13 argumentos pró-veganos de qualidade duvidosa que você precisa repensar e evitar

Um livro ilustrado de maus argumentos

Bem que poderia haver um livro assim para listar argumentos pró-veganos que devessem ser evitados

A defesa do veganismo possui incontáveis bons argumentos. Estima-se que entre as dezenas e as centenas.

Porém, nem todo argumento pró-vegano é bem fundamentado. Há aqueles que carecem de validade científica, ou são falaciosos, ou utilizam uma definição distorcida do veganismo.

Esses são uma minoria em comparação com aqueles que são válidos e fortes, mas infelizmente são bastante usados.

E provavelmente você utiliza alguns deles para defender uma vida livre de exploração animal, sem perceber o quanto têm um embasamento fraco.

Descubra aqui quais são esses argumentos fracos. Saiba também o porquê de você precisar repensá-los e, de agora em diante, evitá-los e substituí-los por melhores maneiras de defender verbalmente o modo de vida vegano.

 

Os treze argumentos

Gary Yourofsky e o ser humano herbívoro

Um dos 13 argumentos de baixa qualidade listados neste artigo é o argumento do “ser humano biologicamente herbívoro”

1. “Eu sou vegan porque amo os animais.”

Filosoficamente falando, a ética dos Direitos Animais não defende propriamente o amor aos animais não humanos, pelo menos no sentido de afeto e carinho.

Na verdade ele defende que se tenha respeito por eles, o que passa por reconhecer que eles possuem direitos fundamentais e, sempre que possível, evitar violá-los.

O único sentido de “amor” em que isso pode ser encaixado é o “amor ao próximo” bíblico, que consiste basicamente em respeitar as outras pessoas, querer o bem delas e aceitar as diferenças entre você e elas.

Da mesma maneira, não faz sentido acreditar que você precisa amar, por exemplo, cada um dos habitantes da cidade vizinha à sua para ter a certeza de que os direitos deles devem ser assegurados e respeitados.

 

2. “Se você ama uns, por que come outros?”

Reitere-se a resposta ao argumento anterior: não é necessário amar alguém para lhe respeitar os direitos.

Além disso, nem sempre um especista tem sentimentos afetivos, por exemplo, por cães, gatos e animais selvagens bonitos. Ele pode admirar a beleza deles, achar fofos seus filhotes, gostar do carinho que muitos cães e gatos lhes dedicam. E nem sempre essa contemplação caracteriza uma relação de afeto.

Outro indício da fragilidade desse argumento é que, em muitos casos, a relação entre o indivíduo humano especista e o animal doméstico tutelado por ele não é de amor, mas sim puramente utilitária. Nesse contexto, o que para muitos parece à primeira vista um amor verdadeiro nada mais é do que uma relação de mando e obediência mais funções como a guarda da casa contra invasores.

Então, é relevante a probabilidade de algum especista responder à sua pergunta dizendo que não ama nenhum animal e, portanto, não vê problema em comê-los.

 

3. “Sou vegan por compaixão aos seres vivos.”

A compaixão é uma das justificativas que leva muitas pessoas ao veganismo, mas ela não se estende a todos os seres vivos. A ética vegana abrange moralmente os seres sencientes, que podem sentir dor e sofrer as consequências de ações morais humanas.

Ou seja, plantas, fungos e seres unicelulares são seres vivos, mas não estão incluídos na compaixão vegana, por não serem sencientes. Por isso, não podem ser individualmente agredidos por ações morais violentas. Portanto, o veganismo não é compassivo com “os seres vivos”, mas sim inclui a compaixão especificamente pelos seres sencientes.

 

4. “Veganismo é uma relação de amor, compaixão e misericórdia com os animais.”

Essa frase possui dois problemas.

Primeiro, trata o veganismo como algo puramente emocional e, muitas vezes, uma mera reação compadecida ao sofrimento dos animais e revoltada à agressão contra eles. Não é por aí, porque existe toda uma fundamentação racional filosófica e também política no modo de vida vegano.

As pessoas não podem ser veganas por pura emoção, mas sim tendo a consciência de questões como o especismo, a necessidade de se defender racionalmente os Direitos Animais e a atribuição e reconhecimento de direitos aos animais não humanos.

E segundo, amor e misericórdia não são partes integrantes da consciência vegana. O lado emocional do veganismo é baseado em compaixão, empatia e alteridade.

A pessoa pode até ser amorosa e misericordiosa para com animais não humanos. Mas isso não é em função de seu veganismo, mas sim de seu afeto pessoal pelos animais – e veganismo não abrange afeto.

