20 argumentos comuns entre antiveganos de esquerda devidamente respondidos

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O antiveganismo e o especismo assumido são, infelizmente, posturas muito comuns na esquerda brasileira hoje em dia.

Diante de esforços de conscientização vegana, muitas pessoas que se dizem de esquerda preferem atuar de maneira conservadora e reacionária contra nossa causa.

Na tentativa de deslegitimar a causa vegano-animalista e encontrar a possibilidade de rejeitá-la sem estar incidindo em sérios desvios de ética, trazem os mais variados pretextos, muitos deles atribuindo ao veganismo uma suposta incompatibilidade com causas sociais e populações pobres.

Só que sempre, sem exceções, são argumentos que não resistem a uma análise cética por parte dos veganos.

Assim sendo, neste artigo eu respondo a vinte desses argumentos, que vi serem usados em momentos como a meteórica repercussão da Operação Carne Fraca. Meu objetivo é mostrar que não há nenhum pretexto válido para aqueles do lado esquerdo do espectro político continuarem exercendo uma oposição tão conservadora a uma causa que, por essência, tem tudo a ver com as ideologias de libertação e emancipação.

 

1. “Ser de esquerda não tem nada a ver com dieta alimentar ou defesa dos animais.”

Cada vez mais é o contrário disso que tem sido revelado. A alimentação dos seres humanos e as violências contra os animais não humanos têm ligações muito fortes com questões sociais e políticas, tais como:

  • A concentração de terras e a violência no campo;
  • A exploração trabalhista, incluindo o uso de mão-de-obra escrava em fazendas e o trabalho degradante em frigoríficos;
  • A manutenção de uma bancada ruralista nos Três Poderes para defender os interesses dos latifundiários contra os trabalhadores, o meio ambiente, os direitos dos cidadãos e os próprios animais;
  • Os abusos publicitários e a indução ao consumismo, tornando os alimentos de origem animal alguns dos principais símbolos do capitalismo desregulado e desumano;
  • A conversão da pecuária e da pesca pelo capitalismo em gigantescas máquinas de matar animais, destruir florestas e exaurir seres humanos;
  • Os genocídios de indígenas, quilombolas e ribeirinhos e a matança de ambientalistas por donos de rebanhos e seus capangas;
  • As relações entre o consumo de carne e a cultura machista

Tudo isso nos leva a concluir que negar a ligação entre o que o veganismo a esquerda defensora dos seres humanos combatem é dar um atestado de claro desconhecimento sobre as diversas lutas sociais e como o consumo alimentício humano se relaciona com a ordem social, econômica, política e moral vigente.

 

2. “O que importa não é esse negócio de especismo ou o consumo de carne, mas sim que o capitalismo tornou a pecuária um sistema destrutivo para o meio ambiente e os seres humanos.”

Por mais que os antiveganos na esquerda neguem, sem o especismo, não existiriam os devastadores impactos da pecuária capitalista no meio ambiente e na humanidade.

Alguns acham que negar a importância do especismo e da severidade ética do ato de comer carne (e outros alimentos de origem animal) pode viabilizar, num futuro pós-capitalista, uma pecuária “orgânica e sustentável” que alimente abundantemente bilhões de seres humanos todos os dias. Só que, ao pensarem isso, não levam em conta que:

  • O consumo abundante e diário de carne por eles é um fenômeno tipicamente capitalista. Historicamente comer muita carne todos os dias era uma característica das elites de civilizações como a grega, a egípcia e a romana e da Europa medieval. Isso leva a crer que das duas uma: ou essa parcela da esquerda empreenderá um esforço reacionário para conservar no mundo pós-capitalista o mesmo padrão de consumo alimentício do capitalismo ocidental, ou se resignará a comer muito menos carne a um total contragosto;
  • Considerando que hoje a população humana mundial é muito maior do que antes da Revolução Industrial e continuará sendo depois da queda do capitalismo, é impossível alimentar com carne, leite e ovos todos os seres humanos não vegetarianos com o mesmo padrão de pecuária da Idade Média europeia, sem as “inovações” da Zootecnia proporcionadas pela moralidade capitalista;
  • O especismo e o capitalismo se inspiram mutuamente no que diz respeito a tratar seres sencientes, humanos ou não, como coisas a serem comercializadas, usadas e descartadas. Negar isso é desconhecer a importância da pecuária na história econômica mundial;
  • Queiram ou não, o especismo e a contradição moral que lhe é inerente é um problema ético cada vez mais difícil de ser ignorado ou negado, e diz respeito diretamente à sustentabilidade da existência da espécie humana.

