E se a ciência descobrisse e comprovasse que plantas sentem dor?

Berinjela mutilada

Muitos antiveganos adoram falar, sem nenhuma comprovação científica válida, que “plantas sentem dor e têm emoções”.

Até hoje, a ciência nunca lhes deu razão, e os experimentos que supostamente comprovariam a crença deles jamais foram bem-sucedidamente reproduzidos e convertidos em teorias científicas sérias e confiáveis.

Mas imagine agora que, num belo dia, a comunidade científica descobre e prova cabalmente que existe sim senciência em vegetais.

O que nós vegans faríamos então? Que posições éticas tenderíamos a tomar nessa hipótese?

Saiba aqui a resposta vegano-animalista a uma pergunta que, apesar de apostar em algo tão improvável, ainda aflige muitos veganos iniciantes.

 

Como ficaria a ética animal se se provasse confiavelmente a senciência vegetal?

A vida secreta das plantas

“A vida secreta das plantas”, um livro que fracassou ao tentar provar a “senciência” das plantas: e se de repente conseguissem provar que esse livro “tinha razão”?

Essa pergunta, apesar de os antiveganos tentarem nos encurralar, não é tão difícil de ser respondida.

Para encontrar a resposta, perceba, a princípio, que eles querem nos dizer que, já que supostamente “plantas sentem dor”, então a ética animal “não vale nada”. Afinal, seria impossível viver sem causar sofrimento a seres sencientes.

Só que eles não contam com o fato de que nem mesmo dá, pelo menos atualmente, para se evitar perfeitamente causar danos aos animais em grande parte das ações humanas. Mas nem por isso a ética vegana é inviabilizada.

Digo isso com segurança porque ela nunca pretendeu ser perfeita, à prova de exceções. Ao contrário do que os antiveganos acreditam, nós vegans não temos o objetivo de eliminar 100% do sofrimento animal no planeta.

Pelo contrário, nossa intenção é, por meio do reconhecimento e respeito aos Direitos Animais, eliminar o especismo e suas implicações (anti)éticas aos animais. Isso é basicamente erradicar formas evitáveis de sofrimento e privações de direitos e liberdade.

Portanto, se fosse provado que plantas sentem dor e querem conscientemente continuar vivas, faríamos algo muito parecido com o que já fazemos aos animais não humanos: evitar o máximo possível a causação de sofrimento a elas.

E isso só seria possível, acredite, numa dieta baseada em plantas e num modo de vida, digamos, mais minimalista.

 

Como poderíamos respeitar a vida vegetal continuando a consumir produtos vegetais

Prato com vegetais

Foto: Stefânia Tissot

A questão aqui é relativamente simples: nós vegans nos alimentamos de plantas porque dependemos delas para sobreviver. É uma necessidade que, pelo menos no caso dos seres humanos das sociedades modernas, não encontra equivalente no consumo de alimentos e outros produtos de origem animal.

Nós podemos abolir o consumo de produtos animais, mas não o de vegetais. Então, para o fim de reconhecer o direito das plantas de não sofrer, poderíamos refinar a seleção daquilo que comemos.

Ou seja, poderíamos nos alimentar de frutas, folhas, flores e sementes, as quais foram designadas pela Natureza para serem comidas por animais frugívoros, herbívoros e onívoros, utilizando alguma técnica que evitasse dor na planta ao extraí-las. Bastaria nos abster de consumir caules e raízes, as partes cujo consumo depende de “mutilar” e/ou arrancar do chão a planta. Ainda assim teríamos uma alimentação diversificada o bastante para manter nossa saúde e uma qualidade de vida notável.

Já no consumo não alimentício, nosso modo de vida dependeria mais do uso de minerais, mas não prescindiria totalmente do uso de pedaços de plantas arrancadas do solo, como madeira. Lembremo-nos que a ideia da ética animal é eliminar as violências evitáveis contra seres sencientes, admitindo aquelas exceções nas quais não podemos evitar completamente o sofrimento de alguns deles.

Portanto, não teríamos grandes problemas em poupar o máximo possível de plantas do hipoteticamente recém-comprovado sofrimento vegetal.

 

Como, de certa maneira, já evitamos mais danos a plantas do que os antiveganos jamais sonhariam em conseguir

Desmatamento para expandir pasto na Amazônia

Desmatamento, um massacre de plantas que o veganismo ajuda a evitar

Aliás, tem um detalhe no veganismo que já é o bastante para fazer muitos antiveganos engolirem o argumento espantalhoso de que nós somos “inclementes” com as plantas: o consumo vegano já arranca muito menos vegetais do chão do que o não vegano, e utiliza até mesmo menos folhas e frutos.

Isso acontece porque, enquanto nós vegans consumimos diretamente as plantas, obtendo os nossos nutrientes já delas, os não veganos consomem carne, leite, ovos etc. de animais que, ao longo de sua vida, ingeriram parcial ou totalmente no mínimo alguns milhares de plantas – isso em se tratando de cada indivíduo animal criado para consumo humano.

Pense em quantos “pezinhos” de capim de pasto um boi danifica ao abocanhar, ao longo de toda a sua vida. Em quantos deles um cavalo arranca do solo quando os come. Em quantas plantas são trituradas pelas máquinas agrícolas em plantações que fornecem 80% de todo o farelo de soja que produzem para rebanhos comerem. E assim se sucedem os exemplos.

Resumindo matematicamente isso, enquanto o vegano consome um número X de plantas ao longo de sua vida, um onívoro mata ou “machuca” indiretamente um número de plantas ainda maior do que X multiplicado pelo número de animais cuja carne, leite ou ovo ele consome – afinal, um boi ou um porco come uma quantidade muito maior de “indivíduos” vegetais do que um ser humano vegano. Isso sem contar com os produtos não alimentícios, vindos de muitos outros animais que comeram plantas ao longo de suas vidas.

Isso sem falar no número incontável de árvores, arbustos, mudas, orquídeas, vinhas etc. dos ecossistemas naturais que poupamos de serem derrubados pela pecuária.

 

Conclusão

Keep Calm, because não foi dessa vez

O que percebemos nessa imaginação é que, até mesmo se as plantas sentissem realmente dor, nós veganos ainda assim estaríamos sendo mais éticos do que os não veganos. Afinal, nós já temos o preceito ético de causar o mínimo possível de sofrimento, que eles nunca tiveram, nem teriam se a tal senciência vegetal fosse cabalmente provada.

E mesmo na nossa realidade concreta de plantas não sencientes, os antiveganos nem imaginam o quanto de vida vegetal que poupamos, ainda que não intencionalmente (exceto a questão ambiental), de ser arrancada do chão.

No final das contas, nós estaríamos com a consciência tranquila de qualquer jeito, bastando-se apenas uma mudança relativamente discreta no nosso consumo.

Portanto, o apelo à mitológica senciência vegetal não funciona para desbancar a ética vegano-animalista. Se os antiveganos querem invalidar o veganismo para continuarem tendo a liberdade de consumir produtos animais não importando as consequências, falham feio nesse quesito.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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