 

5. “Os animais são meus amigos, e eu não como meus amigos.”

Se você é amigo dos animais não humanos, que bom. Mas o veganismo não tem como pilar de sua ética a relação de amizade entre os seres humanos e os demais animais.

Você não precisa ser propriamente um amigo daquele indivíduo para reconhecer e respeitar os direitos dele – tal como, conforme já mencionei, você não precisa amá-lo afetivamente.

Afinal, não é necessário você ser um amigo do peito, por exemplo, de cada habitante do Equador para ter a consciência de que os equatorianos possuem direitos como a vida, a segurança, a liberdade de ir e vir, a dignidade e a qualidade de vida.

 

6. “Tomar leite é errado porque o leite é dos bezerros.”

O fato de o leite bovino dever ser exclusivamente dos bezerros é um dentre diversos motivos pelos quais não faz sentido seres humanos consumirem esse líquido. Mas não devemos tomar isso como a grande razão para não o consumir.

O motivo maior que torna errado o consumo de leite e demais laticínios é a exploração animal – o que inclui o uso da vaca como uma “máquina” de produzir leite, o sequestro e assassinato dos seus filhotes bezerros, o seu aprisionamento e seu abate no final da “vida útil”.

Precisamos sempre colocar as razões éticas em primeiro lugar ao defender os Direitos Animais e o veganismo. E convenhamos que o leite da vaca ser dos bezerros não é lá uma grande razão ética a ser embandeirada no lugar do não uso de animais para nossos interesses.

 

7. “O ser humano é biologicamente herbívoro (ou frugívoro).”

Esse argumento tem dois grandes problemas.

Primeiro, não é um argumento em defesa da ética. Deixa a entender que nós devemos ser vegans porque “não podemos” absorver bem os nutrientes da carne, do leite e dos ovos, e não porque é eticamente errado explorar animais para fins humanos como o consumo.

E segundo, tem bases científicas frágeis – se é que tem alguma fundamentação tentativamente científica. Desconsidera a capacidade do corpo humano de digerir um ou mais alimentos de origem animal consumidos com moderação, e não se sustenta por nenhuma grande epidemia de intolerância alimentar ao longo da História humana por causa do consumo desses produtos.

Mais respostas ao chamado “argumento biológico” podem ser lidas nesse artigo do Veganagente e assistidas nesse vídeo do biólogo Pirula.

 

8. “O veganismo torna as pessoas mais sexies e melhores de cama.”

Esse argumento, utilizado por entidades não abolicionistas como a PETA, apela para o individualismo na tentativa de trazer onívoros para o vegetarianismo. Ele peca por:

  • Tirar os animais do foco da defesa do veganismo;
  • Presumir que é possível ser vegan por motivos individualistas;
  • Defender um padrão de beleza de corpo magro e sarado, discriminando pessoas gordas e com sobrepeso;
  • Partir do falso pressuposto de que a alimentação vegetariana sempre possui uma quantidade moderada ou pequena de calorias, ignorando vegans que consomem muitos carboidratos e/ou frituras;
  • Usar um argumento “científico” – o de que vegans são “melhores de cama” – sem o devido embasamento em estudos sérios;
  • Ignorar fatores não alimentares que diminuem a libido do indivíduo, como sofrer de estresse e/ou depressão;
  • Abaixar o nível do debate sobre veganismo, ao apelar para o sexo.

 

9. “Alimentos que podem conter traços de produtos animais não são veganos, porque trazem marcas e vestígios de sofrimento animal.”

O veganismo, ao defender o boicote a determinados produtos, não tem a preocupação com a presença de “marcas”, “vestígios” ou “símbolos” de exploração animal neles, mas sim com parâmetros bem objetivos: se há algum ingrediente de origem animal presente e se seu fabricante realiza ou patrocina testes em animais ou outra forma de exploração animal.

Nesse contexto, quando um produto diz no rótulo que, por exemplo, “pode conter traços de leite”, isso significa que o processo de produção dele utilizou máquinas que costumam ser utilizadas para fazer produtos que realmente possuem leite entre os ingredientes. Não é utilizado leite na fabricação daquele produto vegano/vegetariano.

Para evitarem reações nocivas em pessoas com alergia à proteína do leite, os fabricantes são obrigados por norma sanitária a especificar no rótulo que o produto “pode conter traços” de um ou mais determinados alimentos.

O indivíduo vegano pode optar, por escolha pessoal, por evitar alimentos que podem conter traços de origem animal, mas isso de maneira nenhuma implica que esses produtos não são veganos/vegetarianos, já que traço não é ingrediente.