 

3. “As únicas razões válidas para ser vegetariano são as de cunho ambiental e social.”

Esse argumento é outro que revela a birra de muitos especistas assumidos de esquerda contra os Direitos Animais e a denúncia que os veganos fazem do especismo. E assim como o argumento anterior, revela a crença infundada de que será possível a pecuária se tornar “sustentável” e “humanitária” depois que o capitalismo cair, mesmo com uma população mundial dez ou mais vezes maior e comendo muito mais carne do que na Idade Média.

A resposta é que, queiram ou não os que se assumem especistas e antiveganos, o debate como tratamos moralmente os animais não humanos não pode mais ser ignorado, pelo mesmo motivo de que, num debate sobre as crueldades do capitalismo, não faz sentido a esquerda propor apenas reformas no sistema sob o pretexto de que os únicos problemas do capitalismo seriam seus impactos negativos excessivos.

Aliás, o que a esquerda antivegana defende, ao negar a validade do debate sobre exploração animal e veganismo, é algo muito parecido com o que os liberais de centro falam sobre a possibilidade de reformar o capitalismo: que é possível “perfumar” sistemas dotados de uma essência moral absurda (objetificar e controlar seres sencientes, crescimento econômico infinito, moralidade baseada no lucro, naturalização de desigualdades etc.) para torná-los aceitáveis e sustentáveis.

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4. “Só vou dar valor aos veganos quando eles deixarem de consumir medicamentos, produtos industrializados e meios de transporte, já que todas essas coisas causam mortes de animais.”

Esse é o mesmo tipo de argumento usado por conservadores e neoliberais para desdenhar da esquerda anticapitalista. A saber, muitos deles chamam pessoas de esquerda de “socialistas de iPhone” e dizem que a crítica delas ao capitalismo “não faz sentido” porque “desfrutam das maravilhas do capitalismo”, e que o que falam só faria sentido se “morassem no mato” ou “fossem para Cuba”.

Em relação aos veganos serem chamados de “hipócritas” nesse contexto, o argumento não procede porque os boicotes veganos só abrangem aquilo que pode ser substituído por alternativas. Se vegans tomam remédios, usam meios de transporte com pneus não veganos e consomem produtos que tiveram algum impacto indireto na vida de animais, é porque não podem prescindir desse consumo. E nem por isso deixam de ser vegans, uma vez que a definição do veganismo é clara ao ressaltar que o boicote é praticado na medida do possível e praticável.

 

5. “Veganos são muito capitalistas. Tudo que eles consomem vêm de grandes indústrias e do agronegócio.”

Essa é uma outra crítica espelhada numa falácia parecida usada pela direita contra pessoas de esquerda. Afinal, a grande maioria de quem se declara de esquerda consome produtos de grandes indústrias e alimentos vindos do agronegócio, por falta de opções.

Entre vegans e pessoas de esquerda, são muito poucos aqueles que podem se dar o luxo de ter uma alimentação majoritariamente fornecida por roças de permacultura e agroecologia e acesso amplo a produtos industrializados fabricados por cooperativas e empresas autogestionadas.

Além disso, esse argumento ignora e invisibiliza os veganos interseccionais, que se preocupam em lutar contra o capitalismo e construir um movimento vegano-abolicionista que defenda a libertação animal e humana e buscam, cada um à sua maneira, subverter a ordem econômica, moral e cultural capitalista que nos força a comprar produtos de grandes indústrias e plantações.

 

6. “Veganismo não faz sentido porque vegans vivem comendo soja transgênica que desmata.”

Em primeiro lugar, 80% de toda a soja produzida no Brasil é destinada a alimentar os mesmos animais cuja carne esses críticos antiveganos comem cotidianamente. Uma pequena parcela é destinada a fabricar proteína texturizada, leite vegetal, farofa, grão para consumo humano e outros derivados de soja que seres humanos consomem.

