veganarquismo

Um dos grandes desafios dos defensores dos Direitos Animais é mostrar ao restante da sociedade a lógica ética do reconhecimento dos direitos fundamentais dos animais não humanos. E isso não é tão fácil como se pensa, porque requer quase que uma mudança de lógica cultural-ideológica. Isso porque, em muitos aspectos, os DA estão para a mentalidade da sociedade especista tal como o anarquismo está para os estatistas (ou para aqueles em geral que se acostumaram com a naturalização do Estado) – como sendo algo de difícil compreensão e “alienígena” demais para os valores atuais prevalecentes.

É possível ver pessoas desdenhando da ideia de os animais não humanos terem interesses próprios e direitos enquanto indivíduos. Da mesma forma, é bastante comum ver estatistas fazendo pouco caso de anarquistas que questionam a essência dos símbolos nacionais e do próprio Estado. E basta entender um pouco o anarquismo para percebermos que os DA estão na mesma linha de estranheza lógica em comparação, respectivamente, ao estatismo e ao especismo.

E isso podemos perceber a partir de nós mesmos. Percebamos que as pessoas que seguem o senso comum de que animais podem eticamente ser escravizados têm tanta dificuldade de entender os DA quanto muitos de nós vegano-abolicionistas temos de compreender a ética anarquista e a opressão estatal.

Quem de nós já parou para questionar se é ou não ético e normal sermos numerados e controlados pelo organismo estatal e tratados como suspeitos e vigiados pela polícia? Se é ou não aceitável que, se não formos registrados no Estado em forma de números e unidades, estaremos privados de qualquer direito civil e político? Que uma evolução de consciência por parte da sociedade vai fazê-la passar a não mais depender de Estados para evitar o cometimento de crimes?

Da mesma forma, a sociedade não consegue tão facilmente assimilar a lógica dos DA. Não se dá ao trabalho de se perguntar: Por que animais não humanos devem ter direitos? Por que consideramos pessoas que trabalham em condições degradantes como escravas mas outros animais em situação semelhante ou pior como não escravos? Por que falam que existe em vigor um sistema de escravidão de seres não humanos? Tratar animais como propriedade é ruim? É errado?

Nosso estranhamento do anarquismo pode nos ensinar muito sobre as pessoas estranharem nossas tentativas de mostrá-las que os animais merecem direitos. E nos mostra que o abolicionismo tem o enorme desafio de tornar a lógica ética dos DA algo compreensível para as pessoas em geral. E da mesma forma, os anarquistas têm a incumbência similar de lhes mostrar – e também à maioria de nós abolicionistas – que é possível viver bem e em sociedade sem ser governado por um Estado.

Percebemos assim que ensinar DA e abolicionismo à sociedade nos requererá lições de Antropologia, ciência que consegue entender a lógica de pensamento daqueles cuja cultura nos é estranha. Necessitamos saber de verdade por que, cultural e filosoficamente falando, as pessoas acreditam que não há nada de errado em mutilar, confinar e matar seres sencientes. Só esse saber é que nos vai permitir agir com eficácia para ajudá-las a compreender a lógica ética dos DA e também abraçá-la.

E a lição também serve para os anarquistas. É necessário bastante senso antropológico para entender o estatismo e mostrar à sociedade a coerência da lógica da ética do viver sem Estado, do porquê de não ser algo aceitável o controle policial e numerativo por parte dessa entidade.