 

10. “Brócolis, couve-flor, cogumelos, tomate e espinafre são fontes de proteína excelentes, melhores do que a carne.”

Esse argumento é baseado em algumas imagens que circulam há alguns anos. Só que esses alimentos não são ricos em proteína, porque a aparente grande quantidade desse nutriente na verdade se deve a uma contagem inadequada dele – em número de calorias proteicas por cada 100 calorias do alimento. O certo é contar o peso em gramas da carga proteica por 100 gramas do alimento.

O espinafre, por exemplo, é apontado como se contivesse “49% de proteína”. Só que esses 49% significam que, de cada 100 calorias dessa folha, 49 delas são da proteína. E o peso de 100 calorias de espinafre são absurdos 621 gramas – você precisaria comer isso tudo para obter 49 calorias (12 gramas) de proteína.

Se contarmos a carga de proteína do espinafre da maneira certa, descobriremos que 100g dessa folha possuem apenas dois ínfimos gramas desse nutriente, algo bastante insuficiente para as necessidades corporais.

Portanto, se você quer descobrir boas fontes de proteína, opte pelas leguminosas, e sempre verifique a carga proteica em gramas de proteína por 100g do alimento.

 

11. “Vegans não precisam suplementar B12. Esse negócio de suplementar com comprimido é balela da indústria farmacêutica.”

Suplementação de vitamina B12 é coisa séria. Atribuí-la a uma conspiração da indústria farmacêutica, sem ter como provar isso confiavelmente, é incorrer numa argumentação irresponsável que pode colocar em risco a saúde das pessoas.

Para a pessoa poder viver sem o suplemento de B12, seria preciso ela ingerir alimentos sujos, contendo bactérias produtoras dessa vitamina – e esses alimentos ainda precisariam de algum tratamento especial para não ficarem contaminados com micro-organismos nocivos.

Métodos alternativos de ingestão de B12, como o uso de alimentos fortificados, grãos de kefir e vegetais orgânicos sujos, hoje são de difícil acesso. Portanto, a maioria das pessoas não deve negligenciar a necessidade de ingerir comprimidos ou tomar injeções com a vitamina.

 

12. “O ser humano é vegetariano/vegano por natureza desde nascença. Experimente colocar um bebê do lado de uma maçã e de um coelho, ele brincará com o coelho e comerá a maçã, ao contrário de um animal carnívoro.”

Esse argumento é parte da linha de raciocinio do ex-ativista Gary Yourofsky em defesa do já mencionado e respondido “argumento biológico”. Só que ele não menciona em momento nenhum fontes de estudos científicos que atestem que crianças pequenas são instintivamente incapazes de morder animais ou tentar engolir insetos.

Ele cai na falácia de apelo à ignorância, ao deixar a entender que ele nunca viu um bebê tentar devorar um coelho, logo bebês humanos seriam incapazes de ter esse comportamento.

 

13. “Vegano bom é vegano que se alimenta só de produtos naturais, orgânicos e saudáveis.”

Não há absolutamente nada na ética vegana que obrigue ou recomende enfaticamente que os veganos consumam apenas alimentos supersaudáveis. A preocupação dela é simplesmente que os seres humanos evitem explorar animais, independente de comerem salada orgânica ou batata frita no jantar.

Além disso, essa tentativa de regrar o consumo vegano, a partir da qualidade nutricional do que os veganos ingerem, tende a desencorajar pessoas não veganas a considerarem aderir a esse modo de vida, e mesmo desincentivar que veganos novatos permaneçam veganos, já que supostamente estariam submetidos a um estrito código de regras alimentares que na verdade não existe.

 

Bônus: “Veganismo é só pelos animais não humanos.”

O conceito de veganismo é de fato focado na adesão à luta contra a exploração dos animais não humanos. Mas em nenhum momento exclui ou torna optativo o respeito ético aos outros seres humanos.

Uma pessoa, ao se tornar vegana, assume o compromisso de respeitar os animais não humanos e ajudar a abolir o especismo do mundo. Mas isso de maneira nenhuma lhe dá carta branca para descumprir a obrigação ética de evitar tratar outros humanos de maneira injusta e preconceituosa, mesmo que ela não esteja no foco das práticas específicas do modo de vida vegano.

Além disso, é muito necessário que a pessoa tenha sensibilidade social e noção da intersecção do especismo com outras formas de preconceito e violência, para que sua luta pela libertação animal dê certo. Afinal, o mundo nunca se tornará vegano se a maioria pobre for excluída dessa veganização e os interesses econômicos e políticos dos exploradores de animais não forem devidamente enfrentados e vencidos.