Em segundo, muitos veganos, por motivos como alergia, opção pessoal e oposição ao consumo de alimentos transgênicos, evitam comer soja. Portanto, esse argumento é uma generalização precipitada e falsa.

E em terceiro, extrair da premissa de que muitos veganos comem soja transgênica a conclusão de que “veganismo não faz sentido” é uma falácia chamada argumento desconexo ou non sequitur.

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7. “O grande problema não é esse negócio de especismo e exploração de animais, mas sim a lógica capitalista do lucro.”

Este argumento foi parcialmente respondido na resposta ao argumento nº 2. Mas quero acrescentar que a lógica capitalista do lucro e a especista da objetificação dos animais se alimentam mutuamente. Sem especismo, não há pecuária lucrando, e sem capitalismo, não há massificação da produção e consumo de alimentos de origem animal.

 

8. “Para que veganismo, quando se pode simplesmente comer menos carne, apoiar o bem-estar animal e o abate humanitário e comprar alimentos de origem animal orgânicos?”

Esse argumento cai na falácia do falso meio-termo, cogitando uma opção “menos radical” onde a questão é ser especista ou não especista.

Optar por alimentos de origem bem-estarista, muito longe de ser um ato de respeito aos animais, é uma postura que perpetua o tratamento deles como propriedade de seres humanos e o costume de matá-los contra a vontade deles, em prol do interesse humano de manter um hábito alimentar nutricionalmente desnecessário.

 

9. “Veganismo é elitista, coisa de classe média. Pessoas pobres não têm condição de se tornarem veganas, elas vão é comer carne de segunda, ovos, leite, mortadela, salsicha e hambúrguer da mercearia.”

O veganismo é tão elitista quanto ser de esquerda. Afinal, ambos requerem leitura e conhecimento que pessoas pobres costumam ter dificuldade de acessar, por motivos como falta de dinheiro para comprar livros ou de tempo para assistir a documentários e ler blogs.

Porém, no caso do veganismo, há maneiras de adotar o modo de vida vegano sem precisar ascender à classe média ou fazer sacrifícios no orçamento, assim como recorrer a receitas veganas só com ingredientes baratos e acessíveis.

Além disso, estão se tornando cada vez mais frequentes os eventos que divulgam o veganismo com alimentação e produtos a preços populares e plantam a semente da consciência vegana e social nas periferias das cidades brasileiras.

Mais além, uma outra coisa é difícil de questionar: poucas coisas contribuem mais para o veganismo continuar sendo considerado elitista do que pessoas ficarem com esse tipo de crítica nada construtiva e não dedicarem um dedo mindinho de esforço que seja para ajudá-lo a se popularizar entre os mais pobres.

E é preciso revelar um outro detalhe nesse tipo de crítica: aqueles que apontam o dedo acusatório de elitista para o veganismo são os mesmos que frequentam churrascarias e pizzarias, são os mesmos que não se importam em comprar dois dígitos de reais de cerveja nos fins de semana e não querem de jeito nenhum deixar de comer seus hambúrgueres de carne e queijo a dois dígitos de real cada.

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10. “O veganismo não faz sentido num mundo em que os pobres precisam comprar carne de segunda, salsicha barata e ovo de granja pequena para não passarem fome. Além disso, quando é que alguém quase morto de fome vai pensar em especismo e veganismo?”

Esse tipo de pensamento é o cúmulo do chamado cosplay de pobre, atitude que consiste em antiveganos de classe média usarem privações verdadeiras ou falsas de pessoas pobres como desculpa para continuarem eles mesmos consumindo alimentos de origem animal.

Cá para nós, poucas atitudes são mais discriminatórias para com a população de baixa renda do que o cosplay de pobre, o qual aceita e conserva uma ordem social e econômica na qual pessoas pobres dependem de alimentos de péssimo valor nutricional, repletos de substâncias nocivas e nada confiáveis para não ficarem com fome.

