12 argumentos em que antiveganos “de esquerda” se igualam aos reacionários da direita

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O antiveganismo é um preconceito cada vez mais repudiado, até mesmo pelos próprios não veganos.

Só que ele continua forte entre muitas pessoas com as mais diversas posições e opiniões políticas – da direita mais reacionária à esquerda que mais se diz “revolucionária” e “radical”.

Nesse contexto, algo muito curioso acontece: os antiveganos que se dizem “de esquerda” partilham da mesma atitude de preconceito e zombaria contra o veganismo e os Direitos Animais que os direitistas não veganos. Ambos se colocam com uma posição conservadora e autoritária, quando não ultraconservadora e supremacista, em se tratando de desprezar os animais não humanos e o impacto ambiental da exploração animal.

E o pior: costumam utilizar os mesmos argumentos. É assim que pessoas de esquerda que se autorrotulam como “revolucionárias” e “sonhadoras” na defesa de um mundo melhor para os humanos acabam se comportando de maneira reacionária e, assim, inviabilizando esse futuro dos sonhos que dizem defender e conservando uma ordem de desigualdade moral, violências, injustiças e destruição ambiental.

Convido você a conhecer melhor uma parte do que essas pessoas costumam argumentar contra o veganismo e a defesa dos Direitos animais e a saber como responder o preconceito delas. Leia, logo a seguir, a refutação de 12 argumentos que elas usam de maneira absurdamente semelhante aos conservadores de direita.

 

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1. “Vegans fazem muito mimimi sobre a alimentação alheia.”

O que para antiveganos é “mimimi”, para nós vegans é uma séria e madura preocupação com os impactos éticos da alimentação humana. Ao contrário do que eles acreditam, o que o ser humano come e bebe possui um pesado impacto na vida animal e no meio ambiente como um todo que não pode mais ser ignorado.

É curioso também perceber que essa reclamação pode ela mesma ser considerada um “mimimi”. Afinal, ela comete exatamente aquilo que eles apontam falsamente nos veganos: irracionalidade, atitude fanática, tentativa de controlar o comportamento alheio (por tentar restringir a liberdade dos veganos de defender um consumo mais ético) e reação emocionalmente desequilibrada.

 

2. “Esses veganos querem posar de melhores do que quem não pensa igual a eles.”

Esse argumento é uma falácia do espantalho, ou seja, atribui ao opositor uma característica criticável que na verdade não existe e o critica com base nela.

Isso porque os veganos não querem “posar de melhores do que os outros”, mas sim defender o respeito aos animais, a abolição do especismo e mudanças nos hábitos de consumo das pessoas – assim como pessoas de esquerda defendem o fim das desigualdades sociais e o combate ao preconceito contra minorias políticas humanas.

Se fôssemos estender essa lógica preconceituosa a outras questões políticas, os próprios antiveganos “de esquerda” em questão estariam “querendo posar de melhores do que quem pensa diferente” sempre que defendessem pautas progressistas e mudanças sociais, econômicas e políticas que desagradassem os conservadores.

 

3. “Veganos são iguaizinhos a religiosos fanáticos.”

Mais uma vez, o que fazemos é defender um mundo melhor sem especismo, sem exploração animal e sem a destruição ambiental resultante dessa tradição, e não pregar um sistema de crenças sobrenaturais, subjetivas e extremistas cuja rejeição seria penalizada com intolerância e violência.

O que é evidenciado quando antiveganos argumentam isso é que o que está mais próximo do fanatismo religioso não é o veganismo, mas sim o próprio antiveganismo. Isso porque há muitas semelhanças entre ser um antivegano e um religioso fanático, como a intolerância contra a ideia divergente e seus defensores, o apego desequilibradamente emocional a determinadas crenças e hábitos, a persistência irracional em crenças já refutadas e o tratamento injustificável da ideologia combatida como algo “maligno”.

 

4. “Vegans defendem os animaizinhos enquanto andam de carro, usam computador e tomam remédios, coisas que também matam animais.”

Essa é outra falácia, a exigência de perfeição, que exige que um sistema de crenças ou ideologia seja perfeito e à prova de exceções para ser considerado válido e aceitável.

