Guia organizado de falácias antiveganas

Guia organizado de falácias antiveganas - Veganagente

Seja bem-vinda(o) ao Guia organizado de falácias antiveganas do Veganagente. Aqui você irá encontrar uma abrangente lista de falácias lógicas e argumentativas comuns entre opositores do veganismo.

Antes de você prosseguir na leitura deste guia, vale saber o que é falácia.

A falácia é um argumento que aparenta ser válido à primeira vista, mas, usando de métodos logicamente inconsistentes ou irracionais de “defesa” de seu ponto de vista, leva a conclusões errôneas e/ou inválidas.

Há diversos tipos de falácias, com inconsistências lógicas diferentes – quando, por exemplo, diz-se que uma afirmação está certa apenas porque foi uma pessoa célebre que a falou, ou que uma ideia está errada apenas por ser considerada radical.

Pode-se dizer que as falácias são um dos pilares fundamentais que sustentam todo o universo de argumentos antiveganos existente. Acredita-se que não existem argumentos antiveganos que não caiam em pelo menos um tipo de falácia.

Desde pessoas que pararam de estudar no Ensino Fundamental até doutores universitários acabam incidindo, com frequência, em falácias, quando passam a defender o consumo de animais e seus produtos. Isso mesmo quando tentam contestar as evidências científicas da sustentabilidade do vegetarianismo e do veganismo ou questionar a viabilidade filosófica dos Direitos Animais.

Abaixo listo, descrevo e exemplifico uma lista bem robusta de falácias comuns nas argumentações antiveganas. A lista deverá aumentar ainda mais com o tempo, à medida que eu encontre mais falácias e exemplos e atualize esta página. Esta é uma versão atualizada, ampliada e organizada em ordem alfabética do antigo Guia de falácias carnistas.

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Índice

Alegação de certeza
Amostra limitada
Amostra não representativa
Amostra viciada, ou amostra enviesada
Apelo à antiguidade, ou apelo à tradição
Apelo à autoridade
Apelo à autoridade anônima
Apelo à culpa, ou apelo à vergonha
Apelo à geografia
Apelo à hipocrisia, falácia do “você também” ou Tu quoque
Apelo à ignorância
Apelo à misericórdia
Apelo à moderação, ou falso meio-termo
Apelo à multidão
Apelo à natureza
Apelo à normalidade
Apelo à pedra, ou Argumentum ad lapidem
Apelo à pobreza
Apelo à probabilidade
Apelo à relevância econômica
Apelo ao medo
Apelo ao ridículo
Apelo ao sucesso pessoal
Apelo às crianças
Argumento desconexo, ou Non sequitur
Argumento quilométrico, ou Argumentum verbosium
Argumento sem apoio
Ataque pessoal, desqualificação da pessoa ou Ad hominem
Bola de neve, ou declive escorregadio
Bulverismo
Causa genuína mas insignificante
Conclusão irrelevante
Correlação coincidente, ou Post hoc ergo propter hoc
Culpa por associação, ou falácia da associação
Definição muito restrita
Distorção de fato
Envenenamento do poço, ou falácia do poço envenenado
Evidência anedótica, ou evidência-anedota
Exigência de perfeição
Falácia cata-cereja, supressão de contraevidências ou evidência incompleta
Falácia da barba, ou falácia do contínuo
Falácia da falácia
Falácia da janela quebrada
Falácia da pressuposição, ou falácia da questão complexa
Falácia da prioridade
Falácia da situação extrema
Falácia de equívoco
Falácia de estereotipação
Falácia de omissão
Falácia definista, ou falácia da definição persuasiva
Falácia do atirador de faroeste, ou do pistoleiro do Texas
Falácia do escocês, ou falácia da expulsão do grupo
Falácia do espantalho
Falácia do espantalho reversa, ou falácia do espantalho invertida
Falácia do tipo “A baseado em B”
Falácia egocêntrica
Falácia etimológica
Falácia genética
Falácia legalista
Falácia naturalista
Falácia nomotética
Falácia subjetivista
Falsa analogia
Falsa causa
Falsa dicotomia, ou falso dilema
Falso efeito
Fuga ao tema, falácia do “olha o avião” ou red herring
Generalização precipitada, ou generalização apressada
Indução preguiçosa
Invenção de fato
Inversão do acidente
Inversão do ônus da prova
Máxima desqualificada, ou Dicto simpliciter
Pensamento desejante, ou wishful thinking
Profundidade limitada
Redução a Hitler, ou Reductio ad Hitlerum
Redução à peninha
Redução ao absurdo, ou Reductio ad absurdum
Redução ao radical, ou redução ao extremismo
Reducionismo causal
Teoria irrefutável

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Alegação de certeza

Consiste em considerar algo uma “certeza” – mesmo que na verdade não seja algo tão certo ou provável assim – e presumir que “todo mundo sabe que isso acontece” ou que “isso é óbvio”, quando na verdade o argumento não deveria ser dado como uma certeza ou uma obviedade – já que, em muitos casos, ha contraprovas que refutam essa crença “certa” e “óbvia”.

Exemplos:

– “Precisamos de carne para sobreviver, todo mundo sabe disso.” – O argumentador passa a ideia de que “é óbvio” e “todo mundo sabe” que “precisamos de carne para sobreviver”. Mas não conta com o fato de que os vegans, vegetarianos e protovegetarianos saudáveis são a prova viva de que essa crença é errada.

– “O que faz o ser humano precisar comer carne é a cadeia alimentar, tá na cara isso.” – O antivegano diz que “tá na cara”, seria “óbvio”, que a “cadeia alimentar” exige que o ser humano coma carne. Não se dá a oportunidade de saber – e reconhecer – que a cadeia alimentar humana é administrada pelo próprio ser humano e é flexível, não havendo atualmente nenhuma obrigatoriedade biológica de humanos comerem carne. Ou seja, ao contrário do que o antivegano argumenta, o argumento da cadeia alimentar não é uma coisa óbvia, nem certa, tampouco “tá na cara”.

– “Vegetarianismo é coisa de religioso esoterista maluco, isso é tão óbvio que todo mundo sabe.” – O acusador tenta argumentar que essa alegação preconceituosa (contra vegetarianos e contra religiosos esoteristas) é “certa” e “todo mundo sabe”. Ignora que nem todo vegetariano é religioso esotérico, nem todo religioso esotérico é vegetariano – ou seja, que seu preconceito não é algo certo – no sentido triplo de não ser algo “óbvio”, nem fiel aos fatos, nem ser uma acusação eticamente correta.

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Amostra limitada

Tira uma conclusão generalizante sobre uma categoria inteira de seres a partir de uma amostra que corresponde apenas a uma pequena parte dessa categoria. Por exemplo, traz uma conclusão preconceituosa sobre um conjunto de mil itens a partir de constatações relativas a cinco desses mil itens. É parecida com a amostra não representativa, com a diferença de ser quantitativa, e não qualitativa.

Exemplo:

– “Couve, brócolis e alface não são boas fontes de proteína. Portanto, a alimentação vegetariana é pobre em proteínas.” – Afirma erroneamente que, por causa de uma amostra de apenas três exemplos, e de uma única categoria de alimentos vegetais, a alimentação vegetariana seria “pobre em proteína”. Ignora que essa amostra não representa, por exemplo, as leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico etc.), nem os cereais (arroz, centeio, trigo etc.), nem a categoria das castanhas (nozes, amendoim, castanha de caju, amêndoas, castanha-do-pará etc.), fontes de proteína mais ricas do que folhas verdes-escuras.

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Amostra não representativa

Consiste em considerar como legitimamente representativa da população geral uma amostra que, sendo bastante diferente da população como um todo, não poderia ser considerada representativa.

Exemplos:

– “Três amigos vegetarianos meus tiveram anemia. Isso mostra como o vegetarianismo não é tão bom assim pra saúde.” – Essa alegação, além de ser também uma falácia de evidência-anedota, não leva em consideração, por exemplo, que esses amigos do antivegano detestavam alimentos vegetais ricos em ferro, como feijão, lentilha e folhas verdes-escuras. Na falta de uma análise mais completa da alimentação e da saúde deles, esses três amigos não podem ser considerados uma amostra representadora de centenas de milhões de vegetarianos pelo mundo.

– “Ouvi dizer que várias pessoas de uma seita vegan naturalista contraíram anemia por falta de vitamina B12. Tá vendo como veganismo faz mal?” – Ignora-se, nesse relato – que também é uma evidência-anedota -, que essas pessoas da seita não consumiam suplementos de B12 nem alimentos veganos fortificados com a vitamina. Portanto, não são uma amostra genuinamente representativa de todo o universo de veganos do mundo.

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Amostra viciada, ou amostra enviesada

Extrai uma conclusão sobre uma determinada população a partir de uma amostra viciada, de modo que a população pareça ter uma ou mais características médias diferentes das que realmente possui. É uma variante da falácia de amostra não representativa, tendo como diferencial que a amostra usada é ainda mais escancaradamente viciada e não representativa.

Exemplos:

– “Foi atestado que uma população de vegetarianos estritos adeptos de uma seita espiritualista rigorosa, que tem como um de seus mandamentos a negação da ciência, sofre de diversas deficiências nutricionais. Isso nos faz concluir que o vegetarianismo estrito é uma opção alimentar perigosa, carente de diversos nutrientes.” – Esse argumento tenta absurdamente considerar que os vegetarianos adeptos da seita podem representar todos ou a maioria dos vegetarianos (aqui definidos como que não consomem nenhum alimento de origem animal) de todo o mundo. Ignora as especificidades desses vegetarianos da seita, as quais não são características de nenhuma outra população conhecida de vegetarianos. Não considera que as deficiências nutricionais dessas pessoas se deve a características específicas da cultura delas, como a negação da ciência e dos ensinamentos da Ciência da Nutrição e a escolha excessivamente restritiva de alimentos a integrar suas dietas, e não à ausência, por si só, de alimentos de origem animal. Portanto, tenta extrair conclusões científicas generalizantes sobre todos os vegetarianos do mundo a partir de uma amostra claramente viciada, não representativa, de pessoas.

– “Uma pesquisa em comunidades pobres de países africanos, com pessoas que ingeriam poucas calorias diárias e tinham uma alimentação pobre em componentes de origem animal, atestou que a maioria das pessoas estudadas sofria de múltiplas deficiências nutricionais. Depois de terem suas lacunas nutricionais aliviadas pelo consumo de uma porção diária de carne vermelha e um copo diário de leite, seus quadros de saúde apresentaram melhoras. Isso evidencia que o vegetarianismo não é saudável, e que o consumo de alimentos de origem animal é essencial para a saúde humana.” – Essa alegação tenta, forçada e falaciosamente, tornar pessoas pobres (que não têm condições econômicas de comprar alimentos suficientes) com dietas deficientes exemplos adequadamente representativos e generalizáveis de vegetarianos. Comete a falsa analogia de comparar pessoas muito pobres e subnutridas com vegetarianos adeptos de dietas suficientemente diversificadas. Incide, portanto, no erro de usar uma amostra populacional viciada para tentar trazer conclusões preconceituosas sobre o vegetarianismo.

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Apelo à antiguidade, ou apelo à tradição

Julga algo correto, bom e/ou superior apenas por esse algo ser antigo e tradicional. Além de ser usado para tentar justificar ou dar moral ao consumo de produtos de origem animal (principalmente a carne), costuma ser muito utilizado na defesa de atividades pseudoesportivas como a vaquejada, o rodeio e a tourada.

Exemplos:

“Comer carne é algo que acompanhou a humanidade ao longo de sua história, por centenas de milhares de anos. É um absurdo, pois, querer que o consumo humano de carne acabe.” – Esse argumento valoriza o consumo de carne em função de sua antiguidade, de sua qualidade de tradição humana. E ignora que hoje, ao contrário de quase todo esse passado, as sociedades modernas possuem uma agricultura altamente diversa ao seu dispor, que torna o consumo de carne desnecessário.

“A pecuária é parte de nossa civilização desde o Neolítico. Não vai ser um grupinho de vegans que vai conseguir acabar com ela.” – Aqui a pecuária ganha valor apenas por ser antiga e tradicional. A frase ignora que, ao contrário da grande maioria dos anos que se passaram desde a criação da pecuária no Neolítico, hoje é possível ser vegetariano, graças à agricultura extremamente diversificada em plantas cultivadas e ao progresso da ciência da Nutrição, a qual vem respaldando cada vez mais a salutaridade do vegetarianismo. Ignora também que, de tradição em tradição, a guerra, o machismo, o autoritarismo e a escravidão humana também são tradições milenares, mas nem por isso a maioria das pessoas concorda que, por serem tradições, devem ser preservados.

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Apelo à autoridade

Atribui caráter de verdade ou validade a um argumento em função exclusivamente da qualidade de autoridade do seu originador – geralmente um terceiro. Um exemplo genérico do seu uso é a afirmação “Fulano disse isso, e ele é especialista nesse assunto, logo isso é necessariamente verdadeiro.”

O apelo à autoridade é comum, ainda que passe despercebido para muitos leitores, em reportagens que difamam o vegetarianismo e o veganismo entrevistando especialistas preconceituosos e não exibindo relatórios ou estudos corroborativos. Tais reportagens, ao depositar toda a confiabilidade de suas informações ao status de autoridade de saúde dos especialistas entrevistados e negligenciar o uso de dados de pareceres institucionais e pesquisas científicas, incorrem nesse tipo de falácia. Também há o uso de apelo à autoridade em argumentações avulsas, não ligadas a reportagens.

Exemplos:

“Segundo a presidente da Associação de Nutrição do Estado de Utopia, Fulana de Tal, o vegetarianismo tem alta probabilidade de causar anemia por deficiência de ferro.” – Quando não vem acompanhada, na reportagem, de dados de pesquisas científicas ou relatórios institucionais (que poderia ser da própria “Associação de Nutrição do Estado de Utopia”) que corroborem tal afirmação, a confiabilidade da declaração dessa especialista acaba totalmente escorada no status de profissional/autoridade de saúde que ela ostenta. Fica assim caracterizada a falácia de apelo à autoridade, mesmo que não tenha sido intencionada pelo redator da matéria.

“A pesquisa em animais rendeu a Smithies, Evans e Capecchi o Nobel de Medicina de 2007. Isso nos mostra como a experimentação animal é necessária à humanidade.” – Esse argumento, ocasionalmente usado por defensores da experimentação animal, tenta justificar a exploração de animais em laboratórios simplisticamente em função do prêmio Nobel de Medicina ganho pelos vivisseccionistas Oliver Smithies, Martin J. Evans e Mario Capecchi. Porém, tal prêmio não é um argumento válido para justificar por que seria ético privar animais de liberdade, infligir-lhes sofrimento e assassiná-los seja lá por que causa.

“Eu sei que vegetarianismo para crianças é perigoso. Eu sou biólogo, tenho credencial para dizer isso.” – Se o argumentador não tiver provado antes por que o vegetarianismo seria perigoso para crianças, ele incide aí numa versão “carteirada”, de arrogar a si mesmo como portador de autoridade, dessa falácia. E é essa postura que alguns antiveganos possuidores de títulos de mestre ou doutor usam para tentar intimidar aqueles que lhes questionam o preconceito contra o vegetarianismo.

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Apelo à autoridade anônima

Lança um argumento usando uma informação alegadamente fornecida por fontes especializadas, mas não dá qualquer detalhe sobre essas fontes – por quem, quando e como tal informação havia sido originada e se havia sido confirmada. Nesse caso, a informação geralmente é descartada como falsa, já que não possui nenhuma comprovação verificável. Assim como o apelo à autoridade, o apelo à autoridade anônima também costuma ser usado em reportagens que difamam o vegetarianismo e/ou o veganismo, muitas vezes pelas próprias “autoridades” entrevistadas.

Exemplos:

– “Muitos estudos/cientistas/nutricionistas/especialistas comprovaram que o vegetarianismo não é saudável.” – Essa é a forma genérica do uso antivegano do apelo à autoridade anônima. Não diz quem são os especialistas (ou quais foram os estudos) que teriam feito tal comprovação, nem quando se teria comprovado isso, nem a fonte da informação.

“’Estudos recentes comprovaram que crianças vegetarianas têm maior suscetibilidade a contrair deficiência de proteínas, ferro e cálcio’, diz a nutricionista Sicrana de Oliveira.” – Passagens com esse tipo de informação dada por autoridade de saúde são comuns em reportagens antiveganas. Aqui a nutricionista não diz que “estudos recentes” seriam esses nem quando foram realizados. Logo, sua afirmação é inverificável e desprovida de credibilidade. Porém, alguns podem se deixar acreditar nisso só porque foi uma nutricionista que o disse, caindo na cilada da falácia do apelo à autoridade.

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Apelo à culpa, ou apelo à vergonha

Tenta dissuadir o interlocutor de uma ação ou crença pela simples imputação de culpa e vergonha pelo que faz, não abordando as razões éticas por que tal ação ou crença deve ser abandonada. É parecida com o apelo à misericórdia, grudando à mente da pessoa um misto de dó com vergonha por ter sido alegadamente a culpada pela situação descrita pelo argumentador como ruim e prejudicial. Convém alertar que o apelo à culpa às vezes é usado pelos próprios veganos, ao focarem em tentar envergonhar os não veganos por consumirem produtos animais, ao invés de lhes mostrar racionalmente os motivos por que o consumo de produtos animais não é ético – portanto, deve ser evitado, por caracterizar uma falácia.

Exemplos:

– “Você deveria se envergonhar de estar impondo a sua(s) criança(s) uma alimentação incompleta que aumenta os riscos de subnutrição.” – Nessa fala o argumentador tentar convencer, pelo constrangimento e indução à vergonha, que a pessoa vegana está “errada” em dar uma alimentação vegetariana a seu/sua filha(o). Tenta reforçar a “certeza” do argumento dado – o de que vegetarianismo seria uma alimentação “incompleta” – não por uma explanação baseada em fatos, mas sim mostrando que “aquilo acontece e ponto” e lhe dando severidade através da imputação da vergonha. É uma forma de chantagem psicológica, na tentativa de isentar o antivegano da exigência de mostrar provas do que fala e substituí-las pelo apelo emocional, assim sendo, portanto, uma argumentação falaciosa e desonesta.

– “Cães precisam de carne! Não tem pudor de querer impor a seu cachorro uma dieta que vai contra a natureza dele?” – Aqui o argumento dado – o de que “cães precisam de carne” – é reforçado não por fatos comprobatórios, mas sim pela tentativa de chantagear o interlocutor perguntando-lhe se ele “não tem pudor” de “querer impor” uma dieta sem carne ao cão. Não é uma argumentação honesta, mas sim uma chantagem psicológica.

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Apelo à geografia

É uma combinação entre o apelo à tradição e o apelo à multidão, argumentando que algo é certo, verdadeiro ou válido porque acontece em diversas tradições/países ao redor do mundo, ou é errado porque é alegadamente muito raro e não prevalente no planeta. Tenta justificar não só o consumo de alimentos de origem animal, mas também diversas outras atividades de exploração animal, assim como sistemas de exploração humana, como o capitalismo, a hierarquia sociopolítica e a concentração de terras nas mãos de poucos.

Exemplos:

“Comer carne é normal em todas as sociedades, portanto não vejo nada de errado em continuar comendo-a.” – Esse é o exemplo mais clássico de apelo à geografia, afirmando a validade ética de algo por esse algo ser comum em muitos lugares do mundo. Mas a escravidão humana também já foi praticada em quase todo o planeta, assim como as guerras, e nem por isso a escravidão humana e a guerra são consideradas tradições moralmente aceitáveis hoje.

“O veganismo não vai dar certo, não prevalece em nenhum lugar do mundo.” – Essa falácia, baseando-se no apelo à geografia com um realce maior de um apelo à multidão inverso, ignora que o veganismo é um movimento relativamente recente e vem crescendo de forma praticamente exponencial. É muito provável de, em poucos anos, o número de veganos tornar-se cinco ou mais vezes maior do que hoje ao redor do mundo.

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Apelo à hipocrisia, falácia do “você também” ou Tu quoque (“Você também”, em latim)

Tenta responder a um argumento acusando o argumentador de praticar ou ter praticado algo semelhante àquilo que ele critica, justificando o erro do questionador com o erro, verdadeiro ou não, atual ou passado, do argumentador. É trivial seu uso entre os antiveganos, quando tentam manter-se no direito de continuar comendo alimentos de origem animal apenas por alegar que o vegano ou vegetariano que os questiona tem ou tinha comportamentos que parecem ou pareciam lembrar violência contra outros seres.

Exemplos:

“Você me diz isso, mas é um hipócrita, porque também se alimenta de seres vivos.” – Além de não refutar a argumentação do vegano, ainda desdenha seus argumentos sob uma alegada acusação de hipocrisia. Esse caso, que imputa um falso biocentrismo ao veganismo, é também uma falácia do espantalho.

“Você diz que o vegetarianismo é bom pro meio ambiente, mas fica usando muito o computador, andando de carro, usando saco plástico, usando produtos Made in China etc.” – Na ocasião, em que o vegetariano defendeu sob critérios ambientais seu hábito alimentar, o opositor não rebate a defesa dele, e ainda justifica indiretamente o consumo de animais pelo fato de o outro usar produtos industrializados de significativo impacto ambiental. Tenta falaciosamente dizer que o vegetarianismo não seria uma atitude pró-sustentável “porque o vegetariano continua usando carro, plástico, energia vinda de hidrelétrica, produtos chineses etc.”.

“Você critica a pecuária por ela matar animais mas continua matando animais ao comprar vegetais oriundos de plantações em que o trator passa por cima de roedores e insetos rasteiros.” – O falacioso aqui falha em defender a pecuária por não apresentar qualquer contra-argumento, e justifica as mortes intencionais que ela causa com as mortes contingentes ocorridas na agricultura.

