Gary Yourofsky para Nobel da Paz?

Gary Yourofsky, em discurso raivoso no qual declara sua misantropia convicta. Ele merece o Nobel da Paz, como algumas pessoas estão pleiteando?

Gary Yourofsky, em discurso raivoso no qual declara sua misantropia convicta. Ele merece o Nobel da Paz, como algumas pessoas estão pleiteando?

Tem aparecido nas redes sociais, ainda que inicialmente de maneira tímida, a proposta, no mínimo controversa, de o ativista de Direitos Animais Gary Yourofsky ser nomeado candidato ao prêmio Nobel da Paz. Os propositores dessa premiação talvez não saibam, mas estão defendendo um absurdo.

Creio eu que muitas das pessoas que aderiram a essa ideia desconhecem que Yourofsky pode ser qualquer coisa, menos um defensor da paz e da justiça – critério teoricamente essencial para alguém ser admitido como candidato ao award. Ele já deixou claro, em seu vlog no YouTube, que é assumidamente misantropo, e também tem em seu histórico não arrependido demonstrações de misoginia, racismo, capacitismo (preconceito contra pessoas com deficiência) e xenofobia. Isso sem falar no seu apoio velado ao sionismo – ultranacionalismo israelense recheado de ódio etnorracial ao povo palestino – e ao apartheid imposto pelo Estado de Israel a essa mesma etnia.

Ele foi alçado ao título de um dos mais admirados ativistas veganos do mundo por seu empenho em defender a libertação animal e, por meio do vídeo da intitulada “Melhor palestra que você irá ouvir na sua vida”, defender e promover a conscientização vegano-abolicionista. Mas essa admiração acaba quando é sabido que ele declarou que odeia os seres humanos não veganos e gostaria de ver mulheres que usam casacos de pele serem estupradas e dedica um ódio “especial” aos palestinos e aos negros estadunidenses.

Ao invés de considerar que pessoas não veganas precisam do contato com o veganismo e do semeio da conscientização em prol dos animais, ele deliberou por lhes dedicar ódio, repulsa e às vezes desejo de vê-las ser torturadas e/ou morrer em dolorosa agonia como “punição” para seu hábito de consumir produtos de origem animal.

E além disso, ele também se assume odiador dos próprios Direitos Humanos – como se não desfrutasse deles em sua liberdade de expressão, direito de ir e vir, integridade física e direito à vida. Ignora o fato de que alguns DH também são Direitos Animais, a exemplo dos primeiros artigos da Declaração Universal de Direitos Humanos. Dedica ódio aos defensores dos DH, chamando-os de “hipócritas” – incluindo mesmo vegano-abolicionistas defensores da libertação humana – e mostra rejeitar uma futura aliança entre movimentos sociais de defesa de seres humanos oprimidos e o abolicionismo animal.

Quando se toma conhecimento desse nada razoável histórico de Yourofsky, percebe-se que é absurda a ideia de candidatá-lo ao Nobel da Paz. O que ele mostra menos desejar é paz e justiça entre os seres humanos. Premiá-lo com tal troféu seria ainda mais absurdo do que o que aconteceu em 2009.

Naquele ano, o presidente estadunidense Barack Obama ganhou o prêmio com base puramente em discursos e intenções. Foi premiado num claro ato de injustiça, já que mantinha suas bases militares em diversos países – e a prisão de Guantánamo em Cuba –, deu continuidade à “guerra ao terror”, manteve a aliança dos EUA com o sionismo israelense e não retirou a vigilância global online a qual Edward Snowden denunciaria poucos anos depois.

Se Obama não mereceu o Nobel da Paz, um multipreconceituoso com muito ódio no coração como Gary Yourofsky merece menos ainda. Quem continua defendendo que o ativista ganhe tal prêmio mesmo sabendo de tudo de ruim que ele tem cometido, está banalizando o award da Fundação Nobel e lhe retirando o significado que teoricamente tem, o de reconhecer os esforços de quem luta por um mundo mais justo e pacífico e menos hierarquizado. Afinal, uma pessoa cujo comportamento é permeado de misantropia, racismo, misoginia, xenofobia e capacitismo pode ser qualquer coisa, menos defensora da paz.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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