Minha foto em reportagem, sobre vegetarianismo e Segunda Sem Carne, no Diario de Pernambuco de 5 de julho de 2009.

Como virei vegetariano

Cada pessoa tem sua experiência única de vida que a leva ao vegetarianismo e, em seguida, ao veganismo, embora possa haver pontos em comum entre as histórias de várias, como ter assistido ao documentário A Carne É Fraca ou visitado um matadouro, e a trajetória de alguém possa inspirar outras pessoas. Para você entender melhor o vegetarianismo, para compreender a visão de quem não põe mais alimentos de origem animal na boca, vale a pena começar a ouvir ou ler os depoimentos de vegetarianos sobre como passaram a adotar uma alimentação ética, ou pelo menos como venceram o desafio de acabar com a carne nas refeições. Assim sendo, trago o meu relato pessoal sobre como virei vegetariano – tornei-me vegano não muito tempo depois.

A data da minha mudança de atitude alimentar foi 24 de agosto de 2007, depois de uma noite e madrugada de séria reflexão que mudaria para sempre meu prato e minha vida. Mas vale contar a partir de quando tive o primeiro contato na internet com grupos de defesa dos animais para entender como a ideia de me tornar vegetariano progrediu. Foi em março de 2005, no Orkut, em comunidades como “PEA – Projeto Esperança Animal” e “Eu Odeio Rodeio” (hoje “Somos Contra Rodeio”).

Tal contato se deu durante a campanha conjunta de diversas entidades de defesa animal contra a novela América, que estava perto de estrear na TV Globo e faria apologia aos rodeios. Compreendi e absorvi rapidamente as informações que passavam às comunidades antirrodeio do site, tais como a tortura a que o animal era submetido pelos instrumentos do rodeio (sedém, esporas, aparelhos de choque elétrico ilegais etc.).

Paralelamente, estavam aparecendo tópicos, da autoria de vegetarianos, que discutiam com onívoros se repudiar rodeios e comer carne ao mesmo tempo era uma hipocrisia. Alguns mais exaltados abriam tópicos já chamando diretamente pessoas como eu – onívoros contrários ao rodeio – de hipócritas. Eu me sentia ofendido com a acusação generalizada – e ainda hoje entendo o lado dos onívoros que são desrespeitados por vegetarianos desprovidos de noção de debate civilizado –, mas isso não me impediu de entrar nos tópicos e começar a ter uma noção de como os vegetarianos enxergam o consumo de carne e de outros alimentos de origem animal. Eu lia aquela gente falando da carne como “cadáveres”, “bichos mortos” e outras sugestões mentais repugnantes. Como comedor das mais diversas carnes – principalmente bovina e de frango – na época, evitava me concentrar em ler a dialética que se travava e evitava postar nas discussões, para não me ver com o fardo ético de abandonar aqueles que então eram meus pratos preferidos – pizza, galeto, maminha, hambúrguer, pudim etc. Apenas passava o olho na página, lendo poucas frases.

Assim foi durante cerca de dois anos. Em um momento dentro desse tempo, postei num fórum cético um tópico pedindo para que refutassem o texto 21 motivos para ser vegetariano, então considerado por mim um “texto vegan proselitista”, pedido que foi cumprido com argumentos fracos e tendentes ao cartesiano . Apesar da resistência, passar o olho em tópicos de debate entre vegetarianos e onívoros no Orkut foi me proporcionando mais e mais momentos de pensamento sobre o vegetarianismo, embora eu continuasse resistindo à ideia de ser um.

Eu tentava imaginar como vivia um vegetariano, e minha falta de conhecimento sobre culinária sem carne me levava a imaginar que o vegetariano comia um almoço “mutilado”, sem substituir a carne. Também estava aos poucos concordando que comer carne é incompatível com a filosofia da libertação animal, tanto que, em algum momento de 2006, resignadamente saí de uma comunidade orkutiana sobre libertação animal por considerar que eu, como onívoro, não me encaixava na proposta daquele fórum de discutir por que e como libertar os animais do status de escravos dos seres humanos.

Em fevereiro do mesmo 2006, quando estive numa casa de praia em Itamaracá/PE, fui exposto a uma cena aterradora: peixes dentro de um balde agonizavam asfixiados, debatiam-se numa vã luta pela vida. Desejavam voltar para a água para respirar, mas tristemente não poderiam fazê-lo, porque não interessava a ninguém ali, menos ainda para os pescadores, que aqueles animais sobrevivessem e voltassem a viver no habitat de onde foram levados embora. Como era de se esperar, perderam a luta pela vida e foram comidos no almoço do mesmo dia.

