30 fatos que comprovam que há mais ligações entre o especismo e os problemas sociais humanos do que o senso comum crê

Exploração de trabalhadores em frigorífico

Exploração animal com exploração humana, um exemplo de conexão entre as pautas dos Dirietos Animais e as causas humanas

Muitas pessoas são enfáticas ao dizerem: “Veganismo é só pelos animais não humanos! Não coloquem problemas humanos nas costas dos veganos!”

Afinal, segundo tantas delas argumentam, os seres humanos alvos de discriminação, violência, dominação e outras formas de exclusão moral já possuem seus próprios movimentos – feminista, negro, LGBT, operário, socioambientalista, camponês, defensor dos Direitos Humanos, defensor da neurodiversidade etc.

Mas será mesmo que podemos, numa boa, ignorar as ligações nas quais muitos dos problemas sociais humanos fortalecem e perpetuam o especismo e vice-versa?

Será que a defesa dos Direitos Animais e do veganismo pode dar certo sem se preocupar com esses elos? Ou é mais que necessário levá-los em consideração para que os animais tenham a chance de serem libertados da exploração no futuro?

Quero, por meio deste artigo, mostrar para você que há muitas razões – e a seguir elenco nada menos que trinta delas – para se reconhecer que a luta dos veganos, ainda que de fato foque nos animais não humanos, jamais passa por excluir e desconsiderar questões sociais, morais e políticas que prejudicam a maioria dos seres humanos que habitam este planeta.

Leia-o, e terá sua consciência ética expandida e sua luta em prol dos Direitos Animais reforçada e empoderada.

 

Os trinta fatos

Genocídio indígena e pecuária

Genocídios indígenas no campo, uma das consequências do poder político e econômico da pecuária

Capitalismo, consumismo e publicidade abusiva

  • Segundo Carol J. Adams, a história da propriedade privada dos meios de produção, que, nas tradições especistas, incluem os animais “de consumo”, começa na pecuária do Neolítico. No livro A política sexual da carne, ela nos conta como o tratamento desses animais como objetos sob posse de humanos deu origem a muitos dos flagelos sociais do capitalismo e de outros sistemas econômicos;
  • O consumo banalizado de carne, laticínios e produtos industrializados que os contêm é uma das formas mais evidentes de consumismo no mundo capitalista. Geralmente quem consome esses produtos não leva em conta alguma “necessidade” nutricional de, por exemplo, comer hambúrguer ou um prato gourmet de salmão, mas sim está fazendo-o por motivos como lazer, socialização, comemoração e marcação de posição na hierarquia social;
  • O consumismo de alimentos de origem animal costuma ser incentivado por publicidade abusiva. Alguns exemplos são a discriminação contra quem não consome alimentos de origem animal, a associação do consumo de carne e laticínios à felicidade e à confraternização entre amigos, o apelo a festejos religiosos (como os perus e “chesters” de Natal e os peixes da Sexta-Feira Santa), o uso de informações falsas sobre a suposta necessidade dos seres humanos de consumirem esses alimentos, publicidade infantil intensiva e a venda casada de lanches com brinquedos para atrair um público também de crianças;
  • Pessoas em situação de vulnerabilidade social tendem a sofrer mais com os prejuízos dos alimentos de origem animal processados à sua saúde do que pessoas com condições financeiras que lhes deem uma liberdade maior de escolher o que comer ou não comer. Afinal, sua possibilidade de optar por uma alimentação orgânica e vegetariana é muito mais restrita do que pessoas de classe média;
  • As desigualdades sociais tornam pessoas muito pobres e desempregadas especialmente vulneráveis ao aliciamento para trabalhos altamente degradantes, seja na exploração de mão-de-obra escrava em fazendas, seja em trabalhos semiescravos em frigoríficos e matadouros.

 