Enquanto os “cosplayers de pobre” defendem a manutenção dessa realidade na qual eles mesmos têm amplos privilégios, milhares de vegans interseccionais se esforçam para popularizar o veganismo, torná-lo mais acessível às classes populares, democratizar o acesso à informação sobre os Direitos Animais e o modo de vida vegano e acabar com o estado de elitismo que ainda restringe muito a difusão do veganismo nas periferias pobres do Brasil.

 

11. “Enquanto houver seres humanos passando fome, comer carne não será um problema tão relevante.”

A produção e consumo de carne tem muito mais a ver com a fome que muitos humanos passam do que os antiveganos de esquerda acreditam. Afinal, muito do que é produzido de vegetais e poderia alimentar seres humanos – 80% da soja e do milho produzidos no mundo, e um generoso percentual de outros vegetais – é destinado para alimentar rebanhos em latifúndios.

Outro fator é que, em países como o Brasil, a pecuária é a atividade principal de muitos parlamentares, prefeitos e governadores da bancada ruralista, que se esforça para conservar a ordem agrária vigente, na qual tão poucos detêm tantas terras e tantos camponeses não têm nem um palmo de terra para plantar, e a distribuição de alimentos é francamente injusta.

Ou seja, combater a produção e consumo de alimentos de origem animal é uma maneira muito necessária de se tratar a causa, ou parte dela, de muitos casos de fome humana.

 

12. “Veganos são muito apegados ao consumismo e às marcas de produtos veganos.”

Esse argumento é uma falácia de generalização precipitada. Isso porque nada indica que os veganos “em geral” são mais apegados aos sonhos de consumo do que qualquer outra pessoa do meio capitalista. Nem que são mais consumistas e gostadores de determinadas marcas de alimentos e outros produtos quanto os próprios não veganos de esquerda.

Além disso, existem tanto veganos de direita, veneradores do capitalismo e do consumismo vegano, quanto de esquerda, que se opõem a ambos e defendem um veganismo voltado mais para a ética e a libertação animal do que para interesses individuais de consumo e estilo de vida.

Portanto, é falso chamar a todos nós veganos de consumistas e veneradores de marcas. E também hipócrita, uma vez que dificilmente antiveganos se ocupam em exigir uma postura anticonsumista e purista de outras pessoas não veganas de esquerda, e muitos deles próprios estão por aí consumindo fast-food, bebidas alcoólicas, roupas e carros de grandes corporações.

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13. “O veganismo, por ser focado só no boicote, não tem como dar certo enquanto suposto meio de derrubar o capitalismo e o agronegócio.”

Acreditar que o veganismo é focado apenas no boicote é dar um atestado de pouco conhecimento sobre como as diversas formas de ativismo pelos Direitos Animais se interligam, e ignorância sobre o veganismo interseccional.

O veganismo é apenas um dentre vários meios interdependentes de defender os direitos dos animais não humanos. E entre esses meios, há diversos notavelmente anticapitalistas, como:

  • As ações diretas de libertação de animais;
  • A conscientização politizada boca-a-boca;
  • Os protestos contra a exploração animal;
  • Os eventos veganarquistas;
  • As iniciativas de permacultura e agroecologia vegana;
  • As ecovilas veganas com princípios anarquistas e comunitários;
  • A criação de cooperativas e empresas autogestionadas de produtos veganos;
  • entre outros.

Ou seja, ao contrário do que o senso comum antivegano crê, há no veganismo – pelo menos em sua parcela interseccional – uma visão macro e completa da ordem moral, econômica, social e política a se transformar. E, sobretudo, a perspectiva de que, libertando seres humanos da dominação, será mais viável libertar os animais não humanos, e vice-versa.

Não é porque há vegans que só atuam por meio do boicote a produtos animais e da promoção de um estilo de consumo alternativo (e elitizado) que todo o meio vegano é atado a esse tipo de atuação.

 

14. “Veganismo é pós-modernismo, logo não serve para derrubar o sistema capitalista.”

Chamar o veganismo de “pós-moderno” é mais uma entre tantas maneiras de banalizar esse rótulo sem que se saiba ao que ele realmente se refere. Mais informações sobre o que realmente significam pós-modernidade e pós-modernismo você pode ler nesse artigo do site Colunas Tortas.