Esse argumento ignora que o veganismo, desde sua definição oficial (dada pela Vegan Society do Reino Unido), é um modo de vida que se vivencia na medida do possível e praticável. Ou seja, se o vegano não pode boicotar remédios e meios de transporte que usam pneus nem abrir mão de eletricidade produzida em hidrelétricas cujas turbinas matam peixes, tudo bem, ele não deixa de ser vegano por conta dessa incapacidade.

Aliás, essa lógica poderia ser usada para desmerecer a posição política desses antiveganos. Segundo ela, se eles não são perfeitamente de esquerda, uma vez que são conservadores para com os animais não humanos, então eles não poderiam defender nenhuma pauta progressista nem sonhar com um mundo melhor para os humanos, já que estariam sendo hipócritas. E se utilizam produtos fabricados por empresas capitalistas, então não poderiam criticar o capitalismo.

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5. “Como carne porque o ser humano precisa de carne, mata para não morrer e é o topo da cadeia alimentar.”

Aqui temos três argumentos antiveganos em um. Eis as respostas respectivas:

  • Se o ser humano precisasse de carne, não existiriam vegans e vegetarianos saudáveis, e tampouco a alimentação vegetariana, livre de componentes animais, estaria sendo aprovada e defendida por entidades nacionais de saúde de diversos países, como o Brasil (p. 84), os Estados Unidos, o Canadá, o Reino Unido e a Austrália;
  • A grande maioria dos não veganos – entre eles a maioria dos antiveganos – nunca caçaram, pescaram ou assassinaram em matadouros os animais que comem. São os pescadores e os funcionários de matadouros que fazem todo o trabalho sujo para os consumidores. Além disso, ninguém mais nas sociedades modernas precisa matar e comer animais para sobreviver, salvo em situações muito excepcionais. E se ainda fosse preciso hoje matar para sobreviver, não haveria nenhum vegano e vegetariano vivo por pouco mais que alguns dias;
  • Os seres humanos pertencem a milhares de cadeias alimentares, uma para cada alimento que consome, e todas elas foram criadas e são mantidas por outros seres humanos. E é perfeitamente possível os humanos deixarem de ser consumidores secundários ou terciários (os que comem outros animais) para se tornarem apenas consumidores primários (que comem as plantas produtoras de nutrientes), sem que sua saúde e nutrição sejam comprometidas.

 

6. “Veganos são uns justiceiros sociais ridículos.”

Existe um ramo de indivíduos de esquerda (na maioria dos casos “liberais de esquerda” e socialistas autoritários) que possuem um ranço por movimentos sociais que não se comportam como eles desejam.

Por exemplo, detestam feministas que argumentam que “todo homem é machista”, são ressentidos com quem defende que apenas pessoas não brancas têm a capacidade de falar plenamente de como combater o racismo e odeiam os veganos porque estes causam incômodo em quem não quer eliminar os produtos animais de seus hábitos de consumo. Tacham essas pessoas de social justice warriors, ou “justiceiros sociais”. E curiosamente compartilham da mesma aversão a essas pessoas com conservadores e liberais de direita.

Uma boa resposta a essa acusação de sermos “justiceiros sociais” é perguntar ao acusador como seria um “bom vegano” – ou seja, um “vegano não justiceiro social”. Indague se um vegano “não justiceiro social” seria aquele que aceita o especismo e obedece a quem não tem paciência com o veganismo. Outra retrucação é apontar que essa atitude é uma falácia de desqualificação pessoal, também conhecida como ad hominem, que ataca o argumentador ao invés do argumento.

 

7. “Vegans vivem defendendo os animaizinhos enquanto comem soja que vem de desmatamento.”

Esse é outro caso de falácia do espantalho, porque coloca os veganos como maiores consumidores da soja produzida em latifúndios que desmatam.

Nada mais falso, uma vez que é a alimentação de rebanhos que recebe 80% de toda a proteína da soja produzida nessas plantações. Além disso, a maioria dos consumidores de derivados de soja são pessoas não veganas adeptas de alimentação saudável. E muitos veganos, talvez a maioria, não consomem soja regularmente.

Ou seja, quem contribui mais para o desmatamento causado pelos latifúndios de soja são os próprios consumidores de produtos animais, entre eles os antiveganos.

