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Muitas pessoas consideram normal que se comercialize animais domésticos, desde cães e gatos até aqueles animais que não deveriam estar em nenhuma casa, como os aprisionados em gaiolas e aquários. Justificam isso com afirmações como “Eu comprei meu cachorro mas eu o trato como um filho!” ou “Não, eu não o trato como uma mercadoria, embora eu o tenha comprado num pet-shop”.

Estranha-se quando o abolicionismo afirma que comprar e vender animais é um atentado à ética, aos Direitos Animais, e por isso deveria ser proibido por lei. Por isso, é necessário fazer uma síntese do porquê de ser antiético comercializar animais não humanos.

Há dois tipos de razões para essa consideração contrária ao comércio de seres sencientes: a questão ético-filosófica e a questão prática, consequencial.

A Ética é enfática: comprar e vender cães, gatos, pássaros, roedores etc. é tão errado quanto fazer o mesmo com seres humanos. Esse comércio acontece única e exclusivamente porque aos animais não humanos são designadas “utilidades”, “funções” que dizem respeito a interesses unicamente humanos, nunca aos interesses e necessidades dos animais objetos da prática.

E essas “utilidades” hoje em dia caracterizam crime quando são impostas a seres humanos, e também contrariam diretamente os interesses dos animais vitimados e lhes causam consequências negativas patentes.

Isso tem como base a premissa especista de que os animais não humanos podem ser subjugados ao atributo de objetos vivos sob propriedade humana, e por isso podem ser comercializados e usados de acordo com as necessidades dos seus senhores.

Em outras palavras, os animais são comercializados porque são tratados como objetos utilitários e, como tal, podem ser barganhados como mercadorias. Seu valor em dinheiro estampa sua “utilidade”. E nisso até mesmo a companhia afetiva a uma pessoa se torna uma “função” do animal comprado.

Em relação à questão da compra de companhia, muitas pessoas não acreditam que trataram um cão, gato ou animal prisioneiro como mercadoria nem lhes atribuíram explícita e conscientemente uma utilidade – a de prover afeto e companhia. Mas a realidade é que, mesmo sem consciência disso, elas fizeram uma barganha fundamentada em dar ao animal, em troca de dinheiro, uma serventia utilitária que atende a interesses unilaterais. E jamais fariam isso a um ser humano.

Não compraram o animal necessariamente para fazê-lo viver com dignidade, salvá-lo de uma condição de penúria e permitir-lhe saciar os interesses próprios de si mesmo. Mas sim para terem – no sentido de possuir – um companheiro fiel. Para satisfazerem eventuais carências familiares e afetivas, desejos pessoais e/ou necessidades práticas – como evitar que um ladrão assalte bem-sucedidamente a casa.

É bastante diferente da adoção, em que, tanto quanto na adoção de crianças humanas, há a satisfação de interesses das duas partes – do adotado, que é salvo de sofrer e morrer nas ruas ou sob o jugo de um mau tutor, ganha companhias com quem ele pode contar inclusive afetivamente, recebe a proteção do lar e dos tutores, acede ao direito de satisfazer necessidades fisiológicas regularmente e sem ameaças potenciais etc., e dos adotantes, que satisfazem seus desejos de uma nova companhia afetiva e um novo membro da família.

Na verdade também há necessidades próprias do filhote comprado, como as fisiológicas e sociais, mas, em última análise, elas foram apenas artificialmente trazidas à existência, junto à vida do animal. Isso porque, se não houvesse o interesse lucrativo do criador comercial, esse filhote e, por tabela, suas demandas como animal não teriam começado a existir.

Além disso, é fácil deduzir que, já que o fluxo de interesses a priori na compra, diferentemente da adoção, é de mão única e não dupla, há muito mais chances de um animal comprado ser negligenciado e/ou abandonado do que um adotado. Porque muitas pessoas, ao “adquirirem” o animal via comércio, o veem literalmente como um objeto utilitário, que “serve” para brincar, lhes fazer companhia e aliviar as necessidades afetivas. Afinal, comprou-o não para lhe dar uma vida digna, mas sim por uma satisfação unilateral.

Nisso, quando ele começa a se manifestar indisposto a se socializar com o tutor como antes, ou quando envelhece, ou quando o tutor remediou de outras formas a carência afetiva de que sofria (como arranjando um par romântico, tendo filhos ou comprando outro animal “preferido”), o animal doméstico pode passar a ser tratado com negligência e desatenção e muitas vezes chega ao cúmulo de ser abandonado, já que perdeu a serventia originalmente designada pelo tutor. Da mesma forma, ele é deixado para trás quando o tutor se muda e percebe que o animal não terá mais qualquer “utilidade” no novo lar.

