Exploração animal e exploração de trabalhadores: muito mais interligadas do que se crê

Mãos de trabalhadora submetida a mão-de-obra escrava. A pecuária é uma das atividades que mais exploram seres humanos no Brasil

Mãos de trabalhadora submetida a mão-de-obra escrava. A pecuária é uma das atividades que mais exploram seres humanos no Brasil

Uma denúncia da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostrou que, em 2015, a pecuária foi a atividade econômica em que mais houve flagrantes de trabalho escravo – e a construção civil foi aquela em que mais houve intervenções de libertação. Isso dá razão aos pensadores holísticos, quando nos revela que também nas violências da exploração animal tudo está interligado – exploração animal, exploração humana, degradação da vida dos animais humanos e não humanos – e que o veganismo, embora tenha como objetivo a libertação animal, também auxilia em prover libertação humana.

Segundo a CPT, de um total parcial de 104 flagras em 2015, trinta foram em criações animais, 29% desse total. A exploração animal perde da construção civil em se tratando do número de trabalhadores libertados: 243 na segunda X 133 na primeira. Mas já é o bastante para se saber que a criação de animais é uma das atividades mais cruéis para com seres humanos no Brasil.

Brígida Rocha dos Santos, assistente social que já foi um dia um trabalhadora submetida a esse tipo de superexploração, deu esse desabafo num trecho de uma carta escrita ao Congresso pedindo pela não aprovação de um projeto de lei que poderá tornar menos abrangente a definição contemporânea de trabalho escravo:

“Quantas vezes – este é meu trabalho diário – não escutei de trabalhadores/as que nos procuram que já não aguentam mais beber água do açude barrento onde o gado também bebe, de comer carne apenas quando conseguem uma caça, de dormir amontoado no pequeno barraco de lona, sem paredes, ou mesmo no curral, repleto de embalagens de agrotóxicos e outros “Mata tudo”.

Quantas vezes não presenciei eles pedirem a Deus para não chover, para que não tenham que passar mais uma noite no molhado? Ou não comer outra vez arroz com molho de pimenta malagueta ou feijão temperado só com sal? Ou não acordar de madrugada para preparar o boião ou a marmita e seguir para a juquira, e comer lá nas matas sem sequer ter água de lavar as mãos, ou poder sequer descansar meia hora porque tem gato [capataz] cobrando produção? Ou não ter que aguentar, caladinho e humilhado, os palavrões que, de gente, os reduziram a coisa ou a bicho? Ou não ter que seguir trabalhando no medo de apanhar outra vez, sem outra opção a não ser sair fugindo dos tiros, com corpo já marcado por pancadas de facão, e pés inchados de correr nas matas?

Isso, ouvi e vi de tantos homens que fugiram de fazendas e carvoarias. Nem falo da falta de equipamentos de proteção, dos acidentes fatais, do pagamento que não vem nunca, da família que sofre. Ficam tão cansados, tão que, ao chegarem, muitos desmaiam e até adoecem. Tudo isso é apenas metade do que vivenciam e nos contam.Tudo isso são as condições degradantes e a jornada exaustiva que nossos nobres congressistas se preparam a eliminar de uma canetada.

Desde quando isso não é a expressão óbvia da escravidão? Por qual malabarismo, pretendem agora reduzir a escravidão apenas às figuras tradicionais da servidão por dívida e do trabalho forçado, quando a experiência de mais de 50 mil brasileiros libertados do trabalho escravo desde 1995 está aí para testemunhar?”

Fica muito claro que a ausência de ética, empatia e compaixão, inerente ao tratamento de animais não humanos como coisas sob propriedade de seres humanos, se estende necessariamente aos humanos empregados em fazendas, granjas, matadouros e frigoríficos. O documentário Carne e Osso é uma denúncia muito contundente disso.

Quando não se considera moralmente os animais não humanos como seres que merecem ser deixados em paz, é muito mais difícil haver um respeito pleno e sincero pelos seres humanos. É pouco provável que, por exemplo, uma fazenda de gado, uma granja ou uma fábrica lacto-frigorífica dê um tratamento trabalhista excelente a seus funcionários de “baixa patente”, com alta remuneração, jornada de trabalho reduzida, bastante conforto laboral e férias amplas.

Algumas atividades violentas dentro da linha de produção animal, aliás, colocam inexoravelmente os próprios humanos em risco. Por exemplo, serrar carcaças é algo permeado do perigo de mutilar o operador da serra ou lhe causar outras lesões severas. E no abate, a repetição frenética de movimentos, o mau manuseio do instrumento de matar e a tentativa desesperada do animal de se defender do algoz podem causar sérios prejuízos à saúde do matador. E não podem ser reformadas de modo a dar ao operário ou peão um conforto e condições excelentes de trabalho, já que o risco de ser ferido ou mesmo de morrer é intrínseco a esses procedimentos.

Ser violento com os animais não humanos faz com que a pessoa tenha menos sensibilidade e empatia para com humanos e também sofra as consequências dessa violência. Alguém que trabalha promovendo a miséria dos animais tende a receber de volta parte dessa miséria. Trabalhadores que manuseiam animais mortos ou matam animais no abatedouro correm risco elevado de lesões permanentes, como foi mostrado. Patrões da pecuária e da indústria lacto-frigorífica, por excelência inimigos dos animais não humanos, são muito mais flagrados impondo condições cruéis de trabalho a seus funcionários do que empresários de setores que não são essencialmente escorados na violência, como a CPT evidenciou.

Isso sem falar nas opressões rurais e ambientais impostas por latifundiários da pecuária. Propriedade fraudulenta de terras, pistolagem, perseguição e assassinato de ambientalistas e camponeses, envolvimento com corrupção, crimes ambientais diversos, são muitas as sujeiras promovidas por quem ganha dinheiro explorando animais no campo ou em confinamentos.

Esse ciclo de violência prejudica e condena humanos e não humanos, e precisa parar caso não queiramos um colapso ambiental e a degeneração das condições de vida e relações éticas dos seres humanos, e se, sobretudo, queremos realmente ser pessoas éticas e coerentes. Tudo está conectado, e nisso a CPT e outras entidades e pessoas que denunciam a aliança íntima entre exploração animal e exploração humana concordam totalmente com os holistas. É hora de dar ouvidos, aliás, não só aos pensadores holísticos e aos denunciadores da superexploração de trabalhadores na produção animal, mas também aos vegans defensores dos Direitos Animais.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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2 Comments on “Exploração animal e exploração de trabalhadores: muito mais interligadas do que se crê

  1. Adorei seu Blog!!!! Uma abordagem perfeita e interessante entre a exploração humana e a exploração animal !!!! Parabéns !!! Estarei sempre por aqui aprendendo e compartilhando suas informações !!!!

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