Ecocídios, uma outra consequência da postura humana de proprietarizar a Natureza e inferiorizar e matar animais

Crime ambiental em Mariana/MG, o epicentro da catástrofe que matou o Rio Doce

Crime ambiental em Mariana/MG, o epicentro da catástrofe que matou o Rio Doce

A catástrofe de Mariana/MG e do Rio Doce, resultante de crime ambiental de larga escala, resultou numa mortandade sem precedentes, com a morte dolorosa, estima-se, de milhões ou mesmo bilhões de animais na bacia hidrográfica da região. Mostrou-se assim que os seres humanos promovem inferiorização e matança de animais não humanos não só por meio de atividades de exploração animal, como a pecuária e a pesca, mas também por tratar a Natureza como se fosse sua propriedade e assim vulnerá-la a massacres como esse.

A morte dos peixes e animais terrestres da bacia do Rio Doce só aconteceu – e continuava acontecendo no momento em que este artigo foi escrito – porque as duas grandes empresas acionistas da mineradora Samarco, a Vale e a anglo-australiana BHP, puseram em prática o pensamento de que parte da Natureza é propriedade privada sua. E isso incluiu colocar a vida de incontáveis seres sencientes, mesmo aqueles que viviam a centenas de quilômetros de distância, à mercê dos caprichos deles.

E sob esse jugo proprietário particular, eles se sentiram no direito de fazer praticamente o que bem quisessem no território que exploravam para mineração. Isso incluiu, como foi dito, tratar o meio ambiente como lixão de rejeitos tóxicos de suas poluentes e insustentáveis atividades, vide as três barragens da região onde o desastre começou e duas delas se romperam. Convém lembrar que a terceira barragem ainda periga também se romper a qualquer momento e aumentar ainda mais a catástrofe.

A exploração animal na pecuária, pesca, rodeios, pesquisas científicas etc. e os ecocídios que têm como epicentro áreas naturais mantidas sob propriedade privada de empresas ambientalmente predatórias têm a mesma premissa (anti)ética. É “assumir” partes da Natureza – sejam seres dela ou partes territoriais que englobam incontáveis deles – como sua propriedade e com isso dominá-los com o mais assassino despotismo ético-ambiental.

E outra semelhança é que, nos dois casos, os animais não humanos são tratados como seres inferiores, indignos de terem suas vidas preservadas e zeladas. A diferença entre a exploração animal e a ambiental é que, enquanto a primeira “usa” os animais como recursos ou instrumentos “a serviço” dos humanos, a última os inferioriza por, do alto da negligência e irresponsabilidade ambiental, o explorador não se importar em causar mortandades de animais como consequência de suas atividades. Mesmo sabendo que a vida deles está sob sua responsabilidade, os criminosos ambientais creem que eles não são moralmente “superiores” a ponto de merecerem sua compaixão, empatia, respeito e proteção.

É necessário frisar também que as duas formas de proprietarização dos animais foram radicalizadas com o advento do capitalismo, a partir da época do mercantilismo colonialista – que deu início, no Brasil, à destruição da Mata Atlântica e à devastação do território hoje de Minas Gerais com mineração. E foram piorando ainda mais na era do capitalismo industrial, com a titanização dos impactos ambientais das atividades humanas, a progressiva privatização de territórios para exploração ambiental e a pecuária e a industrialização e massificação da exploração animal.

Foi em especial a sede de lucro, fruto do capitalismo, que fez com que a antiga estatal de mineração Vale do Rio Doce fosse privatizada e se tornasse um dos maiores carrascos do meio ambiente no Brasil. E é a mesma ganância capitalista que faz tanto com que pecuaristas confinem milhares de animais em galpões chamados fazendas ou granjas industriais (ou factory farms) como que, por outro lado, promovam reformas bem-estaristas para otimizar a “produção” e enganar seus consumidores com anúncios de produtos animais “éticos” e “conscientes”.

Devemos, portanto, em nossas lutas pela sustentabilidade da vida humana e contra o predatismo ambiental, desmontar também essa cultura antropocêntrica de tomar a Natureza como “nossa” para livres dominação, uso e abuso. Isso poderá evitar que novas tragédias como a do Rio Doce ocorram, já que elas se baseiam, no fundo, nessa arrogância proprietária e dominante de seres humanos sobre o meio ambiente.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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