Isso, aliás, já é um motivo prático/consequencial da cultura da comercialização de vidas sencientes. Soma-se ao fato de que só existe comércio de animais em pet-shops, canis, gatis e feiras de filhotes porque há uma indústria de vidas por trás. E esta é implacável tanto com as fêmeas reprodutoras como com os seus filhos.

As fêmeas são obrigadas a engravidar constantemente, de modo a “produzir” o máximo possível de “mercadorias” para os seus criadores venderem. Nesse forçamento de gestações, há a indução ao estupro das cadelas, gatas e outras fêmeas por animais machos. E, do tanto que dão de mamar, já que dão à luz muitas vezes ao longo da vida, suas tetas murcham muito ou mesmo contraem abcessos. Quando já não têm forças para continuar se reproduzindo, são mortas. E a vida de mães e filhotes (antes destes serem levados aos pet-shops e feiras) é marcada pelo aprisionamento em espaços pequenos e lotados. Há muitas vezes, inclusive, a desmama forçada dos pequeninos, levados à venda com idade muito tenra.

E outro detalhe é que, para cada cão ou gato comprado, um outro cão ou gato deixa de ser salvo da vida de abandono nas ruas. A compra de vidas evita que sejam satisfeitos ao mesmo tempo os interesses de dois animais (o não humano e o humano), para que apenas os de um o sejam.

Isso mostra por que há objeções éticas muito fortes no ato de tratar animais como mercadorias e a proibição da sua comercialização é uma demanda imperativa. Portanto, a tradicional máxima “Não compre, adote!” deve ser levada a sério o máximo possível.

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5 comments

  1. Creio que a cultura da compra de animais de estimação possa ser mudada por meio da conscientização da sociedade. E para que isso aconteça é necessário algumas medidas iniciais tais como educação infanto juvenil sobre direitos animais e proibição de criadores e pet shops que comercializem tais animais.
    Esse talvez fosse um princípio para se mudar a realidade dos muitos animais abandonados à própria sorte nas ruas e, principalmente, mudar o olhar sobre estes seres que não são mercadorias, objetos descartáveis ou algo semelhante.
    São seres sencientes e merecem ser tratado com dignidade e respeito.

  2. Discordo bastante quando diz que animais comprados são mais negligenciados do que os adotados. Tenho um gato que comprei e outra que adotei. Trato os dois da mesma forma, amo os dois da mesma forma. Mas não acho que todos têm essa capacidade de perceber que há tantos animas na rua precisando de um lar…e acabam comprando o animal como um status de acordo com a reça. Enfim, bom texto, mas quero deixar claro que quando um animal é comprado por um dono que tem consciência de da ao animal tudo o que ele precisa, não sou contra não.

  3. PERFEITO…
    Disse tudo que penso, sinto e muito mais.
    Não consigo entender porque supostos protetores e ativistas podem ser favoráveis a venda de animais, para mim eles podem ser criados em uma mansão de luxo ou em um casebre fétido a idéia é a mesma LUCRO.

    Para mim não existe criadores sérios (autorizados por ter dinheiro) existe gigolôs e cafetinas de animais, que são usados até não terem mais forças ai são jogados fora. Não estou falando isso porque ouvi isso nas Redes sociais, já ajudei a tirar animais das mãos de gigolôs de luxo, que iriam assassiná-los porque não nasceram conforme a especificação da raça. Não aceitavam nem doar, para não “macular” o (In)digno nome do gatil

    Será que aquele animal que está em uma gaiola minúscula em um pet shopping de luxo a venda a preço de “ouro” é diferente do animal que está em um “criadouro clandestino”?
    Antigamente quando entrava em um pet desses, eu sonhava em comprar todos os animais, hoje não tenho mais essa ilusão, pois mesmo que tivesse dinheiro para isso no outro dias outros estariam lá sendo usados.
    Me comprometi a lutar contra toda a venda de animais, domésticos ou não, a luta é fácil? Claro que não se fosse fácil já teria acabado.
    Não me diga que é protetor ou ativista se é conivente com isso por ter amigos ou seja lá o que for nesse “negócio”, pois é um negócio por sinal bem rentável.

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