Pseudociência, bullying em plantas
“Porque plantas possuem os mesmos sentidos que os seres humanos”: o experimento da IKEA sobre “bullying em plantas” se baseia em pura pseudociência. Foto: comercial da IKEA

Atualizado em 23/05/2018 às 08h24, removendo-se as citações ao psicólogo Izzy Kalman. Me foi relatado que ele faz uma abordagem conservadora e fatalista sobre o problema social do bullying nas escolas, voltada não a combatê-lo, mas sim a ensinar crianças e adolescentes a se defenderem. Em respeito às discussões sérias sobre o assunto e para não parecer que essa seria uma posição com a qual eu estivvesse concordando, fiz essa alteração.

Na primeira metade de maio, um experimento sobre “bullying em plantas”, encomendado e tornado público pela multinacional de móveis IKEA e feito por uma agência publicitária, causou polêmica.

Nessa experiência, feita nos Emirados Árabes Unidos, publicitários gravaram algumas mensagens de incentivo e elogio e outras contendo insultos e frases de ódio. Então gravadores reproduzindo as falas foram colocados ao lado de cada planta: uma “ouvia” as falas positivas, e a outra recebia as mensagens insultuosas, em loop infinito e constantemente ao longo de 30 dias.

As plantas ficaram em exposição itinerante em diversas escolas daquele país durante esse tempo, para que crianças e adolescentes vissem o que estava acontecendo. Eventualmente os jovens também contribuíram gravando mensagens positivas ou negativas, para serem “ouvidas” pelos vegetais.

O resultado alegado da tal experiência, e que foi exibido num comercial “educativo” da IKEA, foi que a planta que recebeu palavras positivas cresceu e se manteve saudável, enquanto a que foi “maltratada” murchou.

Muitos antiveganos, então, alardearam ao mundo: “Olha só, comprovaram que plantas têm sentimentos! Isso prova que veganos são tão malvados com quem come quanto os não veganos, e que é a lei da vida matar para comer!”

Mas será que o comercial da IKEA provou mesmo isso? Esse tal experimento realmente atesta a existência de senciência e emoções em plantas?

As falhas do experimento do “bullying em plantas”

Neurobiologia vegetal, pseudociência
“Neurobiologia vegetal”: o experimento da IKEA se baseou num sistema de crenças desacreditado pela ciência séria. Foto: comercial da IKEA

Uma matéria do Psychology Today, escrita por Izzy Kalman, mostrou que a tal experiência é fraudulenta. E uma análise mais aprofundada nos fundamentos do tal “estudo” mostra que há várias razões para ele ser pura lorota e ter enganado todas aquelas crianças e adolescentes.

Conheça a seguir cada falha desse experimento.

Primeira falha: o experimento é enviesado

A primeira razão de o experimento ser uma fraude foi que ele continha um evidente viés: os publicitários e a IKEA intencionavam que o resultado fosse aquele. É parecido com quando um criacionista defensor do “design inteligente” tenta usar a ciência para provar que está “absolutamente certo”, não para pôr em prova suas crenças.

Se fosse algo realmente dotado do rigor do método científico, teria sido conduzido por uma equipe de pesquisadores biólogos imparciais, para testar a hipótese de modo a confirmá-la ou descartá-la. E depois, teria que ser revisado por pares e tentativamente reproduzido por outros cientistas, de modo a se atestar o fenômeno pesquisado como uma verdade científica ou um estudo falho.

Segunda falha: plantas são estimuladas por sons intensos, não por mensagens verbais especificamente positivas

A segunda foi que a suposta relação entre mensagens positivas e negativas e o crescimento ou definhamento de plantas já foi refutada pelo programa Myth Busters, dedicado a testar, eventualmente desmascarando como fraudes, fenômenos tidos no senso comum como sobrenaturais ou fantásticos.

O resumo do episódio 23 do programa, de novembro de 2004 (tradução minha) fala da realização de um experimento envolvendo exposição de plantas a estímulos sonoros leves e pesados:

Diversas estufas pequenas foram postas no telhado do prédio da M5 Industries. Quatro foram postas com sons estéreo tocando gravações em loop incessante (uma vez que, se os membros do Myth Busters falassem diretamente com as plantas, isso poderia contaminar as amostras com o gás carbônico expelido de suas bocas): dois estéreos reproduziam falas negativas, outros dois tinham falas positivas (Karl e Scottie criaram, cada um, uma trilha sonora positiva e uma negativa), um quinto com música clássica e um sexto com um intenso death metal. Uma sétima estufa, usada como amostra controle, não recebia nenhum áudio estéreo. As plantas das estufas com gravações de fala cresceram melhor que as da estufa controle, independentemente de as falas serem gentis ou raivosas. As plantas na estufa que tocava música clássica cresceram melhor ainda, enquanto as da estufa onde tocava o death metal intenso foram as que melhor cresceram entre todas.

Ou seja, o que estimula as plantas, bio-físico-quimicamente falando, é a intensidade do volume dos estímulos sonoros, independente de serem vozes amigáveis ou expressando ódio.

Terceira falha: a “neurobiologia vegetal” é desacreditada na comunidade científica

Outro problema do tal experimento é que ele se baseia em uma área de conhecimento que hoje é considerada pela comunidade científica uma pseudociência: a “neurobiologia vegetal”, que parte do princípio de que plantas teriam um aparato anatômico e bioquímico semelhante a um sistema nervoso, que lhes permitiria ter emoções e manifestar comportamentos tão complexos quanto os dos animais.

