Testes em animais

Nas últimas semanas, um debate tem crescido entre muitos veganos: afinal de contas, vegans boicotam empresas que testam seus produtos em animais e/ou patrocinam entretenimentos como rodeios e vaquejadas? Ou o boicote é só para aqueles produtos específicos que se comprovou serem testados em cobaias?

Qual desses posicionamentos faz mais sentido e é mais compatível com a ética vegana de combate a toda forma de exploração animal?

Convido você a ler este artigo, que defende o lado de quem advoga pelo boicote a empresas que exploram cobaias e/ou patrocinam “diversões” que usam animais, não só a alguns produtos.

Por que o boicote a empresas envolvidas com testes em animais e/ou patrocínios a entretenimentos especistas faz mais sentido

Patrocínio de atividades como rodeios e promoção de testes em animais:: dois motivos para boicotar determinadas empresas

A Vegan Society, associação vegana mais tradicional do mundo, criada em 1944 logo quando a ideia de veganismo surgiu, traz esse conceito de veganismo:

Veganismo é um modo de viver que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra animais para alimentação, vestuário e qualquer outro propósito.

Há muitas maneiras de abraçar a vida vegana. Porém, uma coisa que todos os veganos têm em comum é uma dieta baseada em plantas evitando todos os alimentos animais, como carne (incluindo peixe, moluscos e insetos), laticínios, ovos e mel – assim como produtos como couro e qualquer outro testado em animais.

Essa parte final do segundo parágrafo – “qualquer outro [produto] testado em animais” – é o que tem gerado a discórdia toda. Afinal, segundo interpretam literalmente dela, se uma empresa que testa em animais, como a Unilever, tem linhas de produtos brasileiras que não são testadas em animais, então não haveria violação da ética vegana ao comprar os itens pertencentes a elas.

Mas isso faz mesmo sentido? Vejamos.

Segundo Fabio Chaves revela ao responder ao vlogueiro do canal VegetariRANGO, não são apenas os produtos finalizados que são testados em animais pelas empresas mais antiéticas, mas também seus ingredientes.

Além disso, listas como a do projeto canadense Leaping Bunny e a da famigerada ONG PETA elencam empresas que testam em animais e suas marcas, não produtos específicos. Por exemplo, consideram que toda a marca Colgate e sua fabricante, a corporação Colgate-Palmolive, são envolvidas com testes em cobaias, e não produtos específicos, como o creme dental Colgate 12 Horas.

Até porque alguns dos componentes são compartilhados por todos os produtos daquela marca e, em muitos casos, por diversas marcas e em diversos países diferentes – mesmo aqueles cujas filiais dizem não usar cobaias localmente.

Ou seja, não dá para saber se produtos específicos estão livres de terem cada um dos seus ingredientes e sua fórmula final testados em animais. Mas dá para saber quando seus fabricantes se mancomunam com esse tipo de atividade antiética.

Além disso, quando uma empresa tem uma política institucional de testar alguns de seus itens em animais, absolutamente nada impede que aquele dinheiro que você lhe dá por um produto supostamente livre desse tipo de procedimento cruel seja destinado por ela ao pagamentos dos laboratórios próprios ou terceirizados que exploram e matam cobaias.

Portanto, não é lógico tentar boicotar apenas alguns produtos e consumir outros se a fabricante de ambos possui ou tem contrato com laboratórios que torturam coelhos, porquinhos-da-índia, camundongos e outros.

A mesma lógica se aplica ao patrocínio de atividades especistas. Se a corporação de bebidas AmBev patrocina rodeios por meio de marcas de cerveja como Skol e Brahma, não há nada impedindo que o dinheiro que ela arrecada com os leites de coco prontos para beber da marca Do Bem também seja investido em contratos de patrocínio desse tipo de exploração animal.

Afinal, a empresa em questão não tem nenhuma política institucional de apoio aos Direitos Animais. É indiferente se tem um público vegetariano que não concorda com o patrocínio que ela provê aos rodeios.