“Você diz defender o fim do uso de animais na ciência mas não deixa de tomar remédios, é um hipócrita!” – Além de isso não servir para justificar eticamente a vivissecção, parte da falsa premissa de que é possível recusar o uso de remédios sem correr risco de morte e/ou de sofrimento intenso.

“Você diz que é vegetariano também porque pensa nos famintos dos países mais pobres, mas ao invés de estar lá ajudando-os, está aí na frente do computador e enchendo a barriga.” – A saber, o argumento vegetariano que relaciona a produção de carne e a fome se baseia no fato de os grãos desperdiçados pela pecuária – pela transformação de múltiplos quilos de proteína de grãos em um quilo de proteína animal – poderiam estar alimentando pessoas pobres mas atualmente estão alimentando rebanhos pecuários. O apelo à hipocrisia em questão não refuta a contribuição do vegetarianismo para a diminuição da fome e para a otimização da distribuição alimentar no mundo.

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Apelo à ignorância

Consiste em dizer que, já que ninguém provou que certa crença é falsa, ela é necessariamente verdadeira.

Exemplo:

– “A ciência não conseguiu refutar que plantas têm uma forma diferente de sentir dor e ter emoções, então não venha me dizer que plantas não sentem dor.” – Aqui tenta-se afirmar que a senciência vegetal seria verdadeira porque ninguém provou sua inexistência. Isso logicamente passa longe de comprovar a existência de senciência em plantas. Além disso, a própria crença de que “plantas têm uma forma diferente de sentir dor e ter emoções” é uma falácia de argumento irrefutável, já que não pode ser testada.

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Apelo à misericórdia

Consiste em tentar fazer o interlocutor desistir de defender determinada ideia ou ação apelando para que ele sinta piedade pelas pessoas que supostamente seriam negativamente afetadas por ela. Costuma se basear em premissas de falsa dicotomia, já que o argumentador induz a pessoa a acreditar que só existem dois futuros possíveis: a ideia ou ação defendida por ela ser aplicada e causar um mal inaceitável, ou não ser aplicada e poupar os supostos afetados.

Exemplos:

– “Você defende a abolição da pesca? Já pensou nos pescadores artesanais e suas famílias, que vão perder sua renda e passar fome?” – Aqui o argumentador, ao invés de argumentar racionalmente por que a pesca nunca deveria ser abolida, apela para uma falsa dicotomia que encurrala o interlocutor vegano de modo que este sinta pena dos pescadores e assim desista de defender a abolição da pesca. A dicotomia é falsa porque existem terceiras saídas para a questão da pesca, como a capacitação e empregação de ex-pescadores em outros trabalhos. Também caracteriza uma falácia de apelo à pobreza.

– “Você deveria pensar nos roceiros que dependem da criação de animais para ter seu sustento e alimentar a família, antes de defender a abolição da pecuária.” – Esse exemplo de apelo à misericórdia tem a mesma estrutura do exemplo dos pescadores acima. A falsa dicotomia trazida pelo antivegano ignora a possibilidade de roceiros que criam animais para consumo poderem mudar de ramo, partindo, por exemplo, para a agricultura orgânica. Também caracteriza uma falácia de apelo à pobreza.

– “Você que é vegan, já pessou que algum ente muito querido seu, como seu amor, sua mãe, sua avó etc., podem depender de medicamentos e procedimentos médicos testados em animais, e que defender a abolição das pesquisas em animais significa assinar a sentença de morte dessas pessoas?” – Aqui também é dada uma falsa dicotomia para que o vegano desista de sua oposição à experimentação animal de modo a não ver seus entes queridos sofrerem. Ignora-se nesse caso que o veganismo tem limites e exceções, não fazendo julgamento moral de quem recorre a remédios para si mesmo ou para pessoas próximas.

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Apelo à moderação, ou falso meio-termo

Sugere um meio-termo em situações em que ele não convém.

Exemplos:

– “A ideia de abolir a pecuária é absurda e utópica. A adoção de uma política de bem-estar animal é o bastante para melhorar a situação dos animais da pecuária.” – Tenta responder às demandas éticas alimentares com o bem-estarismo, em detrimento do abolicionismo animal. É o meio-termo entre a pecuária obviamente cruel e a abolição de qualquer forma de criação de animais para fins de consumo. É uma alternativa inválida quando se considera que mesmo a pecuária bem-estarista não respeita os direitos integrais dos animais explorados à vida, à liberdade (considerando-se que a mera soltura não é sinônimo de liberdade propriamente dita) e a não ser propriedade de seres humanos. O bem-estarismo como um todo se calca na falácia do apelo à moderação quando, opondo-se à abolição da exploração animal, defende que seria possível uma pecuária “humanitária”.

– “O vegetarianismo é muito radical. Eu defendo o equilíbrio: nem comer apenas carne, nem comer apenas vegetais.” – Tenta desqualificar o vegetarianismo como algo “radical” – ação que caracteriza ao mesmo tempo uma falácia de apelo à pedra e uma redução ao radical – e sugere o “equilíbrio” entre o carnivorismo e o vegetarianismo como a alimentação “ideal”. É um argumento eticamente inconveniente, uma vez que ignora as questões ética, ambiental e humanitária que motivam o abandono total, não apenas parcial, do consumo de alimentos de origem animal.

– “Pra que abolir por completo a carne? Diminuir o consumo dela já basta!” – Geralmente é usado para rebater a defesa da adoção do vegetarianismo com fins de melhoria da saúde. Mas, assim como o exemplo anterior de falso meio-termo, ignora as questões ética, ambiental e humanitária que motivam o abandono total do consumo de alimentos de origem animal, além de ser frágil mesmo na questão da saúde –  mesmo o consumo de quantias moderadas de carnes aumenta a probabilidade de se contrair algumas doenças.

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Apelo à multidão

Afirma que algo é bom, certo ou verdadeiro apenas porque muita gente acredita nesse algo ou o pratica. Também pode afirmar que algo é ruim ou errado porque poucas pessoas, em comparação à totalidade da população, o praticam ou acreditam nesse algo.

Exemplos:

“Se bilhões de pessoas comem carne, por que eu também não posso?” – A afirmação transmite a crença de que comer carne – mais, por tabela, a exploração e matança de animais que o mesmo implica – seria moralmente justificável apenas porque bilhões de pessoas o fazem. Mas, ao longo dos últimos cinco milênios, pessoas de centenas de civilizações acreditaram que a escravidão humana era algo moralmente certo, muitas delas crendo inclusive que era vontade divina alguns humanos serem propriedade de outros. Mas nem por isso a humanidade de hoje acredita que a escravidão humana deveria ser legalmente preservada.

– “Nossa sociedade é carnívora [sic], por isso eu como carne também.” – Idem à frase acima.

– “Não adianta vocês serem vegetarianos, bilhões de pessoas vão continuar comendo carne à vontade a despeito de vocês.” – Essa argumentação comete o apelo à multidão ao tornar os costumes especistas socioculturalmente “invencíveis” só por causa da quantidade de pessoas que os praticam. Demonstra também uma ignorância histórica por parte de quem a profere, uma vez que todos os movimentos que acabaram promovendo mudanças sociais progressistas (direitos das mulheres, criminalização da escravidão humana, supressão do racismo legal, sufrágio universal, Direitos Humanos, direitos civis etc.) começaram a partir de minorias pensantes e atuantes em contraste com uma esmagadora maioria populacional que, de início, aceitava tacitamente, sem questionamentos substanciais, as condições opressoras que antecederam a essas mudanças.

– “Não é uma turminha de vegans que vai proibir o mundo de comer carne!” – Idem à frase acima, embora seja a versão invertida do apelo à multidão.

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Apelo à natureza

Consiste em dizer que, se algo é natural – no sentido de diretamente derivado da Natureza não humana, não criado pelo ser humano -, é necessariamente bom, gostoso, aceitável e saudável, e se algo é artificial, “não natural”, criado pelas mãos humanas, é necessariamente ruim, inaceitável e não saudável. Não deve ser confundido com a falácia naturalista, já que, enquanto a falácia naturalista tenta argumentar sobre uma ação ser considerada ética e moralmente aceitável por ser comumente praticada na Natureza não humana por seres vivos não humanos, o apelo à natureza se refere a algo ser aceitável para os sentidos humanos (olfato, paladar, visão, audição, tato) e/ou à saúde humana.

Exemplos:

– “Proteína texturizada de soja, prato comum entre os vegetarianos e vegans, é ruim pra saúde, afinal, é processado industrialmente, altamente artificial. Prefiro minha carninha natural mesmo.” – Esse argumento diz que proteína texturizada de soja é “ruim para a saúde” apenas por ser artificialmente processado. Não explica quais das etapas desse processamento a tornaria alegadamente nociva. E coloca a carne como necessariamente mais saudável do que a PTS apenas por ser supostamente natural e livre de processamento. Caracteriza, portanto, um argumento raso, falacioso e não confiável.

– “A comida de vocês vegans, como essas sojas texturizadas, esses hambúrgueres e salsichas vegetais, esses suplementos vitamínicos, esses tofus etc., é muito artificial. Portanto, eu a repudio. Prefiro minha alimentação carnívora (sic), que é bastante natural, com carnes e laticínios livres de muito processamento industrial.” – Esse argumento carimba que tudo que é industrialmente produzido, como derivados processados de soja, é “ruim” por ser artificial, e que a alimentação “carnívora” natural é saudável e “boa” apenas por ser supostamente natural. Não explica o que no processamento dos derivados de soja mencionados tornaria esses alimentos “ruins”, caracterizando assim um argumento raso e inconsistente.

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Apelo à normalidade

Argumenta que determinada prática é considerada normal, moralmente aceita, portanto ela é ética e certa. É uma maneira de confundir a moral com a ética. É uma variante da falácia de apelo à tradição e também uma forma de argumento desconexo.

Exemplos:

– “Comer carne e outros alimentos de origem animal é normal em nossa sociedade. Isso quer dizer que não há nada de errado nesse costume.” – Confunde normalidade moral com aceitabilidade ética no que se refere ao consumo de alimentos de origem animal. Ignora que esse costume considerado normal na cultura vigente tem consequências perversas aos animais não humanos explorados e mortos pela pecuária, pela pesca e pela apicultura.

– “Churrasco é algo normal e aceito por nossa sociedade, logo, o que é que tem de errado em fazer um delicioso churrasquinho no fim de semana?” – Aqui também se confunde aceitabilidade moral-cultural com ausência de consequências éticas negativas. Ignora o fato de que, para o churrasco (baseado em carnes) acontecer, incontáveis animais, entre mamíferos e aves “de criação”, precisam ser tratados como coisas ao longo de suas vidas e violentamente mortos em matadouros.

– “Não há nada de anormal em um pai dar leite de vaca pra seus filhos, por isso não há nada de errado nesse hábito tão comum.” – Argumenta-se aqui que, por ser aceito e considerado normal pela cultura vigente, a alimentação de crianças humanas com leite de vaca não teria nenhuma consequência destrutiva para vacas e bezerros. Essa crença erra por não considerar a exploração de vacas “leiteiras” ao longo de sua vida, o traumático momento da desmama forçada – na qual bezerros são separados definitivamente de suas mães, com muito sofrimento para ambos – e o assassinato de seus filhotes por abate.

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Apelo à pedra, ou Argumentum ad lapidem

Consiste em desqualificar uma afirmação ou ideia como absurda sem, no entanto, dar uma explicação ou justificativa. Às vezes assemelha-se ao apelo ao ridículo.

Exemplos:

– “Vegetarianismo/veganismo é falácia!” – Quase geralmente essa frase é dita sem qualquer explicação sobre por que o vegetarianismo ou o veganismo seriam uma falácia nem qual/quais falácia(s) seriam.

– “Suas informações sobre vegetarianismo/veganismo são falaciosas.” – Também é uma afirmação frequente dita sem qualquer explicação, mesmo que o próprio argumentador veg(etari)ano pergunte ao contra-argumentador antivegano por quê. Algumas vezes é que o antivegano tenta justificar, mas geralmente com informações desconexas em relação ao conceito de falácia, como a repetição de um ou mais mitos e/ou crenças falaciosas.

“Vegetarianismo/veganismo é hipocrisia!” – Há vezes em que o antivegano justifica, ainda que usando de falácias como “Vocês dizem defender a vida, mas vegetais também são seres vivos!” ou “Vocês dizem ser contra testes em animais mas consomem remédios!” – nesse caso o apelo à pedra não se configura. Mas há diversas outras em que o acusador não se presta a justificar sua afirmação, mesmo perguntado por veganos ou vegetarianos, tornando-a uma acusação vazia – portanto, um apelo à pedra.

– “Esse texto sobre veganismo não tem argumentos! Parei de ler logo no começo!” – É comum esse tipo de afirmação, em que o antivegano afirma que determinado texto “não tem argumentos” sem sequer se dar ao trabalho de lê-lo seriamente e por completo. Ler apenas o começo de um texto certamente não irá extrair dali nenhum argumento a ser discutido.

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Apelo à pobreza

Consiste em defender que algo é correto e aceitável por ser praticado ou acreditado por pessoas pobres. Na argumentação antivegana, acontece quando alguém apela para o fato de que muitas pessoas pobres têm como única fonte de renda o ato de explorar e matar animais (pequenos pecuaristas e pescadores). Baseia-se na linha de raciocínio de que a pobreza justifica a perpetuação de sua atividade de exploração animal, ou de que alguém, por ser pobre, não está sendo antiético ao explorar e matar animais para consumo.

Exemplo:

– “Você quer deixar na miséria pescadores e pequenos roceiros que têm como ganha-pão a criação de animais?” – Aqui a exploração animal é “justificada” como aceitável simplesmente por ser praticada por pescadores artesanais e pequenos fazendeiros que criam animais para consumo. Não responde nenhuma objeção ética à pecuária e à pesca, além de incidir numa falsa dicotomia que ignora a possibilidade de pescadores e pequenos pecuaristas mudarem de ramo tão logo se conscientizem com o veganismo ou sua atividade se torne economicamente insustentável pela perda de compradores de carnes, leite e/ou ovos por causa do crescimento da população vegana.

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Apelo à probabilidade

Argumenta que, se algo tem uma probabilidade de acontecer, esse algo vai acontecer “com certeza”. Em outras palavras, acredita que algo “vai” acontecer mesmo que sua probabilidade seja menor que 100%.

Exemplos:

– “Um vegetariano pode ter uma dieta pouco nutritiva. Ou seja, o vegetarianismo não é uma alimentação saudável.” – Estabelece como “certo” que o vegetariano tenha uma alimentação pouco nutritiva, mesmo que haja uma chance apenas pequena de ele adotar uma dieta desequilibrada e deficiente. Haver uma determinada chance de ser adotada uma dieta fraca não quer dizer que a pessoa vai com certeza adotá-la e sofrer as consequências.

– “Há casos de vegetarianos e vegans que contraíram anemia ferropriva por não consumirem bastantes fontes vegetais ricas em ferro. Isso quer dizer que a alimentação veg(etari)ana é deficiente em ferro.” – Esse argumento transforma indevidamente uma limitada – e pequena – probabilidade de indivíduos vegetarianos ou veganos consumirem poucas fontes vegetais de ferro em “certeza”, em falsa probabilidade de 100%, de que eles irão, por serem vegetarianos, contrair anemia ferropriva por baixa ingestão de ferro.

– “Há casos em que uma determinada dieta vegetariana pode ser deficiente em alguns nutrientes. Isso significa que o vegetarianismo não é uma opção alimentar saudável.” – Aqui também se confunde uma probabilidade limitada – baixa, nos casos em que a vitamina B12 é devidamente suplementada ou obtida de alimentos fortificados – de a dieta vegetariana ser deficiente e não saudável em “certeza” de 100%.

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Apelo à relevância econômica

Considera uma prática ou ideia necessariamente boa, certa e aceitável apenas em função de sua relevância econômica local, regional, nacional ou global, a despeito de todas as características eticamente questionáveis por ela ostentadas. É usado na argumentação antivegana e também na defesa de atividades violentas contra animais não humanos, como os rodeios e as vaquejadas.

Exemplos:

“Não faz sentido banir a pecuária do Brasil, ela é importantíssima para a economia nacional.” – Por trás da relevância econômica da pecuária, há todo um sistema de escravidão, aprisionamento, mutilação e assassinato sistemático de animais. Além disso, o agronegócio brasileiro, que a pecuária encabeça, vem sendo apontado como pivô de diversos crimes e abusos que se cometem para que essa atividade seja mantida em sua força política e econômica: pistolagem, intimidação de camponeses e ativistas, trabalho escravo ou semiescravo, desmatamentos em grande escala, degradação permanente de terras, corporativismo político, difamação midiática dos movimentos ambientalistas e de reforma agrária etc. A relevância econômica da pecuária – e do restante do agronegócio – não anula nem torna eticamente justificável tudo isso.

“A carne é extremamente importante para a economia da região. Censurar seu consumo é atentar contra o desenvolvimento.” – Aqui a economia também é usada como pretexto para se perpetuar a cadeia de exploração animal em prol do consumo de carne. Precedentes históricos ajudam a invalidar esse argumento enquanto justificação ética: até o século 19, a produção de certos itens agropecuários movia a economia brasileira graças essencialmente à exploração de mão-de-obra escrava, e um argumento muito similar ao referido era então usado para defender o escravismo.

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Apelo ao medo

Tenta induzir pessoas a continuarem onívoras ou desistirem do vegetarianismo usando argumentos apelativos que instigam medo de supostas consequências nocivas da adoção do vegetarianismo. Às vezes, porém, pode vir de forma não intencional, como em declarações de nutricionistas desinformados.

Exemplos:

– “Se você deixar de comer carne, vai ficar desnutrido.” – Frase básica usada por pais preconceituosos que, por desconhecimento sobre nutrição vegetariana, temem que seus filhos se tornem vegetarianos. Hoje é cientificamente provado que a alimentação vegetariana, longe de causar qualquer mal às crianças, pode até mesmo melhorar a saúde delas.

– “Torne-se vegetariano e irá se tornar dependente de muitos suplementos pra se manter de pé.” – De vez em quando algum antivegano usa esse tipo malicioso de apelo para assustar pessoas. Mas é sabido que vegetarianos não precisam de “muitos suplementos” – apenas a vitamina B12 precisa ser suplementada atualmente.

– “O vegetarianismo pode trazer riscos de anemia e carência de proteínas.” – Ainda hoje proferida por nutricionistas que não conhecem de verdade a alimentação vegetariana, essa afirmação ainda instiga medo em muitas pessoas, que se deixam, com tal declaração, hesitar em aderir ao vegetarianismo, embora já seja provada falsa pela Ciência.

“Vai fazer seu filho ser vegetariano? Você quer matá-lo?!” – É relativamente comum antiveganos assustarem pais de crianças pequenas dando afirmações como essa (ou similares), afirmando preconceituosamente que o vegetarianismo seria perigoso para crianças. Porém, a Ciência vem desmentindo esse preconceito.

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Apelo ao ridículo

Desdenha da ideia do argumentador ridicularizando-a ao invés de respondê-la seriamente com contra-argumentos. Pode vir coincidente ou não com a falácia do espantalho ou com o ataque pessoal.

Exemplo:

“Vegetarianismo é coisa de ‘viado’, de mulherzinha, de emo.” – Muito usada com versões diferentes, essa frase desdenha do vegetarianismo associando-o a categorias de pessoas discriminadas e também pejorando contra tais pessoas. Não diz respeito de forma racional aos fundamentos do vegetarianismo, restringindo-se a ridicularizar a ideia vegetariana e os que a pensam.

“Não, obrigado. Não quero virar um animal ruminante.” – Aqui se ridiculariza a sugestão do oponente de pensar sério sobre o vegetarianismo, e se imagina uma caricatura de vegetarianos ruminantes, ignorando maliciosamente que nem todos os animais que consomem apenas vegetais são ruminantes. Essa afirmação é também uma espécie de redução ao absurdo, por imaginar como consequência absurda a transformação do ser humano em um ser ruminante por causa da alimentação.

“A carne é essencial para a evolução humana. Não quero retroceder a homem das cavernas!” – Ridiculariza o vegetarianismo como se fosse uma dieta que levaria a uma suposta involução biológica do ser humano. Sustenta-se na falsa crença de que o ser humano “precisa comer carne” para continuar evoluindo. E também incorre na falácia de redução ao absurdo, por imaginar a consequência absurda de involuir por causa da alimentação.

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Apelo ao sucesso pessoal

Ocorre quando o argumentador “sustenta” seu argumento com base no sucesso e reconhecimento profissional de quem desenvolveu esse argumento (seja o criador do argumento o argumentador em questão ou outra pessoa). É uma variante do apelo à autoridade.

Exemplos:

– “Eu sou biólogo com pós-doutorado e tenho diversos prêmios no exterior. Portanto, quando falo que é impossível um vegan ser saudável e bem nutrido, eu estou falando isso com propriedade e conhecimento de causa.” – O biólogo esbanja arrogância por ser um pós-doutor premiado, de sucesso, mas não tem a humildade de perceber que isso não atesta a veracidade de nada. Seus títulos e prêmios não comprovam, de nenhuma maneira, que “é impossível um vegan ser saudável e bem nutrido”. Ele precisaria provar isso com evidências e estudos, e não com apelo à própria autoridade.

– “Eu sou professor universitário com doutorado em Bioquímica, e você é uma mera caloura de Ciências Sociais. Portanto, eu estou certo quando digo que vegans são extremistas hipócritas condenados à desnutrição, e você não tem moral nem autoridade pra me provar o contrário.” – O professor tenta “provar” seus argumentos a partir de seu sucesso e seus títulos acadêmicos, não tendo aprendido em sua vida que isso não é prova ou evidência de nada que ele afirme. Ele teria que trazer evidências e fatos para provar que “vegans são extremistas hipócritas condenados à desnutrição”. No final das contas, seu doutorado e sua carreira docente não provam que a estudante de Ciências Sociais está errada em contestar e refutar a preconceituosa acusação.

