Adotando e expandindo a definição de antiveganismo

conceito-antiveganismo

Um termo que já é usado mas merece uma atenção maior e um uso mais difundido, sendo o tema deste artigo, é o antiveganismo. Sendo mostrado aqui como um conceito completo e diversificado de oposição ao veganismo, ele passa a ser utilizado aqui no Veganagente em substituição ao termo outrora proposto “prodanismo” e ao já abandonado “carnismo”.

 

O conceito tríplice do antiveganismo

Conceituo o antiveganismo como ideologia de cunho reacionário que promove oposição ao veganismo. Atua ora por ataques explícitos ao mesmo; ora pelo incentivo à produção e consumo de produtos, alimentícios ou não, total ou parcialmente de origem animal e/ou testados em animais; ora pela distorção conceitual do veganismo para dissociá-lo da libertação animal.

Como essa definição mostra, existem três tipos de antiveganismo, a saber:

– Antiveganismo direto ou explícito: promove ataques depreciativos, críticas destrutivas, ao veganismo, com a intenção de fazer com que mais pessoas desistam do veganismo e/ou lhe declarem desapreço e oposição;

– Antiveganismo indireto ou implícito: defende a produção e consumo de produtos de origem animal e os testes industriais e científicos em animais. É uma forma de antiveganismo, embora atualmente não seja tão reconhecida assim, por se opor aos princípios e propósitos do veganismo, uma vez que defender produtos não veganos é uma maneira de desmerecer e desacreditar a ética vegana;

– Antiveganismo distorcivo: difunde um conceito de “veganismo” falso, desprovido de qualquer essência ética, política e objetiva e tendente a ser um mero “estilo de vida” individualista, pró-capitalista e quase espiritualista. Considero-o uma manifestação de antiveganismo porque tenta desligar o veganismo de seus princípios e torná-lo inócuo e tolerante ao especismo e à exploração animal.

 

Os elos do antiveganismo com outras ideologias reacionárias

O antiveganismo tem elos muito fortes com outras ideologias defensoras da desigualdade moral e da injustiça, como as seguintes:

– O especismo, o sistema de dominação e preconceito que coloca o ser humano como superior aos animais de todas as demais espécies e considera alguns animais não humanos “menos inferiores” do que outros, a depender de sua “utilidade” e valor afetivo para seres humanos;

– O antropocentrismo, a crença filosófica de que o ser humano é o centro da Natureza na Terra – ou vive separado e “acima” dela – e é “autorizado” por divindade(s) ou por si mesmo a subjugar, dominar, explorar e destruir toda a parcela não humana, viva ou não, da biosfera;

– Toda uma mitologia que envolve crenças falsas, como a descrição generalizante de vegans como pessoas extremistas, violentas e de saúde frágil; a atribuição de impactos ambientais gigantescos, muito maiores do que a pecuária e a pesca, ao veganismo; a existência de uma perfeita harmonia ética e ambiental entre humanos e não humanos na pecuária, pesca e apicultura; a crença de que vegetarianos consomem alimentos de origem animal, como carne branca, laticínios, ovos e mel; a legitimação do especismo pelas leis da Natureza; o veganismo como uma “quase espiritualidade” individualista, subjetiva e apolítica; entre outras;

Associações com o machismo, a misoginia e a homofobia, elementos comumente presentes em discursos antiveganos defensores do consumo de carne, e elos com o hierarquismo capitalista, neoliberal e conservador.

Apesar da associação com o especismo, ele não é sinônimo de antiveganismo. Vale aqui ressaltar a diferença entre ambos, de modo que seja prevenida a confusão entre um e outro.

O antiveganismo é uma das manifestações do especismo, sendo dedicada especificamente a incentivar a produção e consumo de alimentos e outros itens de origem animal e atacar o veganismo. Engloba toda uma mitologia que não poderia ser adequadamente focada caso estivessem sendo abordadas todas as implicações do especismo.