 

8. “Vegans ficam defendendo bichinhos enquanto tem criança por aí passando fome.”

Esse é outro argumento falacioso: a falsa dicotomia. Determina falsamente que só se pode defender ou animais não humanos ou crianças famintas, uma opção excluindo a outra, quando na verdade muitos defensores animais também dão importantes contribuições para salvar crianças da fome e da miséria.

O curioso nesse argumento, aliás, é que a grande maioria de quem argumenta isso não dá a mínima para crianças famintas. Mesmo no caso de antiveganos que se rotulam como “de esquerda”, seu apoio tácito ao agronegócio e ao capitalismo alimentício por meio do consumo de produtos animais e da defesa da pecuária acaba indiretamente perpetuando uma ordem socioeconômica que condena crianças a passarem fome.

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9. “Se vegans defendem tanto os animaizinhos, por que não vão morar no mato?”

Esse é outro argumento, e dos mais zombeteiros, que incide na falácias de exigência de perfeição e também na do espantalho. Deixa a entender que o veganismo defenderia impacto zero na vida dos animais não humanos e, se houvesse qualquer impacto por mínimo que seja, ele deixaria de fazer sentido, o que está muito longe da verdade.

O veganismo é praticado na medida do possível e viável e não visa zerar as mortes de animais causadas pela vida humana, mas sim diminuir ao máximo as mortes evitáveis de animais não humanos por meio da abolição do especismo.

Além disso, confundir a pauta antiespecista do veganismo com um modo de vida individualizado de impacto zero na vida alheia é cair numa lógica que respingaria na própria esquerda. Isso porque muitos conservadores, nessa mesma linha de raciocínio, “exigem” que pessoas de esquerda manifestem sua rejeição ao capitalismo abrindo mão de todo e qualquer produto industrializado e mesmo produzido pela agricultura para “terem coerência”.

Em outras palavras, mais uma vez o antiveganismo leva muitas pessoas “de esquerda” a emularem as “lógicas” falaciosas da direita mais conservadora e fanatizada.

 

10. “O homem (sic) é superior aos animais (não humanos), temos o direito de usá-los para nossas necessidades e interesses.”

Existem aqueles indivíduos de esquerda que usam desse tipo de argumento supremacista. E que não percebendo que estão caindo na mesma lógica de diversos tipos de supremacismo de extrema-direita, segundo os quais os humanos da categoria “superior” teriam o “direito” de usar e matar os “inferiores”.

É possível respondê-los dizendo que, se ser “de esquerda” é defender especismo e antropocentrismo supremacista, então não há nenhuma diferença entre essa “esquerda” e o extremismo de direita.

 

11. “Não quero viver de alface e soja e com deficiência de nutrientes.”

Esse argumento, além de preconceituoso, é uma outra zombaria contra vegans e vegetarianos. É, na verdade, um discurso de ódio que, assim como os proferidos pela direita, é baseado em preconceitos e mentiras sobre aquilo e aqueles que critica.

Quem diz isso mostra não entender nada sobre alimentação baseada em vegetais, que abrange frutas, verduras, legumes, flores, folhas, sementes, temperos, oleaginosas etc. de milhares de espécies de plantas e um número incontável e crescente de receitas. Também nada sabe sobre a saúde dos vegetarianos, aprovada e/ou mesmo defendida por diversas entidades respeitadas de saúde e nutrição humana (vide resposta o argumento 5).

 

12. “Esses vegans agora querem controlar o que devemos ou não devemos comer e consumir?”

Em primeiro lugar, conscientizar não é “controlar” o que o outro pensa e faz. É simplesmente transmitir uma mensagem ou dialogar, de modo que o interlocutor ou receptor da mensagem reflita sobre os impactos éticos de seus hábitos de consumo e, a partir dessa reflexão, modifique-os para algo mais ético e sustentável – ou seja, para o veganismo.

E em segundo, esse argumento segue uma lógica bem parecida com quando reacionários dizem que os ativistas e formadores de opinião da esquerda querem “tornar o direitismo crime”, “obrigar todo mundo a ser de esquerda”, “impor o politicamente correto” ou “controlar o que os cidadãos de bem devem pensar e falar”.