Pela primeira vez eu percebia como era cruel a procedência das carnes. Foi por aqueles peixes que tive pela primeira vez uma atitude prática de solidariedade à vida animal: não comi aqueles bichos que vi agonizarem. Infelizmente não parei de comer peixes naquela ocasião, já que teria carne de peixe algumas poucas vezes em meu almoço entre aquele dia e agosto de 2007, mas parte da minha resistência ao vegetarianismo havia irreversivelmente desabado dentro do meu subconsciente.

Continuei dali em diante com os ligeiros contatos com tópicos pró-vegetarianos, mas continuava devorando pizzas king size inteiras e quantidades relativamente grandes de carnes bovina e aviária. Lembro também que uma colega do curso de Gestão Ambiental, que eu fazia na época, ocasionalmente me sugeria virar vegetariano – embora ela própria não o fosse. Mas, em agosto de 2007, circunstâncias decisivas para o meu prato vieram: o rodeio de Barretos/SP. Em três comunidades antirrodeio do Orkut, participei ativamente das discussões sobre por que e como o rodeio deveria ser proibido e criei tópicos discutindo detalhes cruéis que podiam ser notados nas provas de montaria dos rodeios.

Aos poucos, a ficha ia caindo: eu defendia a integridade físico-psicológica de alguns bois, mas estava deixando totalmente de lado a vida e integridade de tantos e tantos outros que eram mortos nos matadouros. Defender os animais e ser onívoro ao mesmo tempo era possível, mas era contraditório e pouco conveniente.

Meu engajamento virtual contra os rodeios foi minando meu onivorismo até que, na noite do dia 23, cheguei a um ponto sem retorno: já não era mais possível continuar comendo carne sem peso na consciência. Finalmente minha resistência ao vegetarianismo havia ruído completamente. Em um tópico numa hoje extinta comunidade orkutiana do PETA, falei como já estava começando a ficar pensativo a respeito das questões éticas da minha alimentação e perguntei como eu poderia criar força de vontade para me livrar da carne e de outros alimentos de origem animal. Respostas solidárias apareceram, mas o passo decisivo já tinha sido dado – era o meu próprio ato de perguntar. Tal tópico foi o estopim para, poucas horas depois, na cama, antes de dormir, mergulhar em profunda reflexão sobre como eu poderia deixar de contribuir para a morte sofrida de tantos animais.

Pensei deitado: eu estava sendo contraditório ao defender os bois explorados em rodeios mas estava ignorando o sofrimento dos bois que eram friamente mortos nos matadouros. Chegava à minha memória também, de volta, o sofrimento dos peixes de Itamaracá. Deveria a partir dali dar um jeito para diminuir o máximo possível, ou encerrar, minha contribuição para o funcionamento de granjas, abatedouros e barcos pesqueiros. Pensei inicialmente em diminuir muito o consumo de carne, mas concluí a reflexão decidindo que iria me aventurar no vegetarianismo. Dormi com a consciência “armada”.

No dia 24, como é costume meu pular o café da manhã, comecei o vegetarianismo por um almoço sem nenhuma carne. A carne foi substituída em curto prazo por processados (salsichas e hambúrgueres) de soja de uma grande marca frigorífica – eu acreditava que não estava financiando seus matadouros e frigoríficos, mas sim estimulando a empresa a consolidar seu mercado de produtos sem carne. Pensei nesse primeiro dia se eu poderia flexibilizar e ser ovolactovegetariano, mas um aviso de minha mãe sobre como seria ruim consumir ovos no lugar da carne e um momento de pensamento me dissuadiram de tal retrocesso. Deixando de ser onívoro, me tornei direto um vegetariano completo, sem ter que passar por fases de vegetarianismo incompleto (api, lacto, ovo ou ovolactovegetarianismo).

Nos meses seguintes, fui conhecendo parte da grande diversidade da culinária vegetariana. No último trimestre de 2007, comecei a vislumbrar o veganismo como meta de consumo ético, meta alcançada em julho de 2008.

Meu vegetarianismo, como meu relato mostra, surgiu fundamentado principalmente na questão da ética animal. Meio ambiente e saúde foram motivações subsequentes, que adquiriram importância ao longo do tempo. Hoje posso dizer que sou vegetariano pelos três motivos, sendo os direitos animais a razão principal.

 

Como virei vegano

Quando minha transição do vegetarianismo completo não vegano ao veganismo começou, estimo eu, em outubro de 2007, eu tinha cerca de dois meses de vegetarianismo. Tudo começou quando minha então professora de yoga mostrou à minha turma sabonetes com base de glicerina vegetal – da Granado. Ela explicou o que eu até então não sabia: os sabonetes comuns, maioria esmagadora no comércio, são feitos com base de gordura animal – identificável na embalagem como “tallow”, “Sodium tallowate”, “seboato de sódio”, “Bovis adeps” ou, simples e explicitamente, “gordura animal”.

