bolor
Bolor com fungos da espécie Physarum polycephalum, que, segundo uma matéria manipuladora da Tecmundo, teriam sido comprovados como sencientes

Em 12 de agosto de 2013, o Tecmundo publicou uma matéria que manipula uma reportagem de outro site, sobre uma experiência que teria supostamente comprovado que fungos teriam sentimentos. Diante da suposta comprovação de senciência em seres imóveis, alguns carnistas abriram um sorriso, na crença vã de que finalmente teria sido comprovado que fungos e plantas são seres sencientes e, logo, veganos seriam pessoas “cruéis” e “hipócritas”.

Mas Eduardo Pacheco, leitor do Veganagente, mostrou que a matéria do Tecmundo é manipulada e, diante de uma análise mais profunda, a crença de que fungos (e plantas) sentem dor e emoções cai por terra. Vale ver a refutação abaixo que ele fez:

 

Resposta à matéria da Tecmundo e a carnistas sobre fungo “com emoções”
por Eduardo Pacheco, com adaptações

A abordagem do meu argumento será a desconstrução, então passarei por cada ponto do argumento implícito e explícito dessa postagem e demonstro onde e em que medida ele falha. Para atacar meu argumento o onívoro deve explicitar a passagem que quer refutar e demonstrar em que medida aquilo é inválido, com fatos ou com falta de coesão na lógica interna.

Em primeiro lugar, leiam o direto na fonte, que está aqui.

Toda e qualquer conclusão do texto só pode partir daquilo que foi efetivamente feito na experiência.

Meu argumento, então, começará descrevendo o fungo, depois a experiência, em seguida a conclusão da matéria do Tecmundo (e não dos cientistas), e por último, o porquê da conclusão da matéria ser inválida em face da experiência.

A – Quem é o fungo?

Physarum polycephalum, que é uma agregação de muitos organismos unicelulares, é capaz de resolver alguns problemas, como encontrar o menor caminho até a comida. Ele também estoca estados elétricos , o que permite uma capacidade análoga ao que entendemos por memória.

É um dos organismos mais simples dentre os capazes de aprender.

B – Qual foi o experimento?

Ella Gale, que estuda computação não-covencional,colocou o bolor em uma floresta de 64 micro-eletrodos, juntamente com alguns flocos de aveia.

Quando o bolor se movia em direção à comida através dos eletrodos, o movimento causava sinais elétricos, que Gale converteu em sinais sonoros.

Junto com seus colegas, Gale separou os dados sobre sons em grupos. Deram a cada um deles etiquetas positivas ou negativas, dependendo
de se a gosma se aproximava da comida ou fugia da luz.

Sobre esses dados de som, Gale aplicou um modelo de representação psicológica, que associou a cada som uma emoção. Quando ele se aproxima da comida, Gale associou a carinha de “feliz” na simulação. Quando ele foge da luz, a carinha de raiva/tristeza.

C – Qual a conclusão da matéria (e não do experimento)?

A matéria do Tecmundo concluiu que bolores são capazes de sentimentos.

D – Por que essa conclusão é inválida?

Como vimos em B, o que efetivamente aconteceu na experiência foi medir a passagem do bolor sobre eletrodos. Quando o bolor passa pelos eletrodos, são produzidos sinais elétricos pelo contato do bolor com o eletrodo, e esses sinais são classificados.

Note aqui que gerar sinais elétricos não implica sentimentos ou emoções: é antes um resultado da mera interação com os eletrodos. Caso um robô passasse pelos eletrodos, igualmente teríamos sinais elétricos gerados.

Um pouco de grafite, lã, algodão ou a sua televisão, idem: e certamente ninguém aqui acredita que o grafite tenha sentimentos. É resultado de pura física, portanto.

Ao comer a aveia, o bolor se comporta com um padrão que depende do ato de comer a aveia. As suas células fagocitam os pedaços de comida, liberam enzimas específicas , produzem substâncias que fazem sentido no contexto de comer os flocos de aveia. Isso gera toda uma dinâmica que pode ser captada pelos sensores ligados aos eletrodos.

Quando o bolor recebe uma fonte irritante de luz e foge dela, ele age assim porque essa luz excita determinadas enzimas e sensores dentro dele, que desencadeiam na operação de fuga.

Essa dinâmica interna requer a mencionada produção e liberação de substâncias específicas, próprias para a operação de fuga, e são diferentes daquelas específicas da operação de comida.