1 comment

  1. Robson, boa alusão que você faz, já que, realmente, ambos termos vão contra a lógica formal atual.
    Eu não conheço afundo o anarquismo. Quando era adolescente cheguei a pesquisar algumas coisas, mas nada mais aprofundado. Li os “princípios”, achei legal, me identifiquei e me declarei anarquista. rs. Mas, ao longo de meus estudos, tive mais contato com os estudos marxianos acerca da sociedade capitalista e suas projeções com relação às sociedades socialista e comunista. Nesta também já não há mais Estado, já que o mesmo, por inúmeras razões, mas, principalmente por não haver mais classes sociais, torna-se supérfluo (já que o Estado é sempre o Estado da classe social dominante).
    Procuro, ainda, analisar a sociedade a partir de uma categoria fundamental a qual apreendi pelo método em Marx, que é a de totalidade. Sendo assim, a Antropologia, enquanto resultante de uma divisão das ciências sociais por si só talvez não seja capaz de dar conta de certos âmbitos do que queremos compreender.
    Agrada-me o fato de você se preocupar em estudar a sociedade e os motivos para os outros animais serem tratados dessa forma e entender a necessidade de transmitir aos outros o que aprendemos. Penso que todos os nossos camaradas vegs deveriam fazer o mesmo, já que, em minha opinião, veganismo e ativismo (de qual tipo for) devem andar juntos.
    Ainda não sou capaz de lhe responder porque os outros animais são tratados da forma que são na sociedade que vivemos, pois me falta ainda mais estudo, o qual pretendo aprofundar em breve e realmente empreender uma pesquisa científica acerca do tema, mas posso deixar aqui alguns apontamentos, apenas na condição de meras hipóteses, as quais seu texto me possibilitou refletir.
    Primeiramente, o modo de produção capitalista contribuiu enormemente para a intensificação da exploração animal. Trazendo a organização da produção em massa, permitiu o surgimento dos modelos atuais de exploração animal, como as “factory farms”. Esses locais onde os animais são mantidos e a forma como são tratados remetem à lógica capitalista de aumentar a produtividade e diminuir os custos de produção para, assim, aumentar ainda mais sua massa e sua taxa de mais-valia. Desta forma, enquanto os animais estão sendo explorados para fornecer os produtos de origem animal, os trabalhadores destes ramos de produção igualmente são bastante explorados, inclusive, pelo que andei lendo, a pecuária é uma das atividades econômicas onde mais se encontra trabalhadores em situação de trabalho escravo.
    Outra coisa, a lógica capitalista de mercantilizar todas as relações sociais, bem como todos os âmbitos da vida, mercantiliza também a própria vida. É o que acontece com estes animais, que são vistos como meras mercadorias, meros meios de produção e não enquanto sujeitos dotados de direitos.
    Esta é uma indústria que movimenta uma violenta quantia de dinheiro, então, como “as ideias dominantes são sempre as ideias da classe dominante”, enquanto tentamos mostrar às pessoas que os animais devem sim ter seus direitos respeitados, a propaganda contrária dos grandes empresários deste ramo é muito forte. São eles que detêm os meios de comunicação em massa, portanto podem contratar um Tony Ramos da vida pra propagar falácias a favor da indústria da exploração animal, enquanto a nós resta os meios alternativos de comunicação e difusão do veganismo, como este seu blog.
    Outra coisa que pesa bastante é o ideário pós-moderno, que tende a fragmentar, naturalizar e desistoricizar a realidade (dentre outros aspectos). Assim, não se estabelece uma conexão entre um ser vivo e o que está no prato do jantar, bem como quando isso é feito, coloca-se como “natural”, já que “sempre foi assim e nunca vai mudar” (não percebem o movimento inerente ao real).
    Isso remete à outra questão presente na sociedade capitalista, que é a categoria da alienação. Esta (simplificando enooormemente toda a complexidade do tema) impede que vejamos a realidade a partir da categoria da totalidade. Não percebemos as relações reais que são estabelecidas, não percebemos o movimento real da sociedade. Tudo parece estático, mas só parece. A aparência das coisas sobressai à sua essência. Aliás, não se busca encontrar a mediação das relações até atingir sua essência. Assim, uma vaca é uma vaca. Um bife é um bife. “Sempre comemos animais e sempre será assim”. “Sempre houve capitalismo e nunca vai mudar”. As pessoas esquecem que a história está submetida ao movimento dialético da realidade. Tudo está em eterno devir.
    Desculpe-me se meu comentário está longo. Realmente me empolgo ao tratar destes assuntos, mas paro aqui, pois provavelmente se sobreviveu a esta leitura já está entediado. rs

    Ótimo texto.
    Agradeço a oportunidade de expressarmos nossas ideias.

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