Robson Fernando de Souza
Siga-me aqui

Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
Robson Fernando de Souza
Siga-me aqui

18 Comments on “13 argumentos pró-veganos de qualidade duvidosa que você precisa repensar e evitar

  1. Ótimo artigo, confesso que sempre pensei isso mas não dessa forma organizada. Sim, precisamos fortalecer e não enfraquecer nossos argumentos.

    • Valeu, Sofia =) É justamente com esse propósito, o de ajudar a amadurecer a defesa do veganismo e separar o joio do trigo em se tratando de argumentos, que eu fiz este artigo =)

  2. Cara, que bacana. Parabéns pela matéria, muito informativa.
    Também sigo a linha de que o veganismo necessita de argumentação verdadeira para assim as pessoas fazerem escolhas realmente conscientes.
    Muito obrigada por colocar isso de forma esclarecida.

    Gratidão

  3. Oi, gostei muito do texto. Tem alguma leitura especifica para indicar sobre 1 argumento ou outro? Se sim, por favor, me indique algo.

  4. Com exceção do 3 e 6 descordei pacialmente ou totalmente dos outros argumentos. Como assim você não entendeu a parte do amor? Okay que você pode querer falar dos insensíveis mas nem todo mundo é assim. O direito de amar, nem todo mundo pensa em tudo da forma pegar e levar. E o veganismo não obriga ninguém a ser vegano, apenas sugeri a defesa aos animais.

    • Lucas, o amor não é algo que se inclui num modo de vida que defende direitos, pelo motivo de que, pra respeitar um ser, não é necessário amá-lo. Isso não quer dizer que não se deve amar os animais enquanto vegano – se você é vegano e ama os animais, muito bom, embora esse amor não faça parte do conceito de veganismo.

      E não entendi essa frase: “O direito de amar, nem todo mundo pensa em tudo da forma pegar e levar.”

  5. Muito bom, lúcido, aberto ao diálogo, questionador, ótimo uso de lógica. Será devidamente compartilhado. Apostando sempre que o veganismo é um conjunto de princípios e valores onde os animais não são o foco principal, mas parte de um problema muito maior, envolvendo a exploração por um sistema massacrante opressor (especista, sexista, racista, capitalista) e suas implicações no Planeta.

    • Alice, nunca ouvi falar de estudos, mesmo no meio vegano/vegetariano, sobre a carne intoxicar ou não o sangue. Também nunca vi esse argumento sendo utilizado.
      Mas sei sim que o consumo imoderado de carne gordurosa pode causar aumento do colesterol ruim e entupimento das veias e artérias.

  6. Sobre o argumento bônus: Vivemos em uma sociedade racista, machista e LGBTfóbica. As pessoas que se tornam veganas são ensinadas a vida toda a serem assim, eu fui ensinada, vc foi ensinado, a maioria de nós foi ensinado. A mudança de consciência vem com o tempo. O problema é que se a mudança de consciência sobre os animais vem antes da mudança em relação às pessoas, o novo vegano vai continuar sendo racista, machista e LGBTfóbico e pode misturar isso nos discursos sobre veganismo, como nesses “argumentos” de que veganos são melhores de cama. Aí muita gente usa isso como argumento contra o veganismo e o único meio que eu encontro para defender o veganismo dessas misturebas ridículas é justamente dizer que o veganismo é só pelos animais não humanos. Vc encontra pessoas veganas com todo tipo de opinião ou discurso de ódio quando se fala sobre racismo, machismo ou LGBTfobia, mas nenhuma delas é mais ou menos vegana por isso.

    • Juliana, pessoas com esse nível de desrespeito a outros seres humanos podem não ser mais ou menos veganas, mas são contumazes desrespeitadoras dos princípios éticos dos Direitos Animais e também tão cruéis e moralmente excludentes quanto os especistas que elas tanto criticam.

  7. ARGUMENTO 9:
    Seguindo a lógica do seu texto se “uma empresa não é vegana, por essa ser uma empresa que testa em animais” os produtos com traços também não são veganos por virem de uma empresa que explora animais. A lógica e o argumento são idênticos, concorda? Como seu artigo aponta “qualidade duvidosa” sugiro repensar na qualidade da refutação do argumento nove que você descreve.

    • Tiago, você postou o mesmo comentário diversas vezes, em diversos compartilhamentos e também neste post. Peço que não seja repetitivo dessa maneira. E como você já se mostrou fechado à possibilidade de repensar a questão dos traços, não há o que debater com você.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *