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Há uma versão melhorada e atualizada deste artigo no livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética

Leia aqui a parte 1 deste artigo

Esta é a segunda e última parte do desmonte de dez (mais bônus) crenças tradicionais sobre os animais, a exploração animal e o veganismo. Conheça as respostas a elas, para que você possa se tornar uma pessoa realmente opositora da violência contra os animais.

 


6. Plantas também sofrem, então não é viável deixar de se alimentar de sofrimento.

Na verdade, plantas não têm capacidade de sentir dor e manifestar sofrimento, porque não há em seus organismos um sistema nervoso central, necessário para gerar as reações orgânicas de sofrimento e dor.

Além disso, não há sequer a necessidade de plantas sofrerem em reação a estímulos externos, já que a dor e o sofrimento são basicamente meios de se fugir de ameaças presentes e evitar riscos futuros de violação da integridade física, e plantas não podem se locomover. A presença do sofrimento em organismos que não podem sair do lugar seria inútil para a preservação de sua vida e representaria desperdício de energia.

O máximo que plantas podem manifestar, quando têm partes de seu corpo arrancadas, são reações bio-físico-químicas não dolorosas ao estímulo agressor, como a liberação de substâncias químicas e movimentos como o fechamento de folhas.

Por não terem um sistema nervoso central responsável por uma eventual consciência neurológica e pela manifestação de sofrimento, os vegetais não possuem o interesse individual de continuarem fisicamente íntegros e vivos. Portanto, quando se colhe uma planta inteira ou se arranca dela frutos, folhas e flores, ela não sofre, nem luta pela vida. Com isso, não há problemas éticos de se consumir alimentos vegetais, seja frutas, seja raízes comestíveis.

 

7. A alimentação vegetariana (livre de ingredientes de origem animal) não é saudável, causa deficiência de nutrientes.

Cada vez mais entidades nacionais de saúde e nutrição reconhecem e defendem que o vegetarianismo é saudável, provê todos os nutrientes necessários e não precisa ser complementado por alimentos de origem animal. Exemplos são o Serviço Nacional de Saúde da Grã-Bretanha, a Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos, o Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da Austrália e o Ministério da Saúde brasileiro.

Por outro lado, nenhuma pesquisa séria até hoje comprovou que o vegetarianismo seria incapaz de fornecer nutrientes suficientes para os seres humanos. Houve tentativas recentes de vinculá-lo a doenças e transtornos mentais (como um estudo alemão de 2013 e um austríaco de 2014), mas nenhuma se sustentou diante de análises céticas. Nem nenhuma reportagem antivegana é séria e confiável o suficiente para comprovar que haveria de fato deficiências nutricionais intrínsecas à alimentação vegetariana (leia aqui um exemplo recente).

A única necessidade de suplementação nutricional no vegetarianismo é relativa à vitamina B12. Mas isso não é um demérito para a alimentação livre de produtos animais, considerando-se que tal necessidade é tipicamente moderna. Virtualmente nenhuma pessoa, mesmo não vegetariana, de sociedades modernas pode dispensar, direta ou indiretamente, os suplementos dessa vitamina, já que a pecuária também os usa em animais “fornecedores” de carne, leite e ovos.

 

8. Veganismo é algo extremo, radical demais.

Considerar o veganismo um “extremismo” é não conhecer de verdade os seus fundamentos e práticas. Não há nada de radical, no sentido de exagerado e fundamentalista, em substituir os produtos de origem animal por alternativas vegetarianas e veganas, ser contra entretenimentos que exploram animais e boicotar empresas que testam seus produtos com violência contra seres sencientes. A prática do veganismo mostra que não há complicações que o tornem inviável ou mesmo difícil.

Pelo contrário, há muito extremismo no caminho oposto: o de defender o supremacismo especista humano, tentar justificar com falácias e conveniências a “inferioridade” dos animais não humanos, acobertar os pesados impactos éticos da exploração animal para os seres não humanos e o meio ambiente como um todo e insistir numa alimentação cheia de riscos para a saúde.

 

9. Acabar com a pecuária e a pesca vai quebrar a economia brasileira.

A economia brasileira, ao longo de sua história, tem funcionado em ciclos: pau-brasil, açúcar, ouro, café, industrialização e grãos e carnes. A superação da pecuária, da pesca e do agronegócio, com sua substituição por uma agricultura democrática e uma produção mais diversificada e tecnologizada, seria apenas o fim de mais um desses ciclos e o início de um outro.

Num contexto de queda da produção e consumo de itens de origem animal, outros setores da economia teriam seu crescimento, como a agricultura de consumo humano e a parcela da indústria que aderisse ao veganismo. As eventuais demissões seriam compensadas por essa mudança de foco produtivo. Ex-peões, ex-fazendeiros e ex-pescadores seriam capacitados para outros trabalhos, a depender da implementação de cursos profissionalizantes para ex-exploradores de animais.

 

10. Há problemas mais importantes que devem ser lidados primeiro, como a fome no mundo e os problemas da saúde e educação.

Pensar assim é incidir na falácia da prioridade, que faz uma falsa dicotomia entre causas a se defender e ignora que não só elas podem ser defendidas ao mesmo tempo pela coletividade, como todos os problemas lidados são interligados.

Não é porque uma parcela da população defende os Direitos Animais e a massificação do veganismo que, por exemplo, os Direitos Humanos e a luta contra a miséria perdem parte de sua força. Pelo contrário: além de muitos veganos defenderem seres humanos e animais não humanos num só ativismo conjunto, as frentes distintas que combatem a privação de direitos de animais humanos e não humanos estão lidando com as diversas facetas de um único grande sistema social, econômico e moral, que nega e suprime direitos e promove a inferiorização e exploração de uns em benefício de outros.

Num exemplo mais específico, a defesa do veganismo também implica, mesmo que indiretamente, o combate a atividades (pecuária, pesca e indústria de produtos de origem animal) que exploram de maneira hedionda seres humanos, negam-lhes direitos e os condenam a uma vida de miséria e desesperança.

 

Bônus: O mundo não precisa de veganismo. Tratar os animais “de produção” com bem-estar e diminuir o consumo de carne vermelha já é o suficiente para eliminar os problemas de maus tratos e degradação ambiental.

Essa crença permite que a maioria das agressões contra os animais não humanos, como aquelas intrínsecas à produção de carnes brancas, leite, ovos, mel, couro, lã etc., continue existindo. Afinal, o bem-estarismo conserva violências necessárias para a manutenção dessa atividade econômica, como o abate de animais, o aprisionamento, o tratamento de seres sencientes como propriedade de humanos e a conservação de uma cultura de desigualdades morais.

E invisivelmente aos não veganos, proporciona que a exploração animal permaneça devastando o meio ambiente. A mera diminuição do consumo de carne vermelha deixa intocado o de carnes de animais aquáticos, laticínios, ovos, mel, lã, penas, seda, corante carmim etc. E assim conserva grande parte das demandas, da pecuária e da pesca, por grãos vindos de latifúndios, combustíveis fósseis e água, ainda que um pouco menos do que antes.

A consciência de ser errado explorar animais nos faz concluir que a crença de que basta “diminuir o consumo de carne vermelha” e “tratar melhor os animais ‘de produção’” não faz sentido. Apenas a luta contra o especismo, que passa pela massificação do veganismo, pode fazer com que a humanidade deixe de ser violenta contra os animais não humanos. E somente um mundo vegano pode ter condições éticas sólidas de eliminar as violências entre os seres humanos.

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