O que o problema moral de comer carne de cachorro nos ensina sobre o bem-estarismo

Cachorro no fogão, carne de cachorro

Os defensores do “bem-estar animal” aceitariam criar cães para que “fornecessem” carne?

No seu livro Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas: uma introdução ao carnismo, ao começar a explicar seu (polêmico) conceito de carnismo, Melanie Joy nos pede para imaginar a seguinte situação.

Imagine que, num jantar de uma reunião de família, a pessoa que está servindo a refeição distribui pratos de carne para as pessoas comerem, incluindo você.

Aí você sente água na boca com aquela carne assada no prato, uma vontade forte de comê-la logo… Até que a pessoa diz que se trata de carne de cães da raça Golden Retriever.

Como diz a gíria, você imediatamente dá um ré e pensa: “Peraí, carne de cachorro? Que maldade fizeram ao matar o cãozinho!”. Então desiste de comer o bife.

A pessoa que distribuiu as carnes na mesa Insiste que é carne de cães criados soltos, “muito bem tratados” e abatidos com método “humanitário”, proveniente de uma fazenda de canicultura “de corte” com diversos certificados de “bem-estar animal”. Mesmo assim você se recusa a comer a carne daqueles cães que foram, segundo você tem convicção, injustificavelmente mortos num matadouro.

Mas aí dizem: “Tô brincando, é carne de boi mesmo”. E mesmo assim você mantém a hesitação de comer aquele bife, pensando no “bug moral” que é comer a carne de animais de determinada espécie enquanto abomina a possibilidade de comer carnes obtidos de seres de outras espécies.

Nessa hora, Melanie Joy apresenta o carnismo. Já eu traço um desvio e apresento a você uma outra reflexão: essa cena imaginária pode nos ensinar muito sobre por que não é ético consumir produtos animais mesmo vindos de criações bem-estaristas.

Mas como vem esse ensinamento? É o que vou responder a seguir.

 

Carne de cachorros criados em fazendas com “bem-estar animal”

Cães beagle filhotes

Imagine esses cães vivendo numa fazenda bem-estarista, sendo criados para “fornecer” carne, leite e peles

Nessa cena imaginada, você não se sentiu à vontade para comer a carne supostamente de cachorro nem mesmo depois que disseram que o cão que o “forneceu” foi “bem tratado” numa fazenda bem-estarista. Mas por quê?

Por que nem o “bem-estar animal” foi suficiente para convencer você de que seria “tudo bem” comê-la?

A resposta é que o bem-estarismo é baseado no especismo, tanto quanto qualquer criação animal denunciada por crueldades chocantes contra seus rebanhos. A saber, o especismo é o preconceito baseado em espécie, que considera todos os animais não humanos moralmente “inferiores” aos seres humanos e determina que os animais de algumas espécies não humanas (cães, gatos, animais selvagens carismáticos) são “menos inferiores” que os de outras (animais “de consumo”, animais selvagens “feios”, insetos etc.).

Os defensores do “bem-estar animal” não propõem criar, por exemplo, cães, gatos, chimpanzés, araras e iguanas para consumo de suas carnes, leites, peles, penas e ovos sob condições de “bons cuidados”. Só fazem essa proposta envolvendo animais de espécies que já são tradicionalmente exploradas pela cultura vigente.

Isso se dá, pelo que podemos deduzir, porque os próprios bem-estaristas têm o pensamento moral de que é errado explorar e matar esses animais considerados “menos inferiores” para comê-los ou obter deles derivados como leite, ovos, peles e penas. Ou seja, consideram que isso é uma violência que não deve ser aceita.

Ao mesmo tempo, consideram “nada de mais” e “moralmente aceitável” fazer o mesmo com bovinos, porcos, caprinos, perus, frangos e galinhas, codornas etc. Essa distinção entre espécies, como já defini há pouco, é uma forma de especismo.

Em outras palavras, o bem-estarismo é marcado pela mesma contradição moral de “amar” uns e comer outros que caracteriza as criações convencionais. Condena alguns à objetificação e à morte violenta enquanto para outros defende afeto e cuidado.

 

O bem-estarismo é mais do mesmo na tradição da exploração animal

Abate pseudo humanitário

O bem-estarismo defende criações em que animais morram tanto quanto em criações comuns, e muitos, inclusive bem-estaristas, consideram isso inaceitável de ser aplicado a cães, mesmo de forma “humanitária”

Nesse contexto, acaba-se reconhecendo que o “bem-estar animal” não torna as violências da criação de animais “de consumo” mais aceitáveis e éticas a ponto de serem estendidas a espécies “menos inferiores”.

Percebe-se que, no fundo, a exploração animal bem-estarista mantém a mesma base de inferiorização moral e aceitabilidade do ato de objetificar, usar e matar animais que qualquer fazenda-fábrica e granja industrial.

Ou seja, ambos os tipos de exploração especista são reconhecidos como violentos e injustos, a ponto de se pensar, no senso comum especista, que os cães e gatos precisam ser protegidos a todo custo da possibilidade de serem confinados em criações “de corte”, “de leite”, “de pele” etc.

O escancaramento disso nos mostra que o bem-estarismo não está aí para proteger os animais de violências, mas sim apenas para refiná-las de modo que não pareçam absurdamente cruéis aos olhos de quem não é vegan.

Também existe para reafirmar que quem importa nas reformas, políticas e práticas de “bem-estar animal” não são os animais não humanos, mas sim a impressão emocional que os consumidores de produtos animais têm da pecuária, pesca e aquicultura e a segurança do lucro dos exploradores de animais.

Nesse caso, a adoção do “abate humanitário”, das falsas demonstrações de carinho aos animais por seus criadores, da criação sem gaiolas e baias e de outras práticas bem-estaristas não visa os interesses dos próprios animais. Mas sim otimizar a produção de matérias-primas de origem animal, conquistar a simpatia dos clientes “conscientes” e assegurar a ampliação do faturamento dos criadores.

 

Considerações finais

porcos no matadouro

Explorar e matar porcos é errado pelo mesmo motivo que o é fazer pecuária de cães

Pelo mesmo motivo que é antiético comer carne de cachorro ou explorar cadelas para lhes obter leite, também o é financiar a exploração de bois e vacas, porcos, cabras e bodes, frangos e galinhas, perus etc., por mais bem-estarista que seja a criação.

O fato de bem-estaristas nunca cogitarem implantar criações de cães e gatos “de corte” ou “de leite”, mesmo com políticas de “bem-estar animal”, nos mostra que eles, no fundo, admitem que tratá-los como propriedade e matá-los é errado, antiético e inaceitável e que o bem-estarismo não suaviza esse fato.

Faça a conexão e perceba que políticas de “bem-estar animal” não tornam mais ético o ato de explorar e assassinar animais, inclusive os “de consumo”. É especismo e violência de qualquer maneira.

Ao fazer a conexão, procure saber como se opor às tradições econômicas especistas. Em outras palavras, conheça o veganismo e a luta pelos Direitos Animais.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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