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Apelo às crianças

É um apelo à misericórdia que recorre, de forma chantagista, à imagem de crianças sofrendo.

Exemplos:

“Você vai pensar logo em animais com tanta criança por aí morrendo de fome?” – Apela à imagem das crianças necessitadas para tentar rebaixar a causa animal, muito embora nada sugira para remediar a situação de tais crianças.

“Você preferiria deixar seu filho pequeno morrer de uma doença hoje incurável a aceitar que testem em animais a cura dessa doença?” – Recorre à chantagem emocional para dissuadir veganos de serem contra experimentos em animais não humanos e fazê-los aceitar a exploração desses animais em laboratórios. Mas falha em sua tentativa de ser coerente, ao vir com a irreal premissa de que a experimentação animal poderá ser criminalizada a curto ou médio prazo, de uma hora para outra e sem ser prudentemente substituída por outros métodos de pesquisa de eficácia semelhante.

“Pense nas crianças com câncer que torcem para que uma cura para sua doença seja descoberta logo. Elas dependem dos animais de laboratório.” – Idem para o exemplo anterior.

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Argumento desconexo ou Non sequitur (“Não segue”, em latim)

Afirma uma ideia logicamente incoerente cuja conclusão simplesmente não segue a premissa, havendo uma frágil e falsa ligação entre premissa e conclusão. Essa falácia pode vir em afirmações confusas por parte dos antiveganos ou pode vir furtivamente num parágrafo inteiro, aparentando ter coerência. Quando vêm através de argumentos totalmente desconexos cujas premissas e conclusões não têm nada a ver uma com a outra, formando assim disparates argumentativos, caem na falácia de conclusão irrelevante.

Exemplos:

“Os direitos animais têm como parâmetro moral a senciência. Não se sabe se insetos, moluscos bivalves, anelídeos, cnidários etc. são sencientes. Logo, a senciência não é um parâmetro moral plausível.” – A dúvida sobre a presença de senciência em animais de filos taxonômicos menos complexos não tem nada a ver com a consideração moral dos animais que, mesmo sendo comprovadamente sencientes, são numericamente os mais escravizados e intencionalmente mortos pelas atividades de exploração animal – mamíferos, aves, répteis, peixes, crustáceos e moluscos cefalópodes.

“Não se sabe se insetos, vermes, aracnídeos, cnidários etc. sentem dor. Logo, eu posso comer todos os animais.” – Esse argumento dito assim é incomum, mas é a estrutura oculta por trás dos argumentos de muitos que põem em dúvida a senciência como parâmetro de consideração moral, como aqueles que proferem o exemplo anterior de argumento desconexo. Relaciona, sem qualquer relação válida entre premissa e conclusão, a dúvida sobre a senciência de alguns animais e a liberdade de escravizar e matar outros que comprovadamente podem sentir dor e sofrer.

– “Precisamos de carne, porque outros animais precisam.” – Não há nenhuma relação lógica entre a premissa de que outros animais precisam de carne e a conclusão sobre a suposta necessidade humana de comer carne. A necessidade alimentar de, por exemplo, animais carnívoros em nada tem a ver com a demanda alimentar humana.

– “Veganos tomam medicamentos, que são testados em animais, logo é incoerente ser vegano.” – Mistura de argumento desconexo, falsa dicotomia e máxima desqualificada, tal afirmação tenta atribuir incoerência ao veganismo pelo fato de veganos precisarem tomar remédios em algum momento de suas vidas. O consumo de remédios é algo inexorável mesmo para veganos, mesmo sendo testados em animais, mas isso em nada anula o poder que o veganismo possui dentro de seus limites de boicote. A impossibilidade de existir um veganismo 100% nos dias atuais não implica nenhuma inviabilidade em ser, por exemplo, 70% vegano. É possível ao mesmo tempo ser vegano e consumir medicamentos. Por isso, é desconexo tentar associar a dependência da medicina alopática com uma suposta incoerência de todos os boicotes ao alcance do veganismo.

– “Ao longo da segunda metade do século 20, os japoneses aumentaram sua estatura, ao mesmo tempo em que aumentaram o consumo de proteína animal. Logo, comer carne melhora a qualidade de vida.” – Esse argumento acaba confundindo aumento de estatura física com melhoria da qualidade de vida e considerando enganosamente que o crescimento em altura das pessoas lhes possibilitaria viver melhor. Na verdade não há quaisquer relações válidas entre estatura e qualidade de vida.

– “Se uma casa estivesse pegando fogo e só fosse possível salvar uma criança ou um cãozinho, tudo indica que você salvaria a criança. Por isso o veganismo não faz sentido.” – Eticamente não há relações necessárias entre preferir salvar uma criança a um cão numa situação extrema e a suposta incoerência do veganismo. Preferir outros seres humanos a animais não humanos em situações extremas em nada se relaciona com, por exemplo, consumir livremente alimentos de origem animal no dia-a-dia, nem tampouco legitima eticamente a escravidão animal. Além disso, uma situação análoga pode ser imaginada envolvendo um incêndio em que um pai teria que optar dicotomicamente entre salvar seu próprio filho ou o filho do vizinho – nesse caso, não salvar o filho do vizinho não quer dizer que este possa ser tratado como propriedade ou que a família do vizinho seja moralmente inferior à família desse pai. Esse argumento também cai na falácia da situação extrema.

– “Os cães vivem em simbiose conosco, logo os animais da pecuária também são simbióticos com a humanidade.” – Considerando-se que a simbiose é uma relação ecológica harmônica na qual dois animais (ou duas plantas, ou dois seres vivos de reinos distintos) beneficiam um ao outro mutuamente, não há qualquer simbiose na pecuária, uma vez que os animais explorados nas fazendas e granjas sofrem apenas desvantagens ao serem escravizados por esse sistema. Além disso, a relação (hoje apenas parcialmente) simbiótica entre seres humanos e cães em nada se relaciona com a relação unilateral seres humanos-animais da pecuária.

– “O predador morre se não for procurar animais para caçar. Por isso nós temos que comer carne.” – O ser humano das sociedades modernas não é um predador natural, e deixar de matar animais para consumo não lhe implica qualquer malefício, pelo contrário. Além disso, não existe relação lógica entre as necessidades alimentares dos verdadeiros predadores naturais e as dos seres humanos.

– “Tem plantas que sabem se defender, têm mecanismos de defesa para evitarem ser comidas, como veneno e espinhos. Isso torna o vegetarianismo uma agressão inaceitável.” – A existência de recursos defensivos anatômicos ou bioquímicos de muitas plantas em nada tem a ver com ser “antiético” comer vegetais. Esses mecanismos de defesa não implicam a presença de senciência e emoções, tampouco o desejo consciente de continuar vivo. Além disso, esse argumento é um tiro no pé do próprio carnismo, pois o torna triplamente inaceitável – por matar tanto animais quanto vegetais e por reconhecer que os animais possuem, tanto quanto os vegetais supostamente possuiriam, interesses que não devem ser violados –, logo menos aceitável do que o vegetarianismo.

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Argumento quilométrico ou Argumentum verbosium

Tenta “provar” que o vegetarianismo “não é saudável” e/ou que o veganismo “não faz sentido” com textos prolixos e dotados de referências inacessíveis (geralmente fontes que não podem ser acessadas via internet, não estão internacionalmente disponíveis ou só podem ser acessadas mediante pagamento prévio). Tais textos parecem plausíveis, coerentes e bem referenciados para alguém que tem uma visão superficial sobre veganismo, mas os argumentos são trabalhosos demais para serem conferidos ou, por terem referências inacessíveis, não podem ser falseados ou confirmados. Assim sendo, leitores pouco experientes podem se deixar aceitar o texto, sem questionamentos profundos, por ele ser virtualmente embasado.

Exemplo:

– Alguns textos antiveganos disponíveis na internet – Há na internet alguns textos antiveganos dotados de referências e muito extensos. Para leitores pouco experientes, ora vegetarianos iniciantes, ora onívoros “em cima do muro”, eles parecem convincentes, dado o seu tamanho e a presença de referências. Mas vegans argumentativamente mais experientes podem refutá-los sem grandes dificuldades.

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Argumento sem apoio

Tenta explicar determinado fato usando evidências meramente supostas, forjadas e/ou parciais, sem embasamento suficiente.

Exemplos:

– “Homens param de comer carne porque viraram (sic) gays.” – Aqui a “explicação” para homens pararem de comer carne é baseada na pura homofobia do argumentador, sem que haja qualquer relação comprovada entre o não consumo de carne e a homossexualidade.

– “Essas crianças de hoje estão virando vegetarianas por falta de uma boa surra.” – Nessa frase a “justificativa” para o vegetarianismo infantil tem como base a crença, manifestada pelo argumentador, de que crianças devem ter seu comportamento moldado com violência física, e que comportamentos indesejados pelo argumentador devem ser corrigidos com agressão física. E além de não existir nenhuma prova da existência de relações entre violência doméstica contra crianças e a não conversão delas ao vegetarianismo, é uma múltipla afronta à ética desejar que crianças vegetarianas sejam forçadas a comer carne através da violência física e verbal-psicológica.

– “Essa gente se torna vegan por peninha dos animais.” – A “justificativa” aqui para a adesão de pessoas ao veganismo não tem qualquer embasamento. E ignora que veganismo é muito mais do que a mera “pena” de animais não humanos.

– “Vegetarianos são infelizes porque não conhecem a alegria de comer carne.” – Nesse caso, tanto a premissa (“Comer carne é uma alegria”) como a conclusão (“Logo, vegetarianos são infelizes”) são meras suposições baseadas nas crenças do argumentador, sem qualquer embasamento que prove que pessoas que não comem carne são infelizes ou que quem come carne é mais feliz do que quem não come.

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Ataque pessoal, desqualificação da pessoa ou Ad hominem

Essa famosa falácia é aquela em que o opositor tenta invalidar um argumento atacando o argumentador, não o argumento em si. Geralmente “condena” um argumento em função de seu defensor possuir determinadas características pessoais (ex.: é ateu, é homossexual, é vegetariano, consome bebidas alcoólicas), ideológicas (ex.: é abolicionista, é de esquerda, é filiado ao PT) ou profissionais (é cientista, trabalha com medicina alternativa, é pecuarista). Também vem em forma de ofensas explícitas, em que se ataca irracionalmente os vegetarianos e veganos (podendo ou não ser o argumentador) com xingamentos, ao invés de refutar racionalmente os argumentos deles.

Exemplos:

“Vegans são idiotas, fanáticos, tolos iletrados, não vivem sem pregar sua ‘religião’ para quem não quer ouvi-los.” – Obviamente aqui não se rebate as ideias presentes no veganismo, mas sim se restringe a atacar e ofender os veganos, numa evidente demonstração de incapacidade de rebater a ideologia dos Direitos Animais com racionalidade e respeito.

“Caro vegetariano, se você não come carne, deve não comer nem uma vagina.” – O ataque pessoal também vem em forma de baixaria, por parte de quem, não disposto a defender o consumo de alimentos animais com a razão, prefere negar para si o questionamento ético de sua alimentação (re)agindo com grosseria, baixo calão e preconceito contra os vegetarianos e veganos em geral.

“Vegetarianos são ‘viados’, não comem carne como os homens de verdade fazem!” – Típico caso de ataque pessoal homofóbico e machista, em que o consumo de carne e a violência praticada diretamente ou cumpliciada são vistos como demonstrações de masculinidade, e atos imaginariamente ligados ao “feminino” e à homossexualidade masculina, como o vegetarianismo costuma ser tratado entre os machistas, são considerados “ruins”, “negativos”, “abomináveis”. Isso, além de não tornar o vegetarianismo racionalmente frágil, demonstra algo desfavorável às próprias crenças antiveganas e prodanistas – a associação sociocultural do consumo de carne e outros alimentos de origem animal a toda uma cultura de violência, preconceito e desvalorização da empatia.

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Bola de neve, ou declive escorregadio

Afirma que uma proposição terá consequências em cadeia inaceitáveis, mas ignora ou desconhece que uma ou mais dessas consequências são falsas ou improváveis, imaginadas por preconceito ou falha dedutiva do argumentador. É uma variante da falácia de redução ao absurdo, uma vez que tenta prever uma situação futura inaceitável, tendo as peculiaridades de trabalhar com duas ou mais consequências em cadeia e especular situações mais verossímeis e sérias, embora ainda improváveis ou falsas.

Exemplos:

– “Se o veganismo triunfar, os cientistas serão proibidos de pesquisar em animais, o que vai fazer as ciências biológicas experimentais estagnarem e impedir que vidas (humanas) sejam salvas.” – A primeira consequência alegada do triunfo do veganismo é verdadeira, mas a consequência seguinte, que é a estagnação das pesquisas biológicas experimentais, não é inexorável, uma vez que, quando a abolição da exploração animal for decretada, já terá começado a existir, desde anos antes, métodos de pesquisa superiores o bastante para suplantar por completo a vivissecção.

“Se os Direitos Animais triunfarem, as pesquisas com animais serão proibidas e afundaremos numa Idade Média da Medicina.” – Idem ao exemplo acima.

“Se todos virarem veg(etari)anos, os animais de criação vão se multiplicar sem parar e isso vai desequilibrar ecologicamente a biosfera.” – Os animais explorados na pecuária só se reproduzem e aumentam de população porque os seus “proprietários” assim querem, induzindo-os a inseminações à monta ou artificiais. Mais vegetarianos e menos onívoros representam menos demanda para a pecuária, logo, menos induções à reprodução dos animais. O abandono destes à reprodução descontrolada só seria possível (mas ainda não certa) se bilhões de pessoas se tornassem vegetarianas na mesma hora e de forma abrupta, situação evidentemente impossível de acontecer.

– “Se todos virarem veg(etari)anos, não vai haver terra pra plantar tantos vegetais, logo a fome no mundo vai piorar.” – Quando a pecuária entrar em decadência, vai diminuir cada vez mais a demanda por forragem animal, que hoje compromete uma enorme parcela da agricultura no planeta, e por tabela sobrará mais alimentos vegetais para serem dedicados ao consumo humano. Também há a possibilidade de se transformar parte dos antigos pastos não naturais em terras agriculturáveis. Logo, as consequências imaginadas no argumento em questão são falsas.

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Bulverismo

Considera, a princípio, que o argumento dado é errado, mas, ao invés de refutá-lo, tenta “explicar” por que a pessoa o usa, sendo uma variante do ataque pessoal.

Exemplos:

“Você só acha que o vegetarianismo é saudável e ecologicamente amigável porque deseja profundamente isso, por ter pena [sic] dos animais e por ser uma ecochata.” – Chamar a pessoa de “ecochata” e julgar o argumento pela suposta pena que ela sentiria pelos animais não humanos não ataca de forma nenhuma o argumento de que o vegetarianismo é saudável e ecologicamente amigável. Pelo contrário, demonstra a carência de argumentos por parte do acusador.

“Você só crê que o veganismo vai triunfar no futuro porque isso lhe convém.” – Aqui o falacioso não rebate o argumento com um contra-argumento, mas sim meramente julga que a crença no triunfo do veganismo viria de uma suposta conveniência do vegano.

– “Ateísmo e veganismo não têm nada a ver um com o outro. Isso é papo de pseudoateu esoterista que tenta impor que os ateus acreditem em alguma coisa sobrenatural, como que os onívoros vão pagar por seus hábitos quando reencarnarem.” – Esse argumento não mostra por que não haveria conexões entre o ateísmo e o veganismo, restringindo-se, ao invés, em tentar explicar por que alguns ateus veganos defendem tais conexões e imputando-lhes características meramente imaginárias e preconceituosas.

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Causa genuína mas insignificante

Consiste em estipular uma causa para um dado evento como se ela tivesse sido decisiva para seu acontecimento, quando, no entanto, a tal causa na verdade é genuína mas é indignificante em comparação com outras causas.

Exemplos:

– “O vegetarianismo me causou anemia megaloblástica, por falta de B12.” – O vegetarianismo aqui é uma causa genuína mas insignificante, em comparação com a não suplementação da vitamina B12. O vegetarianismo praticamente não tem fontes vegetais naturais de B12, mas não impede que o indivíduo consuma suplementos de B12 – que não são de origem animal, mas sim produzidos por colônias de bactérias – para compensar a ausência de fontes vegetais da vitamina, sendo por si só uma causa insignificante em comparação com o fato de a pessoa ter desconhecido ou ignorado conscientemente a necessidade de suplementar a B12.

– “O vegetarianismo é responsável pelo desmatamento da Amazônia por grandes plantações de soja!” – A alimentação vegetariana pode ser considerada uma causa genuína desse desmatamento, já que uma parcela da soja consumida em forma de derivados por vegetarianos vem dessas plantações. Mas é uma causa insignificante em comparação com a própria pecuária, que consome em suas criações intensivas e semiextensivas nada menos do que 80% do farelo de soja produzido na Amazônia e no restante do mundo, e com a produção de óleo de cozinha e biodiesel, que presumivelmente consomem uma parcela ainda maior da soja dos latifúndios do que o consumo humano direto de derivados alimentares de soja.

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Conclusão irrelevante

Aponta uma conclusão que obviamente nada tem a ver com a premissa. É uma variante extrema e mais absurda da falácia de argumento desconexo, diferenciando-se dos outros exemplos dessa falácia pela desconexão entre premissa e conclusão ser mais óbvia.

Exemplos:

– “Meu filho virou vegano. Essas religiões alimentares, sei não.” – As “religiões alimentares” em nada se conectam com o fato de que o filho do argumentador virou vegano.

– “Tenho dentes caninos, logo tenho razão em cultuar o bacon.” – Comer bacon não tem nada a ver com ter dentes caninos – até porque animais como ursos pandas e gorilas têm dentes caninos muito maiores do que os humanos, mas nem por isso comem bacon e outras carnes.

– “Vegans não têm razão nenhuma porque minha comida caga na deles.” – Uma “comida” cagar na outra não tem nenhuma conexão com a suposta falta de razão dos veganos.

– “Existem crianças passando fome na África, portanto vocês não deveriam pensar no consumo de carne.” – Não há nenhuma conexão lógica, nem qualquer relação de causa e efeito, entre a fome de crianças na África e a necessidade de não pensar no consumo de carne.

– “Como carne porque tenho dentes.” (ou vice-versa) – Apesar de absurda, essa frase e sua versão invertida são usadas por diversos antiveganos que tentam justificar sua alimentação com a anatomia humana. A simples presença de dentição não tem nada a ver com o consumo de carne, uma vez que animais herbívoros também possuem dentes e a dentição também serve para moer vegetais comestíveis.

– “Nós somos animais, logo comemos outros animais.” – Ser um animal em nada tem a ver com consumir outros animais. Há animais herbívoros e centenas de milhões de seres humanos que vivem saudavelmente sem comer nenhum tipo de alimento de origem animal.

– “O apêndice, órgão importante para os animais herbívoros, é atrofiado no ser humano, logo o vegetarianismo não é bom para o ser humano.” – Os seres humanos não precisam do apêndice para digerir o universo de vegetais que consomem. Não há qualquer relação entre a atrofia do apêndice humano e o vegetarianismo, que permite o consumo de muito mais do que apenas folhas.

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Correlação coincidente, ou Post hoc ergo propter hoc (“Depois disso, logo por causa disso”, em latim)

Imputa a dois eventos ocorridos em sequência cronológica uma falsa relação obrigatória de causa e efeito. Às vezes essa falácia pode ser confundida com a falsa causa.

Exemplos:

“Os pais queriam criar um filho vegano. Deram uma alimentação desbalanceada que matou o seu filho bebê. Logo, eles deram uma alimentação fatalmente inadequada porque queriam criar um filho vegano.” – Esta afirmação corresponde a casos citados nos exemplos da falácia de distorção de fato. As evidências nesses episódios levaram à conclusão de que a causa da morte dos bebês não foi o veganismo ou vegetarianismo dos pais, mas sim a negligência alimentar destes para com os filhos e a ignorância sobre a importância de ciências da saúde como a Nutrição e a Medicina. A vontade dos pais e a má alimentação dada aos filhos vieram em sequência, mas não houve evidências de que tiveram entre si uma relação obrigatória de causa e efeito.

“Parei de comer carne e dois dias depois já me sentia mal. Ou seja, o vegetarianismo me fez sentir mal.” – Diversos motivos, incluindo desde um adoecimento contingente até um efeito-placebo negativo causado por preocupação excessiva com a ausência da carne, podem causar esse mal, ao invés da ausência de carne em si. Mesmo se o vegetarianismo em si, mesmo desbalanceado, causasse esse tipo de problema, dois dias apenas seriam pouco demais para alguém já começar a sentir efeitos fortes de um princípio de subnutrição. Logo, parar de comer carne e sentir-se mal não são fatos obrigatoriamente ligados por uma relação de causa e efeito.

– “A população humana melhorou sua qualidade de vida média, ao mesmo tempo em que passou a consumir mais carne. Isso nos mostra que o consumo de carne melhora de fato a qualidade de vida das pessoas.” – Cria-se aqui uma falsa relação de causa e efeito entre dois fatos contemporâneos – a melhoria da qualidade de vida média da humanidade e o aumento do consumo de carnes. Não há qualquer evidência científica de que o consumo de carne, por si só, melhore a qualidade de vida das pessoas. Pelo contrário, a ingestão excessiva de carnes, principalmente vermelhas, aumenta a probabilidade de ocorrência de diversas doenças – o que acaba de fato degradando a qualidade de vida do indivíduo.

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Culpa por associação, ou falácia da associação

Consiste em depreciar uma pessoa por ela compartilhar de uma opinião de alguém negativamente conhecido. Argumenta falaciosamente que a pessoa A pensa a ideia X, que também é pensada pela pessoa B, que por sua vez tem a característica negativa M, portanto A, por pensar X, também tem a característica M.

