Como a defesa de recortes sociais no veganismo ajuda a multiplicar a população vegana

 

 

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Tem sido cada vez mais discutido, no Brasil e em outros países, a necessidade de se consolidar no ativismo vegano uma consciência social, que faça recortes de classe, raça, gênero, deficiência etc. Muitas pessoas ainda resistem a essa tendência, não percebendo que a militância vegana interseccional vem para multiplicar a população global de vegans e sua porcentagem sobre a população humana, por estender o veganismo às classes populares.

Alertamos frequentemente que a forma como muitos veganos defendem os Direitos Animais, como se fosse a única bandeira social válida no planeta, tende a fracassar em seu objetivo de promover a abolição da exploração animal. Afinal, discursa focando quase exclusivamente em jovens estudantes, profissionais liberais e intelectuais brancos pertencentes às classes de poder aquisitivo elevado, da média à elite, que não sofrem privações sociais e econômicas em seu dia-a-dia. Não inclui adequadamente pessoas não brancas, pobres, trabalhadoras em tempo integral, de grau de instrução baixo.

Com isso, vemos um crescimento do veganismo na periferia e no campo a uma taxa estimadamente muito inferior à da sua expansão nas classes médias e altas. Isso se evidencia no pouco que se fala de Direitos Animais (não confundir com “maus tratos contra animais”, questões bem-estaristas e dietas meramente sem carne) nas periferias urbanas e na zona rural, na carência de demanda local por merendas veganas em escolas públicas, na escassez de restaurantes veganos ou vegan-friendly nos bairros pobres e em municípios interioranos de pequeno porte, entre outros indícios.

O veganismo interseccional vem questionar isso, e promove um ativismo vegano socialmente sensível e inclusivo. Tende a ouvir muito mais e melhor pessoas de minorias políticas, o que elas têm a dizer sobre por que não conseguem aderir ao veganismo ou se manter nele por muito tempo. Aconselha-as como podem conciliar seu dia-a-dia com uma postura ética de consumo e boicotes sem sofrimento e prejuízos.

E na medida do possível, prestam solidariedade quando a pessoa aconselhada é vítima de machismo e misoginia, racismo, homo ou lesbofobia, transfobia, intolerância religiosa, xenofobia, capacitismo, pauperofobia etc. Afinal, grande parte das pessoas do meio vegano interseccional também são de minorias políticas e têm bastante vivência e experiência com enfrentamento do preconceito e da discriminação e com lutas sociais.

E além do mais, defende um veganismo que ao mesmo tempo, por sua interligação e aliança com movimentos sociais, liberta animais humanos e não humanos. Isso fica expresso nas lutas sociais contra o agronegócio pecuarista, o qual escraviza seres humanos, trata animais não humanos como coisas e devasta o meio ambiente, e o capitalismo, que tem diversas alianças com as tradições especistas humanas, em especial a pecuária, e objetifica conjuntamente seres humanos e não humanos. Também fica claro quando o ativismo vegano constrói, junto com o ambientalista e o anarquista, espaços comunitários de vivência sustentável e não capitalista, havendo a tendência de, nos próximos anos, surgirem ecovilas veganas com proposta anticapitalista em todo o Brasil.

É com essa solidariedade às lutas sociais e muita empatia para com as classes populares que o ativismo vegano tende a conseguir alguma penetração nas periferias e nos bairros centrais pobres das cidades e também no campo. Com consciência e sensibilidade social, a palavra conscientizadora abolicionista tem muito mais probabilidade de conquistar pessoas de fora do circuito branco de classes endinheiradas. E assim o veganismo começará enfim a se expandir consideravelmente nas comunidades de baixa renda, e a construir demandas por empreendimentos pró-veganos socialmente inclusivos, como restaurantes, lanchonetes, bares e mercadinhos.

Isso evidencia que o veganismo interseccional cumpre um papel extremamente importante no movimento vegano-abolicionista, ao contrário do que muitos insistem em crer. Sua mensagem de que o veganismo precisa ser sensível às demandas e particularidades das minorias políticas vem fortalecer a tendência de avanço vegano na sociedade e também levar a um nível superior o cumprimento dos próprios valores éticos dos Direitos Animais.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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2 Comments on “Como a defesa de recortes sociais no veganismo ajuda a multiplicar a população vegana

  1. Olá Robson, eu li o seu texto e aprecio muito a observação. O veganismo é de fato um movimento isolado culturalmente, como que pertencente a uma classe social específica. Algumas observações, no entanto, me passam a medida que fui lendo o texto. A principal delas é algo que vejo um tanto recorrente em textos que tratam do veganismo, e que pode ser visível num trecho desse texto: “não percebendo que a militância vegana interseccional vem para multiplicar a população global de vegans e sua porcentagem sobre a população humana”. Aí eu me pergunto: eu quero multiplicar a população global de vegans? Isso me parece uma premissa um tanto ousada, ou mesmo uma interpretação de um movimento que, para alguns, não tem o mesmo significado. Eu quero mais veganos no mundo? Ou eu quero mais pessoas conscientes? Essa é a questão. Eu não quero que o mundo seja vegano. Eu quero que as pessoas parem de maltratar outros seres (seja animal ou vegetal). Que os sistemas humanos nos quais convivo estabeleçam uma boa relação com os seres que estão juntos nessa jornada. É por isso que luto. Nesse sentido, nunca me identifiquei como vegano, mas me vinculo a grupos veganos por compartilhamento de conhecimentos úteis a mim, que busco evitar relações desrespeitosas com quaisquer seres. Nesse sentido ainda, considero uma receita vegana, um grupo vegano, mas não considero jamais que pessoas sejam veganas. Aí é onde reside um grande equivoco, as pessoas se categorizarem . Aí é uma ironia, porque se há um movimento é o de luta contra categorização de seres vivos, que não são objetos, de desindustrialização da vida. A industria em si não é ruim, ela é muito util, é uma ferramenta humana de alcance em massa. Mas ela vêm ocorrendo sem consciencia, e as pessoas sem consciencia não sentem a dor que estão causando, ao comer um salgado de presunto. Portanto, finalizo aqui repetindo: não quero veganistas. Quero pessoas conscientes, que pensem, sintam, tomem atitude sábias. Se este é um ismo para agir sistemicamente, que possamos agir inserindo mais conhecimento e referência. A mudança é lenta, mas ocorre, e esta é, a meu ver, uma revolução solidária e silenciosa, que não combina com nenhuma colonização ideológica, de conversão muito menos de imposição. Não é pelos animais que luto, apenas. É pelos homens, que perderam a consciencia, e pela sua mudança. Considero bom o texto com relação a percepção da falta de dimensão social do movimento pela conscientização nos sistemas humanos, seja alimentar, vestuário, etc., minha crítica vai ao uso de alguns termos que acabam criando uma descrição de um movimento que, creio, pode estar se esquecendo de seu princípio: despertar as pessoas ao invés de tê-las de acordo com seu ponto de vista ideológico.

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