Machismo, racismo, homofobia e outras discriminações

  • A animalização é utilizada há séculos como uma ferramenta de ódio e intolerância a minorias políticas diversas. Reforça a inferiorização moral de muitos seres humanos e, ao mesmo tempo, a condição dos animais não humanos como escória moral. Por exemplo, o deputado Jair Bolsonaro, em discurso racista feito em abril de 2017, se referiu a negros quilombolas como pessoas que pesam “arrobas” (medida comumente utilizada para medir o peso de porcos, bovinos e outros animais “de consumo”) e que “não servem nem para procriar” (“procriação” é um termo muito usado para denominar a reprodução desses mesmos animais). Judeus costumam ser chamados de “porcos” por antissemitas, mulheres xingadas de “vacas” ou “galinhas” por misóginos, homens gays insultados de “veados” por homofóbicos, entre muitos outros casos. Seres humanos escravizados recebiam tratamento muito parecido com o dedicado a animais “de consumo”, sendo marcados a ferro em brasa, acorrentados, agredidos com chibatas e tratados como mercadoria em feiras por seus senhores. E assim vão se sucedendo os muitos casos históricos de rebaixamento moral de seres humanos por meio da animalização;
  • Diversas empresas envolvidas com “produção” ou comércio de carnes costumam apelar para o machismo para vender seus produtos, por meio de condutas como comparar as mulheres com pedaços de carne a serem “comidos”, fazer analogias entre hambúrgueres e seios femininos e apelar para a masculinidade dos consumidores homens – alegando que comer muita carne vermelha os fará “mais machos”;
  • O consumo de carne vermelha por homens costuma ser associado com a masculinidade heterossexual, e seu não consumo pelos mesmos muitas vezes é tratado como uma característica “gay” e “afeminada”. Fica clara a nuance machista e homofóbica da cultura de culto ao consumo de carne;
  • A preparação de carne por donas-de-casa tem muito mais a ver com machismo do que o senso comum acredita. Elas costumam ser obrigadas por seus maridos a prepararem carne para eles, sob pena de serem sofrerem violência verbal, psicológica ou mesmo física. Isso inclui muitas mulheres que desafiam o “carnivorismo” de seus esposos e lhes preparam pratos vegetarianos sem o consentimento deles;
  • Os prejuízos ambientais causados pela pecuária, como desmatamento, poluição, aquecimento global e catástrofes meteorológicas associadas, prejudicam muito mais moradores de comunidades pobres, em sua maioria negros e indígenas – no caso da América Latina e dos Estados Unidos -, do que populações ricas – em sua maioria de brancos. Esse é um exemplo do fenômeno conhecido como racismo ambiental.

 

Violência no campo, genocídio indígena e concentração de terras

 

Política e corrupção

  • A bancada ruralista, à qual pertencem ou se aliam muitos latifundiários pecuaristas, tem sido responsável por cruéis políticas de enfraquecimento de direitos trabalhistas, leis ambientais e políticas de combate ao trabalho escravo;
  • Via de regra, os ruralistas, entre eles os pecuaristas e seus aliados, costumam ser de direita ou extrema-direita, avessos aos direitos e liberdades da maioria da população, desejosos da desregulação da economia e defensores ferrenhos do status quo – ou de sua radicalização;
  • Também é comum que pecuaristas e aliados sejam investigados ou mesmo pegos por envolvimentos em escândalos de corrupção, como revelam esse exemplo, esse, esse e esse. Como se não fosse o suficiente, manter animais sob propriedade de pecuaristas é uma maneira muito utilizada de praticar corrupção. Leonardo Sakamoto explica: “Bois têm sido, há muito, uma excelente saída para quem quer guardar dinheiro não-rastreável. Primeiro, porque nosso sistema de controle de comércio de animais permite fraudes na compra e venda de animais. Além do mais, o boi é uma lavanderia de dinheiro ambulante, ou seja, dá para transferir para uma fazenda vizinha se ocorrer uma fiscalização ou tocar o investimento até outra cidade”;
  • A Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal em março de 2017, revelou diversos esquemas de corrupção envolvendo pecuaristas e grandes empresas produtoras de carne. E o que ela revelou é apenas a ponta do iceberg de toda uma ordem de desmandos e crimes que ainda precisa ser atenciosamente investigada;
  • A mesma Carne Fraca revelou que esses esquemas visavam liberar para o mercado carnes com aditivos tóxicos, impurezas ou fora do prazo de validade, num comportamento de colocar o lucro rápido e fácil acima do bem-estar e mesmo da saúde e vida dos consumidores.

 

Quando a desconsideração moral pelos animais não humanos inibe também a empatia pelos seres humanos