Exemplos:

– “Fulana é vegan igual àqueles estúpidos da PETA. Ou seja, ela é uma estúpida também.” – A acusação preconceituosa contra a “fulana” de ser “estúpida” se deve apenas por ser vegana como os “estúpidos da PETA”. Atrela a estupidez de uma pessoa à qualidade de vegana, promovendo um ataque pessoal preconceituoso.

– “Você é vegetariano igual ao irmão do meu amigo. Aquele cara só vive falando de teorias da conspiração como a Nova Ordem Mundial e o HAARP. Pelo visto vocês vegetarianos são todos assim, conspiracionistas de parafuso faltando.” – Aqui, por causa da falácia de culpa por associação, o indivíduo é acusado de ser crente em teorias da conspiração apenas por ser vegetariano igual ao irmão do amigo do acusador antivegano. O preconceito ocorre por associar conspiracionismo a vegetarianismo, sem que haja nenhuma relação entre ambos.

– “A irmã do meu patrão é vegana, sofre de anemia por falta de ferro e tem deficiência de vitamina B12. Então você, que se diz tão vegan, deve ser bem deficiente dos nutrientes também, né?” – A acusação de que a pessoa vegana “deve ter” deficiência de nutrientes se deve, nesse caso, apenas por ela ser tão vegana quanto a irmã do patrão do acusador, e não por exames de sangue ou sintomas que comprovassem que a pessoa sofresse de fato com deficiência nutricional. Isso caracteriza preconceito, generaliza que vegans sofrem deficiência de nutrientes.

– “A galera da Nova Era é tudo vegan ferrenha. Deduzo que você, que também se diz vegano, seja dessa turma também, afinal vegan é tudo espiritualista desse tipo mesmo.” – Generaliza indevidamente que todos os vegans são adeptos de crenças da Nova Era. Dessa generalização, deriva a crença errônea de que a pessoa é crente da N.E. apenas por ser tão vegana quanto as pessoas crentes da N.E. que o antivegano conhece.

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Definição muito restrita

Define pessoas, outros seres vivos ou coisas de modo muito restrito, afirmando erroneamente que todo indivíduo, segundo tal definição, possuiria inexoravelmente certas características. Muitas vezes vêm mistas com generalizações apressadas.

Exemplos:

– “Vegetarianos são adeptos de culturas exóticas ou contraculturas, como o naturalismo e os modos de vida hippie ou hipster.” – Traz critérios restritos e falsos para definir vegetarianos. Nem todo vegetariano é adepto de culturas exóticas ou contraculturas.

– “O vegetarianismo consiste em abandonar o consumo de carne e recorrer ao consumo de apenas vegetais orgânicos.” – Erroneamente inclui o consumo de vegetais orgânicos como característica do vegetarianismo. A definição de vegetarianismo em nada tem a ver com vegetais orgânicos.

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Distorção de fatos

Como o nome já diz, distorce os fatos de um enunciado. Em casos recentes nos últimos anos, a mídia mostrou notícias em que pais vegetarianos ou veganos proveram má nutrição a seus filhos e acabaram ocasionando suas mortes, e muitos antiveganos interpretaram-nas como se o que matou tais crianças tivesse sido o vegetarianismo em si, não a má alimentação que os pais lhes haviam dado.

Exemplos:

O caso Woyah Andressohn (2003) – A pequena Woyah, mesmo sendo um bebê de poucos meses de vida, era submetida a uma dieta crudívora à base unicamente de grama de trigo, água de coco e leite de amêndoas. Seus pais, Joseph e Lamoy Andressohn, não acreditavam nas ciências médicas propriamente ditas e, assim, não procuravam orientação nutricional. Uma vez que o corpo de um bebê de menos de seis meses é incapaz de digerir alimentos crus, Woyah morreu de desnutrição com seis meses.

A matéria fez muitos antiveganos interpretarem e saírem dizendo para seus pares que a criança morreu porque o crudivorismo e o vegetarianismo (erroneamente tratados como a mesma coisa na notícia da ABC) não seriam saudáveis para crianças de qualquer idade, numa clara distorção do fato a qual ignora que os pais negligenciavam a Medicina e a Nutrição convencionais e lhe provinham uma péssima dieta quando Woyah deveria estar apenas mamando.

O caso Crown Shakur (2004) – O bebê Crown Shakur morreu em 2004, com apenas seis semanas de vida, por desnutrição. Os pais, Jane Sanders e Lamont Thomas, acabaram condenados à prisão perpétua. Um aspecto curioso desse caso foi o fato de a defesa do casal ter dado como a causa da morte dela a obediência dos pais a supostas “regras do veganismo”. Porém, o promotor e o júri não aceitaram a alegação e chegaram à conclusão de que o suposto veganismo dos pais não tinha nada a ver com a desnutrição do filho, sendo a verdadeira causa a ignorância nutricional e negligência deles, que presumidamente forneciam ao pequenino leite de soja comum (ao invés de fórmula de leite de soja especialmente fortificada para bebês) e suco de maçã, ainda assim a volumes baixos demais.

Nos anos anteriores ao julgamento, no entanto, o caso havia repercutido não pelo crime em si, mas por o casal ser vegano, numa evidente distorção do fato ocorrido, o que gerou uma onda de estigmatização antivegana, inclusive no Brasil, propagando-se o preconceito contra o fornecimento de uma alimentação livre de animais mesmo para crianças nas idades pós-lactantes. Pôde-se perceber o largo uso da falácia de inversão do acidente para dizer que, por causa desse caso isolado – que sequer teve a ver com o veganismo em si –, todas as crianças vegetarianas, de qualquer idade, estariam correndo risco de vida.

O caso Louise Le Moaligou (2008) – O casal Sergine e Joël Le Moaligou foi julgado por ter culposamente matado em 2008 a filha Louise, de 11 meses, com pneumonia e imunodeficiência ocasionadas por subnutrição. A criança, mesmo numa idade que demandava a introdução de alimentação sólida para complementar a amamentação, recebia apenas o leite materno, que era fraco em nutrientes por causa da subnutrição também da mãe Sergine.

A notícia no The Guardian deixa claro que o casal Le Moaligou, assim como os pais de Woyah Andressohn, negligenciava as ciências da saúde e, ao invés de tratar os problemas da filha em hospitais, recorria a tratamentos pseudocientíficos. A não confiança de Sergine na Medicina e, por tabela, na Nutrição rendeu a ela própria e, através do leite materno, à bebê uma alimentação deficiente em vitaminas A e B12.

Apesar de todos os indicativos de ignorância médico-nutricional do casal indiciado, muitos veículos de imprensa, como a BBC Brasil, enfocaram exagerada e indevidamente no fato de o casal ser vegano (ou apenas vegetariano, segundo é possível deduzir), dando a entender aos leitores que o veganismo, não a ignorância médico-nutricional de Sergine e Joël, teria sido a causa fundamental da morte de Louise. Alguns nutricionistas se deixaram levar pela interpretação distorcida do acontecimento e promoveram, não sem falhas argumentativas sérias, um verdadeiro terrorismo psicológico contra o fornecimento da alimentação vegetariana estrita para crianças.

– “É um absurdo existirem vegetarianos que ferram sua saúde fumando e abusando de bebidas alcoólicas. Porque o vegetarianismo sempre se propagandeou como uma alimentação saudável!” – Não é sempre que o vegetarianismo é propagandeado como uma alimentação saudável, uma vez que cada vez mais ele é divulgado por ações que focam exclusivamente nos seus aspectos ético e ambiental. Apenas às vezes o aspecto de saúde é também abordado pelas ações educativas pró-vegetarianas. Além disso, não há na definição de vegetarianismo nada que lhe obrigue o atributo de alimentação saudável.

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Envenenamento do poço, ou falácia do poço envenenado

Essa variante da falácia de ataque pessoal questiona a validade do argumento pondo em foco o argumentador não ser neutro e imparcial em relação à ideologia que o argumento sustenta, e sugerindo que ele, com a defesa do seu ponto de vista, teria algo a ganhar em seus interesses privados. Não aponta onde a ideia defendida teria sido de fato manipulada e incluída na fonte parcial em prol dos interesses do seu defensor, mas sim se restringe a dizer: “Esse argumento não cola porque você/a fonte dele não é isento(a).” – coincidindo-se assim com o apelo à pedra.

O envenenamento do poço é muito usado pelos antiveganos, quando questionam a validade de certas informações disponibilizadas em sites pró-veganismo só porque foram extraídas desses sites ao invés de sites teórica ou praticamente neutros em relação ao veganismo, ou porque vêm de um profissional que difunde o veganismo.

Porém, é muito importante avisar, também é bastante usado por muitos dos próprios vegetarianos e veganos, quando desdenham de alguns argumentos antiveganos porque estes foram providos por especialistas ligados à pecuária e/ou à indústria lacto-frigorífica e, por isso, supostos defensores de interesses escusos. Tal estratégia não tem validade lógica e pode comprometer a própria honestidade intelectual dos veganos e vegetarianos que a usam. O correto a se fazer, portanto, é questionar os dados incluídos em tais argumentos visando a metodologia e os resultados, não em função de terem vindo de gente ligada à produção de itens de origem animal.

Exemplos:

“Esse autor que você me recomenda ler é parcial, ele é militante pró-veganismo. Por isso nem chego perto.” – Isso não quer dizer que as ideias desse autor estejam erradas. O questionador deveria refutar o que o autor defende, não esnobar o mérito de suas ideias em função de ele ser militante.

“Esses argumentos não valem, foram retirados de um site vegetariano. É o mesmo que defender o criacionismo com base em sites cristãos.” – Aqui o antivegano não refuta os argumentos apresentados, apenas os descarta em função de terem sido extraídos de um site que defende o vegetarianismo. A comparação com o criacionismo, por sua vez, caracteriza uma falácia de falsa analogia.

– “Você come carne? Se não come, não tem propriedade para falar desse assunto.” – Tática usada por muitos antiveganos, tenta desqualificar a qualidade de argumentador do veg(etari)ano por este ser supostamente tendencioso. Mas não refuta nenhum argumento, além de ignorar que, nessa lógica, não existiria ninguém imparcial, já que ou se come carne ou não se come, não existindo terceira opção.

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Evidência anedótica ou evidência-anedota

Tenta provar um argumento levando em conta relatos pessoais de testemunho ou sobre outrem, ou alegações do tipo “ouvi dizer”, que o comprovariam. Sendo uma evidência meramente informal e carente de rigor empírico, o mero relato não serve como prova científica ou mesmo confiável de algo, por não ter o rigor de uma investigação científica. Como sendo objeto de atenção da Ciência, o vegetarianismo não pode ser comprovado como nutricionalmente inseguro por evidências anedóticas. E no caso do vegetarianismo, a evidência anedótica também é uma falácia de inversão do acidente, por tentar generalizar uma situação a partir de um caso particular.

Exemplos:

“Conheço um amigo que tentou ser vegetariano estrito, mas acabou contraindo anemia ferropriva. Assim sendo, concluí que o vegetarianismo estrito é ameaçador à saúde.” – Este relato não leva em conta que outras variáveis, como uma alimentação desbalanceada mesmo aos padrões do vegetarianismo ou fatores externos à alimentação, podem ter desencadeado a anemia do indivíduo. E não traz nenhuma prova ou evidência confiável de que foi o vegetarianismo em si a causa da doença dele.

“O vegetarianismo estrito é perigoso para as crianças. Um primo meu fez a filha pequena ser vegetariana estrita, mas ela quase morreu devido à má alimentação.” – O relato não considera outras variáveis possíveis, como a má orientação nutricional, mesmo para os padrões do vegetarianismo estrito, dada à filha desse primo. Não exibe nenhum exame médico ou investigação científica que tenha comprovado que teria sido estritamente a ausência de alimentos de origem animal a causa do adoecimento da criança. E generaliza a suposta insustentabilidade alimentar do vegetarianismo estrito para crianças por estender preconceituosamente a todas as crianças vegetarianas estritas o estado de deficiência nutricional, desconsiderando a existência de muitas crianças que seguem essa dieta e são totalmente saudáveis.

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Exigência de perfeição

Ocorre quando se reivindica uma solução perfeita para o problema em pauta. Na argumentação antivegana, acontece, por exemplo, quando se tenta criticar os veganos por não (conseguirem) boicotarem 100% dos produtos testados em animais ou o veganismo por não ser uma solução para 100% dos problemas ambientais existentes.

Exemplos:

– “Vocês vegans são hipócritas. Dizem não usar nada testado em animais e ser contra a experimentação animal, mas não vivem sem um remédio! Basta uma dor de cabeça que correm logo ao primeiro comprimido que aparece.” – O acusador ignora que não existe veganismo perfeito. Produtos como medicamentos e itens de higiene presentes em estabelecimentos de acesso público não podem ser evitados pelos veganos. Os antiveganos, ao usarem esse argumento, revelam crer que o único veganismo válido seria o veganismo perfeito, o que não condiz com o conceito de veganismo.

– “Você diz ser vegetariano pelo meio ambiente e pelos animais mas não economiza energia. Continua usando o computador o dia todo, ignorando que seu consumo faz girar turbinas hidrelétricas que matam animais.” – O antivegano, nesse caso, exige que o vegetarianismo (assim como, por tabela, o veganismo) seja não só uma solução perfeita para todos os problemas ambientais e todas as mortes de animais causadas por invenções humanas, mas que também transcenda conceitualmente a oposição à exploração animal e passe a evitar 100% das mortes contingenciais e de difícil evitação.

Tanto o veganismo não se propõe a ser uma solução ambiental perfeita, restringindo-se a combater os impactos ambientais da pecuária, da pesca e da aquicultura, como não pretende evitar mortes circunstanciais não advindas da exploração animal. Tampouco os vegetarianos e veganos pretendem ser modelos de perfeição ambiental. Tal argumento também caracteriza uma falácia do espantalho, uma vez que tenta indevidamente injetar no conceito do vegetarianismo e do veganismo a evitação das mortes de animais que não são ligadas a tradições de exploração animal.

– “Vocês dizem que o vegetarianismo melhora a saúde, mas tem muito vegetariano por aí morrendo de câncer.” – O vegetarianismo, em especial o estrito, diminui a probabilidade de ocorrência de diversas doenças, mas não é, nem nunca foi, uma panaceia para a saúde humana. Não dá imunidade a nenhuma doença como os antiveganos “exigem”.

– “O vegetarianismo diminui o risco de contração de apenas algumas doenças. Logo, ‘vegetarianismo pela saúde’ não faz sentido.” – Esse é outro argumento antivegano que “exige” perfeição medicinal ao vegetarianismo. Mas é essa diminuição de riscos de algumas doenças, e não uma inexistente promessa de proteção integral contra toda e qualquer doença, que faz o vegetarianismo ser atrativo para quem busca uma saúde melhor. Esse argumento também incide em falácia do espantalho, por imputar ao vegetarianismo a falsa promessa de imunização contra um universo exageradamente grande de doenças, e em argumento desconexo, por dar uma conclusão que não se liga logicamente com o fato de o vegetarianismo diminuir os riscos de ocorrência de “apenas” algumas doenças – essa premissa não diminui nem tampouco invalida o caráter pró-saúde do vegetarianismo.

“Vocês veganos estão tão preocupados com os animais, mas não estão nem aí para os humanos, já que usam aparelhos eletrônicos produzidos na China, e comem chocolate cujo cacau é produzido com trabalho escravo.” – Esse argumento “exige” que o veganismo seja onipotente em fazer o indivíduo evitar não só todos os frutos de exploração animal possíveis e impossíveis de serem boicotados, como também tudo que venha de exploração humana. Muitos veganos também são preocupados com um consumo mais ético que seja o menos associado possível com os piores aspectos do capitalismo, mas, assim como não podem boicotar, por exemplo, remédios, não têm mais como viver numa sociedade moderna sem depender de objetos parcial ou totalmente produzidos na China ou em outros países que usam superexploração de mão de obra ou mesmo trabalho semiescravo ou escravo.

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Falácia cata-cereja, supressão de contraevidências ou evidência incompleta

Aponta dados espertamente selecionados para confirmar uma determinada posição, ignorando todas as suas contraevidências. É necessário o interlocutor ter conhecimento suficiente dos dados omitidos para poder detectar essa falácia.

Exemplo:

– “A filha do meu primo se sentiu mal porque era vegetariana. A saúde dela melhorou depois que ela voltou a comer carne.” – Nesse argumento, a antivegana ignorou todos os fatores paralelos que foram as causas verdadeiras do mal-estar da filha do seu primo, como a menina ter uma alimentação desbalanceada e não orientada por nutricionista competente, ter hipersensibilidade à luz do sol e histórico de anemia desde antes de ter virado vegetariana. Ou seja, foram variados os motivos que culminaram com a garota ter passado mal, mas a argumentadora escolheu manipulativamente o vegetarianismo como a “verdadeira” razão.

– “Ontem aquele meu colega vegano, que se dizia e se mostrava tão tranquilo e tolerante, me chamou de babaca por ter feito uma piada envolvendo animais e churrasco. Essa ofensa dele mostra o quanto vegans são intolerantes e não têm senso de humor.” – Aqui o argumentador omite seu histórico de desrespeito ao colega vegano, que culminou em ele ser respondido pelo xingamento de “babaca”. Só leva em conta que o colega desrespeitado era vegano, selecionando esse atributo como “motivo” da ofensa.

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Falácia da barba, ou falácia do contínuo

Ocorre quando alguém argumenta que não há distinção entre duas posições extremas, já que existem muitas posições intermediárias com diferenças sutis entre si e não há um momento no qual o primeiro extremo se converta nitidamente no segundo extremo. Sua linha de raciocínio é de que A é um extremo, B é o outro extremo, e não há nenhuma situação limite clara na qual A se torne B, portanto não há diferença entre A e B.

Exemplos:

– “Por mais que você elimine produtos animais e/ou testados em animais de seu hábito de consumo, você nunca vai eliminar o uso de animais de sua vida.” – Argumenta falaciosamente que, por exemplo, não faria diferença nenhuma para os animais não humanos restringir-se a comer uma porção a menos de carne vermelha por semana e ser vegan há anos. Ignora que uma pessoa vegana veterana poupou e poupa muito mais animais de nascerem para uma vida de exploração e morte violenta precoce do que alguém cuja única providência tomada “pela causa animal” foi cortar de suas refeições uma porção de carne vermelha por semana.

– “É impossível ser vegan, porque sempre vai haver algum produto originado de uso de animais em seu hábito de consumo. Portanto, conforme-se, o uso de animais nunca vai acabar.” – O argumentador “pensa” no veganismo erroneamente, como se não houvesse diferença entre boicotar um único produto animal (ex.: carne bovina ou sabonete com sebo animal) e recorrer a alternativas para dezenas de produtos animais (entre alimentos, produtos de limpeza, produtos de higiene, cosméticos, roupas e tecidos, tintas, pneus etc.). Essa é logicamente uma crença errada, já que uma pessoa que adota opções veganas para dezenas de objetos diferentes faz muito mais diferença para o número de animais explorados e mortos pelos humanos do que alguém que apenas não come carne bovina uma vez por semana.

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Falácia da falácia

Consiste em desqualificar toda uma crença ou ideia quando o interlocutor a defende incorrendo em alguma falácia. É relativamente comum entre antiveganos dizer que, porque algumas pessoas usam algum argumento falacioso para defender o veganismo, o veganismo seria carregado de falácias e, assim, logicamente insustentável, crença que por si só caracteriza esse tipo de falácia. Por outro lado, nem sempre ocorre a “falácia da falácia” quando um vegano afirma que o prodanismo e a oposição ao veganismo são um sistema de crenças errado por ser falacioso, visto que, como é mostrado neste post, praticamente todas as crenças prodanistas e antiveganas são baseadas em falácias.

Exemplos:

– “O veganismo é uma ideologia fundamentada em falácias e manipulações, na tentativa de manipular os onívoros de modo a pararem de consumir produtos de origem animal.” – Geralmente essa alegação é dada por quem presenciou algum vegano usar uma ou mais falácias para defender o veganismo. Mas ignora que existem inúmeros argumentos logicamente consistentes que sustentam a viabilidade e o sentido ético-filosófico do veganismo, tratando toda a filosofia vegano-abolicionista como se fosse inteiramente falaciosa por causa do erro de algumas pessoas no uso de alguns argumentos. Aqui também há uma falácia de inversão do acidente, por tratar casos excepcionais como se fossem regras.

– “Os argumentos falaciosos de Gary Yourofsky mostram como o veganismo é cheio de falácias.” – Não é porque Gary Yourofsky incide em argumentos facilmente falseáveis que o veganismo como um todo é falacioso e logicamente inconsistente. Até porque o veganismo não precisa de argumentos biológicos do tipo “O ser humano é biologicamente herbívoro” para ter sua viabilidade nutricional e retidão ética confirmadas.

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Falácia da janela quebrada, ou falácia do benefício indireto

Acontece quando o argumentador alega que é “positivo” que um fato destrutivo aconteça, por causa dos alegados benefícios indiretos desse fato à sociedade, à economia ou ao mundo. No caso da argumentação antivegana, constitui uma variante do apelo à relevância econômica.

Exemplos:

– “Lamento pelos animais abatidos em matadouros. Mas veja pelo outro lado: graças à criação e abate deles, empregos e renda estão sendo gerados, as pessoas estão indo a restaurantes, colônias de pescadores estão prosperando, a economia está engrenando. Ou seja, da morte dos animais ‘de produção’, a sociedade humana tem muito a ganhar.” – Esse argumento tenta justificar que a matança de animais em abatedouros seria aceitável por causa de suas consequências indiretas positivas para a economia. Ignora todos os problemas éticos da exploração animal, em favor da relevância econômica da pecuária.