A “neurobiologia vegetal” foi desacreditada por uma equipe de 36 cientistas, sob a liderança do italiano Amedeo Alpi, num artigo intitulado Neurobiologia vegetal: sem cérebro, sem ganho? (Plant neurobiology: no brain, no gain?). Conforme resume o artigo sobre fisiologia da percepção vegetal na Wikipedia em inglês (tradução minha), o parecer revela que:

  • “A neurobiologia vegetal não acrescenta nada ao nosso entendimento de fisiologia vegetal, biologia celular vegetal ou transmissão de sinais”;
  • “Não há nenhuma evidência de estruturas como neurônios, sinapses ou um cérebro em plantas”;
  • A ocorrência comum de plasmodesmos em plantas “traz um problema para a transmissão de sinais a partir de um ponto de vista eletrofisiológico”, uma vez que a existência de pareamento elétrico extensivo descartaria a necessidade de qualquer forma de transporte célula a célula de compostos similares a neurotransmissores.

Quarta falha: metodologia obscura e defeituosa e suspeita inverificável de manipulação

Além de todos esses problemas, o experimento teve uma metodologia bastante furada, muito inferior ao que seria uma metodologia de pesquisa biológica confiável.

Em primeiro lugar, deveria ter sido usada uma terceira planta para servir de amostra controle, que não recebesse nenhum estímulo sonoro de vozes. Isso permitiria verificar, na análise dos dados, se o que estimula a planta a crescer é a indistinta presença do som e sua intensidade ou realmente o seu conteúdo moral.

Em segundo, em momento nenhum é informada ao telespectador do comercial a intensidade do volume do som que cada planta recebeu. Também não se informam as taxas quantitativas de fotossíntese e de respiração das plantas, nem se a posição dos dois vegetais em cada escola e a sombra que os alunos faziam nelas interferiam na quantidade de luz solar recebida por cada um deles, nem se as duas plantas estavam sadias ou uma delas estava com algum problema patológico.

Outra hipótese que deveria ser testada é se os funcionários da agência de publicidade e os estudantes das escolas falaram mais baixo ao gravar as mensagens negativas do que as positivas.

E finalmente, uma vez que o experimento já vinha com a intenção de produzir um resultado que correspondesse à crença dos publicitários responsáveis pelo comercial, há uma suspeita muito grande de que houve, às escondidas, ações de fraude explícita.

Por exemplo, uma das minúsculas notas de rodapé diz que as plantas receberam iguais quantidades de água e luz solar. Mas isso é impossível de ser provado apenas assistindo-se ao comercial.

Existe a possibilidade de que, para induzir o resultado desejado, a planta que “sofreu bullying” tenha furtivamente recebido menos água do que a que foi “bem tratada”, ou que a segunda tenha recebido adubo e a primeira não, ou que a quantidade ou qualidade do possível adubo para cada planta fosse desigual.

Quinta falha: usar (pseudo)ciência e premissas supersticiosas para “comprovar” uma crença mágica

Na página do vídeo da propaganda no YouTube, o perfil do canal Science for Progress, num comentário, adicionou mais uma questão que torna o experimento problemático e ineficaz em provar seu ponto de vista (tradução minha):

Como cientista, estou muito preocupado(a) que uma empresa como a IKEA pense que este foi um experimento apropriado. Este estudo é metodologicamente tão falho que seu resultado é ininterpretável.

Fico ainda mais chocado(a) com as crenças mais profundas que alguém deve ter para apresentar a hipótese de que uma planta se importaria com o abuso verbal. Não tem ouvidos, nem cérebro, nem sistema nervoso central – NÃO PODE PROCESSAR SOM, quanto mais entender o conteúdo. Uma hipótese assumiria assim a percepção extra-sensorial! E isso é basicamente mágica! Você não pode estar falando sério sobre isso!

Estou chocado(a) por você ter enganado jovens estudantes ao pensar que essa era uma maneira legítima de conduzir um estudo. Eu recomendo fortemente que todos os envolvidos sejam enviados de volta ao ensino médio.

“Plantas têm sentimentos, assim como pessoas”??? Eu não posso conceber isso!

Além disso, o “estudo” parte de premissas alicerçadas em crenças totalmente infundadas, como a de que plantas possuem habilidades intrínsecas, superiores às dos próprios animais, de aprender e entender instantaneamente (ou em poucos dias) idiomas humanos como o inglês das gravações, conhecer e observar o comportamento dos seres humanos, discernir entre o bem e o mal e reconhecer ações morais e imorais.

Considerações finais

Planta murcha e planta boa
O que essas duas plantas nos provaram depois de “ouvir” mensagens boas ou ruins? Resposta: Nada! Foto: comercial da IKEA

O experimento encomendado pela IKEA e realizado por uma agência de publicidade em escolas não provou nada sobre “plantas terem sentimentos”.

Sua metodologia contém muitas falhas e omissões, as premissas que motivaram o tal “estudo” se baseiam em crenças pseudocientíficas e supersticiosas e a pesquisa já estava enviesada desde a sua concepção.

Portanto, aos veganos, não há o que se preocupar, podem continuar consumindo alimentos vegetais sem peso na consciência. E aos antiveganos, de novo não foi dessa vez – e nunca será.

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