A partir desse texto, é possível mostrar algumas das incompatibilidades entre a pós-modernidade e a luta vegana pela libertação animal:

  • Essas narrativas – visões de mundo – que indicam um caminho para o futuro, um projeto utópico, é aquilo que é negado pela pós-modernidade. A falta da certeza nas grandes narrativas indica a impossibilidade de se prever o futuro com certeza filosófico-científica, portanto, o que nos resta é o presente. O presente precisa ser modificado e vivido, seja ele bom ou ruim.” – O veganismo e os Direitos Animais vislumbram um projeto político e filosófico que pode ser considerado utópico: o fim de toda violência e opressão contra os animais não humanos e, por tabela, daquelas dominações de humanos contra humanos resultantes das tradições especistas. O veganismo é basicamente parte de um projeto para o futuro, um ideal a ser perseguido todos os dias e por um número cada vez maior de pessoas.
  • Caso tentássemos explicar o que é pós-modernidade de maneira rápida, em resumo poderíamos dizer que é a:
    A) Crise da ideia da filosofia como construtora da verdade;
    B) Crise da ideia de certeza;
    C) Crise das Utopias.” – O veganismo contraria essas três crises, uma vez que respectivamente usa o ramo filosófico da Ética Animal para construir uma verdade sobre a consideração moral ideal a ser prestada aos animais não humanos, tem certeza de que os animais merecem direitos fundamentais tanto quanto os seres humanos e vislumbra a utopia da libertação animal e do fim das opressões ligadas ao especismo.
  • O que é pós-modernidade? Para Lyotard, essa condição de descrédito – própria deste período – às grandes narrativas se deu, além do desenvolvimento do capital, pela própria lógica interna da ciência (que seria o saber legitimador da contemporaneidade).” – Ao contrário do pensamento pós-moderno, o vegano-abolicionismo tem muito apego à Filosofia iluminista e pós-iluminista e às provas dadas pelas Ciências Biológicas de que os animais não humanos são tão sencientes e interessados na sua própria vida e integridade física quanto os seres humanos.

Esses contrastes já bastam para se perceber que o veganismo e os Direitos Animais estão muito longe de ter características de um pensamento pós-moderno, descrente na ciência, na filosofia e nas utopias e fortemente apegado ao aqui e agora.

 

15. “Por que os veganos não agem contra as contrarreformas do governo Temer e os latifúndios de soja?”

Em primeiro lugar, há muitos veganos por aí participando dos protestos de esquerda contra os abusos do governo Temer e atuando contra os latifúndios brasileiros. A crença de que os veganos focam apenas em se opor ao consumo de produtos animais é uma visão equivocada que generaliza a todos eles posturas despolitizadas e pró-ordem que são especificamente de vegans de direita.

E em segundo, defender a massificação do veganismo e a libertação animal é uma forma de atuar contra os interesses desse governo e de seus aliados do setor agropecuário e frigorífico, assim como serve para denunciar como os latifundiários e industriais desse meio têm seus anseios egoístas atendidos pelas contrarreformas. Não é à toa que o governo pós-impeachment atuou em defesa quase incondicional desse ramo econômico durante a repercussão da Operação Carne Fraca.

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16. “Os veganos de esquerda querem impor que o veganismo seja obrigatório para alguém poder ser considerado de esquerda.”

Essa é uma falácia do espantalho, ou seja, critica os opositores a partir de uma característica imputada a eles que na verdade é falsa.

No caso desse argumento, há espantalho porque em nenhum momento os veganos de esquerda exigiram isso. O que acontece de verdade é que pessoas como eu defendem que pessoas de esquerda que se opõem abertamente ao veganismo são incoerentes com seus princípios éticos e políticos e atuam como conservadores quando criticam e esnobam um modo de vida que visa uma transformação progressista e o combate a uma forma de desigualdade, dominação e violência.

Isso é muito diferente de tachar como “não esquerdista” todo aquele progressista que não curte a causa vegana.

 

17. “O veganismo individualiza a luta por um mundo melhor e culpa o consumidor de produtos animais pelos problemas que os veganos criticam.”