– “A pecuária bovina é a menina dos olhos da economia brasileira. Ela gera emprego e renda, movimenta a economia rural, permite ao país lucrar com as exportações e faz o PIB brasileiro crescer. Sinto pela violência no campo, pelo prejuízo ambiental e pela morte dos animais, mas há males que vêm pro bem.” – Aqui o argumentador tenta relativizar as consequências destrutivas da pecuária para animais humanos e não humanos e o meio ambiente como um todo, com o intuito de fazê-las ser “compensadas” pelos alegados benefícios da atividade à economia brasileira – portanto, eticamente “aceitáveis”. Percebe-se que esse argumento não faz sentido quando se relembra, por meio da História do Brasil, que a escravidão de seres humanos “beneficiava” a economia do Brasil nas épocas colonial e imperial, mas nem por isso é hoje considerada aceitável e defensável.

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Falácia da pressuposição ou falácia da questão complexa

Consiste em fazer pressuposições preconceituosas, desprovidas de premissas argumentativas, que não foram previamente provadas como verdadeiras.

Exemplos:

– “Encha-se dos inúmeros suplementos alimentares de que você precisa pra não se desnutrir se quiser ter condição de argumentar comigo.” – De vez em quando, antiveganos arrogam que vegetarianos e veganos precisam de “inúmeros suplementos”, extrapolando maliciosamente a presente necessidade de suplementação de vitamina B12 para diversos outros nutrientes. Muitas vezes, falam isso sem terem argumentado previamente, tampouco provado, que o vegetarianismo exigiria o consumo de “inúmeros” suplementos.

– “E aí, já tomou seus mil suplementos de proteínas e vitaminas hoje, caro vegetariano subnutrido?” – Idem ao exemplo anterior.

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Falácia da prioridade

Uma variante da falácia de falsa dicotomia, tenta tornar algumas causas menos importantes e urgentes do que outras, tendo como base apenas os preconceitos do indivíduo que usa o argumento falacioso em questão. Curiosamente a maioria dos usuários desse tipo de falácia não dão valor em suas vidas às questões sociais-humanitárias a que falsamente atribuem essa prioridade, sendo o argumento usado muito mais para desmerecer a luta alheia do que para realmente chamar atenção e ajuda para causas humanitárias.

Exemplos:

“Pra que você vai se preocupar com animais com tanta criança morrendo de fome por aí?” – Aqui o argumentador, do alto do seu preconceito especista, tenta considerar a causa animal, seja ela a proteção de cães e gatos ou o vegano-abolicionismo, menos importante e urgente do que a assistência a crianças em situação de risco social. A única base argumentativa que “justifica” essa discriminação contra a causa animal é o especismo, que considera cães e gatos abandonados e animais ditos “de criação” prestes a serem abatidos moralmente inferiores e menos dignos do respeito e atenção humanos em comparação às crianças famintas.

“Com tanta coisa mais importante por aí, você tá perdendo tempo falando de veganismo?” – Essa frase costuma ser dita por antiveganos que não valorizam o respeito aos animais não humanos e a libertação animal como uma causa sócio-humanitária válida, também sendo baseada unicamente em especismo, em considerar os animais não humanos inferiores aos humanos. Curiosamente, quase todos os antiveganos que usam essa frase agem com hipocrisia e não dão a essas causas supostamente mais relevantes a importância “superior” que fingem dar ao tentar desmerecer a causa vegana.

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Falácia da situação extrema

Consiste em considerar algo certo, verdadeiro ou aceitável na vida cotidiana em função de sua aceitabilidade em situações extremas. Em outras palavras, passa a impressão de que, se uma ação seria cometida sem se pensar duas vezes em situações extremas de vida ou morte, não haveria problemas em praticá-la cotidianamente, mesmo quando promove violações éticas e não é necessária para a sobrevivência de seu praticante no dia-a-dia.

Exemplos:

“Se você estivesse numa ilha deserta, você ainda iria se recusar a comer carne?” – Essa pergunta tenta induzir o respondente a dar um passo para trás em seu veg(etari)anismo e voltar a comer carne apenas porque, numa situação extrema, ele não teria como se abster de consumir a carne de animais caçados ou pescados. Mas na verdade não tem nenhuma conexão lógica válida com a vida cotidiana do ser humano nas sociedades modernas, na qual não há motivos para se considerar o consumo de alimentos de origem animal uma questão de sobrevivência e, pelo menos em se tratando de consumo, não vigora o princípio sobrevivencialista de “matar para não morrer”.

“Se você estivesse numa ilha deserta junto com uma vaca, você mataria a vaca ou morreria de fome?” – Essa pergunta, além de incidir no mesmo problema da anterior, supõe uma situação totalmente irreal, já que nenhuma situação racionalmente plausível levaria alguém a cair numa ilha deserta junto com uma vaca ou qualquer outro animal de estatura muito grande.

“Que vegetariano não mataria um touro se isso significasse não morrer de fome?” – Essa pergunta retórica tenta encurralar o veg(etari)ano perante uma situação extrema. Mas comete o mesmo erro dos argumentos anteriores, de tentar aplicar à vida cotidiana situações extremas que impliquem a suspensão da moralidade das ações. Também usa uma falácia de argumento desconexo, já que a premissa “Vegetarianos poderiam matar touros numa situação de vida ou morte” não bate com a conclusão “Comer carne cotidianamente é aceitável”.

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Falácia de equívoco

Transmite uma mensagem distorcida por manipular o contexto e significado de sua palavra-chave ou expressão-chave. Por meio dele, palavras ou expressões têm seu significado descontextualizado e manipulado pelo argumentador, surgindo assim um argumento falacioso.

Exemplos:

– “A pessoa está falando de preservar as plantas e você defende que elas sejam comidas?” – O antivegano que profere tal pergunta manipula o significado da palavra plantas, confundindo propositalmente as plantas dos ecossistemas naturais com os vegetais cultivados na agricultura.

– “Se os vegetarianos amam os animais, por que comem a comida deles?” – Por meio da manipulação do significado da expressão comer vegetais, o antivegano maliciosamente confunde o vegetal comido por bovinos em pastos, a grama, com os vegetais comidos pelos vegetarianos. Baseia-se no estereótipo do vegetariano que come capim.

– “Minha comida caga na sua!” – Comete-se aqui o equívoco malicioso de afirmar que vegetarianos se alimentam de grama, e da mesma que bovinos comem nos pastos, manipulando-se o sentido de comer vegetais.

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Falácia de estereotipação

Atribui a um grupo inteiro características que o senso comum crê serem típicas e comuns naquele grupo, quando na verdade apenas parte de seus integrantes as possuem, e não prova que a generalização seja correta. É uma variante das falácias de generalização precipitada e do espantalho.

– “Vegetarianos acreditam nas crenças da Nova Era, são fanáticos contra onívoros e querem um mundo regido por religiões ‘namastê’.” – Essa crença nada mais é do que um estereótipo, imaginado a partir das características de alguns poucos indivíduos vegetarianos. Apenas alguns vegetarianos combinam esses três aspectos, mas o argumentador fala como se toda a população vegetariana do mundo se comportasse dessa maneira.

– “Vegans são fanáticos e não aceitam a existência de pessoas não veganas.” – A partir do caso de alguns poucos veganos, o preconceituoso estereotipou todos os veganos como “fanáticos” e “não aceitadores” da existência de pessoas não veganas. E não apresentou provas dessa generalização.

– “Esses veganos são tudo maconheiros e abraçadores de árvores.” – Esse preconceito generaliza para todos os veganos, sem nenhuma prova, o estereótipo de consumidor de maconha e abraçador de árvores.

– “Por que todo vegan é fanático e adepto ferrenho de religiões orientais?” – Esse argumento alega retoricamente que vegans em geral são “fanáticos” e “adeptos ferrenhos” de religiões orientais. Usa o exemplo de alguns poucos para caracterizar todos os veganos.

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Falácia de omissão

Arroga um argumento como verdade omitindo tudo aquilo que prove que ele é falso. Praticamente todos os mitos (crenças falsas) antiveganos sobre os Direitos Animais, o veganismo, o especismo e a exploração animal são baseados em falácias de omissão.

Exemplos:

– “A filha do meu primo era vegetariana e começou a se sentir mal. O médico mandou ela voltar a comer carne se quisesse recuperar a saúde.” – Nesse caso, que também se trata de uma evidência-anedota, o argumentador ignora variáveis que também interferiram no problema da filha do primo, como o desbalanceamento da alimentação – que não é intrínseco à alimentação vegetariana – e a má escolha dos alimentos que ela iria comer – presumivelmente ela consumia muitos alimentos pobres em nutrientes.

– “Aquela pesquisa austríaca provou que vegetarianos não são tão saudáveis assim.” – Esse argumento, acreditado por muitos que se deixaram levar pelo que a mídia falou na ocasião e não leram a pesquisa em si, ignora diversos fatores que impediram a pesquisa de concluir de fato que a saúde de vegetarianos seria problemática. Por exemplo, os antiveganos não levaram em consideração que mais de 90% dos “vegetarianos” pesquisados sequer eram vegetarianos, mas sim comedores de carne branca e/ou outros alimentos de origem animal, nem que menos de 10% deles realmente não consumiam nada de origem animal mas foram indiferenciadamente misturados com comedores de carne branca e consumidores de laticínios e ovos na mesma categoria. Isso é decisivo para se concluir, a partir de uma análise consistente do estudo, que o perfil médio de “vegetarianos” ali era de pessoas que haviam abandonado a carne vermelha para melhorar um quadro precário de saúde que já carregavam desde antes do estudo.

– “Aquela pesquisa com crianças africanas mostrou que vegetarianismo faz mal pra crianças.” – Aqui o argumentador ignora um detalhe muito importante: na tal pesquisa, a carne e o leite foram substituídos por um “suplemento” de óleo pobre em nutrientes. Ou seja, o problema não foi a ausência de alimentos de origem animal na alimentação das crianças, mas sim sua substituição por uma fonte nutricionalmente insuficiente.

“A pecuária respeita o meio ambiente e trata bem os animais. Você está sendo preconceituosa contra a pecuária.” – O argumentador omite, talvez por desconhecimento, todas as violências inerentes à pecuária contra os animais não humanos e contra o meio ambiente como um todo. Seu argumento será derrubado tão logo a contra-argumentadora prove que há violências e impactos ambientais excruciantes cometidos pela pecuária.

– “Os animais são seres irracionais, não são muito diferentes de máquinas.” – O argumento se baseia na omissão de todas as provas biológicas (ver Declaração de Cambridge sobre a Consciência Animal) de que grande parte dos animais não humanos são seres dotados de senciência, desejos, interesses individuais e inteligências semelhantes ou próximos aos dos seres humanos.

– “A ordem natural das coisas é que os dentes caninos servem para rasgar carne, portanto nós humanos devemos comer carne.” – O argumento omite que animais de diversas espécies, como ursos panda e gorilas, não usam os caninos para rasgar carne, e que a função dos caninos para animais que não comem quantidades grandes de carnes é mastigar frutas.

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Falácia definista, ou falácia da definição persuasiva

Ao usar essa falácia, o argumentador forja para um determinado termo uma definição distorcida, que torna mais fácil para ele defender determinado ponto de vista. Às vezes, caracteriza também uma falácia do espantalho, quando o termo distorcido ganha uma redefinição que o torna mais vulnerável a críticas.

Exemplos:

– “O veganismo se define como uma filosofia espiritualista que defende que seus adeptos parem de consumir alimentos de origem animal por terem pena de animais.” – Essa é uma falsa definição, que torna, por preconceito ignorante ou má fé por parte do antivegano, o veganismo suscetível a determinadas críticas que não se aplicam à sua definição verdadeira. Ao tachar o veganismo de “filosofia espiritualista” baseada em “pena de animais” e restrita ao não consumo de alimentos de origem animal, o argumentador pode tentar, por exemplo, desvalorizar o veganismo a partir de críticas a espiritualidades, à pena (misericórdia) como base de argumentos éticos e a convicções éticas que boicotam apenas alimentos de origem animal ao invés de todo e qualquer produto baseado em exploração animal. Além de ser uma falácia definista, caracteriza também uma falácia do espantalho.

– “O veganismo é um hábito de consumo motivado por pena de seres vivos em geral. Mas os vegans se esquecem, ao comer plantas, que elas também são seres vivos.” – O argumentador usa uma falsa definição, ao condicionar o veganismo à “pena de seres vivos em geral” – ao invés do respeito ético e racional a seres vivos sencientes. Essa definição distorcida “permite” ao antivegano criticar o veganismo como se ele realmente significasse aquilo, usando falácias do espantalho como a crítica ao consumo de plantas, “que também são seres vivos”, por vegans.

– “Veganismo é um estilo de vida baseado em pena de animais. Assim sendo, não é de surpreender que vegans façam suas pregações baseando-se em apelos à emoção e à misericórdia.” – Aqui é promovida uma definição falsa de veganismo, como se ele fosse sustentado pela pura misericórdia por animais em sofrimento, e não por uma convicção ética racional que reconhece direitos para os animais sencientes. A partir dessa falsa conceituação, o antivegano promove críticas enganosas ao veganismo, falácias do espantalho, na tentativa de dissuadir pessoas leigas a desistir de pensar em aderir à ética vegana.

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Falácia do atirador de faroeste, ou do pistoleiro do Texas

Seleciona um acontecimento aleatório, ocorrido em dado espaço de tempo, para considerá-lo uma “consequência inevitável” de determinada ação. É comparada, dado o nome desse tipo de falácia, a quando um pistoleiro atira diversas vezes contra uma parede, escolhe um dos buracos de bala, desenha um alvo em torno dele e então se reivindica um “ótimo atirador que acertou bem no centro”. Às vezes pode caracterizar também uma falácia de falsa causa.

Exemplos:

– “Eu falei que você iria passar mal antes de completar um ano de vegetariana. Olha só como o vegetarianismo está fazendo mal pra você.” – Aleatoriamente a vegetariana sentiu-se mal no seu primeiro ano livre de alimentos de origem animal, e por motivos não relacionados ao vegetarianismo. Mas o argumentador preconceituoso usou essa ocorrência aleatória de mal-estar para acusar o vegetarianismo dela pelo acontecimento. Esse argumento também pode ser considerado uma falácia cata-cereja, já que selecionou, de uma série de fatores paralelos, o vegetarianismo como “causa” do mal-estar da pessoa.

– “Meu filho é fã de bacon e churrasco, e levou um soco de seu irmão, que é vegano convicto. Tá vendo como vegans são intolerantes? Eu sabia que isso iria acontecer.” – A agressão é considerada pelo antivegano a consequência do veganismo do irmão do interlocutor, quando na verdade aconteceu de maneira praticamente aleatória, numa discussão que havia sido iniciada depois de uma provocação muito agressiva do filho antivegano do argumentador. Isso não foi consequência do veganismo, mas sim da intolerância do jovem fã de bacon e churrasco, e foi um acontecimento que nada tem a ver com uma suposta influência negativa do veganismo sobre o comportamento dos jovens.

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Falácia do escocês, ou falácia da expulsão do grupo

Faz uma generalização indevida sobre uma categoria de pessoas e afirma que quem não se enquadra nessa falsa generalização não pertence “de verdade” a essa categoria.

Exemplos:

– “Vegans de verdade não usam carro, nem ônibus, nem bicicleta, porque pneus contêm um ingrediente de origem animal.” -Esse argumento ignora que o uso indireto de pneus com componente de origem animal não pode ser boicotado, é uma das exceções e limites do hábito de consumo vegano. Acusa os veganos que aceitam essa exceção de não serem veganos “de verdade”, usando uma definição perfeccionista e fechada a exceções – portanto, falsa – de veganismo.

– “Vegan que é vegan não toma remédio, porque remédios são testados em animais. Quem toma remédios não é vegan de verdade.” – Ignora que o consumo de remédios, por não ser boicotável, é exceção nos hábito de consumo vegano. Afirma erroneamente que o veganismo não tolera exceções e que, portanto, vegans que consomem remédios “não são vegans de verdade”.

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Falácia do espantalho

Faz uma interpretação errada da ideia opositora, atribuindo-lhe equivocada ou maliciosamente argumentos facilmente criticáveis ou refutáveis que na verdade ela não defende. É como se o autor da falácia montasse um espantalho do adversário e começasse a bater nesse espantalho, convicto que está batendo não num boneco inanimado, mas sim no próprio adversário. Devido à variedade e frequência de seu uso, é a falácia mais usada entre todas para se tentar negar ou deturpar o sentido do veganismo e também semear ou manter preconceitos caros à maioria da sociedade.

Exemplos:

“Os veganos são uns hipócritas, porque defendem os seres vivos mas esquecem que plantas também são seres vivos.” – Os veganos não defendem direitos individuais para qualquer ser vivo, mas sim especificamente para os seres sencientes, que têm a capacidade de sentir dor e manifestar o interesse de continuar vivos e íntegros. O usuário da falácia critica um biocentrismo (ética centrada em respeitar um ser por ele ter vida) que na verdade não existe na ideologia dos Direitos Animais.

“O relatório da Academia Americana de Nutrição e Dietética diz que o vegetarianismo só é saudável ‘quando bem planejado’. Ou seja, o vegetarianismo não é exatamente saudável.” – Esse exemplo dá a falsa impressão de que o vegetarianismo é defendido de forma limitada e cautelosa pela Academia Americana de Nutrição e Dietética, quando na verdade é fato que apenas dietas bem balanceadas e planejadas, sejam elas vegetarianas ou não, têm efeitos realmente positivos na saúde da pessoa. Essa frase também caracteriza uma falácia de distorção de fato, que será vista mais adiante.

– “A alimentação de vocês é muito limitada em comparação ao meu onivorismo. Quem é que vive bem comendo apenas folhas e legumes?” – Ataca uma limitação que não existe na alimentação vegetariana, uma vez que a diversidade vegetal disponível para consumo humano é muito vasta e abrange também grãos e cereais, frutas, verduras, oleaginosas, castanhas, ervas, temperos e algas, variedade essa que possui milhares, senão milhões, de combinações culinárias possíveis.

“O veganismo prega o ativismo extremista, que inclui a destruição de propriedade pública e privada com o pretexto de lutar contra a exploração animal!” – “Ativismo extremista” e destruição de propriedades não são uma prática inerente à definição de veganismo, nem mesmo aos princípios ideológicos veganos. Veganismo, como postura de consciência ética que, por meio do consumo e de outros hábitos, visa o respeito aos animais não humanos e a oposição à exploração animal, não abrange conceitualmente destruir propriedade de exploradores de animais.

“Para os veganos, toda a intervenção humana sobre a Natureza deveria ser varrida do planeta.” – Isso não é um princípio do veganismo, não é algo que o veganismo defende plenamente. Esse exemplo de falácia do espantalho, aliás, faz uma falsa generalização a partir do fato de que alguns veganos defendem, além da libertação animal, também o fim do modelo de sociedade tecnológica moderna.

“Os veganos defendem que deixemos, absoluta e incondicionalmente, de matar qualquer animal.” – O veganismo não defende isso. É sabido entre os veganos que é impossível viver sem matar absolutamente nenhum animal, uma vez que se vai continuar inevitavelmente matando animais que intratavelmente representem ameaça à saúde e vida humanas, como vermes parasitas, e até o caminhar na rua ou em casa acaba matando animais minúsculos como formigas, ácaros, embuás e pulgas. O que o veganismo defende, na verdade, é a abolição da exploração animal e a consequente minimização máxima das mortes animais causadas por seres humanos.

“Vegans amam os animais, mas odeiam outros seres humanos.” – Esta alegação imputa ao veganismo uma falsa misantropia, que não existe entre os seus princípios. Provém do puro preconceito de muitos antiveganos contra os veganos.

“Vegetarianismo é uma dieta elitista, que requer muito dinheiro com alimentos caros e suplementos multivitamínicos.” – A cada dia é o contrário que vai se mostrando mais e mais evidente, vide a inflação nos preços das carnes e a associação cultural do consumo de carne à ascensão social. A demanda vegetariana, por sua vez, vem conseguindo obter uma grande diversidade de alimentos vegetais a preços muito mais em conta do que seria obtido de carnes. O elitismo, assim, acaba sendo algo cada vez mais próprio do onivorismo.

“O veganismo é absurdo, já-já vão estar pregando que os leões, tigres e onças também devem passar a comer grama!” – É imputado aqui um falso objetivo ao veganismo: tentar moralizar também os animais não humanos. Os veganos geralmente não trabalham com a ideia de torná-los agentes morais tais como os seres humanos – mas sim apenas de considerá-los pacientes morais nas relações entre animais humanos e não humanos – nem com a de interferir na Natureza não humana exportando aos biomas um sistema ético que nenhum animal poderá entender. Aqui também está caracterizada uma falácia de redução ao absurdo, por tentar derrubar as ideias veganas prevendo uma improvável situação futura absurda ou ridícula resultante da concretização delas.

“É ridículo os veganos não comerem ovos por acharem que comer ovo é cometer um aborto.” – Essa pode até ser a crença de alguns vegetarianos e veganos menos informados, mas, se a afirmação for feita em caráter generalizante, ela se torna uma falácia do espantalho. Isso porque a preocupação dos que eticamente não comem ovos não é em relação ao óvulo não fecundado e não chocado – logo, sem condições de se desenvolver como pintinho – que ocupa cada ovo comestível. Mas sim porque a ave poedeira é explorada por aquele que vende seus ovos, foi trazida à existência apenas para ser explorada de modo a prover ovos para que seu “proprietário” os venda e é proibida de desfrutar uma liberdade sem gaiolas ou sem cercas junto a seus filhotes. Também pesa, no caso dos ovos produzidos em larga escala, o fator do confinamento das galinhas e codornas em gaiolas, onde não podem sequer virar para o lado ou abrir as asas. Em resumo, vegetarianos e veganos não comem ovos não por causa do ovo em si, mas por causa da ave que o pôs e da indústria de ovos que mata pintinhos machos.

– “Vegans acreditam numa utopia em que grandes cidades ecológicas irão coexistir com espécies selvagens, essa realidade é absurda.” – Isso não é uma crença, nem um princípio, do veganismo. Se alguns acreditam nessa utopia, isso não quer dizer que todos os veganos o fazem. Essa afirmação também é uma generalização apressada e uma forma indireta de redução ao absurdo.

