Imagens maliciosas como essa não são uma tentativa de se debater consideração moral para plantas. Quem a compartilha, já dá para ver que prega não a expansão, mas sim o encolhimento do círculo moral humano. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo
Imagens maliciosas como essa não são uma tentativa de se debater consideração moral para plantas. Quem a compartilha, já dá para ver que prega não a expansão, mas sim o encolhimento do círculo moral humano. Clique na imagem para vê-la em tamanho completo

Corrigido às 14h27

Tem aparecido muita gente que diz, às vezes com convicta certeza, que “plantas sentem dor” e “a alface sofre ao ser arrancada da terra”. Por outro lado, a cada vez mais revelada complexidade biológica dos organismos vegetais faz algumas pessoas pensarem se é razoável a possibilidade futura de se lhes dedicar algum tipo de consideração moral. Dada a existência desses dois tipos – o primeiro sendo malicioso e o segundo, sensato e aberto –, é preciso sabermos identificar quem quer realmente debater a sério a gênese de uma ética vegetal e quem está argumentando em favor da “senciência vegetal” com fins maliciosos e nada altruístas.

O parâmetro mais notório de se discernir entre pessoas que pensam honestamente na percepção vegetal e carnistas mal intencionados é a presença da dúvida inquieta ou da certeza fincada no chão. Pessoas honestas têm dúvidas sinceras sobre isso. Carnistas trazem “certezas” praticamente absolutas.

Quem se indaga sobre a possibilidade de haver um respeito moral, não apenas ecológico, às plantas, não costuma firmar certezas sobre isso. Coloca-o como uma possibilidade, algo ainda incerto, mas que mereceria estudos botânicos mais aprofundados e debates livres de vieses egoístas. Tem consciência de que o debate sobre a “inteligência” fisiológica e mesmo comportamental das plantas não está numa fase madura e ainda não trouxe nenhuma conclusão biológica e filosófica a ser discutida, tampouco consenso.

Sua preocupação é cogitar uma futura expansão da inclusão moral e a possível necessidade de tratarmos as plantas não mais como máquinas, mas sim como organismos que, de certa forma, merecem algum respeito individual, mesmo que por motivos diferentes dos animais. Não traz nenhuma certeza ou resposta, mas sim perguntas a serem seriamente pensadas hoje ou no futuro. Pensa ou tenta pensar sobre como a ética e os costumes poderão se adaptar a uma provável futura inclusão moral das plantas.

Já quem já vem dizendo que “plantas sentem dor e vegans são hipócritas” mostra que não veio para discutir percepção vegetal e direitos com seriedade. Suas certezas precipitadas não têm o intuito de expandir o círculo moral humano, mas sim retrocedê-lo para que volte a abranger apenas (alguns) seres humanos. Sua intenção não é dizer que plantas “merecem” o mesmo respeito que damos aos animais não humanos, mas sim anular a senciência e o interesse de continuar vivo e inteiro como parâmetro moral.

Ou seja, seu argumento é que, se plantas “sentem dor” e “mesmo assim” os veganos as consomem, não haveria motivo nenhum para os não veganos pararem de consumir frutos da exploração animal. E disso advém a certeza, a batida do martelo do juiz, de que “dor/senciência não é uma razão para se respeitar um ser” e “tal como vegans comem plantas independente de elas sentirem dor, nós onívoros temos o direito de comer animais que são sencientes e sentem dor”, logo “animais não merecem direitos e ponto final”. E para isso, usam de diversos estratagemas argumentativos que, no final das contas, podem ser todos descartados como falácias.

Em outras palavras, pensadores honestos da consideração moral vegetal trazem humildes e abertas interrogações, enquanto carnistas pseudodefensores da “dor vegetal” trazem arrogantes, fechadas e falaciosas exclamações. A partir daí, os primeiros pensam com altruísmo e intencionam a expansão do círculo moral, enquanto os últimos vêm com intenções claramente egoístas e almejam encolher esse círculo. Portanto, atentemo-nos para essa característica quando alguém vier nos falar filosoficamente sobre a complexidade orgânica das plantas.

4 comments

  1. Descobri que desde os seculos XVII/XVIII existe esse papo de plantas sentirem dor. Não há tantas novidades nessa ideia, como querem nos fazer crer. Essa ideia veio (e vem) como uma sombra bem forçada por onde o vegetarianismo libertário tem andado.

    Faltou falar uma coisa Robson: 99,9% dessas pessoas que sempre estão a falar disso, incluindo-se quem pesquisa “honesta e abertamente” e quem fala por oportunismo antiabolicionista (serão realmente tão distinguiveís assim?) sempre consomem animais e… plantas!! – que elas supoe sofrerem, carentes de cuidados!

    Oras, estranho isso! Fala, mas não faz o que fala. Por que?

    Portanto, que fique claro que – qualquer que seja uma possível legitimidade das pesquisas nesse sentido, com o risco de todas as cortinas-de-fumaça que ela gera – opor elas à consideração ética vegana EXIGE que essa pessoa, coerentemente, ou:

    1) Equipare eticamente humanos, animais não-humanos e alfaces. Descriminalizando a criação e matança de pessoas humanas para serem consumidas.

    ou:

    2) Torne-se frugívora (e não só na dieta, mas boicotando tudo que contem vegetais, o que eu acho sinceramente uma bela de uma tolice pois impossível-inútil de se cumprir, quaisquer que sejam os resultados dessas pesquisas).

    O que tá fora de cogitação, por total falta de incoerência ética, como o texto mesmo menciona, é que carnistas disponham dessa argumentação “das plantas que sofrem” para firmarem-se no alto das churrasqueiras, mutilando bois e porcos (e alfaces, que juram sentir dor), mas condenando a criação e matança de pessoas humanas pra gerar carne (ainda mais quando o vizinho cismar que quer provar o sabor da carne dessa galera aí…)

    Essa postura conservadora (pode matar bois, mas não pode matar gente) é insustentável e inaceitável, pois incoerente.

    Em suma: quem defende o sofrimento vegetal, pra ser coerente na dimensão ética, só poderia optar por uma das duas alternativas elencadas acima.

    Será que vão realmente encarar até o fim das consequencias das implicações éticas dessas pesquisas-argumentos?

  2. Ah kkkkk! Mas pensando melhor, eu poderia dizer de um modo mais pragmático: mesmo se ficar “cientificamente comprovado” que plantas sofrem, e que devem ser defendidas, mesmo assim tais defensorxs teriam que veganizar sua dieta!

    Pois numa dieta carnista, além do sofrimento animal óbvio, ela come muito mais plantas do que quem é vegan! Num kilo de carne, ou um litro de leite, tem muito mais plantas mortas do que no consumo direto de vegetais: princípio básico da pirâmide alimentar… abraços!

    “É só uma marolinha…” kkkk

  3. Robson, um dia me disseram assim: como vc sabe ? até pouco tempo antes se fazia cirurgia em recém nascidos pq também diziam q eles não sentiam dor!

    1. Raví, nesse caso usaram contra vc uma falácia de falsa analogia. Recém-nascidos têm sistema nervoso, e plantas não. E pelo visto não lhe informaram em que época se acreditava que recém-nascidos não sentiam dor, nem se essa crença era derivada da teoria científica da época ou de crenças não científicas.

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