O boicote a empresas como forma de pressioná-la a abandonar os testes em cobaias e o patrocínio a atividades especistas

Protesto contra testes em animais
Protesto contra testes em animais na Nova Zelândia. Foto: Chris Callinan

Além disso tudo, também precisamos relembrar que o veganismo não é meramente um hábito de consumo, nem um estilo de vida, mas sim uma atitude abrangente de engajamento ético e também político para pressionar as empresas e a sociedade como um todo a abandonarem todo e qualquer uso de animais e também a crença de que os animais não humanos são “inferiores” aos seres humanos.

Se formos levar em consideração essa concepção do modo de vida vegano, vai ficar ainda mais claro para nós o porquê de nosso boicote precisar ser direcionado a empresas, não a alguns de seus produtos.

Nesse contexto, quando boicotamos todos os produtos da Unilever, que testa em animais, e todos da AmBev, que patrocina rodeios, isso acontece porque queremos pressioná-las a abandonar essa política de fomentar a exploração animal.

Se de repente passamos a consumir parte de seus produtos, aqueles que os defensores da “flexibilização” do veganismo dizem ser mais provável não serem testados em animais, então esse boicote perde o seu efeito. A empresa se sente estimulada a continuar promovendo as mais hediondas formas de exploração animal, já que conseguiu dobrar os “veganos flexíveis” aos seus caprichos e ganhou moral para não se render à pressão dos veganos “convencionais”.

É algo parecido com parar de boicotar totalmente uma loja de roupas que terceiriza trabalho escravo e começar a escolher aquelas roupas que “menos parecem” ter sido feitas por trabalho degradante. A empresa volta a ganhar dinheiro de quem se acha “consumidor consciente” sem ter precisado adotar uma política de responsabilidade social e ambiental. E assim se sente estimulada a continuar explorando mão-de-obra escravizada por meio de empresas terceirizadas.

Mas Gary Francione disse num vídeo que…

Gary Francione e empresas não veganas
Francione fala de consumir de empresas não veganas. Mas não estamos falando de boicotar empresas por não serem veganas, mas sim por testarem em animais

Algumas pessoas estão usando esse vídeo de Gary Francione para tentar justificar a postura de tentar boicotar apenas produtos individuais, ao invés de empresas que testam em animais e/ou patrocinam entretenimentos especistas. Afinal, num certo trecho ele parece “autorizar” o consumo de alguns itens de empresas como a Unilever.

Só que Francione – que é um ser humano imperfeito como todos nós, e muito imperfeito por sinal – comete uma omissão nesse discurso. Ele desconsidera que, num contexto em que o veganismo é uma postura de engajamento, não um mero hábito de consumo seletivo, o boicote vegano é uma forma de combater os testes em animais e pressionar as empresas a substituírem o uso de cobaias por métodos substitutivos. Da mesma maneira, esse boicote também exige o fim do patrocínio por parte das empresas-alvo a rodeios, vaquejadas, parques aquáticos com animais etc.

Seria uma derrota feia para o movimento vegano recuar, ainda que parcialmente, desse boicote sem que as companhias tenham cedido em banir suas práticas especistas.

Ele também comete uma falsa analogia ao comparar o boicote possível a empresas envolvidas com testes em animais e/ou patrocínio de eventos especistas com uma tentativa de boicotar “todas as empresas não veganas”.

Não está em jogo aqui “não consumir nada de empresas não veganas”, até porque hoje isso é impossível.

Não dá para eliminarmos de nossa cesta de compras itens veganos de empresas que possuem linhas de produtos não vegetarianas que não consumimos, ou evitarmos feiras onde também se vende carne e queijo, ou estabelecimentos que contratam serviços de dedetização etc. Isso iria nos privar de praticamente 100% de nossas opções de lugares e empresas de onde comprar.

O que está sendo debatido aqui é, ao invés, o que é mais lógico para o modo de vida vegano, boicotar empresas para pressioná-las a abolir os testes em animais e o patrocínio de entretenimentos especistas ou, simplesmente, selecionar os produtos menos antiéticos delas para demonstrar um posicionamento de pura não compactuação individual sem intenção de promover transformações sociopolíticas.