Essa é outra falácia do espantalho. Afinal, sempre que promovemos conscientização, nós vegans criticamos os produtores de alimentos de origem animal por explorarem animais, escravizarem seres humanos, destruírem o meio ambiente e propagarem alimentos nocivos à saúde. Deixamos claro que o veganismo e o ativismo abolicionista são algo a ser abraçado pela coletividade, ainda que de indivíduo em indivíduo. E evidenciamos que o consumo vegano é apenas uma dentre diversas maneiras interdependentes de se lutar pela libertação dos animais não humanos e pelo fim do especismo.

Achar que defender os Direitos Animais é apenas ser adepto do hábito de consumo vegano é cair num erro crasso e generalizar uma característica que é de apenas uma parte dos veganos.

 

18. “Os veganos não pensam nos trabalhadores da indústria frigorífica e da pecuária, nem nos pequenos criadores de animais, nem nos pescadores, nem nos pobres que, sem condições de comprar hambúrguer vegano defumado todo dia, têm que se virar na carne de segunda, na salsicha barata e no ovo.”

Na verdade, são os próprios antiveganos que não dão a mínima se essas pessoas vivem:

  • Submetidas a condições degradantes de trabalho;
  • Impedidas de sair da pobreza por causa da ganância e crueldade de seus patrões;
  • Relegadas a comer comida ruim, com péssimo valor nutricional, cheia de substâncias perigosas à saúde e de baixíssima confiabilidade;
  • Condenadas a enfermidades, ao sofrimento e à morte precoce por causa do consumo constante de alimentos ruins;
  • Apartadas da consciência ética vegana;
  • Alheadas das oportunidades de mudar de ramo e encontrar um trabalho verdadeiramente digno que deixe os animais em paz.

É o discurso deles que ajuda a perpetuar todas essas situações de miséria, e não a suposta negligência dos veganos.

Pelo contrário, muitos veganos se preocupam em ajudar ex-pescadores, ex-pequenos criadores de animais e ex-funcionários de frigoríficos e matadouros a encontrar novos empregos, e em viabilizar uma ordem econômica na qual essas pessoas saiam de trabalhos tão degradantes e encontrem facilmente um refúgio seguro em outras fontes de renda.

Além disso, se nos opomos à agroindústria dos alimentos de origem animal, é natural que fomentemos empregos alternativos e, mais ainda, uma alimentação alternativa que salve as pessoas das más consequências do consumo de produtos animais.

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19. “Vegans protestam contra a pecuária, mas não hesitam em comer de plantações latifundiárias que usam agrotóxicos, matam animais, causam desmatamento e exploram gente tanto quanto.”

Em primeiro lugar, essa é uma falácia de apelo à hipocrisia, conhecida como tu quoque, já que, ao invés de focar em responder ao argumento, restringe-se a criticar a suposta hipocrisia do argumentador.

Em segundo, ainda que na maioria das ocasiões não tenhamos a opção de comer plantas vindas de roças orgânicas e agroecológicas, mesmo assim consumimos menos resíduos tóxicos do que os não veganos. Afinal, estes consomem produtos animais contaminados com traços de hormônios, antibióticos, pus e também com os pesticidas e herbicidas ingeridos a partir dos grãos e folhas de capim de pasto.

Em terceiro, como dito acima, opções orgânicas e saudáveis ao consumo de alimentos vegetais agrotoxicados são um privilégio de poucos hoje em dia. E reclamar passivamente das limitações atuais do consumo vegano em nada vai contribuir que esse privilégio se torne um direito difundido.

E em quarto, a segurança alimentar é uma bandeira comumente defendida entre os veganos. Afinal, queremos que os seres humanos se alimentem bem e tenham saúde sem precisar consumir um grama que seja de alimentos de origem animal.

 

20. “Mais socialmente justo do que propagar veganismo é combater o latifúndio e incentivar criações animais de pequeno porte.”

Esse argumento deseja não o fim das injustiças e desigualdades, mas sim que uma injustiça – a soma de todos os flagelos dos latifúndios – seja substituída por outra – a exploração animal não capitalista. E desconsidera que o especismo e o tratamento dos animais não humanos como coisas são um problema ético que deve ser levado a sério.

