Antiveganos “de esquerda”: o despertar do reacionarismo dentro de quem diz defender igualdade e justiça social

Exploração humana: totalmente contra. Exploração animal: totalmente a favor.

Editado em 21/03/2017 às 07h45

Obs.: Este texto se refere a antiveganos, pessoas que são contrárias ao veganismo, e não a pessoas não veganas em geral, muitas das quais têm alguma curiosidade e simpatia pela causa vegano-abolicionista.

Se você é uma pessoa vegana de esquerda, experimente o seguinte.

Fale a um colega seu, que se diga de esquerda, mas tenha pé atrás com o veganismo, sobre o especismo e por que você tem convicção de que o veganismo é mais ético do que o consumo não vegano.

O que você provavelmente ouvirá ou lerá, é uma atitude negativa muito comum, que eu comento aqui, entre a esquerda não vegana – pelo menos a brasileira.

 


Despertando o reacionário que há dentro dos defensores da equidade e justiça social que não simpatizam com o veganismo

Revolucionário quando fala de libertação humana. Reacionário quando ouve falar de libertação animal.

O que você terá presenciado é seu colega sendo reacionário, defensor da desigualdade moral e adepto da mais profunda injustiça, perante o tema dos Direitos Animais e do veganismo.

Ou seja, quando têm seus próprios privilégios – de consumir produtos de origem animal podendo escolher o que compra – apontados, pessoas assim abandonam toda e qualquer coerência política e se tornam contraditórias ao extremo.

Não hesitam em ser, ao mesmo tempo, libertárias (de esquerda, muitas vezes do meio anarquista, não confundir com o “libertarismo” de direita) para com seres humanos e ultraconservadoras para com os animais não humanos. Ou seja, seletivas e também hipócritas em suas bandeiras, tanto quanto pessoas assumidamente reacionárias de direita.

Nem têm o mínimo de pudor em defender abertamente o consumo de produtos de origem animal como um “direito”, ou uma “liberdade”, ou uma “conquista social” de pessoas que saíram da pobreza e ascenderam de classe social.

Nem em tentar justificar essa tradição com base em considerar “inferiores” os animais não humanos e reafirmar que temos o “direito” de forçá-los a nos servir vivos e mortos.

Nem em abusar das falácias no intuito de defender essa posição de violência, opressão e injustiça. Mesmo quando muitas delas são assustadoramente semelhantes com as usadas por defensores da “desigualdade natural” entre os seres humanos, da violência policial, do militarismo, do individualismo sem moderação, da negação da empatia e de formas diversas de discriminação contra minorias políticas.

 

Apontando nos veganos privilégios que também são dos próprios antiveganos…

Eu tenho o privilégio de... não ter noção de meus próprios privilégios

Eu tenho o privilégio de… não ter noção de meus próprios privilégios

A “esquerda” antivegana adora dizer, entre tantas outras falácias, que nós veganos somos “privilegiados” por motivos como:

  • podermos escolher o que vamos consumir e o que não vamos, enquanto pessoas muito pobres quase não têm essa possibilidade;
  • termos acesso amplo à informação vegano-abolicionista e tempo para lê-la, enquanto a maioria da população de baixa renda não conta com essa facilidade;
  • termos uma alimentação considerada “gourmet”, supostamente baseada em restaurantes caros e imitações veganas (salsichas, pizzas, queijos, hambúrgueres, linguiças etc.) que custam bem mais do que suas versões mais populares de origem animal;
  • sermos majoritariamente de classe média etc.

Só que essas características também são comuns entre antiveganos.

Sua oposição assumida ao veganismo também se baseia na possibilidade constante de escolher o que vão consumir, ter acesso à informação da qual podem discordar, comer em restaurantes que não são baratos, comprar marcas relativamente caras de carnes e laticínios e serem quase sempre de classe média ou média-alta.

 

…e não se interessando em convertê-los em direitos assegurados para todos

Cidadania para todos

Apesar dessa semelhança, há uma diferença fundamental entre a postura vegana e a antivegana, no que se trata a manter ou não esse atributo de privilegiados.

Nós queremos que esses “privilégios veganos” deixem de ser privilégios e se tornem algo ao qual toda a população possa ter acesso. Já os antiveganos, do alto de um individualismo que pisoteia seus alegados desejos de uma sociedade igualitária e justa, querem preservar os seus de “livres” consumidores de produtos animais.