Boicotar empresas é tão difícil assim?

PEA empresas que não testam em animais
Print de página da ONG PEA que lista empresas brasileiras que não testam em animais

Se você ficou com a pulga atrás da orelha com este artigo, quero lhe dar uma ótima notícia: boicotar empresas inteiras é bem mais fácil do que você talvez imagine.

Existem listas disponíveis na internet de empresas nacionais e internacionais que testam ou não testam em cobaias. Por exemplo, a ONG Projeto Esperança Animal lista em seu site empresas brasileiras que evitam ou abandonaram esse tipo de violência contra animais. O Vista-se tem um hotsite que lista companhias que testam e aquelas que não testam. E o site do projeto Leaping Bunny, por sua vez, lista companhias internacionais e canadenses que também não promovem ou pararam de promover esse procedimento especista.

No caso das empresas que patrocinam entretenimentos que exploram animais, atualmente é um pouco mais difícil. Ainda não há uma lista dedicada a elencar essas companhias sujas. É preciso verificar em vídeos de rodeios e vaquejadas – o que pode ferir a sensibilidade de muita gente perante animais sendo violentados – que marcas e empresas estão estampadas nos anúncios na borda da arena.

“Mas e se não houver marcas veganas, por exemplo, de creme dental à venda em minha cidade?”, talvez você se pergunte.

Nesse caso, se você não tem condições de comprar cremes dentais como os da marca Contente pela internet – o que obriga você a pagar frete e talvez pagar mais caro pela unidade de creme dental do que se comprasse presencialmente – nem fazer cremes dentais artesanais confiáveis, então infelizmente não lhe restará opção a não ser comprar um creme dental apenas livre de ingredientes de origem animal, mesmo que seja de uma empresa que testa em animais.

Afinal, você está diante de um limite do seu modo de vida vegano, e lembremos que o veganismo é vivido na medida do possível e praticável. Nesse caso, acaba sendo inviável que 100% daquilo que você consome venha de empresas que não testam em animais.

Mas aí você pode compensar isso com outras formas de luta, como conscientizar outras pessoas do seu círculo social e ajudar aquela sua colega a transicionar ao veganismo.

Conclusão

ULA contra testes em animais
A União Libertária Animal também orienta o boicote de empresas, não de produtos específicos

Quando consideramos o veganismo como um modo de vida imbuído de atitude ética e política, o mais lógico é boicotarmos as empresas que testam em animais e/ou patrocinam “esportes” de exploração animal, para pressioná-las a abandonar essas práticas absurdas.

Até porque tentar boicotar produtos individuais é virtualmente impossível, já que pelo menos parte de sua fórmula foi testada em cobaias, não existem listas de produtos testados ou não testados e essa tentativa de flexibilizar o boicote acaba fazendo você não mais pressionar a empresa, mas sim apenas emitir uma opinião inócua de que “não concorda” com as práticas dela.

Portanto, não se deixe enganar por quem está tentando “flexibilizar” e despolitizar o modo de vida vegano e favorecer os interesses de empresas que se recusam a adotar uma política séria de responsabilidade ética e socioambiental.

Veganismo é coisa séria, e precisa avançar, nunca retroceder, na luta pelo fim do especismo e da exploração animal.

2 comments

  1. oi, acho que a the body shop merecia entrar na lista agora, ela não testa em animais, tem uma politica bem legal, e só possui dois produtos que possui ingrediente de origem animal (mel e leite de cabra… acho q era leite de cabra, era leite de algum animal).

    to falando isso pq agora a the body shop é da natura que não testam em animais (agora de verdade sem enrolação).

    1. Oi, Antonio, o Veganagente não tem uma lista própria de empresas que testam ou não testam em animais. Sugiro a vc conferir as listas da PEA e do Vista-se, se a The Body Shop está na lista de empresas que não testam.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*