Assim como em outros argumentos, reitero que, queiram os antiveganos de esquerda ou não, a exploração animal é uma violação ética contra seres que desejam continuar vivos e manter a integridade física e psicológica, e os veganos não toleram violências como essa.

 

Bônus: “Os veganos querem é desviar nossa atenção dos problemas políticos para pensarmos nos bichinhos e em comer salsicha vegetal gourmet.”

Esse argumento é semelhante àquele que pergunta retoricamente “por que defender os animais com tanta criança passando fome”. Revela a incapacidade do argumentador de pensar em dois ou mais problemas e enfrentá-los ao mesmo tempo, menos ainda de encará-los como partes integrantes de uma grande ordem de desigualdades, dominações, violências e injustiças.

Ao contrário do que quem argumenta isso acredita, o que não faltou nas redes sociais e também nas ruas foram vegans protestando contra as contrarreformas do governo Temer.

A partir disso percebemos que as únicas pessoas que queriam desviar atenção foram os próprios antiveganos. Afinal, o tempo todo tentaram esvaziar a importância da Operação Carne Fraca, desprover de sentido a oposição vegana à exploração animal e abafar a repercussão que nós vegans demos à atuação da Polícia Federal contra os desmandos da indústria frigorífica.

 

Considerações finais

Antiveganos e ruralistas unidos

A esquerda antivegana, para defender a conservação de seu consumo, faz coro até aos ruralistas e ao governo Temer.

Por mais que os antiveganos de esquerda argumentem para tentar se resguardar da necessidade ética e humanitária de considerar o veganismo, sempre haverá uma resposta à altura para o que eles alegarem de pretextos para não serem veganos. Isso é inevitável.

Fica cada vez mais claro que não há motivos racionais válidos para não ser vegan. Todo e qualquer argumento antivegano cai em algum tipo de falácia e é facilmente respondido.

Portanto, se você ainda tem esse tipo de mentalidade, convido você a repensá-la, pelo seu próprio bem, pelo dos seres humanos que a exploração animal violenta e escraviza, pelo meio ambiente que a mesma destrói e, também, pelos animais não humanos a quem você tem negado sua empatia e consideração moral.

Um mundo melhor, livre das desigualdades e opressões, depende fundamentalmente das lutas pelos animais não humanos, assim como daquelas pelos seres humanos. Afinal, um mundo pós-capitalista com o especismo conservado não será nada mais do que uma nova ordem desigual, injusta e insustentável a suceder a anterior.

 

Este artigo fez você repensar algum dos argumentos respondidos? Qual sua impressão sobre o veganismo e os veganos depois de tê-lo lido? Comente logo abaixo.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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5 Comments on “20 argumentos comuns entre antiveganos de esquerda devidamente respondidos

  1. Ótima matéria. Infelizmente esse é o retrato da esquerda brasileira, por isso é tida como piada. Mas acho que o movimento Vegano não pode pertencer a linhas políticas.

  2. Excelente!! Excelente!! Concordo com o que disse o José Arnaldo: que o movimento vegano não pode pertencer a linhas políticas. Mesmo porque ele de fato não pertence a uma linha política específica (ou mais de uma) no sentido de que não é exclusividade dessa linha política. Mas não tem como negar o óbvio: que o ideal do movimento vegano está em perfeita sintonia com o pensamento da esquerda. Apesar disso, embora o pensamento da direita não seja coerente com o movimento vegan, vale repetir que o movimento não pertence exclusivamente à esquerda. Todos têm o direito de optar pelo veganismo.

  3. Talvez estes esquerdistas não se sintam tão oprimidos quanto a gente pensa.
    Muito interessante a entrevista do ativista Gary Youfsky mostrando que judeus, negros, mulheres se identificam com a causa vegana por conhecerem o que é a opressão.

    Nunca consegui ser vegetariana, mesmo tentando por questões de saúde, mas me tornei vegana quando conheci os sofrimento animal na cadeia produtiva da indústria de alimentação.

    O horror nos olhos de uma vaca vendo a companheira sendo processada ainda em vida é diferente daquele estampado nos olhos de um indio vendo a tribo exterminada?

    Para ser parte desta industria precisa tornar-se insensível ao sofrimento alheio.

    https://youtu.be/Lw56r5EFo-I

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