O meio antivegano “de esquerda” não percebe que o propósito do veganismo é justamente a massificação.

A luta vegano-animalista objetiva também que os mais pobres possam:

  • Conhecer os Direitos Animais;
  • Desfrutar de uma alimentação vegetariana (livre de ingredientes de origem animal) barata e diversificada e, portanto, tenham muito mais segurança alimentar e saúde do que têm hoje;
  • Ter acesso ao consumo de produtos veganos baratos;
  • Aliar a bandeira da abolição da exploração animal à sua busca por ascensão social e pelo reconhecimento da sua dignidade;
  • Juntar o veganismo e a defesa dos Direitos Animais à luta dos movimentos sociais de causas humanas.

Afinal, só quando a população vegana – e, claro, defensora do fim do especismo – for suficientemente grande, é que a exploração animal deixará definitivamente de ser lucrativa, comercialmente vantajosa.

Além disso, reconhecemos algo que os antiveganos desse meio não querem admitir.

 

O especismo é casado com diversos flagelos que a esquerda diz querer erradicar

O documentário Carne e Osso denuncia uma parte das violações de Direitos Humanos promovidas pela exploração animal

O documentário Carne e Osso denuncia uma parte das violações de Direitos Humanos promovidas pela exploração animal

Eles não percebem ou não querem perceber: esse consumo regado a sofrimento animal é fortemente alinhado a tudo aquilo que a esquerda combate:

  • A exploração humana: Fazendas, granjas, matadouros e frigoríficos costumam submeter seus empregados a condições sub-humanas de trabalho, não raro sob regime análogo à escravidão. E a negligência dedicada à saúde deles pelos empregadores é total;
  • A destruição ambiental: A pecuária e a pesca são duas das atividades econômicas mais devastadoras para o meio ambiente no planeta. Os impactos ambientais da pecuária envolvem desmatamento (com destaque ao da Amazônia e do Cerrado), emissão de gases-estufa, desperdício de água e terras e desvio de alimentos vegetais – que poderiam alimentar seres humanos – para rebanhos. E a pesca ameaça extinguir toda a população mundial de peixes, moluscos e crustáceos “comestíveis” até 2048;
  • O genocídio de povos indígenas: latifundiários pecuaristas não hesitam em promover genocídios de povos como os Guarani-Kaiowá para lhes roubar as terras ancestrais e expandir os pastos;
  • A concentração de terras e de renda: O agronegócio tem os alimentos de origem animal como uma das maiores, senão a maior, fonte de seus lucros, por meio tanto da “produção” dos mesmos como do cultivo de monoculturas de soja e milho que são majoritariamente destinadas a alimentar rebanhos. Esses latifúndios de gado, soja e milho têm sido os maiores responsáveis pela concentração de renda e terras na zona rural brasileira;
  • O consumismo e a propaganda abusiva: Os alimentos de origem animal são alguns dos produtos mais abusivamente anunciados pela publicidade, o que inclui induzir crianças ao consumo desses produtos, subornar profissionais de saúde e comprar pesquisas “científicas” que favoreçam esses alimentos. Não é à toa que o consumo de carnes e laticínios seja hoje uma dos maiores manifestações do consumismo capitalista;
  • O próprio capitalismo: O especismo é casado com o capitalismo. A Revolução Industrial e a expansão do consumo fizeram a pecuária e a pesca se sofisticarem ao extremo e tratarem os animais “de consumo” como coisas muito pior do que já tratavam antes do advento da produção em série. E acompanhados com esse fenômeno, vieram todos os outros fatores acima mencionados.

Quando pessoas de esquerda se negam a entender e pelo menos simpatizar com o veganismo, estão glorificando tudo aquilo que dizem combater.

Estão contribuindo generosamente para que tudo continue como está: pessoas em situação de miséria e exploração trabalhista, meio ambiente minguando em destruição, capitalismo e consumismo em glória, opressão rural e urbana, genocídios, desigualdades sociais crescentes, política ditada por interesses privados etc.

