A real intenção dos carnistas quando tentam provar a existência da senciência vegetal

Temos nos deparado, numa relevante frequência, com alegações de carnistas e notícias manipuladas na imprensa sobre supostas evidências, ou mesmo “provas”, de que plantas teriam senciência, emoções e inteligência. Mas ao contrário do que pode parecer para quem desconhece os debates entre veganos e carnistas, a intenção desses clamores não é nada altruísta e extensora da ética humana, muito pelo contrário.

Desconhecedores da natureza do carnismo podem pensar que os “defensores da senciência vegetal” pretendem ampliar a consideração moral vegana e lançar a proposta séria de reconhecer direitos fundamentais a indivíduos vegetais. Mas quando se conhece o carnismo como ideologia reacionária antivegana, obtém-se a conclusão de que o propósito dos carnistas é exatamente o oposto: é invalidar os parâmetros morais dos Direitos Animais e abrir as portas da ética para a aceitação da exploração animal.

Quando um carnista defende que plantas “sentem dor”, ele quer dizer que os veganos estão sendo “hipócritas” e “seletivos” em sua defesa dos direitos dos seres sencientes. Está tentando construir uma ideia que tenta implodir o sentido do veganismo e eliminar o problema ético do consumo de produtos de origem animal.

Segundo essa ideia, se vegetais (e, por tabela, fungos e algas) possuem senciência e interesses como viver o máximo possível e preservar a integridade física, todos os seres vivos dos quais os seres humanos se alimentam os têm, e portanto é inevitável e inescapável consumir seres sencientes. Logo, os parâmetros morais da senciência e dos interesses individuais, caros à ética vegana, se tornam impossíveis de serem aplicados como não consumo de seres interessados em não sofrer nem morrer. E daí, com o veganismo se tornando impraticável, os seus argumentos éticos são inviabilizados e assim invalidados, e com isso não há mais impedimento ético nenhum para se (voltar a) consumir animais e suas secreções.

Ou seja, o argumento da “senciência vegetal” serve como maneira de desmoralizar os vegano-abolicionistas, limpar a barra do consumo de produtos de origem animal e salvar a pecuária e a pesca da criminalização ética. Seu propósito não é expandir o círculo moral humano, mas sim diminuí-lo, retrocedê-lo, de modo que ele volte a abranger apenas (alguns) seres humanos. É favorecer os interesses privados dos apaixonados por carne e churrasco, dos criadores de animais para consumo e dos empresários da pesca.

A “defesa das plantas” por carnistas é interesseira e antialtruísta. Mas não é “só” isso: também é intelectualmente desonesta e fantasiosa. Tenta forçar uma “revelação científica“ que nunca foi reconhecida pelos biólogos sérios: segundo muitos carnistas, a ciência “já reconhece” a consciência, a sensibilidade à dor, a capacidade de sofrer, as emoções e as vontades individuais (maliciosamente) atribuídas aos vegetais.

Mas todas as “evidências” ou “provas” desse falso reconhecimento vêm de manipulações dos resultados de estudos de Biologia Vegetal sobre a complexidade do organismo vegetal e alegações pseudocientíficas que não foram respaldadas pela comunidade científica. Em algumas vezes, os carnistas tentam converter capacidades complexas, como a intercomunicação, as reações bioquímicas a estímulos físicos representadores de ameaça e outras capacidades adquiridas com a evolução, em supostos indícios de sofrimento, de inteligência e de expressão de vontades próprias. E nas outras, baseiam-se em experimentos desprovidos de confiabilidade, como o refutado estudo de Cleve Backster sobre percepção vegetal.

É muito visível também que os carnistas ignoram que, se a senciência vegetal tivesse sido realmente comprovada e confirmada por revisões de pares e reproduções dos experimentos descobridores, já teria havido uma revolução na Biologia e na maneira como a Ciência e os seres humanos veem a vida vegetal. As experiências que tivessem descoberto e confirmado a senciência e inteligência das plantas teriam sido amplamente reconhecidas pela comunidade científica e divulgadas em livros de Biologia e História da Biologia, tal como os experimentos de Louis Pasteur e Gregor Mendel e os estudos de Charles Darwin. Não ficariam relegadas à obscuridade nem dependentes da interesseira e inconfiável exegese carnista.

Os carnistas estão longe de obter o êxito em suas tentativas de comprovar que plantas são seres sencientes, inteligentes e dotados do claro interesse de continuarem vivos e inteiros. Mas já conseguiram algo: serem desmascarados em sua falsa “defesa vegetal” e terem sua desonestidade intelectual e seus interesses escusos cada vez mais denunciados. Fica clara a necessidade de mostrarmos ao máximo possível de pessoas que a intenção deles quando falam de “plantas sencientes” não é diminuir a carga de sofrimento no mundo, mas sim aumentá-la ainda mais e beneficiarem-se com isso. É usar o argumento do “sofrimento vegetal” para causar cada vez mais sofrimento animal.

Robson Fernando de Souza
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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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9 Comments on “A real intenção dos carnistas quando tentam provar a existência da senciência vegetal

  1. Brilhante! Finalmente uma colocação inteligente quanto a essa táo estranha preocupação e argumentação de defesa da vida vegetal por quem não tem consciência da covardia de quem mata (direta ou indiretamente) para comer…

  2. Faltou um ponto importante que nós não podemos deixar de fora quando surge esse argumento tosco da “senciência das plantas”, Robson:

    O fato de que, mesmo que elas fossem sencientes, ainda faria todo sentido sermos veganos, já que a grande maioria das plantações são direcionadas ao consumo do gado de corte. Além é claro, de todo o impacto ambiental atrelado à indústria pecuária.

    • Pedro, não preocupei tanto em trazer contra-argumentos, mas sim em focar diretamente e analisar o argumento deles. Contra-argumentos como esse viriam num texto que contra-argumentasse em resposta.

  3. Muito bom o texto!

    De qualquer forma, sendo ou não os vegetais seres sencientes, nós reduzimos em muito o sofrimento dos seres em geral ao nos alimentarmos diretamente dos vegetais, ao invés de nos alimentarmos de seres que se alimentaram a vida toda de vegetais.

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