Como a mídia brasileira tem abordado o veganismo e seu crescimento?

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Editado em 23/04/2017 às 11h25

A palavra “veganismo” tem ganhado uma crescente visibilidade na imprensa e em alguns sites que se dizem dedicados à temática vegana.

Repare que eu falei “a palavra”. Isso tem um porquê importante, sobre o qual eu escrevi este artigo.

É que o veganismo propriamente dito, aquele baseado na ética dos seres sencientes e que vai além do mero consumo, tem sido marginalizado nesses meios.

Essa invisibilização nos convida a pensar: a mídia tem sabido falar de veganismo? Ela ao menos tem a curiosidade de conhecê-lo genuinamente e o interesse de abordá-lo como ele realmente é?

 

As reportagens visualizadas

Para verificar como a mídia tem falado da expansão vegana ao longo dos últimos anos, assisti ou li recentemente dez reportagens recentes de telejornais ou noticiários online regionais ou nacionais, datados dentre julho de 2015 e maio de 2016:

 

O “veganismo” moldado pela mídia: os pecuaristas adoram

Em todas essas matérias, a leitura nos faz acreditar que o veganismo teria as seguintes supostas características:

  • É uma espécie de religião não teísta, dotada de regras morais e costumes baseados na crença subjetiva de que os animais não humanos devem ser respeitados e que não devemos lhes causar sofrimento, tal como pregam religiões como a Igreja Adventista, o budismo, o hinduísmo e algumas correntes espíritas;
  • Nada tem a ver com dados e valores objetivos de cunho científico, filosófico e político, como a senciência dos animais, a necessidade de lhes conceder direitos básicos, o enfrentamento do especismo e das tradições de exploração animal dele derivadas, a oposição ao poder político do agronegócio e de parte da indústria alimentícia, a inspiração nos Direitos Humanos, o ideal sociopolítico da igualdade e da não violência etc.;
  • É baseado numa mera subjetividade moral, na crença individual de que é “melhor” e “sugerível” o sujeito ter respeito pelos animais não humanos. E mesmo a palavra “respeito” aqui não tem uma definição clara e objetiva, podendo assim ser interpretada como a pessoa bem quiser. Assim sendo, a adesão a essa crença é opcional e ela pode ser livremente rejeitada, sem nenhum prejuízo concreto a terceiros, por quem tem crenças diferentes;
  • Está muito mais próximo da religião e do dogma do que da política e da filosofia ética racional;
  • Embora seja justificado pelo respeito “religioso” aos animais, também tem excelentes benefícios para o indivíduo vegano: purificação corporal e espiritual, paz e elevação de espírito, sentir-se bem consigo mesmo, consciência moral mais leve, identificação com um grupo social “especial”, novos amigos, sensação de superioridade e saúde de ferro (afinal, segundo a imprensa deixa a entender, todo vegano é adepto de uma alimentação impecavelmente saudável e raramente ou nunca consome junk-food e industrializados). Com isso, a pessoa pode ser “vegana” apenas em benefício de si mesma, não necessariamente por respeito aos animais;
  • É uma moda. É a moda do momento. Está em alta hoje, mas pode não estar mais amanhã;
  • É ao mesmo tempo um estilo de vida e uma filosofia de vida. Afinal, é feito para o bem-estar do indivíduo, traz crenças morais que o fazem se sentir bem e lhe imputa uma série de gostos específicos de vestuário, música, alimentação, hobbies, lazer, esportes, espiritualidade, trabalho, socialização, turismo etc.
  • Adota como público-alvo, por essência, a juventude branca universitária ou empreendedora de classe média, ainda que algumas poucas pessoas de baixa renda tentem adaptá-lo para quem não tem um poder aquisitivo elevado;
  • É uma imperdível oportunidade de negócio, um nicho de mercado, uma chance de ganhar muito dinheiro e ficar rico. Afinal, não é sobre os animais e a ética, mas sim o bem-estar individual, o empreendedorismo, o lucro, o enriquecimento pessoal e a manutenção das engrenagens capitalistas;
  • É meramente um hábito de consumo baseado num estilo de vida juvenil e descolado. Tudo o que o vegano precisa para exercer o veganismo é consumir apenas produtos que não levam nada de origem animal nem são testados em animais, além de abraçar seu lifestyle. Boicotar rodeios, zoológicos, cavalgadas, aquários, circos com animais etc. e defender os Direitos Animais são simples opções pessoais;
  • Ser um vegano ético é algo totalmente opcional. Basta que a pessoa adote a crença moral-religiosa no “respeito” individual aos animais, siga um estilo de vida pré-determinado, consuma determinados produtos e se torne mais feliz. Se o vegano em questão quiser continuar sendo machista e misógino, racista, gordofóbico, elitista e pauperofóbico, heterossexista, transfóbico, intolerante-religioso, capacitista, xenófobo, misantropo e também especista, não tem problema nenhum;
  • A luta pela abolição do especismo e da exploração animal está em último lugar, a tal ponto que nem precisa ser mencionada.

