Matéria antivegana respondida: "plantas sentem dor"

Em meados de setembro, uma descoberta publicada na revista Science deixou alguns antiveganos ouriçados, acreditando que “plantas sentem dor”.

Eles supuseram que uma pesquisa recente de Masatsugu Toyota e colaboradores teria descoberto que plantas poderiam se comunicar e sofrer e, assim, seriam seres sencientes e inteligentes tanto quanto os animais não humanos.

Mas será que é isso mesmo que o tal estudo relata? É o que veremos.

A verdade sobre o experimento de Toyota e colaboradores: ele provou que plantas sentem mesmo?

Trecho de matéria da Science sobre comunicação química entre órgãos de planta: plantas sentem dor?
Trecho de matéria da Science sobre comunicação química entre órgãos de planta

Textos como esse aqui “comemoraram” a pesquisa, descrevendo-a como se tivesse comprovado que “plantas sentem dor e são inteligentes”.

Mas será que foi isso mesmo?

Se lermos a matéria do site da Science sobre esse estudo, concluiremos que, como diria Edgard Matsuki do Boatos.org, a resposta é não.

A matéria da Science

A matéria assinada por Elizabeth Pennisi noticia (tradução minha):

Plantas podem carecer de cérebros, mas elas possuem um sistema nervoso, de alguma forma. E agora, biólogos vegetais descobriram que, quando uma folha começa a ser comida, ela avisa outras folhas usando os mesmos sinais que [no corpo de] animais. O novo trabalho está começando a desvelar um longo mistério sobre como diferentes partes de uma planta se comunicam entre si.

Células nervosas de animais “falam” uma para as outras com a ajuda de um aminoácido chamado glutamato, que, depois de ser liberado por uma célula nervosa excitada, ajuda a desencadear uma onda de íons de cálcio nas células adjacentes. A onda viaja para a próxima célula nervosa, que por sua vez emite um sinal para a próxima em linha, permitindo uma comunicação a longa distância.

Mas cientistas estavam investigando outra coisa quando eles se depararam com a sua descoberta: como as plantas reagem à gravidade. Eles desenvolveram um sensor molecular que poderia detectar aumentos no cálcio, os quais eles acreditavam que exerceria um papel. Eles depuseram o sensor, que brilha mais forte à medida que os níveis de cálcio aumentam, numa planta de mostarda chamada Arabidopsis. Eles então cortaram uma de suas folhas para ver se podiam detectar alguma atividade de cálcio.

Eles imediatamente viram um brilho que se tornou mais forte, e depois mais fraco, bem perto da ferida; então o brilho apareceu e desapareceu mais longe dali até a onda de cálcio alcançar outras folhas (mais acima), conforme reportaram à Science. Um estudo mais aprofundado apontou o glutamato como o gatilho da onda de cálcio.

Apesar de biólogos vegetais já saberem que mudanças em uma parte de uma planta são percebidas pelas outras, eles não tinham nenhuma ideia de como a informação era transmitida. Agora que eles viram a onda de cálcio e o papel do glutamato, pesquisadores agora podem monitorar melhor e, quem sabe algum dia até manipular, as comunicações internas da planta.

Por que isso não prova a “senciência vegetal”

Pelo que se vê nisso, os antiveganos interpretaram ao pé da letra a primeira frase da reportagem de Pennisi, segundo a qual plantas teria uma forma de sistema nervoso.

Isso porque, segundo ela, a pesquisa nada mais do que comprovou como acontece um fenômeno que os cientistas botânicos já conheciam: a transmissão de sinais bioquímicos entre diferentes partes de uma planta em situações de predação.

E o que aconteceu nesse estudo nada mais foi do que isso: uma transmissão de sinais bioquímicos entre folhas a qual, nos animais, ocorre em células nervosas.

Em nenhum momento a pesquisa fala de sentimentos, de dor, de sofrimento, de inteligência. Mas sim de indução ao acionamento de um sistema biológico de defesa contra predação.

Ou seja…

Nem a pesquisa de Toyota e colaboradores, nem a matéria de Pennisi atestou a presença de dor, sofrimento ou inteligência em plantas.

Eles trouxeram outra conclusão: a de como sinais bioquímicos semelhantes aos de células nervosas animais são transmitidos entre partes do corpo de uma planta para acionar mecanismos de autodefesa.

Algo que não depende de senciência ou inteligência para acontecer, mas sim de mecanismos desenvolvidos por milhões de anos de evolução biológica – os quais, inclusive, tornaram as plantas livres de qualquer necessidade de sentir dor e manifestar sofrimento.

Portanto, matérias como a do site CidadeVerde.com não condizem com a verdade, ao atribuir à tal pesquisa uma conclusão à qual ela nunca chegou.

Em resumo, não foi dessa vez que foi provada a mítica “senciência vegetal”, algo que antiveganos tanto esperam que aconteçam para poderem se sentir livres para negar compaixão e empatia aos animais sem serem constrangidos.

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