E o pior: quando tentam justificar seus valores morais especistas, estão apertando a mão até da extrema-direita, ao dividirem o universo de seres sencientes em seres “superiores” e “inferiores”, defenderem extermínios em massa dos “inferiores”, colocarem o interesse egoísta acima da dignidade do outro, negarem qualquer misericórdia pelos mais vulneráveis etc.

 

O que fazer em relação a quem é de esquerda para seres humanos mas reacionário para outros animais

Lá lá lá lá lá, não estou ouvindo!

Lá lá lá lá lá, não estou ouvindo! – a postura de muitos antiveganos de esquerda quando são respondidos com o desmonte de seus argumentos

Fica muito evidente que pessoas de esquerda que dedicam descaso moral e especismo aos animais não humanos caem em contradições éticas muito graves com aquelas bandeiras sociais e políticas que defendem – ou dizem defender.

Eu gostaria muito de dizer a essas pessoas o quanto elas estão sendo contraditórias e, a cada refeição não vegetariana que fazem, jogam na fogueira mais e mais do senso humanitário e empático que dizem ter.

Mas infelizmente a parcela expressamente antivegana parece ser simplesmente intransigente, fechada ao debate, disposta apenas a depreciar – muitas vezes gratuitamente – o veganismo de outras pessoas.

A solução que eu vejo, sobre como nós veganos podemos lidar com isso, é sempre responder, com conteúdo de qualidade e embasado em boas fontes e fatos, quando antiveganos da “esquerda que a direita gosta” implicarem conosco.

Esperemos que, a partir da refutação das falácias antiveganas, aquelas pessoas não veganas que só precisam de informação para refletirem passem a pensar nas contradições entre ser ao mesmo tempo de esquerda e especista.

E que os opositores assumidos do veganismo fiquem cada vez mais constrangidos de tentar manter uma posição que se mostra cada vez mais insustentável e deixa as coisas mais e mais feias para eles.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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13 Comments on “Antiveganos “de esquerda”: o despertar do reacionarismo dentro de quem diz defender igualdade e justiça social

  1. Infelizmente a cultura impregnada pelas religiões, politica, artes, filosofias é a da supremacia humana sobre todas as espécies, sobre todos os elementos da natureza, Dou a sorte de conviver com vegetarianos e veganos que também são da esquerda. Mas o artigo traz uma ótima reflexão para aqueles que defendem liberdade e igualdade mas caem na vala comum do especificismo, da visão estreita e extrativista da nossa raça!

  2. A luta pela democracia também surgiu na classe burguesa e se espalhou pelo mundo por meio dos filhos dos burgueses que iam estudar na Europa.
    Os muito pobres sabem pouco o suficiente para acreditarem que as coisas são como são e os muito ricos tem o suficiente para quererem que as coisas continuem como estão. Só a burguesia, nem morta de fome nem satisfeita, tenta mudar o mundo.

    • “Só a burguesia, nem morta de fome nem satisfeita, tenta mudar o mundo.” – A burguesia ou a classe média? E em quais países a burguesia seria a protagonista de lutas sociais progressistas?

      • Não sei se hoje o termo burguesia se aplica corretamente.
        Seria hoje a classe média. As pessoas que adotam o veganismo tanto no Brasil como no exterior, são em sua maioria desta classe mesmo.

  3. Robson, se usei os termos incorretamente me desculpe, mas saiba que quando li seu comentário repetindo minha frase e questionando, senti no tom do questionamento que claro não era uma dúvida verdadeira, pois vc deve entender muito mais de movimentos sociais do que eu, e sim aquele tipo de pergunta que fazemos quando ouvimos alguém dizer algo que consideramos descabido. Bastava ter me corrigido.
    Meu comentário pode não ter sido feliz, mas apenas comentei pois gostei de ler o texto, voltando ao site agora me senti mal com seu pedido de explicação. Quando apenas elogio você é bem mais receptivo.

    • Simone, lamento que tenha reagido assim quando eu perguntei a você se a “burguesia” correspondia ao patronato ou à classe média e em quais países a burguesia empresarial lutou por mudanças progressistas pros mais pobres. Lamento porque gosto de questionar as pessoas e suas ideias, quando se diferem das minhas – muitas vezes pra conhecer melhor essas ideias diferentes.

    • Pode crer, essa pergunta é difícil de responder. Nem eu sei a resposta prontamente =P

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