Fazendas que promovem "educação ambiental" com apologia à exploração animal promovem tudo, menos uma autêntica Educação Ambiental
Fazendas que promovem “educação ambiental” com apologia à exploração animal promovem tudo, menos uma autêntica Educação Ambiental. Obs.: A imagem, apesar de exemplificar o que falo aqui, não é da fazenda mencionada no vídeo a que assisti

Um vídeo* de abril de 2012, ao qual assisti recentemente, de um programa televisivo de meio ambiente, trazia acriticamente uma reportagem sobre uma iniciativa de “educação ambiental”, dedicada a crianças estudantes, que explorava animais. Animais enjaulados e ambientes que lembravam uma pecuária bem-estarista e “boazinha”, entre outros detalhes, faziam a exploração animal parecer algo “divertido” e “sustentável”. Percebemos, quando assistimos a tal matéria, como tentar “conciliar” meio ambiente com naturalização da crença nos animais não humanos como seres “a serviço” dos humanos é um gol contra de placa em prejuízo à Educação Ambiental.

A iniciativa em questão, assim como outras que fazem apologia a atividades como a pecuária e a pesca, traz uma imagem mitificada, uma meia verdade – que, em muitos casos, é uma farsa completa –, sobre como a pecuária trata os animais que lhes são submetidos. Propagandeia-a como “cuidadora” dos animais, pinta o pecuarista e seus peões como “amiguinhos” daqueles que na verdade são seus escravos.

Além disso, insistem que temos uma “relação inseparável” com os animais explorados, que “precisamos” usar e consumir animais para vivermos “bem”, e que isso é “natural” e “normal”. Às vezes fazem o falacioso apelo ao emprego, segundo o qual pescadores, granjeiros, pecuaristas, donos de granjas, tosquiadores, peões, vaqueiros, ordenhadores, funcionários de frigoríficos etc. têm no uso de animais seu “ganha-pão” e “trabalho honesto”, como se isso justificasse eticamente a subjugação de incontáveis animais à dominação humana que os mata em massa.

Um detalhe bastante notável dessa “educação” pró-pecuária é que ela não mostra qual o destino final dos animais “cuidados” por essa atividade. Não revela aos alunos aquilo que acontece – serem acomodados em caminhões de “carga viva”, terem uma viagem infernal até o matadouro e lá serem fuzilados no crânio e/ou degolados na garganta, com muito derramamento de sangue. Só diz que eles “servem” para “fornecer-nos a carne, o leite e os ovos que são ‘essenciais’ à nossa vida e bem-estar”.

Nos eventuais casos em que essas iniciativas “educativas”, quando fomentadas por ONGs de “bem-estar animal”, mencionam crueldades óbvias e chocantes em fazendas e granjas industriais e matadouros clandestinos, propagandeia-se o bem-estarismo como “solução” para os “maus tratos contra animais”.

Daí exaltam fazendas de pecuária orgânica produtoras de “carne feliz” e/ou “leite feliz/orgânico” e criações “free range” (sem gaiolas) de aves “de corte” e/ou “poedeiras”. Nas vezes em que citam o abate bem-estarista, dizem que é “humanitário” e “indolor” e o animal “não sofre” quando é morto.

Nisso tudo, o que ocorre é uma antipedagogia, uma “educação” às avessas que aliena e engana, ao invés de trazer conhecimentos esclarecedores e fomentar a busca pela verdade. Educação Ambiental que se preze, até por seu caráter emancipatório e ético, é completamente contra isso.

Além de reconhecer que essa pecuária, exaltada pela falsa “educação ambiental” aqui mencionada, é uma das atividades humanas que mais destroem o meio ambiente, a EA é contra as mitificações e falsas dicotomias que marcaram, ao longo dos séculos, a relação desastrosa entre a humanidade e o restante da Natureza.

A autêntica EA se opõe à divisão dos seres do mundo em seres “culturais dominantes” e “naturais domináveis”. E também se coloca convictamente contra mitos antropocêntricos, como o “direito natural” do ser humano de submeter e explorar o meio ambiente de acordo com seus caprichos, a hierarquização moral dos seres terráqueos que coloca a humanidade no topo, a divisão da ordem natural da Terra em “cultura” e “Natureza”, entre outros que argumentam a favor tanto da dominação da Natureza não humana quanto da exploração animal.

Daí o que uma EA de verdade, conscientizadora e emancipacionista, faria numa situação de professores expondo crianças a um ambiente de exploração animal “boazinha” seria denunciar aquilo tudo. Apontaria como o que é promovido ali é uma farsa ética, uma maneira de convencê-las de que o ser humano teria o “direito” de tornar os seres não humanos seus “servos” e, por tabela, fazer o mesmo com toda a biosfera.

E mostraria como o que é propagado aqui visa esconder a faceta socioambientalmente insustentável da pecuária: seus procedimentos de desmatamento; poluição; consumo perdulário de água e de terras; exploração degradante de mão-de-obra; fomento da expulsão e assassinato de camponeses, indígenas e ambientalistas; concentração fundiária; combate político e paramilitar à luta popular pela reforma agrária; dominação oligárquica, vide bancada ruralista, das decisões políticas tomadas em âmbito municipal, estadual e federal; entre outros costumes que ameaçam destruir ainda mais a biosfera, incluindo a perda da vida de milhões ou bilhões de seres humanos.

A legítima e maiúscula Educação Ambiental, voltada à libertação da Terra e à harmonização entre a humanidade e a Natureza não humana, precisa desmascarar esse tipo de “educação ambiental” minúscula, dedicada a reafirmar o senhorio humano sobre o não humano. Para tanto, deverá reconhecer e assimilar os princípios éticos dos Direitos Animais e fazer as devidas conciliações entre a inadmissibilidade do ato de tratar animais como coisas e os ideais inerentes à sustentabilidade ambiental-social-econômica.

Com um esforço sério e politizado dos educadores ambientais, será provado que qualquer tentativa de mostrar pecuária, pesca e outras formas de exploração animal como ecologicamente “boazinhas” e eticamente “corretas” é enganação. Ficará mais evidenciado que iniciativas como a fazenda em questão usam a educação como meio de alienar crianças e jovens, e não para formar seres pensantes, questionadores e conscientes.

 

*Não mencionei o link do vídeo por precaução, para evitar menções diretas ao estabelecimento que promovia a exploração e a falsa educação ambiental aqui criticada, as quais poderiam provocar um processo judicial.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*