Texto respondido sobre carne e evolução

Desde 2016, está sendo divulgada uma notícia sobre uma “polêmica” pesquisa feita por dois cientistas da Universidade de Harvard, publicada no periódico científico Nature.

Esse estudo argumenta que o consumo – mais precisamente a mastigação – de carne crua de animais caçados por ancestrais do ser humano moderno, há meio milhão de anos, influenciou decisivamente para a anatomia das nossas cabeças ser o que é hoje.

Poderia ser um simples estudo sobre o passado distante da espécie humana. Mas ocasionalmente aparecem antiveganos usando-o para argumentar que ele “prova” que o consumo de carne “é importante até hoje” e que o veganismo “pode atrasar a evolução biológica” da humanidade.

Mas será que é isso mesmo que essa pesquisa diz?

O que essa pesquisa diz sobre o papel da mastigação da carne na evolução humana

Estudo de Harvard sobre carne
Estudo de Harvard sobre mastigação, carne e evolução humana

Vamos ver se essa pesquisa realmente diz o que os antiveganos têm argumentado sobre ela, lendo o resumo (em tradução livre e dividido em parágrafos) do artigo:

As origens do gênero Homo são obscuras, mas, na espécie H. erectus, os cérebros e corpos evoluíram tornando-se maiores, ao ponto em que, juntamente com a extensão das áreas de coleta de forragem, isso teria aumentado as exigências energéticas diárias dos hominídeos. No entanto, o H. erectus difere dos hominídeos anteriores por ter dentes relativamente pequenos, músculos de mastigação reduzidos, força máxima de mordida mais fraca e um intestino relativamente menor.

Esta combinação paradoxal de aumento da demanda de energia com a diminuição das capacidades de mastigação e digestão pode ter se tornado possível pela adição de carne à dieta, com intermédio  do processamento mecânico de alimentos com ferramentas de pedra ou com cocção [ato de cozer o alimento]. A cocção, no entanto, era aparentemente incomum até 500.000 anos atrás, e os efeitos do consumo de carne e das técnicas paleolíticas de processamento alimentício na mastigação são desconhecidos.

Neste estudo relatamos experimentos que testaram como as tecnologias de processamento do Paleolítico Inferior afetam a produção e a eficácia da força de mastigação em seres humanos que consomem carne e raízes de plantas. Descobrimos que, se a carne tiver representado um terço da dieta, o número de ciclos de mastigação por ano teria diminuído em quase 2 milhões (uma redução de 13%) e a força mastigatória total necessária teria diminuído em 15%.

Além do mais, ao simplesmente cortarem a carne e moerem as raízes, os hominídeos teriam melhorado sua capacidade de mastigar a carne em pedaços menores em 41%, reduzido o número de mastigações por ano em mais 5% e diminuído a força de mastigação necessária em mais 12%.

Embora a cocção tenha benefícios importantes, parece que a seleção de porções mastigáveis menores pelos Homo teria sido inicialmente tornada possível graças à combinação do uso de ferramentas de pedra e do consumo de carne.

 

O que isso significa (ou não) sobre comer carne ser “importante” hoje

Homo erectus X humano que come carne
Definitivamente, os hábitos alimentares e a biologia do Homo erectus não tem nada a ver com os churrascos dos seres humanos de hoje

Como falei mais acima, muitos antiveganos dizem que esse artigo estaria corroborando a crença deles de que carne é “essencial para o ser humano”. Mas, quando lemos o resumo dele, percebemos que não é bem por aí.

Em primeiro lugar, a pesquisa apenas levanta uma hipótese, que ainda precisa ser apoiada por novos estudos paleontológicos que eventualmente comprovem que realmente houve um benefício, por parte da mastigação e ingestão de carne, à biologia humana. Não trouxe nenhuma verdade absoluta ou definitiva.

Em segundo, perceba que essa informação, mesmo se for confirmada por pesquisas futuras, está situada num contexto muito antigo – mais precisamente de 500 mil anos atrás, quando as únicas carnes que os hominídios comiam eram de animais caçados no meio selvagem e cruas ou assadas em fogueiras.

Ou seja, muito antes de terem surgido técnicas como a cocção, a agricultura, a própria pecuária, a seleção genética, a refrigeração, o preparo de alimentos em óleo frito ou em forno e a produção industrializada de alimentos processados.

Outro motivo que invalida essa presunção dos antiveganos é que esse estudo não fala absolutamente nada de supostos benefícios nutricionais e físicos do consumo de carne na espécie Homo sapiens sapiens, ou seja, o ser humano de hoje. Tampouco cita a alimentação vegetariana (livre de componentes de origem animal) como melhor ou pior do que a não vegetariana.

E o último grande detalhe que lhes tira a razão é que essa pesquisa não fala uma vírgula sequer sobre o que aconteceria no futuro se todos os seres humanos de hoje parassem de comer carne.

Ou seja, a linha de raciocínio de que “Uma pesquisa de Harvard de 2016 atestou que comer carne foi importante para os ancestrais do Homo sapiens há 500 mil anos, logo comer carne hoje é fundamental para nossa saúde e evolução” é completamente falaciosa e falsa.

 

Considerações finais

Comer carne não
Esse estudo não é uma desculpa para continuar comendo carne e recusando o veganismo

Ao contrário do que alguns antiveganos têm repetido, a pesquisa em questão não afirma nada que confirme a crença deles e aponte algum aspecto negativo na alimentação vegetariana ou no veganismo.

Em outras palavras, novamente não foi dessa vez que a ciência deu razão ao antiveganismo e enfraqueceu os defensores dos Direitos Animais e do modo de vida vegano.

Portanto, se algum antivegano de seu círculo de contatos está dizendo que esse estudo “quebrou as pernas dos veganos”, “comprovou a importância de comer carne” ou algo parecido, mostre a ele que nada disso é verdade, que o artigo não fez nada disso.

4 comments

  1. Olá, Robson,
    Saber que não era possível que as proteínas da carne tivessem influenciado na evolução da espécie humana, eu sabia e, sempre coloquei a questão da época para todos os que me dizem isso, agora com essa síntese que você publicou ficou mais fácil.
    Trabalho em escola e a luta é árdua.
    Obrigada,
    Rosa Olivia

    1. Valeu, Rosa Olivia, pela colocação =)

      Existe uma controvérsia sobre se a proteína animal foi realmente necessária pra evolução humana no passado, ou o caminho evolutivo seria o mesmo ou muito parecido com o que se deu se os hominídeos fossem vegetarianos. O caso desse artigo é contestar a crença de que essa pesquisa específica tem algo a dizer sobre o consumo de carne hoje pelos Homo sapiens sapiens.

      Abs!

  2. Além disso, o estudo mostra apenas que a força da mastigação foi diminuída, assim como a capacidade digestiva. A evolução tratada aqui, no meu entender, é interpretada como mudança ao longo do tempo; não necessariamente para melhor.

    1. Pois é, Germana. E aí os antiveganos distorcem a pesquisa como se ela tivesse provado que “a carne foi essencial pro ser humano evoluir pra melhor”.

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