Ao contrário do que algumas empresas dizem, bem-estarismo não tem nada a ver com consciência ambiental

Em julho passado, encontrei num Carrefour do ABC Paulista um cartaz, da época da Semana do Meio Ambiente (primeira semana de junho), que falava de um selo de Garantia de Origem. Esse selo, dedicado à sustentabilidade empresarial da rede de supermercados, afirma garantir a origem ecoamigável de diversos produtos ali comercializados. E entre as características pró-sustentáveis que se diz que tais itens possuem, está que eles “preservam (sic) o bem-estar animal”. Ao Carrefour, permita-me discordar dessa relação entre bem-estarismo e sustentabilidade.

Como tenho argumentado em alguns artigos (como esse e esse), explorar animais é por si só uma atitude antiecológica, uma vez que agride a parcela senciente da Natureza, aquela parte que tem o pleno interesse de continuar viva. Matar animais para consumo em matadouros não é menos antiecológico do que provocar mortandades por poluição e desmatamento, já que em ambos os casos são “filhas e filhos de Gaia” sendo mortos sem o mínimo de necessidade para a sobrevivência humana.

Algumas pessoas podem alegar que o bem-estarismo seria “mancomunado” com o ideal da sustentabilidade porque advoga em favor de fazendas e granjas orgânicas, que não promovam confinamento dos animais em gaiolas ou baias, não usem hormônios e antibióticos sintéticos e promovam uma gestão agroambiental da propriedade. Mas mesmo essa iniciativa tem limites.

A pecuária e a pesca só conseguem abastecer com fartura uma população humana tão numerosa porque tem sido realizada em espaços cada vez mais densos por meio de criações intensivas e pesca industrial em grande escala. E também por causa da destinação massiva de grãos vindos de plantações latifundiárias para a alimentação animal em fazendas e granjas industriais e tanques de aquicultura.

Pensar na possibilidade de “sustentabilizar” essas atividades de exploração animal é ignorar o dilema dos exploradores: como será possível continuar “alimentando” um mercado consumidor onívoro tão grande – e crescente em países emergentes, ainda por cima – diminuindo o número de animais “criados” por hectare e o rendimento de carne, leite e ovos por hectare de terra por ano e correndo o risco de diminuir a oferta de alimentos de origem animal e torná-los “iguarias gourmet”?

E, sobretudo, nenhuma medida bem-estarista e sustentabilista eliminará o ônus ético de se tratar animais como coisas ou “semimáquinas” e matá-los pisando em cima de sua vontade de continuarem vivos e fisicamente íntegros. Cai-se aqui, novamente, no delito ético de agredir a Natureza ferindo sua parcela senciente e interessada em permanecer viva.

Podemos considerar, assim, que usar o zelo ao bem-estarismo como “certificado de sustentabilidade” é uma balela. Consentir que explorem animais “com carinho” não implica um respeito maior ao meio ambiente e à vida na Terra.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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