– “O vegetarianismo é uma hipocrisia, porque muitos vegetarianos comem peixe e, assim, toleram que peixes sejam mortos para a alimentação humana.” – Aproveitando-se do equívoco dos piscitarianos que se dizem “vegetarianos”, ataca uma falsa fraqueza do vegetarianismo pelos animais. O vegetarianismo conceitualmente exclui todos os produtos de origem animal, incluindo carne de peixes, da alimentação humana.

– “O vegetarianismo e o veganismo são baseados principalmente em achismos e dados científicos falsos.” – Essa é uma manifestação relativamente frequente entre antiveganos, mas é equivocada porque ignora os mais diversos relatórios, pareceres e artigos científicos que apoiam a dieta vegetariana e o hábito de consumo vegano. Tal afirmação geralmente é proferida por pessoas que não se dão o trabalho de pesquisar sobre o apoio dado pela ciência ao veganismo e ao vegetarianismo.

– “Vegetarianos obtêm online sua informação do site da PETA.” – Esse argumento falso ignora maliciosamente todo o universo existente de documentários, livros, sites, blogs e artigos cieníficos que defendem ou apoiam, de forma bem embasada, o vegetarianismo e o veganismo. O tal site da PETA, no fim das contas, é apenas um entre milhares de veículos de divulgação pró-vegetariana existentes no mundo atual – e sequer é confiável, por ser bem-estarista e individualista.

– “Os vegetarianos comparam a alimentação vegetariana balanceada com uma dieta onívora desbalanceada. Assim fica fácil demais dizer que o vegetarianismo é melhor que o onivorismo.” – Também uma generalização apressada, alega uma tendenciosidade que não é generalizada entre os veg(etari)anos. Muitas pesquisas científicas comparam dietas vegetarianas balanceadas com dietas onívoras também balanceadas, que incluem quantidades não excessivas de carnes vermelhas e/ou brancas.

– “Vegans só defendem animais porque são apegados a bichinhos fofinhos, como bezerros, golfinhos, cãezinhos, gatinhos e leitões.” – Essa afirmação tentar ofuscar o fato de que os Direitos Animais não envolvem propriamente apego a alguns animais, mas sim o fim do tratamento de todos os animais, seja quais forem, como propriedade. E tenta, por um bulverismo, “justificar” sua defesa pelos veganos com o carinho de muitos destes – mas não todos eles – a animais ditos fofos.

– “Os veganos são contra tutelar animais domésticos. Eles preferem que os cães e gatos vivam na rua ou soltos em matas.” – Na verdade os veganos nunca foram contra a tutela de cães e gatos, tampouco a favor do seu abandono nas ruas ou em ambientes que lhes exigissem autonomia. Pelo contrário, muitos veganos militam pela adoção de cães e gatos e denunciam casos flagrantes de abandono à polícia – uma vez que o abandono de animais domésticos é crime conforme a Lei de Crimes Ambientais. O que os veganos realmente são contra é a objetificação, criação comercial, venda e compra de animais domésticos – em outras palavras, são contra tratar cães e gatos como objetos produzíveis, comercializáveis e descartáveis.

– “Veganos só defendem alguns animais, especificamente os domésticos e os pecuários. Eles escolhem quais espécies merecem ou não sua pena.” – A afirmação é falsa porque o veganismo defendemo fim do tratamento de qualquer animal, do mais “fofinho” ao mais feio e perigoso, como objeto sob propriedade humana. E distorce a consideração moral dedicada aos animais não humanos pelos veganos, reduzindo toda uma convicção racional, empática e compassiva ao mero sentimento efêmero de “pena”.

– “Como são contra as pesquisas em animais, os veganos defendem a estagnação da ciência. Querem impedi-la de progredir!” – Tal linha de raciocínio se imbui das crenças de que as ciências biológicas experimentais têm que explorar animais para avançarem e que ser contra a experimentação animal seria ser contra a própria Ciência. Sendo também uma falácia de distorção de fato, distorce o ponto de vista vegano, extrapolando-o de uma posição antivivissecção a uma fantasiosa postura anticiência. Ignora que ser contra a vivissecção implica necessariamente também a reivindicação de um ou mais modelos de pesquisa bioexperimental superiores a ela. Isso porque, além de necessariamente torturar e matar animais, a experimentação animal tem uma significativa chance de falhar em reproduzir os resultados do “modelo animal” no “modelo humano”, e a busca por um método com chances cada vez menores de erro deveria ser uma constante em qualquer ciência.

– “Os vegetarianos e veganos querem moralizar a Natureza, transplantando ao restante do Reino Animal os valores morais que regem a sociedade humana. Se triunfarem, veremos leões sendo presos e levados a penitenciárias por matarem suas presas.” – Moralizar os animais não humanos nunca esteve nos planos dos defensores dos Direitos Animais. A moralização pretendida é direcionada apenas à própria espécie humana, no intuito de fazê-la reconhecer integralmente os animais não humanos como pacientes morais, sujeitos às consequências das boas ou más ações do ser humano. E, como estipula uma consequência absurda para tal fantasiosa hipótese, a afirmação também incorre na falácia de redução ao absurdo.

“Para que os veganos vêm defender os animais dizendo que eles têm alma, se nem os humanos sabem se têm alma ou não?” – A existência de alma nunca foi o parâmetro de consideração moral do veganismo, ainda que algumas pessoas defendam os animais não humanos alegando que um dos grandes motivos de respeitá-los seria eles serem dotados de alma ou espírito.

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Falácia do espantalho reversa ou invertida

Atribui a uma ou mais pessoas, ideias ou ações características positivas e elogiáveis que na verdade não há nelas, e lhes presta elogios e exaltações com base nessas falsas características. É uma variante da falácia de invenção de fato.

Exemplos:

– “Nós carnívoros somos corajosos, valentes e obstinados em nossos objetivos. Louvemos, assim, a carne!” – Atribui aos consumidores de carne características positivas supostamente determinadas pelo consumo desse “alimento”. Imagina ilusoriamente, sem nenhuma prova ou evidência, que a carne provê ao seu consumidor coragem, valentia e obstinação. É uma forma de preconceito positivo ou reverso.

– “A pecuária é uma atividade indispensável à economia brasileira. Sem ela, o país para e vai à falência. Por isso eu vou defender até a morte o direito das pessoas de criar animais pra consumo.” – Inventa que a pecuária é “indispensável” e insinua que seria impossível ela ser superada e substituída, por exemplo, pelo fortalecimento da agricultura familiar orgânica-ecológica ou pela mudança do perfil econômico do país – a superação do perfil exportador de matérias-primas por um predominantemente sustentado na exportação de produtos industrializados e máquinas hi-tech (semelhante aos países da Europa Ocidental). Atribui à pecuária uma importância apenas imaginária, tornando-a mais “positiva” do que realmente é. E tenta justificar a exploração e matança de animais “de produção” com a relevância econômica da pecuária no Brasil (vide falácia de apelo à relevância econômica).

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Falácia do tipo “A baseado em B”

Julga duas pessoas, ideias ou ações como similares por terem uma determinada característica em comum, quando na verdade ambas podem possuir substanciais diferenças entre si. É similar à falácia de culpa por associação.

Exemplos:

– “Tanto o veganismo quanto as religiões indianas pregam o respeito aos animais, portanto o veganismo também é uma espiritualidade oriental.” – Não é porque ambos compartilham o princípio ético-moral do respeito aos animais que o veganismo seja uma espiritualidade oriental tanto quanto as religiões indianas. O respeito aos animais não é uma característica exclusiva de religiões indianas.

– “O veganismo e as religiões moralistas defendem que aquela pessoa pega num ato considerado imoral deve ser julgada e punida. Portanto, o veganismo também é uma religião moralista.” – A falácia aqui está em dizer que o veganismo “também é uma religião moralista” por supostamente defender julgamento e punição contra pessoas pegas em atos “imorais”. Não são apenas religiões consideradas moralistas que têm essa característica – tradições seculares também podem incidir em moralismo e em julgamento e punição e pessoas acusadas de imoralidade.

– “Veganos e religiosos fanáticos são muito convictos em suas crenças morais. Logo, vegans em geral são fanáticos.” – O argumento generaliza preconceituosamente que todas as pessoas de convicção moral forte são “religiosas fanáticas”, já que religiosos fanáticos também são convictos em suas crenças morais. Ignora que nem toda pessoa de moralidade forte e convicta são fanáticas religiosas, havendo, por exemplo, humanistas seculares dotados da mesma convicção.

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Falácia egocêntrica

Nessa falácia o argumentador arroga que a humanidade inteira ou todas as pessoas de seu país compartilham das características dele (personalidade, gostos, estilo, classe social etc.), por mais peculiares que elas sejam, como se ele fosse o padrão referencial de ser humano a ser seguido por toda a espécie humana ou todo mundo de seu país. Ele tenta assim “negar” a existência ou a honestidade de vegetarianos e veganos, já que, por exemplo, se ele gosta de comer carne, necessariamente todo ser humano gosta de comer carne.

Exemplos:

– “Todo ser humano gosta de uma carnezinha assada na grelha, por isso vegetarianismo é algo antinatural.” – Nessa afirmação o argumentador tenta imputar a toda a humanidade uma característica dele próprio. E ele não pode provar que todo ser humano tem as mesmas preferências que ele.

– “O ser humano valoriza sua espécie em primeiro lugar, daí não vai hesitar em usar animais em prol de seus interesses.” – Ao contrário do indivíduo que argumenta isso, muitos seres humanos recusam valorizar sua própria espécie acima de todas as demais, sendo os defensores dos Direitos Animais, que consideram os animais não humanos tão merecedores de valorização quanto a espécie humana, a prova de que o argumentador não está certo.

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Falácia etimológica

Ocorre quando alguém julga um ser, uma ideia ou uma crença apenas pelo significado original da palavra que o denomina.

Exemplos:

– “Abate não é assassinato!” – Nessa afirmação, diz-se que o ato de abater/matar um animal não seria assassinato, apenas pelo fato de os termos “assassinato” e “assassinar” terem sido originalmente usados para designar homicídios, mortes violentas de seres humanos. Tenta-se assim, apenas usando-se a origem dessas palavras, desassociar o abate do animal da imagem mental do assassinato, tentando a pessoa que come carne se desassociar da corresponsabilidade por um ser senciente ter sido assassinado. Mas, na verdade, nada além da espécie da vítima, algo irrelevante se se considerar que animais humanos e não humanos são igualmente sencientes e compartilham do mesmo interesse de continuarem vivos e inteiros, diferencia o assassinato de seres humanos do assassinato/abate dos animais não humanos, perdendo-se assim o sentido de se tentar negar a existência do assassinato de animais não humanos.

“Roubo envolve subtração de propriedade, logo está errado dizer que o filhotes são roubados de suas mães pelos pecuaristas.” – Aqui tenta-se demover o valor de subtração violenta de alguém ou algo de uma outra pessoa humana ou não humana só por causa do significado original da palavra “roubo”, que é a subtração não consentida de objetos que são possuídos por alguém. Quem usa esse argumento esquece que é costumeiramente usado o termo “roubo de bebês” quando alguém sequestra o(a) filho(a) recém-nascido(a) de uma mãe. Embora seja realmente preferível usar os termos “sequestro” ou “rapto” a “roubo” em referência à subtração de seres sencientes, que não podem ser eticamente reduzidos à qualidade de objetos, a tentativa de, nesse caso, se desassociar a palavra “roubo” do sequestro de um filhote não humano de sua mãe não tem a preocupação de reconhecer o filhote como um não objeto, mas sim apenas de diminuir o peso da violência de se separar mães e filhotes nas desmamas promovidas pela pecuária.

“A carne que eu como não é cadáver, porque cadáver é o corpo não desmembrado e em putrefação de um animal morto.” – Aqui tenta-se dizer que a carne comestível não é o pedaço de um cadáver, na tentativa de tirar o peso simbólico da palavra “cadáver” da carne comida pelos onívoros e diminuir o ônus ético de se comer algo que é fruto da morte violenta e desnecessária de um animal. A “justificativa” que tenta desassociar a carne da qualidade de cadáver – a conservação e desmembramento do corpo do animal morto – é irrelevante demais para se fazer tal desassociação simbólica e ignora que hoje o termo “cadáver” também define corpos despedaçados e conservados.

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Falácia genética

Julga uma ideia ou prática tendo como base unicamente a sua origem ou passado. Omite os aspectos modernos da ideia ou prática defendida ou criticada que tenham modificado a natureza da mesma.

Exemplos:

“O vegetarianismo é uma religião, afinal, tem raízes em religiões como o hinduísmo e a Igreja Adventista.” – O fato de muitos protovegetarianos do passado terem sido motivados por doutrinas religiosas não quer dizer que todas as correntes protovegetarianas atuais sejam religiosas. A ética dos Direitos Animais tem fundamentos basicamente seculares, ainda que seja inspirada por elementos de doutrinas religiosas como a ahimsa (não violência).

“O consumo de carne tem origem na caça, na valentia dos homens em enfrentar a dureza da selva. Assim sendo, comer carne hoje é uma demonstração de virilidade e coragem.” – Mesmo que o consumo de carne ainda hoje tenha uma significação cultural ligada a valores associados à “virilidade”, não é mais uma demonstração prática de coragem, audácia e resistência à dureza das selvas como na época em que a caça era o único meio de se obter carne. Hoje a carne é obtida com comodidade e conforto em supermercados e açougues, paga-se para que outras pessoas matem os animais cujos músculos e gorduras serão consumidos pelo onívoro, e as próprias condições do abate – confinamento, subjugação total dos animais, incapacidade de fuga ou defesa por parte das vítimas, uso de instrumentos de incapacitação física instantânea etc. – em nada lembram as habilidades físicas exibidas na caça primitiva.

“Como carne porque apenas os hominídeos onívoros sobreviveram no passado.” – Os hominídeos onívoros estavam em situação ecológica totalmente diversa da humanidade contemporânea: precisavam caçar para obter todos os nutrientes complementarmente à coleta de frutas e raízes e também necessitavam matar os predadores que os ameaçavam, e estavam obrigados a isso porque na época as fontes alimentares vegetais estavam escassas nos habitats originais dos hominídeos. Hoje, ao contrário daquela época, há uma vasta e diversificada agricultura a serviço do ser humano, e ela já torna os alimentos de origem animal desnecessários, além do fato de, no caso das civilizações modernas, não haver mais predadores naturais para o ser humano.

– “Ser vegetariano na Idade da Pedra era algo impossível, visto que não existia cozimento e muitos vegetais só podem ser consumidos depois de cozidos. Logo, o vegetarianismo não é uma boa dieta.” – Tenta-se aqui invalidar para o presente a viabilidade do vegetarianismo, que é uma dieta essencialmente dependente da tecnologia de cozimento (exceto talvez o crudivorismo), pelo fato de que tal tecnologia não existia até determinada época do Paleolítico. Porém, as sociedades humanas modernas não estão mais na Idade da Pedra, e sim numa era muito mais tecnológica e artificializada, em que é totalmente viável depender de uma dieta baseada em alimentos cozidos e/ou industrializados. Além disso, a alegação referida incorre também na falácia de argumento desconexo, visto que não há qualquer ligação lógica entre a inexistência de cozimento em épocas pré-históricas remotas e a suposta inviabilidade do vegetarianismo moderno.

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Falácia legalista

Argumenta que algo é inquestionavelmente errado por ser contra a lei vigente, ou certo por ser autorizado ou exigido por uma lei.

Exemplos:

– “Não vejo nada de errado na pecuária. Até porque, se fosse errado criar e matar animais pra consumo, isso já seria considerado crime pela lei hoje vigente.” – Nesse argumento, o indivíduo manifesta a crença de que a legalidade da pecuária “necessariamente” torna a atividade “ética”. Não considera que problemas como a escravização e assassinato em massa de animais ditos “de produção” não são anulados, revertidos ou suavizados pela lei que não proíbe atividades de criação animal.

– “O modus operandi da ALF é inaceitável. O que eles fazem, destruir locais que usam animais pro bem do ser humano, é crime, e eles deveriam saber disso.” – Esse argumento tenta tornar as ações da ALF (Animal Liberation Front, Frente de Libertação Animal) inaceitáveis apenas por serem ilegais de acordo com a legislação vigente. Não prova que o modo de atuação desse coletivo é antiético, restringe-se a alegar que o que não é aceito pela lei atual “não é aceitável” simplesmente por ser ilegal.

– “Comer carne não é proibido por lei, logo não tem nada de errado e inaceitável em devorar um bom bife.” – Aqui tenta-se eximir o consumo de carne de sua procedência sangrentamente violenta em função, simplesmente, de não ser proibido por lei hoje. A frase argumenta como se a autorização legal anulasse a privação de direitos e a sujeição a mortes violentas por abate sofrida por bilhões de animais.

– “Gravar vídeos violando a privacidade de granjas e fazendas é crime em alguns países. Portanto, tem algo de errado em fazer isso, não acham, vegans?” – O argumento alega que gravar vídeos de câmera escondida em granjas e fazendas que torturam animais é “errado” apenas por ser ilegal em alguns países. Não alega possíveis consequências éticas destrutivas relativas à ação, restringido-se apenas a condicionar a aceitabilidade de algo à sua autorização pela lei vigente. Não leva em conta, por exemplo, que o fato de protestos pacíficos serem criminalizados em países submetidos a ditaduras não os torna ações antiéticas, destrutivas e inaceitáveis.

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Falácia naturalista

Considera uma ação moralmente boa e aceitável apenas porque ocorre na Natureza não humana, ou ruim e inaceitável por ser artificial e impossível de ocorrer na Natureza selvagem. Não deve ser confundida com o apelo à natureza.

Exemplos:

“Como carne porque é normal os animais se matarem uns aos outros e comerem carne na natureza.” – Na Natureza silvestre também são normais e recorrentes os assassinatos dentro da própria espécie, as brigas violentas entre indivíduos por territórios, os estupros de fêmeas, a rejeição e abandono de filhotes pelas mães, o infanticídio, entre outros comportamentos. E nem por isso são comportamentos moralmente aceitáveis pelos seres humanos, tanto que são considerados crimes pela maioria dos códigos legais existentes.

“Como carne porque vivo a lei da natureza, a lei do mais forte.” – Se uma “lei do mais forte” fosse seguida à risca pelos seres humanos e constasse nas leis, implicaria a marginalização, dominação opressora e até eliminação genocida de coletividades ou indivíduos humanos vulneráveis, como sociedades tribais, etnias minoritárias não dominantes, minorias (numéricas ou políticas) historicamente discriminadas e oprimidas (no caso do Brasil, mulheres, negros, nordestinos, LGBTs, ateus e agnósticos, religiosos não cristãos, indígenas, imigrantes de alguns países etc.), pessoas portadoras de deficiências motoras, pessoas de saúde permanentemente fragilizada etc. A Ética humana impede que a “lei do mais forte” valha para a humanidade, e hoje em dia não há qualquer motivo, seja ético, seja prático, para se insistir em seguir à risca tal “lei”, dada a sua completa desnecessidade nas sociedades contemporâneas.

“Existe um gênero de formigas [espécie Polyergus umbratus] que explora formigas de outras espécies. Assim sendo, por que não podemos explorar outros animais para nosso benefício?” – Diferentemente dos seres humanos, as formigas da espécie Polyergus umbratus, conhecidas como formigas-amazonas, não têm discernimento moral nem condições de se libertar da relação ecológica de parasitismo que mantêm com as formigas da espécie Formica subsericea.

– “A Natureza é baseada na dicotomia predador X presa, por isso é um equívoco pararmos de predar animais para comer.” – Há milênios o ser humano se desvencilhou do status necessário de predador natural, visto que desenvolveu a agricultura e a pecuária. E hoje em dia é mais que possível o ser humano das sociedades modernas viver bem sem matar nenhum animal para fins alimentares. A falácia naturalista aqui ocorre tanto ao tentar resgatar atavicamente a qualidade humana há muito desaparecida (nas sociedades modernas) de predador natural como ao tentar transplantar às sociedades modernas uma relação unilateral amoral dos animais humanos com os não humanos.

– “Não há nada de objetivamente errado em matar animais para consumo. Os predadores naturais fazem isso e ainda são muito mais violentos ao caçarem suas presas do que nós ao criarmos e abatermos os animais de criação.” – Essa é outra falácia que tenta transplantar aos humanos a ausência de senso moral típica dos animais não humanos. Essa alegação se baseia na premissa de que, se a amoralidade entre animais é normal na Natureza silvestre, ela seria necessariamente boa para os seres humanos.

– “As espécies animais em geral visam principalmente a preservação de suas próprias vida e espécie. Assim sendo, por que não podemos visar em especial a nossa própria preservação em vez de pensar tanto em Direitos Animais?” – Aqui tenta-se justificar o especismo humano usando-se como base a preferência instintiva dos demais animais pelos seus irmãos de espécie. E tem o agravante de ignorar que, ao contrário dos seres humanos antropocêntricos, não existe entre os animais não humanos um pensamento especista racionalizado, que consista na inferiorização moral e objetificação das demais espécies, mesmo que priorizem cuidar de sua própria.

– “Matar um animal para comer é tolerável. Afinal, na Natureza os valores morais humanos não funcionam.” – Usa-se essa falácia justamente para tentar legitimar violências inerentes a espaços essencialmente artificiais, como granjas, fazendas pecuárias, fazendas-fábrica, matadouros e açougues. Em primeiro lugar, esses lugares não são parte da Natureza silvestre. Em segundo, a afirmação tem os efeitos inesperados de taxar de amorais os seres humanos que frequentam ou habitam paisagens naturais, como indígenas e ecoturistas, e legitimar desmatamentos e outros ecocídios, já que ocorrem em áreas silvestres.