Algumas crenças específicas do antiveganismo não podem ser diretamente aplicadas, por exemplo, aos rodeios e à comercialização de animais domésticos, já que nem sempre o veganismo está em pauta quando se fala dessas atividades.

Além disso, nem todos os mitos antiveganos são especistas, considerando-se como exemplos disso as crenças na insalubridade da alimentação vegetariana, na infelicidade psicológica crônica de quem não consome carne e laticínios e na atribuição de impactos ambientais absurdamente fortes ao veganismo. Em outras palavras, nem toda crença antivegana é baseada em especismo, assim como nem todo especismo passa pelo antiveganismo.

 

Por que não utilizo mais os termos “carnismo” e “prodanismo”

O meu antigo conceito alternativo de “carnismo” foi convertido em “prodanismo” em fevereiro de 2016. E este artigo marca a substituição desse segundo termo pelo antiveganismo.

A palavra “carnismo” foi abandonada porque, por mais que eu tenha tentado redefini-lo e reciclá-lo, ele nunca deixou de ter impregnados em si os vícios e falhas conceituais da teoria de carnismo elaborada por Melanie Joy, em seu livro Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas: uma introdução ao carnismo.

Foi criado como um conceito bem-estarista e flexitariano (flexitarianismo é ora a mera redução do consumo de alimentos de origem animal, ora o boicote à carne desprovido da intenção de abandonar o consumo de laticínios, ovos e mel). Centrado unicamente no consumo de carne, era carente de qualquer ligação com o veganismo e os Direitos Animais propriamente ditos e desprovido de carga política libertadora e coletiva.

Todas essas características negativas permaneceram impregnadas no termo “carnismo”, apesar de minha tentativa de redefini-lo. Aliás, essa tentativa acontecia porque eu não conhecia verdadeiramente a origem e contexto da palavra e sua carga nada conectada ao vegano-abolicionismo.

Percebendo isso após concluir a leitura do livro de Melanie Joy, adotei o neologismo “prodanismo”, derivado de “prodan” (PRODuto ANimal), para definir o que hoje estou passando a chamar de antiveganismo indireto ou implícito – a defesa da produção e consumo de produtos não veganos. Mas passaram-se alguns meses, sem que eu mesmo tenha me esforçado o bastante em popularizar essa palavra.

Tendo em vista as imensas dificuldades de difundir e tornar comum um termo completamente original, assim como a atual crise de carência e decadência de articulistas veganos* – algo que tem inibido a aliança e parceria entre formadores de opinião do meio vegano –, percebi que o antiveganismo é um termo de difusão e popularização muito mais fácil e bem mais abrangente. Essa conclusão foi reforçada pelo fato de que recentemente houve uma multiplicação simultânea de:
– artigos de direita atacando explicitamente o veganismo (antiveganismo direto);
– reportagens e cenas de novela incentivando o consumo de carne e leite (antiveganismo indireto);
– reportagens que desvirtuam, manipulam e despolitizam o conceito de veganismo (antiveganismo distorcivo).

Assim sendo, fica muito evidente a necessidade de categorizar as diversas formas de antiveganismo e tratá-lo como aquilo que de fato é: uma forma de reacionarismo que investe contra o veganismo e seu propósito de combater o especismo e a exploração animal.

Desde já o Veganagente adota esse conceito tríplice de antiveganismo, em substituição ao carnismo e ao prodanismo. E espero que a difusão desse termo ajude o movimento animalista a interceptar e neutralizar as tentativas de perpetuar o consumo de produtos derivados de exploração animal, desempoderar e desacreditar o veganismo.

 

*Pretendo escrever, em breve, um artigo sobre o lamentável fato de que o meio vegano brasileiro está vivenciando uma crise de formação de opinião, com o enfraquecimento do número, frequência e qualidade de artigos de conscientização vegano-abolicionista no país, o abandono da escrita de artigos por veganos veteranos e a resistência de muitos desses veteranos em conectar o vegano-abolicionismo com outras lutas de libertação.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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