Vai banir as gaiolas? É mesmo?

Talvez você já tenha ouvido falar de empresas agropecuárias, indústrias alimentícias e redes de super e hipermercados que estão, cada vez mais, implementando políticas de “respeito ao bem-estar animal”.

Muitos desses empreendimentos se dizem munidos de “responsabilidade social e ambiental” e “respeito ao consumidor” quando falam dessas e outras medidas de tornar seus produtos “mais éticos”.

Parte dessas empresas fazem isso depois de negociações ou pressão de ONGs de “defesa animal” que alardeiam à sociedade o quanto o confinamento de rebanhos é terrível para os animais “de produção”. Em reuniões internas, seus executivos e marqueteiros discutem como o tal “compromisso pelo bem-estar dos animais” pode aumentar o valor de sua marca e os lucros da companhia.

Nessa hora, você pode notar que esse discurso cai como uma luva para as empresas e seus consumidores. Mas será que essa crescente adesão ao bem-estarismo beneficia também aqueles que seriam teoricamente os sujeitos dessa “mudança” – os animais criados para “fornecer” a matéria-prima desses produtos “éticos”?

Olhando através da máscara bem-estarista

Bem estarismo = Exploração animal

À primeira vista, essas empresas soam muito convincentes ao declarar que estão “respeitando os animais” quando reafirmam o tal compromisso de obter carnes, laticínios, ovos etc. de fazendas e granjas “alinhadas com o bem-estar animal”.

Mas isso é realmente bom para os animais que estão lá nas fazendas e granjas reformadas?

A resposta é um sonoro não.

Afinal, por mais reformas que os criadores de rebanhos implementem e que elas sejam apoiadas pelas corporações que compram deles, todos os envolvidos nessa cadeia de produção e comércio – pecuaristas, indústrias e consumidores finais – continuam tratando os animais não humanos como bens sob propriedade de seres humanos.

O bem-estarismo não reconhece e não concede direitos propriamente ditos aos animais “de consumo”. Apenas lhes proporciona alguns confortos e algumas “liberdades” relativas a movimentos, atendimentos a necessidades biológicas e parte de seus comportamentos naturais.

Nega-lhes a liberdade mais central: viver sem ter sua vida submetida a controles, a limites e à interrupção violenta (abate) pelos humanos.

O animal submisso a uma fazenda de rebanho pode até ter momentos de prazer e satisfação ao longo de sua vida. Mas sempre esses momentos terão um curto limite de tempo imposto pelos funcionários da fazenda, já que ele será incitado a andar para outro lugar, como um estábulo ou o local de alimentação.

E o mais importante: não lhe é permitido viver todo o tempo de vida que sua biologia assegura. Ele sempre será levado ao matadouro e assassinado lá muito antes do dia em que faleceria de causas naturais.

Portanto, o animal continua submisso, controlado e morto pelos humanos, por mais “bem-estar” que sinta ao longo de sua curta vida.

E mais: nessas fazendas as mamíferas continuam sendo obrigadas a dar seu leite ao pecuarista. Seus filhotes machos são mandados ao matadouro ainda em sua infância.

Já nas granjas “free-range” de ovos, as galinhas ainda têm que ser incitadas a ir ao ninho e pôr seus ovos. E os pintinhos machos não deixam de ser triturados vivos em grandes máquinas logo depois de sair da casca do ovo.

Afinal, os criadores “precisam” continuar obtendo leite e ovos e eliminando animais que não são “economicamente aproveitáveis”.

Por que o avanço do “compromisso pelo bem-estar animal” não é positivo para os animais

Banir gaiolas? Não me diga

Sabendo desses tristes fatos sobre os animais que vivem em criações bem-estaristas, percebemos que não, o avanço do tal “compromisso pelo bem-estar dos animais” entre as empresas alimentícias e de varejo não beneficia os animais.

Muito pelo contrário, a tendência é que, à medida que a clientela cresce, o lucro de pecuaristas e empresários aumenta e compensa os custos da implementação do “bem-estar animal” e mesmo a gestão de criações bem-estaristas se torne mais barata, o número de animais e de fazendas aumente mais ainda.

Ou seja, serão mais e mais animais sendo dados à luz para uma vida de exploração, por mais maquiada que seja, e morte precoce em abatedouros. E assim, mais carnes, ovos, leite e derivados no mercado.

Paralelamente, as campanhas da entidades de “defesa animal” que focam nas crueldades chocantes em fazendas-fábrica e granjas industriais perdem pouco a pouco o sentido de existir. Os criadores podem dizer que “não compactuam” com essas violências.

E assim, muitas pessoas que pensam no veganismo “conscientizadas” por determinadas ONGs, que focam na pena de animais e incitam boicote empresarial a criações explicitamente cruéis, se desviarão desse caminho.

Não se tornarão mais veganas. Ou abandonarão a alimentação livre de crueldade, se já a adotaram. Serão, ao invés, “consumidoras conscientes” de alimentos de origem animal produzidos em estabelecimentos rurais que “tratam bem” seus rebanhos.

Isso tende a diminuir e sabotar o avanço do veganismo no mundo. Afinal, as pessoas não veganas vão se iludir com a crença de que, com o avanço do “bem-estar animal” na pecuária, o modo de vida vegano não faria mais sentido. E os exploradores de animais só têm a ganhar com a desmoralização de seus opositores.

Em outras palavras, apesar das aparências e da primeira impressão para o consumidor não vegano, o avanço do bem-estarismo é pior para os animais.

Conclusão

Não deixe o bem-estarismo te enganar

Não se deixe iludir pelos hiper e supermercados que prometem estar vendendo carnes, laticínios e ovos alinhados com uma política de “respeito ao bem-estar animal”.

Elas não estão respeitando de verdade os animais. Não reconhecem que esses seres deveriam viver livres da dominação humana e das armas de abate.

Pelo contrário, seu posicionamento comercial é apenas uma fachada para trazer produtos com “mais qualidade”, valorizá-los perante o consumidor, conquistar clientes “exigentes” e aumentar seus lucros.

Enquanto isso, os animais continuam sendo tratados como meras coisas sob propriedades de donos de rebanhos.

Portanto, se você quer assumir uma posição ética de real respeito aos animais e reconhecimento de seus direitos como seres sencientes dignos da liberdade, não há outra alternativa senão considerar o veganismo e seus princípios e objetivos éticos.

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