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Falácia nomotética

Consiste em argumentar que um problema pode ser resolvido apenas dando-lhe um novo nome. Mas é lógico que apenas um novo nome não resolve nenhum problema – pelo contrário, pode agravá-lo por dar uma roupagem de “bonzinho” ou “humanitário” a algo opressivo e assim acobertar seus prejuízos às vítimas.

Exemplos:

O uso do termo “abate humanitário” – Tenta-se suavizar o ato de assassinar animais usando-se métodos de matança supostamente indolores e o termo “abate humanitário” para denominá-los. Mas percebe-se o absurdo que é tentar “benignizar” um assassinato injusto e desnecessário quando se pensa, por exemplo, que um golpe de Estado não seria menos cruel, violento e antidemocrático se fosse oficialmente chamado de “readequação da democracia”.

O uso de expressões como “carne feliz” ou “ovo caipira” – Essas expressões, baseadas no ambiente de criação dos animais que forneceram esses alimentos, tentam esconder o fato de que esse fornecimento foi forçado e resultou na exploração e morte de seus “fornecedores”. Tenta passar a ideia de que, se a pecuária não usa de artifícios obviamente cruéis, como o espancamento e o abate doloroso, torna-se uma atividade ética por isso. Os veganos sabem que isso não faz sentido, já que, mesmo nas criações bem-estaristas, a pecuária continua tratando animais como objetos sob propriedade de alguém e violando seus interesses próprios de continuarem vivendo com integridade física e psicológica.

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Falácia subjetivista

Rejeita determinado argumento, mesmo que ele tenha muitas provas em seu favor, alegando que acreditar nele é uma mera “questão de crença”, algo meramente “relativo às crenças” do argumentador. Em outras palavras, reduz uma verdade objetivamente provada a uma mera crença subjetiva. Pode vir acompanhado de uma indução preguiçosa.

Exemplos:

– “Eu tenho liberdade de crença. Você com seu veganismo e eu com meu onivorismo. Eu tenho o direito de não acreditar no que o veganismo diz.” – Nesse argumento, o indivíduo considera “opcionais”, “subjetivas” e “descartáveis” os fatos e dados apontados pelo argumentador vegano contra o consumo de alimentos de origem animal. Reduz ao atributo de “opinião” ou “crença pessoal” algo que é uma verdade sustentada em fatos e estatísticas.

– “Você diz que a ciência já provou que os animais de consumo não querem morrer, a pecuária tem enormes impactos ambientais e consumir carne e leite faz mal à saúde, mas eu tenho crenças diferentes. Cada um com sua crença.” – Todos os dados e fatos científicos por trás dos argumentos veganos são descartados e esnobados como se fossem meras opiniões pessoais, tão relegados à crença individual quanto crer em fadas, sacis e duendes.

– “Eu não acredito no veganismo, estou com os defensores do bem-estar animal. Respeite minha crença.” – O argumentador confunde algo sustentado em fatos e dados objetivos – o veganismo – com uma mera crença folclórica, que se pode deliberadamente optar por crer ou não.

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Falsa analogia

Compara duas situações ou seres que, na prática, não podem ser comparados no aspecto dado na afirmação.

Exemplos:

“Comer carne faz mal. Mas até respirar e fazer exercícios físicos fazem mal também.” – Os danos à saúde causados pelo consumo de carne, referentes ao aumento da probabilidade de contrair certas doenças, são muito mais severos do que os supostos danos causados pela respiração e pela prática de exercícios físicos. E comer carne, ao contrário de respirar e fazer exercícios, não é uma necessidade biológica inexorável para os seres humanos, podendo ser evitado.

“Como carne porque o leão come carne.” – Ao contrário dos seres humanos, os leões e outros animais carnívoros não têm discernimento moral, nem o poder de flexibilizar sua alimentação, nem a habilidade tecnológica da agricultura. Este caso também se caracteriza como uma falácia de conclusão irrelevante.

“Se o leão não tem dó de sua presa, por que eu tenho que ter pena (sic) dos animais que eu como?” – Ao contrário dos seres humanos, os leões e outros animais carnívoros não têm discernimento moral, nem o poder de flexibilizar sua alimentação, nem a habilidade tecnológica da agricultura. Este caso também é uma falácia naturalista.

“Dizer para os onívoros matarem com suas próprias mãos os animais que comem é como dizer para montarem seu próprio carro e construir sua própria casa se quiserem ter um carro e uma casa.” – Comprar carro e casa prontos não tem o ônus ético de comprar a carne de animais que outras pessoas mataram. Tampouco construir uma casa ou montar um carro requerem a insensibilidade, sangue frio e falta de empatia que são necessários para assassinar um animal com as próprias mãos.

“Esses argumentos não valem, foram retirados de um site vegetariano. É o mesmo que defender o criacionismo com base em sites cristãos.” – Aqui o indivíduo esnoba primeiro os argumentos pró-vegetarianismo apresentados apenas porque foram extraídos de um site pró-vegetariano, o que caracteriza, como veremos mais adiante, a falácia do envenenamento do poço, para em seguida incorrer na falácia de falsa analogia. A analogia do vegetarianismo ao criacionismo, por sua vez, é falsa porque, ao contrário dessa crença cosmogônica, o vegetarianismo não é baseado em um mito religioso nem é insistentemente sustentado por teorias já refutadas.

“Vegetarianismo/veganismo é uma verdadeira religião.” – A analogia, que geralmente define religião sob os parâmetros ocidentais, é falsa porque o vegetarianismo e o veganismo – exceto quando previsto por doutrinas como a cristã adventista, a jainista e a hindu – não se baseiam em crenças em mitos religiosos nem em fundamentos morais ditados por divindades, nem determinam recompensas divinas para boas ações e punições idem para atos imorais, nem usam de dogmas, nem negligenciam a Ciência como base factual, nem usam do apelo à força para contestar o carnismo perante os consumidores de carne – ainda que alguns indivíduos incorretamente tentem impor coerção para induzir outras pessoas a se tornarem vegetarianas.

– “Animais são tratados como reis na pecuária. Vivem como reis e morrem como reis.” – Reis não são roubados de suas mães quando crianças pequenas, nem têm partes periféricas do corpo obrigatoriamente mutiladas, nem vivem confinados em propriedades cercadas, gaiolas ou baias, nem são transportados a um matadouro de forma degradante, nem são abatidos a certo instante de sua juventude. Mesmo as criações bem-estaristas não provêm aos “seus” animais um tratamento de rei, mas sim apenas de escravos “bem tratados”, visto que, ao contrário dos monarcas, eles continuam tendo o valor de sua vida atrelado a fins utilitários benéficos apenas a terceiros, vivem integralmente confinados numa área limitada que acaba nas cercas da fazenda ou granja e não deixam de ser abatidos em dado momento-limite de sua vida.

– “Você defende que a pecuária deixe de reproduzir seus animais pra parar a poluição, mas centenas de crianças estão nascendo no momento em que estamos discutindo.” – Ao contrário dos animais da pecuária, crianças não nascem e crescem com fins utilitários de cunho comercial, e seu nascimento não é algo eticamente questionável e evitável como a reprodução dos animais da pecuária.

– “Um cavalo é vegetariano e só tem 20 anos de expectativa de vida. Já o ser humano come carne e pode passar dos 110 na melhor das hipóteses. Por isso, é melhor comer carne.” – Esta falsa analogia, também considerada uma falácia de argumento desconexo, compara dois organismos muito diferentes, com condições muito distintas de sobrevivência, além de ignorar os tantos artifícios medicinais e nutricionais à disposição do ser humano para estender sua expectativa de vida individual. E mesmo se tal analogia tivesse validade lógica, ela seria sobrepujada por uma outra comparação: entre seres humanos e algumas espécies de jabutis, as quais gozam de uma longevidade individual bem maior do que a naturalmente permitida ao ser humano.

– “Arrancar a folha da alface é o mesmo que mutilar a pata de um porco.” – Essa afirmação, muitas vezes usada como provocação maliciosa, faz a inválida comparação entre a folha da alface e a pata do porco. “Ignora” que a alface não tem nenhuma reação, nem sente qualquer dor e sensibilidade, quando suas folhas são arrancadas para se comer, ao contrário do porco, que se debateria de insuportável dor se fosse mutilado vivo. Nem com o porco morto, a mutilação de sua pata pode ser validamente comparada com a folha da alface. Para tirar as folhas do corpo da alface sem reação dela, não é preciso abatê-la, enquanto o porco só não reage à mutilação da sua pata se tiver sido morto antes.

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Falsa causa

Atribui uma falsa causa ao acontecimento mencionado. Diz que a causa foi X, quando na verdade foi Y. É semelhante à falácia de correlação coincidente, mas tem como especificidade a falsificação explícita, intencionalmente ou não, da causa, havendo ou não fatores paralelos coincidentes.

Exemplos:

– “Minha filha passou mal ontem, com tontura. Com certeza foi esse vegetarianismo dela.” – Há muitas causas reais possíveis, como alguma doença, mal-estar por causa do calor ou má alimentação. A alegação de que “com certeza foi esse vegetarianismo dela” é falsa, porque a ausência de alimentos de origem animal, por si só, não é causa de mal-estar.

– “Você tem um raciocínio confuso porque é vegano.” – Veganismo não tem nada a ver com eventuais momentos de confusão mental. O que pode ser a causa é, por exemplo, alimentação desequilibrada – que não é resultante simplesmente da ausência de produtos animais da dieta – ou algum transtorno mental.

– “Meu filho é fanático nas ideias dele porque aderiu ao veganismo no ano passado.” – Não há nenhuma relação de causa e efeito entre veganismo e fanatismo. Se a pessoa é fanática em suas ideias, isso decorre, por exemplo, de influências sociais, fanatismo religioso, contato com veículos de comunicação incitadores de posturas fanáticas etc. Mas não com a postura de ética vegana, que pode vir ou não acompanhada de um fanatismo da aprte do indivíduo.

– “Muitos veganos são intolerantes contra onívoros porque a intolerância é parte integrante daideologia vegana.” – Essa falsa causa, que acredita que a intolerância seria “parte integrante” do veganismo, também é uma falácia do espantalho, por lhe atribuir uma falsa característica facilmente criticável.

– “Tá na cara por que você tem tanto problema com meu consumo de carne. Isso se deve ao caráter de seita religiosa de seu veganismo.” – Essa falsa causa, que coloca o “caráter de seita religiosa do veganismo” do indivíduo como falsa causa da pouca tolerância do vegano ao consumo de carne por outros, também traz uma falácia do espantalho, por atestar uma falsa caracterização do veganismo como “seita religiosa”.

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Falsa dicotomia ou falso dilema

Descreve uma situação como se fosse falsamente um dilema, afirmando que há apenas duas opções mutuamente excludentes das quais apenas uma pode ser escolhida, quando na verdade há outras opções não consideradas pelo argumentador. Em alguns casos, as opções falsamente dicotômicas podem na verdade ser consideradas ao mesmo tempo.

Exemplos:

“Se você quer poupar o meio ambiente, se mate de uma vez, assim você zera o impacto ambiental.” – Opções dadas: ter uma pegada ecológica gigantesca e aceitá-la conformadamente; zerar sua pegada por meio do suicídio. Não é considerada a possibilidade de reduzir a pegada ecológica na medida do possível, estando no meio termo entre ter uma pegada ecológica enorme e pegada zero.

“Se você é contra os testes em animais, ofereça-se de cobaia então!” – Opções dadas: aceitar calado, sem questionar, que os animais sofram nos laboratórios; sacrificar a própria integridade física oferecendo-se de cobaia. Não são consideradas as possibilidades de ser vegano, diminuindo ao máximo a dependência de produtos vindos de testes em animais, e mobilizar-se contra a experimentação animal por outras maneiras, exteriores ao hábito de consumo, para compensar a impossibilidade de se tornar independente de experimentos e testes em animais.

“Se você não quer fazer mal aos animais, vá viver na mata!” – Opções dadas: ter um hábito de consumo inconsequente, sem a mínima preocupação com a exploração animal ocorrente na indústria, alimentícia ou não; viver em um ambiente onde não haja dependência da exploração industrial de animais (mas haveria necessidade de caçar). Nega-se a possibilidade de a pessoa diminuir ao máximo o mal causado a outros animais ao longo de sua vida, anulando a contribuição de sua alimentação à exploração animal e a contribuição voluntária de seu hábito de consumo não alimentar à mesma e diminuindo na medida do possível a contribuição compulsória (compra de remédios e outros produtos sem substitutos veganos).

“Por que vocês se preocupam com animais quando há tanta criança morrendo de fome?” – Opções dadas: ajudar apenas crianças necessitadas; militar apenas pela causa animais não humana. É desconsiderada a possibilidade de lutar pelas duas causas ao mesmo tempo, ou mesmo interligá-las.

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Falso efeito, ou falsa consequência

Assume incorretamente um suposto efeito a partir de uma causa, não passando esse efeito de um mito.

Exemplos:

– “O vegetarianismo é perigoso, porque causa deficiência de nutrientes, como proteína, ferro e cálcio. Continuar consumindo alimentos de origem animal é essencial à sua saúde.” – O argumentador imputa ao vegetarianismo falsas consequências, como a deficiência de nutrientes. Considerando que cada vez mais instituições de profissionais de saúde e trabalhos científicos de Nutrição aprovam a alimentação vegetariana e a absolvem da acusação de déficit de nutrientes, o argumento é falso e falacioso.

– “O veganismo acarreta fanatismo, extremismo e intolerância contra quem come carne. Portanto, fique longe de vegans.” – O antivegano especula falsas consequências para a adesão ao veganismo, baseadas em puro preconceito e desprovidas de embasamento factual.

– “Parar de comer carne vai fazer você virar gay e afeminado. Coma carne e continue um macho heterossexual.” – Aqui falsos efeitos do vegetarianismo na “masculinidade” e heterossexualidade de muitos homens (os heterossexuais não afeminados) são imaginados por um argumentador antivegano machista e homofóbico.

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Fuga ao tema, falácia do “olha o avião” ou falácia Red herring (“arenque vermelho” em inglês)

Responde ao argumento dado introduzindo um tema sem relação com ele. Não refuta o que está sendo defendido e ainda pode inviabilizar a continuidade da discussão se o argumentador permitir a si mesmo discutir o novo assunto introduzido e deixar de lado o assunto original da discussão.

Exemplos:

“Você diz que o vegetarianismo contribui para a preservação do ambiente. Mas não pensa nas pessoas que estão morrendo de fome lá na África, não sai do computador para amparar os necessitados…” – A alegação, que ainda por cima é evidentemente preconceituosa por tentar adivinhar a inação do outro, tenta responder à alegação sobre a contribuição do vegetarianismo para a preservação ambiental com um assunto que não tem nada a ver com o que está sendo debatido: a suposta falta de filantropia do vegetariano. Não rebate o argumento pró-vegetariano e coloca em pauta um assunto irrelevante para a discussão, o que pode lhe comprometer o andamento desta caso o vegetariano não recuse mudar o assunto.

“A experimentação animal não vai deixar de existir, ela é essencial para as ciências biológicas experimentais. E aliás, o vegetarianismo não fornece nutrientes suficientes, sabia?” – Neste caso, o antivegano primeiramente responde a uma afirmação anterior do vegetariano ou vegano sobre a necessidade de se abolir a longo prazo a experimentação animal. Mas tenta, logo na frase seguinte, quebrar o andamento da discussão ao introduzir um tema que já não tem a ver com as pesquisas com cobaias – a suposta insuficiência nutricional do vegetarianismo –, o qual obviamente não contribui com o debate.

“Você não vai me convencer de que o consumo de carne é um ato antiético. E, aliás, você adorava um rodeiozinho, né?” – Aqui a fuga ao tema é usada juntamente com a falácia de apelo à hipocrisia, ao mesmo tempo tentando imputar ao veg(etari)ano a pecha de hipócrita por ter frequentado rodeios no passado e respondendo ao debate com uma maliciosa fuga do tema.

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Generalização precipitada, ou generalização apressada

Julga cruamente uma categoria de pessoas inteira a partir de características de uma parcela – muitas vezes uma minoria. É expressa quando antiveganos tentam julgar todos os vegetarianos por causa dos comportamentos e ideias de apenas alguns, sendo uma falácia altamente comum entre eles. Muitas vezes coincide com a inversão do acidente.

Exemplos:

“Vegans são chatos, arrogantes, intolerantes, acham-se superiores, parecem que estão pregando uma religião fundamentalista.” – Essa afirmação difamatória, além de ser um ataque pessoal, julga todos os veganos em função do comportamento de uma parcela deles. Nem todos os veganos possuem comportamentos que lembram arrogância, chatice, intolerância e proselitismo.

– “Veganos se acham superiores e agem como se assim fossem.” – Também se baseia no comportamento de poucos que de fato acreditam ser “superiores” ou “mais evoluídos” do que os não veganos. Não é porque alguns pensam assim que todos o façam. Além disso, o veganismo implica conceitualmente não a arrogância de superioridade, mas sim a igualdade moral, nivelada por cima, entre todos os seres sencientes – e isso inclui obviamente a igualdade entre todos os seres humanos, sem distinção hierárquica de consideração moral ou merecimento de respeito.

“Essa galera recorre a sites manipuladores para justificar sua ideologia tal como religiosos recorrem a sites criacionistas para legitimar suas crenças.” – Muitos antiveganos acham que todos os veganos veem os sites de temática vegana como suas “únicas” grandes fontes de informação. Mas na verdade muitos recorrem a pesquisas científicas e relatórios de organizações e instituições não necessariamente comprometidas com o veganismo.

“Esses vegans são tão fanáticos quanto os religiosos fundamentalistas.” – Alguns veganos de fato agem como se estivessem promovendo uma crença religiosa, dada a forma como o fazem e a eventual fraqueza dos seus argumentos. Mas isso não quer dizer que todos os veganos sejam assim.

“Eu não quero ser vegetariano porque vegetarianos substituem carne por soja e eu adoro carne e odeio soja.” – Quem alega essa desculpa acredita erroneamente que, porque alguns vegetarianos substituem a carne por derivados de soja, todos os vegetarianos o fazem. Na verdade muitos vegetarianos não usam apenas a soja para substituir nutricional e gastronomicamente a carne, e há muitos outros ainda que não gostam de derivados de soja.

“Não suporto vegetarianos, eles sempre discutem a alimentação onívora na hora em que estamos comendo juntos.” – Nem todo vegetariano discute ética e alimentação em horas inapropriadas para esse tipo de discussão, como durante refeições. Muitos antiveganos usam essa alegação baseados no pensamento preconceituoso de generalizar a todo o universo de vegetarianos os hábitos inadequados visto apenas em um ou alguns vegetarianos conhecidos pelo indivíduo.

– “Vegetarianos adoram usar apelos sentimentais para convencer os onívoros de que devem parar de comer carne.” – Isso também não se aplica a todos os vegetarianos. Muitos são os que usam exclusivamente exposições racionais, cientificamente embasadas e/ou apoiadas na Filosofia para questionar a alimentação não vegetariana.

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Indução preguiçosa

Consiste em negar insistentemente a conclusão para a qual as evidências do argumento apresentado apontam. Muitas vezes essa posição falaciosa demonstra que o antivegano irracionalmente fecha suas crenças ao debate, e nenhum argumento, por mais equilibrado, lógico e bem fundamentado que seja, o fará rever suas posições. Em tantas outras vezes, é aquela famigerada situação em que, apesar de ter sido completamente refutado, o antivegano insiste em apresentar à exaustão os mesmos argumentos.

Exemplos:

– “Não adianta, por mais que você fale eu não vou abandonar minha carne suculenta.” – Aqui o indivíduo assume que é fechado a debater seu apego ao consumo de carne, por mais argumentos embasados que tenham sido apresentados. Isso tende a encerrar o debate, já que mostra indisposição do antivegano a continuar conversando.

– “Não, a pecuária não tem esse impacto ambiental todo.” – Nesse caso, a pessoa nega, com uma indução preguiçosa que também é uma falácia de apelo à pedra, todos os argumentos do veg(etari)ano sobre os impactos ambientais da pecuária, e em seguida ou não explica por que contesta os argumentos, ou usa a mesma argumentação já refutada anteriormente.

– “Eu não concordo [com os argumentos apresentados pelo vegano].” – Nesse caso aqui, o antivegano diz que “não concorda”, mesmo que em seguida não consiga apresentar nenhum contra-argumento que fundamente sua discordância.

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Invenção de fato

É basicamente uma mentira ou a descrição de um fato com informações imprecisas, usada no intento de manipular a audiência. Muitas vezes vem associada a uma falácia do espantalho, o que aumenta seu o poder manipulativo. É ocasionalmente usada pelos antiveganos mais mal intencionados e preconceituosos, que querem, por má fé, difamar o veg(etari)anismo a qualquer custo e/ou expor seus preconceitos como se fossem fatos.

Exemplos:

– “Populações em que predomina a alimentação vegetariana são menos enérgicas e mais atrasadas em termos tecnológicos e científicos, além de serem povos menos civilizados.” – Essa afirmação foi encontrada, alguns anos atrás, em um texto de uma autointitulada nutricionista portuguesa, e obviamente não encontra qualquer comprovação científica, tendo sido presumivelmente inventada com más intenções ou por reflexo de preconceito pessoal.

– “100 anos atrás, ser vegetariano era impossível.” – Esse fato inventado desconsidera a multimilenaridade do vegetarianismo (no sentido mesmo de alimentação sem derivados animais), adotado desde a Antiguidade em sociedades como a indiana (onde o jainismo recomendava uma alimentação livre de produtos animais e exigia o não consumo de carne).

– “Os vegans, fanáticos que são, invadem blogs e sites de cientistas que trabalham com pesquisa em animais chamando-os de assassinos, maníacos, torturadores e tudo o mais.” – Isso também é um fato inventado, desprovido de qualquer comprovação de que aconteça com regularidade e seja praticado por uma parcela considerável de veganos. Também incorpora as falácias do espantalho e de generalização apressada.

