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Atualizado em 11/03/3018

Vez ou outra, algo no mínimo curioso é protagonizado por veganos defensores do capitalismo.

Em algum grupo vegano de rede social, ou conversa de amigos e colegas, uma pessoa expressa uma opinião anticapitalista. Diz, por exemplo, que o capitalismo mais atrapalha do que ajuda na disseminação do veganismo e dos Direitos Animais.

E então, outra pessoa, vegana que se diz de direita, responde: “Você fala mal do capitalismo, mas está usando produtos capitalistas! Você só come pizza vegana e usa tênis sem couro animal graças à aliança entre o veganismo e o capitalismo!”

Ou então, “Se você quer ser vegano sem o capitalismo, vai viver na floresta colhendo fruta, ou tentar implantar o veganismo em Cuba.”

Para alguém que não entende tanto dos problemas da ordem capitalista e suas incompatibilidades com a ética vegana, isso até parece fazer sentido.

Só que esses argumentos têm uma séria falha. E isso inclusive atira no pé dos próprios veganos que os usam.

Que problema é esse? É o que vamos descobrir a seguir.

O caráter falacioso do argumento de que “o vegano anticapitalista se beneficia do capitalismo, logo é hipócrita”

Quando um vegano pró-capitalista usa argumentos com esses formatos para tentar rechaçar veganos de esquerda críticos do capitalismo, está caindo em três falácias ao mesmo tempo. A primeira dela é a exigência de perfeição.

Essa falácia consiste em tentar invalidar qualquer crítica que não traga uma solução ou alternativa perfeita e isenta de exceções e lacunas ao problema criticado pelo outro lado.

Nesse caso, a exigência de perfeição acontece porque o “vegano capitalista” – que na verdade é apenas um defensor do capitalismo, já que capitalistas propriamente ditos são proprietários dos meios de produção com muito dinheiro para investir e desfrutar – exige que o argumentador anticapitalista proponha ou adote imediatamente um modo de vida 100% não capitalista, como viver na selva ou tentar ser vegano num país adepto do “socialismo real”.

Demanda que seu colega abra mão de tudo aquilo que foi comprado de empresas e crie do nada um modo de vida perfeitamente independente do sistema econômico em vigor. Ou então que se renda ao capitalismo, aceite-o incondicionalmente e pare de criticá-lo.

A segunda falácia é o apelo à hipocrisia, também conhecido como tu quoque (“você também” em latim). Foca não em refutar o argumento anticapitalista, mas sim em tentar invalidá-lo em função de uma suposta hipocrisia do argumentador.

Em se tratando da defesa do capitalismo, o vegano de direita diz ao de esquerda que este “não tem razão” não porque seu argumento é falho, mas sim porque usa produtos fabricados por empresas capitalistas. Só que isso não é uma forma válida de demonstrar que o argumento anticapitalista errou, nem de mostrar que o capitalismo é um “bom aliado” do veganismo.

E a terceira é a falsa dicotomia, que estabelece que um problema só teria duas soluções, uma totalmente oposta à outra, e ignora que na verdade existem terceiras opções e/ou meios-termos.

A falsa dicotomia desse tipo de defesa do capitalismo acontece quando o “capitalista” manifesta a crença de que só seria possível ou rejeitar o capitalismo abrindo mão de tudo que empresas capitalistas oferecessem, ou aceitá-lo inquestionavelmente.

Ignora que, por exemplo, um anticapitalista pode criticar o capitalismo e ajudar a desmontá-lo por meio de um movimento social, mesmo sendo obrigado a usar produtos de grandes empresas e trabalhar para corporações.

Uma semelhança constrangedora

As pessoas que usam esses argumentos falaciosos não percebem que estão se colocando numa situação constrangedora: aquilo que falam é impressionantemente semelhante a alguns argumentos antiveganos.

Quando um vegano defensor do capitalismo diz que o vegano de esquerda “não pode criticar o capitalismo porque usa smartphone e sapato vegano”, está falando algo parecido com o que um antivegano diz ao argumentar que “os veganos não podem criticar o uso de animais porque tomam remédios e consomem energia elétrica“.

A (falta de) lógica do argumento antivegano é a mesma do pró-capitalista: o vegano seria hipócrita, só seria possível uma vida 100% livre de uso de animais ou uma absurdamente especista, e o veganismo teria que ser perfeito para fazer sentido.

Em outras palavras, a única diferença entre exigir que os veganos de esquerda neguem 100% ou aceitem 100% do capitalismo e demandar que veganos em geral “vão morar no mato” ou aceitem sem críticas a exploração animal é o alvo da falácia.

Ou seja, em um caso, é a crítica anticapitalista, erroneamente tratada como se viesse trazer uma alternativa total e imediata ao capitalismo, e no outro é o veganismo, também erradamente acreditado como um modo de vida perfeito.

 

As duas linhas argumentativas – a pró-capitalista e a antivegana – refletem uma notável ignorância, tanto sobre como os anticapitalistas criticam o capitalismo e defendem sua superação, quanto sobre a luta vegano-abolicionista pelo fim da exploração animal.

Seus autores não consideram que, em nenhum dos dois casos, se traz uma alternativa que rompe imediata e completamente com a exploração de animais humanos e não humanos.

Ignoram que o que os veganos de esquerda defendem mesmo é a superação gradual do capitalismo e do especismo, por meio da luta política coletiva e, na medida do possível, da adoção de hábitos individuais que, mesmo imperfeitos, façam sua parte no desempoderamento dos exploradores de seres humanos e não humanos.

 

Conclusão

Quando um vegano de direta defende o capitalismo argumentando que só temos a vida que temos graças ao capitalismo e demandando a adoção imediata de um modo de vida “0% capitalista”, está mostrando que, apesar de ter abandonado as crenças antiveganas, o antiveganismo, de alguma forma, nunca o abandonou totalmente.

Está usando os mesmos tipos de falácias que antiveganos usam para desmerecer o próprio veganismo dele, mas não se dá conta.

Portanto, se você é uma pessoa que usa esse tipo de argumento para deslegitimar as críticas ao capitalismo vindas de outros veganos, pense bem no que está dizendo.

4 comments

  1. O Robson traz d forma muito bem organizada em seus blogs reflexões sobre diversos temas raramente levados pela mídia ao grande público ou aprofundados da forma q mereceriam ser nas escolas e faculdades. Eh um contribuidor d peso na formação de opiniões alheias

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