Em poucas palavras, é algo que nada tem a ver com a definição ética original do veganismo.

Nem com a necessidade da conscientização, o enfrentamento aos exploradores de animais, os objetivos políticos de abolir as crenças e costumes especistas e consolidar o reconhecimento e prática dos Direitos Animais, a igualdade moral nivelada por cima entre animais humanos e não humanos.

É algo despolitizado e individualizado, apenas um lifestyle descolado de viés espiritualista e capitalista.

Está moldado sob medida para não incomodar pecuaristas, granjeiros, pescadores, executivos da indústria lacto-frigorífica, donos de zoológicos e aquários, empresários e organizadores de rodeios e vaquejadas e outros capitalistas que lucram com a objetificação e servidão dos animais. Ou seja, é o típico veganismo que pecuarista gosta.

 

A imprensa não está interessada em aprender e ensinar corretamente o que é o veganismo

Fica muito claro que a mídia brasileira – assim como provavelmente a de muitos outros países – não sabe o que é veganismo.

Não compreende no que consiste a prática da consciência vegana, da ética animal, da defesa plena dos Direitos Animais, do enfrentamento ao especismo e à exploração animal.

Nem quer saber, para dizer a verdade. Os anos têm passado, e nenhum veículo de comunicação tem se dignado a ser a exceção e mostrar a verdadeira essência do veganismo.

Essa atitude é fundamentada nos interesses políticos e econômicos dos anunciantes desses conglomerados de comunicação de massa – e, em muitos casos, dos próprios donos destes, que são ao mesmo tempo empresários da comunicação e “proprietários” de rebanhos e granjas.

Eles jamais irão permitir que seus contratados ou subordinados lhes afrontem o interesse de continuar lucrando com a miséria dos animais não humanos. É de praxe que o empresariado e as bancadas legislativas que lhes são aliadas exijam da imprensa o boicote a ideias que façam os leitores, telespectadores e ouvintes pensarem e questionarem a ordem vigente.

Afinal, é essa ordem que permite a esses empresários e políticos que continuem lucrando e mantendo-se ricos. Se ela for fortemente enfrentada e derrubada, eles perderão seus privilégios de membros da elite regional, nacional ou internacional.

Nesse contexto, os Direitos Animais, por meio da prática do veganismo, são uma das correntes de contestação que vêm desafiar a hegemonia ideológica, política e econômica dessas elites.

 

Considerações finais

É por isso que, enquanto não conseguirmos a vitória da democratização da mídia, não veremos de maneira nenhuma essa imprensa portadora e defensora de interesses privados divulgar o que o veganismo realmente é e por quais ideais ele luta.

Só veremos mais do mesmo desse “veganismo que pecuarista gosta”, juntamente com reportagens que difamam movimentos sociais, protegem políticos e empresários criminosos e manipulam ideologicamente a opinião pública para prendê-la no credo político conservador e pró-capitalista.

Então sejamos realistas: não esperemos do jornalismo mainstream reportagens com qualidade que ensinem a população não vegana sobre a natureza e as posições éticas e políticas do veganismo e dos Direitos Animais.

Sejamos nós mesmos a mídia conscientizadora que esses telejornais e portais não são nem querem ser. Afinal, salvo se a sonhada democratização da comunicação de massa for conquistada, a revolução vegano-abolicionista não será televisionada. Nem noticiada online.

Robson Fernando de Souza
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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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2 Comments on “Como a mídia brasileira tem abordado o veganismo e seu crescimento?

  1. Esse texto refletiu o que sinto toda vez que vejo o veganismo ser abordado na grande mídia, seja na TV ou na internet.
    As vezes que vi, o veganismo não foi abordado, como já dito, como uma tendência com cunho ético e político, não eram mostrados dados e nem os motivos de o veganismo estar crescendo (que é o sofrimento animal e as questões ambientais, no geral).
    Realmente abordam como se fosse uma dieta da moda, como se seus adeptos fossem poucos e, de certa forma, privilegiados.

  2. Pingback: Algumas verdades sobre a formação de opiniões pela mídia

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