– “Os veganos chegam ao ponto de sugerir que, em vez de animais, se usem crianças humanas como cobaias. Que absurdo!” – Usa uma falsa imagem, inventada, dos veganos. Além disso, causar sofrimento a crianças vai justamente contra os princípios do veganismo. Como crianças humanas também são seres sencientes, aquele que sugere a opressão e tortura de crianças para substituir animais não humanos em pesquisas não é considerado vegano.

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Inversão do acidente

Toma uma exceção como regra, imputando indevidamente a situação excepcional aos casos em que a regra se aplica. Também pode vir acompanhada da evidência anedótica.

Exemplos:

“O vegetarianismo é dito como uma dieta saudável, mas um colega meu que é vegetariano pegou anemia. Isso me faz concluir que o vegetarianismo não é saudável.” – Aqui a inversão do acidente transforma a exceção, que é o vegetariano com anemia, numa regra, que seria o vegetarianismo não ser saudável, negando assim a regra já comprovada de que o vegetarianismo bem balanceado é uma dieta saudável. Aqui também está caracterizada uma evidência anedótica, que não dá uma evidência formal, científica e confiável para comprovar a alegação do autor da falácia.

“Como você me diz que vegetarianos não são sempre anêmicos? Tem muito vegetariano por aí com anemia.” – Variante do exemplo anterior, aqui todos os vegetarianos são julgados como anêmicos porque apenas parte deles sofrem da doença. Tal afirmação desconsidera tanto que muitos vegetarianos mantêm sem problemas suas taxas saudáveis de ferro e vitamina B12 como o fato de muitos vegetarianos terem anemia por fatores externos à alimentação e/ou mesmo desde a época em que comiam carnes.

“Vocês dizem que o vegetarianismo estrito é adequado para crianças pequenas, mas um amigo meu impôs uma dieta vegetariana estrita pra filha e ela quase morreu. Ou seja, o vegetarianismo estrito é muito perigoso para crianças pequenas.” – Tenta usar a exceção, na qual a filha do amigo sofreu consequências ruins atribuídas ao não consumo de alimentos de origem animal, para negar e inverter a regra de que o vegetarianismo estrito bem orientado é saudável para crianças. A alegação do autor da falácia, sendo esta também uma evidência anedótica, falha em tentar comprovar sua acusação – e também em comprovar que o motivo da desnutrição da criança teria sido de fato o vegetarianismo estrito – por não fornecer uma prova apurada e cientificamente estudada.

– “Eu repudio a militância vegana, porque a PETA faz muita besteira.” – A partir do exemplo questionável da PETA, o argumentador faz uma generalização indevida para toda a militância pró-vegana, desconsiderando inclusive a miscelânea de métodos de ativismo existente. Como toda pessoa minimamente esclarecida sobre militância de Direitos Animais já deve saber, não existe na militância como um todo qualquer uniformidade ou regra na forma de mobilização. Além disso, grande parte dos próprios ativistas repudiam diversas das práticas da PETA, como o machismo e o bem-estarismo. A afirmação em questão também incorre na falácia de argumento desconexo.

– “Megan Fox e Angelina Jolie se deram mal quando tentaram mudar a alimentação pro vegetarianismo. Por isso eu digo: vegetarianismo faz mal à saúde!” – Aqui são usados casos excepcionais de pessoas nutricionalmente mal orientadas para se tentar universalizar uma suposta inviabilidade nutricional do vegetarianismo. O que faz alguns vegetarianos contraírem problemas parecidos com o de Fox e Jolie é a falta de orientação nutricional ou a baixa qualidade do atendimento recebido, e não o vegetarianismo por si só. A afirmação também caracteriza uma espécie de evidência anedótica.

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Inversão do ônus da prova

Ocorre quando uma pessoa dá um argumento, o interlocutor discorda dele e, em seguida, a pessoa exige que o interlocutor prove que o argumento está errado. Ignora que o argumentador é que deve provar que seu argumento está certo, e não a pessoa discordante provar o erro do argumento alheio antes de seu autor tentar prová-lo como certo. Esse tipo de falácia não vem em forma de argumentos prontos, mas sim em forma de diálogo.

Exemplos:

– Antivegano: O vegetarianismo é uma dieta deficiente em nutrientes e condena seus praticantes a uma vida infeliz.
Vegano: Sinto em discordar de você. Você está sendo preconceituoso.
Antivegano: Prove que estou sendo preconceituoso e que meus argumentos estão errados.
O antivegano tenta se eximir da obrigação de provar ao vegetariano que o vegetarianismo “é uma dieta deficiente em nutrientes e condena seus praticantes a uma vida infeliz”, exigindo, ao invés, que o vegano prove que ele está errado. O vegano não tem nenhum dever de provar o erro do argumentador se este não quer provar sua própria afirmação.

– Antivegano: Vocês vegans são uns fanáticos egocêntricos!
Vegana: Peraí, não sou nem fanática nem egocêntrica. Me respeite, viu?
Antivegano: Prove então que você não é fanática nem egocêntrica. Duvido que você, sendo vegan ferrenha, me faça voltar atrás nessa certeza.
O antivegano exige que a vegana refute a acusação dele. Mas ele é quem tem o dever, como argumentador/acusador, de provar que ela é “fanática egocêntrica” necessariamente por ser vegana. Só depois de ele (tentar) provar isso é que a vegana precisaria apontar os erros do argumento dele, refutá-lo e mostrar como ele está sendo preconceituoso.

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Máxima desqualificada, ou Dicto simpliciter

Tenta forçar a aplicação de uma regra geral a exceções em que ela não pode ou não deveria ser de fato aplicada. Muitas vezes também é uma falácia de exigência de perfeição.

Exemplos:

– “Veganismo envolve boicotar todo e qualquer produto que contenha algum ingrediente de origem animal e/ou seja testado em animais. Mas os veganos consomem remédios, que são testados em animais, e andam em ônibus cujos pneus têm ingrediente de origem animal. Logo, o veganismo não faz sentido e os veganos são hipócritas.” – Há casos com que o veganismo isoladamente não pode lidar, como o consumo de medicamentos em momentos de necessidade e a recorrência direta ou indireta a determinados produtos em lugares que não reconhecem o veganismo e a necessidade de se abolir o uso de produtos com ingredientes de origem animal. Não existe veganismo perfeiro, mas é possível ser vegano evitando-se o máximo possível de produtos com ingredientes de origem animal e/ou de empresas que realizam ou subsidiam testesem animais.

– “Você se diz vegano, mas mata insetos e ratos quando eles invadem sua casa. Isso faz de você um hipócrita.” – Essa é uma questão de legítima defesa, de proteção da vida humana contra a ameaça trazida por insetos e ratos que não podem ser livrados de sua condição de vetores de doenças. Assim sendo, os Direitos Animais não incluem a consideração moral a animais que ameaçam diretamente a vida humana.

– “Você diz amar os animais, mas não hesitaria em matar um leão ou um cão feroz se ele viesse te matar. Isso faz com que seu veganismo pelos animais não faça sentido.” – Assim como o caso anterior, essa também é uma questão de legítima defesa, em que apenas um dos animais poderá sair vivo. Ser vegano não inclui o indivíduo deixar que outros animais o matem ou o deixem seriamente ferido.

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Pensamento desejante, ou wishful thinking

Estabelece como verdade e fato algo que é nada mais do que um simples desejo do argumentador.

Exemplos:

– “A pecuária trata bem seus animais, como reis, e os abate de maneira humanitária e indolor.” – O argumentador deseja que a realidade da pecuária seja assim, e converte esse desejo em fato evidente. A única “prova” de que a pecuária trata “bem” e “humanitariamente” os animais é o próprio desejo dele.

– “Eu não preciso fazer nada pelos animais de consumo. O Estado já fiscaliza a pecuária e a indústria de alimentos de origem animal, garantindo bem-estar animal e a qualidade e salubridade desses alimentos.” – A única “prova” de que o Estado fiscaliza a pecuária e a indústria de produtos animais é o desejo da argumentadora. Ela simplesmente deseja que isso seja verdade, e não mostra nada que corrobore isso.

– “Enfim a população vegana está caindo, não tenho ouvido falar dessa chatice de veganismo há três semanas.” – Algo que nada mais é do que um desejo – a suposta queda da população vegana – e uma crença baseada em falsa evidência é considerado um “fato consumado”.

– “Na pecuária os animais são tratados como reis.” – O argumentador apenas deseja que seja assim, e a partir desse desejo passa a crer que isso já é fato. Não exibe nenhuma prova de que a pecuária trate os animais como “reis”.

– “Enfim a pecuária está derrubando esses chatos fanáticos dos vegans.” – Aqui também se está convertendo um mero desejo em verdade consumada. O argumentador não trouxe nenhuma prova de que a pecuária está conseguindo vencer os veganos.

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Profundidade limitada

Aponta como “causa” de uma ação o pertencimento do cometedor dessa ação a uma determinada categoria.

Exemplos:

– “Eu como carne porque sou um animal onívoro.” – Esse argumento leva em conta apenas a pertença do indivíduo à categoria de animais onívoros, não considerando que os seres humanos, embora biologicamente onívoros, podem flexibilizar sua alimentação, o que nenhuma outra espécie animal pode fazer.

– “Você só fala besteiras sobre alimentação, porque é um vegetariano.” – Esse argumento, que também incorre na falácia de ataque pessoal, nega a validade do que o vegetariano fala apenas por ele ser vegetariano, não refutando nenhum dos argumentos dele.

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Redução a Hitler ou Reductio ad Hitlerum

Considera que, se o nazista Adolf Hitler apoiou (de verdade ou não) uma determinada ideia, essa ideia seria automaticamente ruim, maligna e indesejável. É usada para difamar o vegetarianismo pelos animais pela falsa crença de que o ditador não comia carne.

Exemplos:

“Hitler era vegetariano, logo você não pode falar que vegetarianismo é um avanço moral.” – Esta frase não tem um sentido falacioso quando é usada no sentido de afirmar que ser vegetariano não transforma automaticamente ninguém em exemplo de excelência moral, uma vez que não anula outros erros e desvios éticos do indivíduo. Mas torna-se uma falácia de redução a Hitler quando tenta provar, através da pessoa de Hitler, que o vegetarianismo não seria uma atitude de evolução moral mesmo dos indivíduos que também respeitam todos os demais seres humanos.

– “Hitler era vegetariano, e eu não quero me parecer em nada com Hitler. Logo, não quero ser vegetariano.” – O vegetarianismo não tinha qualquer relação com os genocídios liderados pelo chefe nazista. E essa linha de raciocínio também serviria para dizer que, por exemplo, se Hitler era cordial com outros alemães, ser cordial com seus conterrâneos também deveria ser evitado, o que seria uma afirmação absurda.

– “Hitler era vegetariano, logo o vegetarianismo é algo maligno.” – Esse raciocínio, absurdo por imaginar uma relação inexistente entre um hábito inofensivo e os crimes cometidos pelo seu (possível) praticante, poderia levar a entender também que, uma vez que Hitler não fumava, o não fumar seria algo necessariamente maligno.

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Redução à peninha

Consiste em ridicularizar causas que envolvem respeito a outros seres, reduzindo o respeito, algo racional (mas que não exclui as boas emoções) e duradouro, à qualidade de pena, um sentimento passional e efêmero. É comum entre reacionários que, por exemplo, dizem “Tá com pena? Leva pra casa!” a pessoas que defendem a reforma do sistema penitenciário brasileiro e a política social como meios de diminuir a criminalidade e ressocializar criminosos condenados e reduzem toda a luta do movimento ambientalista à imagem mental de “abraçar a árvore”. Pode ser considerada uma forma de apelo ao ridículo.

Exemplos:

“Se você tem pena dos animais, por que come a comida deles?” – Essa frase, assim como tantas outras, menciona a suposta “pena” que vegans e vegetarianos têm dos animais cujas carnes e secreções não consomem. Confunde o respeito racional, definitivo e permanente pelos animais não humanos com a pena momentânea de ver animais sendo maltratados e mortos.

“O vegetarianismo é motivado, entre outros motivos, pela pena dos animais que sofrem durante o abate.” – Nessa frase também há a confusão entre respeito e pena. Além disso, ela incorre em falácia do espantalho, já que imputa falsas características criticáveis ao vegetarianismo, como se a mera pena efêmera de animais em sofrimento por parte dos vegetarianos se sobrepusesse ao respeito permanente e constante deles pelos animais em todos os momentos da vida destes.

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Redução ao absurdo ou Reductio ad absurdum

Considera uma ideia inválida “prevendo” uma consequência absurda falsa ou improvável resultante de sua aplicação ou concretização.

Exemplos:

“Se o vegetarianismo se propagar mais, vai faltar macho no mundo.” – Aqui se coloca a homossexualização dos homens como consequência absurda. Esta é uma afirmação homofóbica que, sem qualquer evidência, baseando-se em puro preconceito contra homossexuais e contra vegetarianos, associa homossexualidade masculina (por sua vez negativamente estigmatizada) a vegetarianismo. Também é uma falácia de apelo ao ridículo.

“Não, obrigado. Não quero ser vegetariano porque não tô afim de morrer desnutrido.” – A morte por desnutrição é a consequência absurda nesta falácia, que desonestamente ignora qualquer evidência científica sobre a verdadeira situação de saúde dos vegetarianos e transforma o vegetarianismo numa dieta mortalmente deficiente.

“Quando o veganismo triunfar, chegaremos a uma época em que teremos que viver na selva de novo.” – Aqui se imputa ao veganismo a consequência absurda de um retrocesso tecnológico que levaria as civilizações humanas de volta ao estado silvícola, sem apresentar qualquer evidência disso. Caracteriza também uma falácia do espantalho, por imaginar uma relação inexistente do veganismo com a aversão à tecnologia.

– “Se o vegetarianismo triunfar, veremos os animais das fazendas vagando pelas cidades.” – O que acontecerá na verdade, se o vegetarianismo continuar crescendo aceleradamente a ponto de ameaçar a viabilidade econômica da pecuária, será a diminuição progressiva das inseminações nas criações pecuárias, uma vez que, para os pecuaristas, é antilucrativo cuidar de animais desprovidos de importância econômica. Portanto, é fantasioso acreditar que os pecuaristas abandonarão seus animais nas cidades e estradas ou mesmo largarão ao deus-dará suas próprias fazendas.

– “Se veganos argumentam que podem matar insetos e aranhas porque ameaçam a saúde humana, então vamos matar também os cães, gatos, pombos e também pessoas doentes por aí, já que também transmitem doenças.” – Cães, gatos e seres humanos podem ter suas doenças tratadas e curadas. Pombos, por sua vez, podem ser tratados com uma política de controle populacional não baseada em extermínio. O que não se aplica, porém, a muitos insetos e outros animais pequenos, que virtualmente não podem ser totalmente purificados de sua qualidade de transmissores de doenças.

“Por que você é contra a produção de leite de vaca? Vai querer proibir que as mulheres doem leite pros bancos de leite dos hospitais?” – Essa afirmação mistura as falácias de redução ao absurdofalsa analogia. A primeira ocorre porque a consequência alegada de proibição de doação de leite materno a bancos de leite de maternidades é absurda e não condiz com o propósito da oposição veg(etari)ana à escravidão de animais em prol da produção e consumo de leites não humanos. A segunda acontece por fazer uma comparação inválida entre a produção exploradora, forçada e violenta de leites não humanos com a doação totalmente voluntária e altruísta de leite humano por parte da mulher que o produziu. Ao contrário da pecuária leiteira, não existe violência, exploração e compulsoridade no ato de uma mãe extrair parte de seu próprio leite materno para um banco hospitalar de leite.

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Redução ao radical, ou redução ao extremismo

Descarta qualquer ideologia, mesmo que seja dotada de coerência e não ameace nem viole direitos, apenas por ela ser considerada radical em comparação às ideologias e padrões dominantes. Hoje em dia os Direitos Animais, o vegetarianismo (no sentido de alimentação sem nenhum ingrediente de origem animal) e o veganismo são preteridos por muitas pessoas apenas porque elas os consideram radicais “demais”.

Exemplos:

“Equilíbrio é a chave da alimentação. Uma alimentação sem nada de origem animal é radical demais, não é saudável.” – Esse argumento geralmente discrimina o vegetarianismo apenas por ser considerado radical em comparação às dietas onívoras ou evitadoras de carne. Em um ato de puro preconceito contra aquilo que é considerado radical, o usuário da falácia desconsidera todos os estudos existentes que atestam que o vegetarianismo é sim saudável para todas as faixas etárias.

“Não gosto da ideia dos Direitos Animais porque soa muito radical.” – O indivíduo que diz isso esnoba os Direitos Animais apenas por ser uma ideia “muito radical”. Mas, negligenciando um estudo sério sobre o tema, ignora que os Direitos Animais são tão radicais quanto, por exemplo, os Direitos Humanos, no sentido de não aceitar negociações flexibilizatórias e meios termos entre uma situação de opressão extrema e uma de não opressão.

“Você não acha que dar direitos plenos aos animais é algo radical demais?” – Também aqui os Direitos Animais são desdenhados simplesmente por terem elementos de radicalismo, ignorando-se toda a coerência de justiça, antiviolência e abraço de direitos que lhes é inerente.

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Reducionismo causal

Declara uma única causa para um dado acontecimento, quando na verdade há múltiplas causas para o mesmo. Em muitos casos dessa falácia, a causa apontada como a “única” não é sequer a principal que desencadeou o fato.

Exemplo:

– “A filha pequena do meu primo ficou doente com deficiência de diversos nutrientes. Isso aconteceu porque ela era vegetariana estrita.” – Ignora-se, ao dizer isso, a existência de outras causas para o que aconteceu com a menina, como a má orientação nutricional recebida (ou a ausência de orientação), o desconhecimento por seus pais de como elaborar uma dieta vegetariana estrita nutritiva e a predominância de alimentos pouco nutritivos na alimentação dela. A eliminação dos alimentos de origem animal, por si só, não constituiu causa suficiente para o adoecimento da filha do primo do antivegano.

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Teoria irrefutável

Consiste em dar como “verdades confirmadas” argumentos que não podem ser testados.

Exemplos:

– “Plantas sentem dor, elas têm uma alma, uma essência que as faz sofrer quando são arrancadas da terra.” – A existência de uma alma ou espírito que dê senciência a uma planta não pode ser testada, por isso não pode ser confirmada nem totalmente refutada. É baseada exclusivamente na crença espiritualista do antivegano.

– “Plantas podem sofrer. Eu comprovei isso quando vi que, depois que minha avó parou de tratar a samambaia dela com carinho, as folhas dela começaram a murchar.” – Esse acontecimento, tendo sido relatado através de uma falácia de evidência-anedota, não pode ser objetivamente testado. Tampouco pode ser verificado se a relação de causa e efeito entre o tratamento dado à planta e a vitalidade dela é algo realmente plausível ou uma impressão pessoal, subjetiva, do antivegano que via a avó tratando a planta com carinho.

 

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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6 Comments on “Guia organizado de falácias antiveganas

  1. Excelente! Qualquer simpatizante que seja do vegetarianismo já cansou de ouvir todos esses argumentos enfadonhos que não conseguem tirar o foco do óbvio: carnistas financiam o assassinato e tortura de animais para satisfazer o paladar. Simples.

  2. GALERA, TENHO QUE DIVIDIR COM ALGUÉM….. OLHA OS ABSURDOS QUE TENHO LIDO DE PSEUDO INTELECTUAIS CARNISTAS:

    “” …Ocorre que vocês veganos costumam ter transtornos patológicos, sensibilidade exacerbada que leva a problemas na cognição, como a percepção de si mesmo e dos outros. E sabemos bem através da ciência empírica que dentre os gêneros, é a mulher quem demonstra mais sensibilidade….”” (Junior, França)

    “”””…..
    Quando o sujeito é vegetariano, há uma boa chance de ainda ser mentalmente saudável….”””” (Junior, França)

    “”….Agora, quando o sujeito é vegano e militante (a maioria é) desses que querem pagar lição de moral e mudar a dieta do mundo, aí já é caso de psiquiatra. Mas estamos em tempos de demência coletiva……””” ( Junior, França)

    “””….. Essa doutrinação emburrecedora que vem sendo sistematicamente aplicada em quase todo mundo não é a toa mesmo…..””””
    ( Lambe, Mole)

    “”… Ele mostra o ocidente vem sendo bombardeado e a grande maioria faz que não vê (ou não vê mesmo). A coisa é muito mais grave que pensamos. Eu vejo nuvens negras no horizonte, meu amigo….”””

    ENFIM, EM UMA DISCUSSÃO SOBRE ALIMENTAÇÃO SOU OBRIGADO A LER ESTAS FALÁCIAS….. http://www.youtube.com/watch?v=mzDTkngIeQc

  3. Esses dias, com o caso da operação da carne, andei vendo tanta grosseria de ambos os lados que preferi me esconder, aliás sempre fui discreta em relação ao meu estilo de vida, só quando alguém pergunta que converso. Já sabia que há um bando de carnista parvo, cresci ouvindo as piadinhas, mas aprendi a dar de ombros, deixo para os outros assinarem atestado de burro. O desanimador é se deparar com comportamento tão bocó de um monte de veganos e vegetarianos. Sensação que inauguraram uma Escola Brigite Bardot de veganismo.

  4. Nao compreendo.
    Vegetais nao possuem energia suficiente para permitir um desenvolvimento correto. ( tanto crus quanto aquecidos. Carl sagan, cientista rotineiramente citado por sites veganos, tem artigos científicos explicando isto e falando da importância do fogo e da carne para o desenvolvimento cerebral )
    Dietas vegetarianas sao vedadas para crianças por qualquer associação medica de respeito (incluso algumas brasileiras) que preparam publicações sobre o assunto, para impedir q pais veganos prejudiquem o desenvolvimento de filhos pequenos.
    Seres humanos sao onivoros. Basta olhar nossos dentes e intestinos.
    O resto é discussão filosófica de quem foi reprovado em “miçangas 1” na faculdade de humanas.

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