  • São muito comuns no Brasil os casos de escravização, expulsão e assassinato de trabalhadores rurais, indígenas, camponeses, quilombolas, ribeirinhos, ambientalistas etc. por pecuaristas, o que demonstra que muitos deles, tal como não ligam para o sofrimento animal, não se importam em destruir vidas humanas;
  • A falta de consideração ética da pecuária e da indústria de alimentos de origem animal é tamanha que esses setores, tal como não ligam em explorar e matar animais, não se importam se seus consumidores correm riscos elevados de contrair câncer, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, obesidade e outros problemas de saúde decorrentes do consumo imoderado de carnes e laticínios. Nem se importam se há milhões de pessoas agonizando com essas doenças em estágio avançado nos hospitais do planeta. Tanto é que suas propagandas insistem que os clientes consumam cada vez mais esses alimentos, sem qualquer moderação;
  • Da mesma maneira, o ofício de operário de frigoríficos é um dos piores empregos, senão o pior, existentes no capitalismo. As condições de trabalho de quem assume essa função são extremamente degradantes, conforme denunciam documentários como Carne e Osso e relatórios como o Moendo Gente;
  • Assim como o especismo, muitas empresas envolvidas com comercialização de alimentos de origem animal não se importam em promover em suas campanhas publicitárias machismo, homofobia, racismo, xenofobia, intolerância antivegana, entre outras formas de preconceito e discriminação;
  • O antiveganismo, não raramente, vem imbuído de discursos machistas e homofóbicos – como o exemplo da música “Carnívoro Song”. Não surpreende perceber, aliás, que o discurso antivegano também manifesta intolerância contra as pessoas adeptas do veganismo, não sendo um simples ataque à ideia vegana.

 

As limitações sociais do veganismo de hoje

  • O veganismo hoje tem sido visto como um modo de vida de classe média, sustentado por privilégios elitistas e bastante consumista. De fato a forma como ele tem sido divulgado o torna pouco acessível à grande maioria da população brasileira, que é negra e/ou pobre;
  • Tem havido uma tendência de gourmetização e aumento de preços acima da inflação entre os alimentos dedicados ao público vegano em mercearias, supermercados, lojas de “produtos naturais” e eventos de exposição que possuem produtos declaradamente veganos. Isso tem atrapalhado bastante a inclusão das classes socioeconômicas de baixa renda no modo de vida vegano;
  • Ainda são realizados muito poucos eventos veganos nas periferias das cidades e na zona rural do país, em comparação com a quantidade daqueles que acontecem em bairros centrais ou de classe média. Isso também é um fator que inibe a propagação do veganismo entre os mais pobres;
  • Imagens e textos que promovem comparação explícita entre o sofrimento de pessoas de minorias políticas – principalmente negros, mulheres, judeus – com a exploração de animais “de consumo” são publicadas com uma certa frequência, mas seus efeitos acabam sendo um tiro que sai pela culatra. Muitas pessoas dessas categorias sentem-se animalizadas e insultadas (ver o fato sobre animalização de minorias políticas humanas mais acima) e reagem de maneira indignada e hostil, tornando-se mais avessas, ao invés de simpáticas, à ideia de se tornarem veganas;
  • Muitas pessoas estão impossibilitadas, no momento, de pensar na causa animal, aderir a ela e se tornarem veganas, por motivos como estarem na miséria, sofrerem privações como a fome e a falta de um lar digno, estarem sujeitas a agressões em casa e nas ruas e estarem sendo obrigadas a pensar, acima de qualquer outra coisa, na sua própria sobrevivência um dia após o outro. O veganismo nunca alcançará essas pessoas enquanto enfocar quase exclusivamente a classe média e a divulgação despolitizada de um “estilo de vida” consumista.

 

Considerações finais

Operação Carne Fraca

Operação Carne Fraca, um outro exemplo de flagra de intersecção entre exploração animal e descaso pela vida humana. Foto: Reprodução/Jornal GGN/Montagem

Esses trinta fatos deixam claro como o sol que não só existem no mínimo algumas dezenas de ligações inquebráveis entre o especismo e os problemas sociais, políticos e morais envolvendo seres humanos, como ignorá-las tende a enfraquecer a luta pela libertação animal e pela consolidação da ética vegana.

O mesmo vale para o sentido oposto: desconsiderar a questão dos Direitos Animais em causas como a defesa dos Direitos Humanos, o anticapitalismo, o ambientalismo, o combate à corrupção e a defesa de uma sociedade mais sustentável, ética e compassiva é uma falta grave que pode pôr essas lutas a perder.

Então, tenhamos consciência: defender os animais não humanos é defender que a ética seja estendida a todos os seres sencientes, sem nenhuma distinção arbitrária especista, machista, racista, heterossexista, elitista, xenofóbica etc.

Pensar de uma maneira distinta disso, acreditando-se que é possível uma sociedade ser vegana permanecendo permeada de desigualdades sociais e formas diversas de discriminação e ódio, ou ser ao mesmo tempo igualitária entre humanos e cruel e especista contra os animais não humanos, engessa ambas as frentes de luta.

Fica clara a necessidade urgente de se promover uma aliança permanente entre a defesa dos Direitos Animais, a dos Direitos Humanos, a do igualitarismo social e o ambientalismo. Somente assim teremos chances de ver nossos melhores sonhos para o futuro se realizarem.

Robson Fernando de Souza
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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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