A interação do bolor com os eletrodos, então, fica diferente ao fugir da luz e comer a aveia. Essa diferença na interação leva à diferença de sinais.

Em seguida, Gale associou esses sinais classificados à um simulador de emoções. Perceba que a associação foi feita pela mente de Gale, e não do bolor.

Para entender porque a associação de Gale refuta a tese da matéria, basta demonstrar que o mesmo efeito (a carinha feliz ou triste), aconteceria até mesmo com coisas não-vivas (e portanto incapazes de ter sentimentos).

Gale poderia ter o mesmo efeito da experiência medindo a temperatura do laboratório.

Mais que 20 graus ele associaria (afinal, na experiência do bolor foi ele quem associou) feliz. Menos que vinte graus é triste. Note que a associação de emoções é apenas um modo computacional de representar padrões de dados.

Isso de forma alguma significa que o objeto da experiência tenha emoções. Repito, é uma representação de um dado concreto, que poderia ser temperatura, estado elétrico, som, ou o que seja – nada disso indicando sentimentos e emoções.

Como descrevi, é perfeitamente possível associar um tempo quente ao status “feliz”, e não significa que o “ar” esteja feliz só porque eu chamei de felicidade o que na realidade é calor.

E – Relação da matéria com o vegetarianismo

A postagem do “Unidos contra o vegetarianismo” [fanpage carnista que disse que a experiência teria comprovado que fungos e plantas têm emoções e sentem dor, cujo link não será exposto aqui para não dar ibope a carnistas] coloca essa experiência como uma suposta refutação ao vegetarianismo. Parece que o autor da página não faltou só às aulas de biologia, mas também às de lógica, e toma conclusões sem analisar as premissas ou ler a fonte.

O argumento apresentado é o seguinte “Se este bolor tem emoções, logo o vegetarianismo não tem sentido”.

Bastaria eu mostrar qualquer uma das hipóteses abaixo para derrubar esse argumento:

1) Que o bolor não tem emoções [o que vimos pela experiência, ele não tem qualquer coisa que indique que tenha emoções].
2) Que, em um mundo imaginário e paralelo em que este bolor tivesse emoções, nada disso implica que outros bolores tenham emoções.
3) Que vegetarianos não comem bolores amarelos como esse.
4) Que o fato de um bolor ter emoções (e já demonstrei que nem isso é verdade) não implica que uma alface ou a soja tenham.
5) A pirâmide energética implica que gastamos 7kgs de soja pra produzir 1kg de carne, o que significa que mesmo que a soja tivesse emoções, o vegetarianismo ainda assim pouparia sofrimento de muita soja além do boi.

A mágica da coisa está na tradução. Os cientistas traduzem, um robô expressa e os caras vem me falar que é o bolor que tem sentimentos(!).

Podemos repetir o experimento com um pedacinho de isopor boiando para a direita e a esquerda, e assim provamos, já que o computador vai atribuir sentimentos aos movimentos do pedacinho, que o isopor também ama.

Os carnistas precisam entender de uma vez por todas que essa galerinha aí está só brincando de automação. Qualquer um que saiba traduzir um bit para uma informação sabe o tamanho da besteira que se concluiu através da experiência.

1 comment

  1. Olá, eu gostaria de opinar.
    Primeiramente, vejo que o Eduardo analisou tópico a tópico e pontuou sua argumentação.
    Isso é louvável Ele teve trabalho.
    Mas em um ponto ele perde o fio da meada e sua lógica falha, tornando sua conclusão inválida.
    Explico:
    Ele diz que “Note aqui que gerar sinais elétricos não implica sentimentos ou emoções: é antes um resultado da mera interação com os eletrodos”.
    A seguir, ele ridiculariza as ambições da experiência, comparando-a a uma simples análise de variáveis.
    Creio haver aí uma séria desinformação por parte de Eduardo.
    Um detalhe crucial é que nossas emoções são todas geradas no cérebro humano através de… IMPULSOS ELÉTRICOS!
    Todas as emoções humanas: ódio, amor, compaixão, raiva, fome, medo… tudo que nós vemos, sentimos, interpretamos, não passa de uma “mera interação com os eletrodos” no nosso cérebro!
    É por isso que a experiência se torna interessante: os impulsos elétricos é que nos fazem o que somos.
    Não vou entrar no mérito de discutir veganismo, vegetarianismo ou critérios editoriais.
    Apenas destaco que essa argumentação dele ignorou ou desconheceu um fator determinante.

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