 

Comentário sobre o uso desse tipo de argumentação antivegana por pessoas “de esquerda”

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Quem se diz “de esquerda”, mas usa esse tipo de argumento, está demonstrando que, dentro do progressista sonhador que diz ser, vive um conservador fanático que, tal como quem se assume de direita, se dispõe a defender desigualdades e injustiças diversas para manter tudo como está, independente do quanto outros sofram por causa da atual ordem de coisas.

E assim como os direitistas mais reacionários, reage com ódio, despeito, desdém, preconceito e intolerância contra quem defende que o mundo seja melhorado por mudanças ético-morais, sociais, políticas e econômicas.

É assim que acabam contribuindo não para uma mudança progressiva do mundo rumo a um futuro melhor, mas sim para a manutenção das coisas como estão. Ou seja, avessa aos desejos e sonhos de quem é de esquerda.

Afinal, juntam-se aos conservadores, neoliberais e fundamentalistas religiosos para defender:

  • A pecuária, a exploração de animais em grande escala e, por tabela, o agronegócio e seus terríveis impactos ambientais;
  • A concentração de terras, a violência no campo e o envenenamento de alimentos por pecuaristas, latifundiários e subordinados;
  • A manutenção de uma ordem de desigualdades mantidas por meio da exploração e da violência contra quem é inferiorizado;
  • A conservação de atividades econômicas que essencialmente superexploram seres humanos e os reduzem à miséria e à privação de qualidade de vida;
  • Os altos lucros dos pecuaristas, dos empresários da indústria alimentícia de produtos animais, dos patrões da indústria pesqueira de grande escala e muitas outras categorias de homens brancos ricos que faturam alto com a exploração e matança de animais não humanos e a semiescravização de seres humanos;
  • A bancada ruralista, composta em grande parte por pecuaristas e aliados da pecuária, seus desmandos e seu trabalho de supressão de direitos;
  • entre diversos outros setores fortemente opressores.

 

Considerações finais

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O veganismo está crescendo, e isso incomoda muito os antiveganos, a ponto de eles sentirem ódio dos veganos por estes lhes trazerem desconforto com a vida que levam. E assim, mesmo pessoas “de esquerda” se tornam reacionárias, zombeteiras e intolerantes contra uma causa que visa um mundo melhor, a paz mundial e a igualdade moral entre todos os seres sencientes – humanos e não humanos.

Isso significa que estamos num bom caminho, e que precisamos continuar sendo essa pedra no sapato de quem se interessa na conservação de um estado de coisas tão sangrento e desigualitário, assim como mostrar que estão se igualando e se juntando aos conservadores, neoliberais e pró-capitalistas na defesa de um mundo ruim.

Continuemos incomodando os antiveganos “de esquerda”, de maneiras inteligentes e sem métodos desrespeitosos. Pouco a pouco eles acabarão passando vergonha, cedendo e se vendo obrigados a pelo menos respeitar os veganos e reconhecê-los não mais como inimigos, mas sim como aliados na luta por um futuro melhor.

Por mais que utilizem argumentos falaciosos e esnobes, eles os verão sendo refutados e invalidados um por um e, no final das contas, não lhes restará alternativa a não ser admitir, no mínimo, que estão se comportando como ultraconservadores e o que nós vegans defendemos faz sentido.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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2 Comments on “12 argumentos em que antiveganos “de esquerda” se igualam aos reacionários da direita

  1. Continuemos incomodando os antiveganos “de esquerda”, hum todo o texto deixa claro que só existe anti vegano de esquerda.

    Por Favor e os anti veganos de direita?
    Façam um quadro paralelo e coloquem os anti veganos de direita em destaque….fica a dica .

    • Martim, os antiveganos de direita são tratados pelo blog como antiveganos genéricos, já que seu antiveganismo é coerente com o ódio que sentem pelas minorias políticas humanas. Existem muitas postagens aqui que tratam de responder a antiveganos de direita – entre elas as antigas “Pérolas carnistas” e diversas respostas a textos antiveganos.
      Além disso, dou um foco especial aos antiveganos “de esquerda” porque eles são fortemente incoerentes em sua ética político-ideológica e acabam se juntando à direita ultraconservadora quando o assunto debatido é Direitos Animais e veganismo.

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