas ou Filosofia – a curiosidade intelectual de ler sobre os seus fundamentos históricos, sociológicos e políticos.

Em outras palavras, poderá se animar para estudar a base teórica dos Direitos Humanos, a teoria da interseccionalidade dos movimentos sociais, a história das lutas sociais – de classe, raciais, feministas, LGBTs, ambientalistas etc. – e outros temas.

Por tabela, esse ânimo poderá se estender ao estudo dos Direitos Animais e dos movimentos animalistas, já que você terá mais consciência de que é preciso conhecer os fundamentos políticos e ético-filosóficos daquilo que defende.

 

7. Você compreenderá melhor a necessidade de se promover o veganismo nas periferias pobres e, assim, tornar reais as chances de êxito do veganismo e da defesa dos Direitos Animais

Uma das maiores bandeiras do VI é a propagação do veganismo e de sua filosofia ética nas periferias, por meio da conscientização boca-a-boca e do diálogo com os movimentos sociais das classes pobres e trabalhadoras.

Ele nos ensina que, sem ações – seja conversas de indivíduo para indivíduo, seja eventos envolvendo centenas ou milhares de pessoas – nesses bairros e comunidades, o modo de vida vegano e a consciência abolicionista jamais prevalecerão na sociedade como um todo, e a agroindústria da exploração animal continuará tendo uma ampla demanda.

Afinal, não existem apenas classes médias e altas. A maioria da população humana do planeta está nas classes pobres e média-baixa, “no aguardo” de que os grupos vegano-animalistas atuem junto a ela.

Da mesma maneira, faz-se necessário à parcela interseccional do movimento vegano-abolicionista ajudar aquelas pessoas que se interessaram no veganismo, mas têm como obstáculos à adesão uma ou mais privações sociais e o sofrimento de violências no cotidiano. Por exemplo, apoiar mulheres que querem sair de relacionamentos abusivos, criar cooperativas de economia solidária para empregar moradores de rua, fundar espaços anarquistas a serem habitados por pessoas que moravam em barracos etc.

 

8. Você terá a consciência dos porquês de a libertação animal não ser possível num mundo em que a sociedade é dominada por tradições socioeconômicas e morais desigualitárias

O VI deixa evidente também que tentar conciliar a libertação animal com um sistema moral e socioeconômico profundamente avesso à liberdade e à igualdade tende a resultar em fracasso – e na perda da essência ética e política da luta animalista.

Afinal, as tentativas nesse sentido não levam em conta questões como:

  • A dificuldade de muitas pessoas das classes pobres aderirem ao consumo vegano, maior do que as da classe média num contexto de mercado vegetariano e vegano gourmetizado e geograficamente excludente;
  • A tendência de muitos empreendedores “veganos” colocarem o lucro acima da defesa dos Direitos Animais e da expansão do veganismo no ranking de prioridades de suas empresas;
  • O fato de que a maioria daquelas pessoas que vivem na miséria não consegue ter disposição nem tempo para pensar nos Direitos Animais e na ética vegana, já que sua sobrevivência está em primeiro lugar;
  • O desencorajamento a pessoas de minorias políticas de conhecerem e considerarem o veganismo, por “veganos” reacionários e multipreconceituosos;
  • A não identificação da grande maioria da população com o perfil de “veganismo” que hoje tem mais visibilidade: branco, de classe média, economicamente liberal, universitário, individualista, consumista, gourmetizado, concentrado nos centros e bairros endinheirados das cidades, insensível às necessidades sociais da maioria dos seres humanos, tolerante ao preconceito e à desonestidade etc.;
  • O fato de que a indústria de alimentos de origem animal e a pecuária se aproveitam da vulnerabilidade socioeconômica de muitas pessoas para as empregarem em trabalhos degradantes.

O que resulta delas é um veganismo despolitizado, economicamente restrito, incapaz de conquistar toda a população, permissivo a violações dos princípios éticos dos Direitos Animais. Por tabela, o fracasso do objetivo da abolição do especismo.

 

9. Você compreenderá a essência ética e política do veganismo e dos Direitos Animais

Um dos fundamentos do VI é o realce da natureza ética e política da defesa dos Direitos Animais e do veganismo. A interseccionalidade não aceita que este último seja rebaixado a um mero “estilo de vida” individualista e um nicho de mercado desconectado do combate ao especismo.

Além disso, ao reconhecer a essência política dos DA, o VI ressalta também as semelhanças e os pontos de contato entre a defesa da libertação animal e as lutas sociais humanas. E deixa claro que apenas a difusão do consumo vegano não é suficiente para abolir a exploração animal – as diversas formas existentes de ativismo antiespecista, como as ações diretas, os protestos de rua e a produção de documentários e livros focados na ética animal, são indispensáveis para a vitória final do movimento.

Quando você compreende plenamente o VI, passa a ter uma noção mais apurada disso. E a tendência de você continuar sendo vegan apenas pelo consumo passivo dá lugar a um desejo mais forte de lutar pelos animais também por outros meios.

 

10. Sua defesa dos animais não humanos e dos seres humanos terá muito mais chance de dar certo

O VI é claro: não existe libertação animal sem libertação humana, nem libertação humana sem libertação animal. Nem a defesa dos Direitos Animais dará certo se continuar indiferente ou oposta às necessidades dos seres humanos, nem as lutas sociais humanas triunfarão sem cortar pela raiz o sistema moral desigualitário que sustenta o especismo e ao mesmo tempo perpetua as discriminações e exclusões contra minorias políticas humanas.

Nesse contexto, quando a defesa do veganismo e dos DA:

  • promove inclusão social e acessibilidade econômica;
  • entende as particularidades de cada minoria política e suas maneiras e dificuldades específicas de considerar e vivenciar o veganismo;
  • se preocupa em combater as diversas formas de preconceito e exclusão dentro do meio vegano;
  • se ocupa em cortar as raízes do sistema moral que, ao mesmo tempo que perpetua o especismo, sustenta também o racismo, o machismo, o heterossexismo, o elitismo, a xenofobia, o capacitismo etc.;
  • conversa respeitosamente com os movimentos sociais abertos ao diálogo interseccional e a novas alianças;
  • se preocupa em construir um futuro melhor para todos os seres sencientes, indistintos de serem ou não serem humanos,

então tem infinitamente mais chances de triunfar na luta contra o especismo do que um vegano-animalismo que negligencia esses cuidados.

 

Considerações finais

Libertação animal humana e não humana

Quando você compreende o veganismo interseccional e o que ele realmente defende, passa a entender e assimilar muito melhor os fundamentos filosóficos dos próprios Direitos Animais.

Começa a saber convictamente por que não se pode reduzir o veganismo a um “estilo de vida”, ou um hábito de consumo, ou uma oportunidade de negócio. E também por que não é correto propagar preconceitos e violências que agridem seres sencientes humanos e lhes retiram o interesse de conhecer melhor o modo de vida vegano.

Então, convido você a ler mais sobre o VI, a partir de quem realmente o vive e o defende. Quero ajudar você a se livrar dos preconceitos conservadores sobre esse tema e, por tabela, das crenças equivocadas também sobre a natureza do veganismo e do abolicionismo animal.

Venha conhecer o VI. Os animais não humanos e também os seres sencientes humanos agradecerão de coração. E você estará ajudando, mais do que nunca, a tornar este mundo um lugar melhor, muito menos carregado de violência, injustiça e sofrimento.

Robson Fernando de Souza
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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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