“Carnismo” e “carnista”: é uma boa ideia continuar utilizando essas palavras no meio vegano?

Carnismo e carnista?

Acredito que você também veja isso com frequência, em especial no Facebook.

Muitas pessoas – talvez você seja uma delas – usa o termo “carnista” para denominar alguém que come carne e, às vezes, gente que defende esse consumo.

E eu acredito ter uma parcela de responsabilidade na popularização das palavras “carnismo” e “carnista” no Brasil. Afinal, entre 2012 e o começo de 2016, no antigo tumblr Vegetariano da Depressão, neste Veganagente, no antigo Consciencia.VLOG.br e no Canal Veganagente, usei intensivamente esses verbetes para mostrar o quanto é falaciosa e desonesta a oposição ao veganismo.

Mas desde que eu li por completo o livro de Melanie Joy, que traz uma introdução à ideologia do carnismo, passei a ver sérios problemas nesses termos. E quero mostrar a você por que eu não considero seu uso algo muito positivo para o veganismo e a nossa oposição ao antiveganismo.

 

O começo e o fim do meu uso de “carnismo” e “carnista” para denominar o antiveganismo e seus adeptos

Capa do livro de Melanie Joy: por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas: uma introdução ao carnismo

Tudo começou no primeiro trimestre de 2012, quando eu usava o tumblr Vegetariano da Depressão como meu veículo de divulgação de ideias veganas e respostas a peripécias antiveganas.

Até aquela época eu e muitas outras pessoas chamávamos o antiveganismo de “alfacismo”, uma referência ao uso pejorativo e ofensivo da figura da alface como se fosse a “substituta da carne” na alimentação vegetariana (livre de ingredientes de origem animal).

O termo “alfacismo” também aludia a um meme de trollagem da década de 2000, que dizia “Alfaces são amigas, não comida”, uma paródia maliciosa da frase “Animais são amigos, não comida”.

A partir de certo momento da segunda metade de 2011, o livro de Melanie Joy Why we love dogs, eat pigs and wear cows: an introduction to carnism (que viria a ser traduzido no Brasil em 2014 como Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas: uma introdução ao carnismo) introduziu também no Brasil o substantivo “carnismo” e o adjetivo “carnista” – dos respectivos originais em inglês carnism e carnist.

Esse termo chegou por aqui tanto por meio de quem leu o livro de Joy em inglês como pelos artigos que o introduziam ao público brasileiro, como este publicado na ANDA – mesmo mais de dois anos antes de ser lançado por aqui.

Coincidentemente após eu ter passado a usar o “carnismo” no Vegetariano da Depressão – se eu não tiver tido realmente uma responsabilidade causal pela popularização dessa palavra -, o uso desse verbete como sinônimo de incentivo ao consumo de carne e outros alimentos de origem animal foi se tornando cada vez mais comum no Brasil.

E paralelamente, o termo “carnista” passou a denominar tanto os defensores do consumo de carne como aquelas pessoas que comem carnes vermelhas e/ou brancas. Nesse caso, eu pessoalmente nunca cheguei a chamar de “carnistas” pessoas que simplesmente comem carne mesmo sem fazer apologia à mesma, como detalharei mais adiante.

Daí, entre 2012 e janeiro de 2016, eu fui na onda de fazer oposição ao “carnismo”, me referindo ao antiveganismo com esse vocábulo e aos antiveganos como “carnistas”. E o ambas as palavras continuaram sendo muito usadas no Brasil.

Até que eu enfim li o livro de Melanie Joy. E descobri que eu só insistia em usar esses termos porque não o tinha lido, mas sim apenas alguns textos brasileiros que a comentavam e o site www.carnism.org.

Percebi que o conceito que a socióloga estadunidense dá ao carnismo é indesejavelmente centrado na defesa do consumo de carne, e que ela dedica a esse problema uma oposição meramente bem-estarista, individualista e, é claro, especista.

Além disso, na nota de rodapé da página 126 ela afirma que “é possível obter leite e ovos sem crueldade”. Ou seja, não lhe era incômodo consentir o uso de animais como “recursos” sob propriedade humana, nem o abate de fêmeas e filhotes em poder da pecuária.

E pelo menos nos cinco anos seguintes à publicação de seu livro (ele havia sido lançado em 2009), Joy insistia nessa abordagem, considerando que ela deu uma palestra aqui em Recife em 2014, na turnê de lançamento da tradução brasileira dele.

Então percebi que minha tentativa de dar ao carnismo (e ao anticarnismo) um conceito alternativo, de inspiração abolicionista, antiespecista e politicamente ativo, por aqueles quatro anos havia sido vã.

Eu nunca iria conseguir melhorar um termo que já nasceu com graves problemas de carnocentrismo, bem-estarismo, flexitarianismo (mera redução do consumo de alimentos de origem animal, não sucedida da eliminação total dos mesmos), especismo e individualismo quase apolítico.

Então, no meu artigo de resenha crítica do livro de Joy, em 24 de janeiro de 2016, eu declarei o abandono do uso do termo “carnismo” para denominar o incentivo aos produtos de origem animal.

 

O que eu passei a usar, e o que uso hoje, no lugar do “carnismo”

Prodanismo não. Antiveganismo

Eu substituí o “carnismo” por um termo completamente novo: o “prodanismo”, de PRODutos ANimais.

Eu o conceituava como a ideologia de oposição ao veganismo que defende o consumo de produtos de origem animal. Os defensores dessa ideologia, por sua vez, eram “prodanistas”. E os consumidores de produtos animais eram “prodanívoros”.

Acreditava que, com algum esforço dedicado, poderia popularizá-lo e emplacá-lo no vocabulário do veganismo nos países de língua portuguesa.

Só que os meses foram passando e eu dei pouca atenção à oposição ao veganismo, bem menos do que quando a chamava de “carnismo”.

E no final das contas, percebi duas coisas:

  • Seria muito trabalhoso popularizar o termo “prodanismo” e seus derivados;
  • Esse trabalho teria poucos frutos e na prática não faria muito sentido, uma vez que já existia um termo muito mais simples e de aceitabilidade bem maior: o antiveganismo.

Depois de ler uns dois artigos de Eduardo Pacheco (esse e esse), no seu Medium “Não fala merda”, dedicado a responder a antiveganos, percebi que seria muito melhor ajudar a popularizar os termos “antiveganismo” e “antivegano” mesmo.

E então percebi que eu posso sim, ao invés de criar termos totalmente do zero, estender o(s) significado(s) do antiveganismo. Então cunhei três tipos de manifestações antiveganas:

  • Antiveganismo direto ou explícito: promove ataques depreciativos, críticas destrutivas, ao veganismo, com a intenção de fazer com que mais pessoas desistam dele e/ou lhe declarem desapreço, oposição e mesmo ódio;
  • Antiveganismo indireto ou implícito: defende a produção e consumo de produtos de origem animal e os testes industriais e científicos em animais. É uma forma de antiveganismo, embora atualmente não seja tão reconhecida assim, por se opor aos princípios e propósitos do veganismo, uma vez que defender produtos não veganos e a exploração animal por trás deles é uma maneira de desmerecer e desacreditar a ética vegano-abolicionista;
  • Antiveganismo distorcivo: difunde propositalmente um conceito de “veganismo” falso, desprovido de qualquer essência ética, política e objetiva e tendente a ser um mero “estilo de vida” individualista, pró-capitalista, quase espiritualista e muitas vezes “fitness”. Considero-o uma manifestação de antiveganismo porque tenta desligar o veganismo de seus princípios e torná-lo inócuo e tolerante ao especismo e à exploração animal.

 

Usar ou não usar as palavras “carnismo” e “carnista(s)”? Minha opinião

Clipart de negação, X

Tendo em vista que tive motivos fortes para abandonar essas palavras, posso dizer com segurança: se eu fosse você, também reavaliaria o uso delas para definir respectivamente a defesa ideológica e os consumidores ou apologistas das carnes.

A princípio, preciso dizer que nunca chamei de “carnistas” pessoas que simplesmente comem carne. Sempre usei esse termo me referindo a defensores do consumo de produtos de origem animal e opositores explícitos do veganismo.

Acredito, desde sempre, que chamar comedores de carne de “carnistas” é uma pejoração desnecessária. Pode fazer com que muitos deles tomem uma antipatia por nós vegans.

Afinal, o que eles não desejam que venha de vegans são rótulos depreciativos, imposição, argumentação agressiva e intolerância. E chamá-los com esse adjetivo está incluso na categoria do rótulo depreciativo.

Quanto aos usos que eu fazia de “carnismo” e “carnistas”, em referência à defesa e aos defensores do consumo de produtos animais, eu hoje tenho a posição de que não dá muito certo também.

Digo isso tendo em vista o testemunho que faço mais acima. O conceito de carnismo de Melanie Joy é uma referência exclusivamente à defesa do consumo de carne – e aliás, interpretavelmente mesmo à própria ingestão desse produto.

Se você leu o livro Por que amamos cachorros…, perceberá que ela não denomina de “carnistas” os defensores do consumo de leite, ovos e mel. Afinal, a própria Joy tenta justificar tal consumo quando esses alimentos, segundo ela crê, são produzido “sem causar violência aos animais” – ou seja, em propriedades bem-estaristas.

Pelo que ela deixa a entender, quem abusa dos laticínios, faz propaganda gratuita dos mesmos e se opõe ao veganismo não é carnista. Afinal, segundo ela indicava acreditar na época em que escreveu seu livro, a produção “correta” de leite “não mata animais” – o que sabemos que é um mito.

E como meu artigo que critica o livro dela mostra, já existia um termo para aquilo que ela achava que não havia sido nomeado antes da cunhagem da palavra “carnismo” – ou seja, o que “justifica” moralmente o consumo dos corpos de alguns animais e o não consumo dos de outros -: especismo.

Ou seja, “carnismo” e “carnista(s)” são termos que eu considero descartáveis num contexto de defesa vegano-abolicionista dos Direitos Animais. Posso usar, nos contextos nos quais eu outrora os usava, “especismo”/”especista(s)” e “antiveganismo”/”antivegano(s)”. Tanto é que a série fixa de postagens que antigamente era chamada “Textos(cos) carnistas respondidos” foi bem-sucedidamente renomeada para “Textos especistas e antiveganos respondidos”.

 

Considerações finais

Contra o antiveganismo, pela libertação animal!

No passado eu gostava de usar “carnismo” e “carnistas” para denominar o que e quem hoje chamo de antiveganismo e antiveganos. Hoje não gosto mais, e tenho meus motivos.

Acredito que essas razões também podem fazer você repensar se faz sentido utilizar, no jargão vegano lusófono, um termo que não condiz com o veganismo e o abolicionismo animal.

Afinal, se há termos melhores e mais compatíveis com o vegano-abolicionismo, e mais compreensíveis para quem está conhecendo agora o veganismo, o mais lógico é utilizar essas palavras mais adequadas.

Peço, então, sua ajuda para difundirmos nossa oposição ao antiveganismo, o qual é aliançado com o especismo.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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3 Comments on ““Carnismo” e “carnista”: é uma boa ideia continuar utilizando essas palavras no meio vegano?

  1. Este termo carnista é meio incômodo mesmo.. Obrigada por me chamar a atenção para Melaine Joy… eu não imaginava que o que ela pregava afinal, é o bem-estarismo, tipo lobo em pele de cordeiro é o que ela é..

  2. boa análise. Para refletir. O sentido das palavras é sempre disputado e a primeira vez que ouvi essa palavra foi num contexto que poderia significar especismo, então acho que vai muito do contexto que está sendo dito

  3. Pingback: O que o veganismo tem a ver com a cura gay? Muito e precisamos nos posicionar.

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