Isso me deixou chocado na hora: queria dizer que eu ainda consumia produtos que demandavam a morte de uns animais e a exploração in vivo de outros. A consciência me impeliu então a começar a usar os sabonetes veganos no mais breve possível. A professora aceitou que eu lhe pagasse 10 reais para que ela me trouxesse cinco sabonetes. As compras intermediadas foram ocorrendo durante uns dois meses, até que ela me recomendou que comprasse no supermercado ou na farmácia – havia uma segunda marca de sabonete vegano, a Phebo, bem mais fácil de encontrar no comércio.

O sabonete foi o primeiro passo para minha veganização. Passei a observar sites como o Guia Vegano e comunidades no Orkut para saber quais outros produtos que tinham alternativas veganas no mercado. Não tardei em substituir outros produtos de uso pessoal: shampoos e condicionadores, cremes de pentear, pastas de dente, sapatos, cintos…

As pessoas com quem convivo inicialmente estranharam minha determinação em ligar para as empresas para saber se testavam seus produtos em animais. Parecia algo inútil e supérfluo pensar na ética da origem do que eu consumia quando a realidade demandava que eu focasse minhas preocupações e interesses nos estudos e começasse a ganhar dinheiro logo – o típico pensamento do “dinheiro acima de tudo”. Mas ignorei e sempre conciliei muito bem as duas coisas – o estudo e a ética.

Em junho de 2008, eu deixei de usar produtos que continham glicerina de origem animal – que são aqueles que não especificam a origem da glicerina – e já não comprava nada que pudesse evitar obter de empresas que testassem em animais, e me declarei vegano pela primeira vez. No entanto, eu ainda desconhecia que a lanolina, componente de cremes de barbear, tinha origem na lã de ovelha. Descobrindo isso em 13 de julho de 2008, deixei de usar cremes de barbear – passei a ensaboar o rosto com sabonete vegano de glicerina vegetal para passar o aparelho de barbear, o que tem um efeito ótimo – e me declarei vegano. Já não havia mais nenhum produto de composição duvidosa de uso frequente que ainda precisasse encerrar.

Mas, como todo vegano, ainda dou de cara às vezes com as limitações e trapalhadas que o mercado, que não reconhece a demanda vegana, nos impõe: uma vez, em 2010, eu comprei pastas de dente de uma marca (Condor) que todos diziam ser vegana, mas não fui avisado de que apenas alguns tipos dessas pastas o eram (géis dentais Condor Fresh Sensation) – as pastas brancas tinham glicerina animal. Tive que usar essas pastas para não jogá-las fora.

Além do mais, dou de cara com a falta no mercado de aparelhos de barbear decentes de empresas que não testam em animais. Das duas únicas marcas veganas disponíveis na minha cidade uma (Carrefour/American Safety Razor) é aparelho de lâmina única (a maioria das marcas contém lâmina tripla) e com corpo de plástico nada resistente, e a outra (Persona) é até boa – lâmina tripla inclusive – mas suas lâminas são difíceis de se encontrar à venda.

Virar vegano foi uma revolução para mim, assim como é para qualquer pessoa. Me vi avançando para um respeito ainda mais completo aos animais. Foi a alforria quase completa da pecuária, da pesca e de outras formas de explorar animais que guiam o mundo dos produtos industrializados – quase porque há produtos não veganos imboicotáveis, como os pneus dos ônibus e carros onde viajamos (podem conter ácido esteárico de origem animal) e os medicamentos. O veganismo para mim é libertar tanto os animais não humanos do regime de exploração existente como os próprios seres humanos do estado de dependência de atividades econômicas que torturam e matam animais em massa.

9 comments

  1. Robson, gostei da tua história. Só comprovou o que você disse, que a mudança acontece mesmo de dentro pra fora. No meu caso, não conhecia nenhum veg(etari)ano e fui tomar consciência através de uma figura muito famosa entre nós que é aquela: animais – por que amamos uns (figura de cachorro) e comemos outro (figura da vaca). Associei o amor que tinha pelo meu amigo caozinho e me dei conta que tantos outros animais sofriam à toa, por um simples “luxo”, “comodidade” e “costume” e vi que tinha que acabar com aquilo. Foi aí que comecei a pesquisar sobre o assunto e descobri que existia o VEGANISMO que eu nem nunca tinha ouvido falar.

    Foi a melhor escolha da minha vida!! :)

  2. Olá Robson. Como você, eu também estou na labuta para abandonar o consumo de produtos com uso de animais em geral. Parabéns pela sua determinação. Você é uma grande inspiração para todos que querem abraçar esse caminho. E para isso, já compartilhei sua história no meu face.
    Abraço fraterno.

  3. Na minha família é super normal comprar animais para matar. Sempre foi muito terrorista meus avós comprarem os pintinhos, eu brincar com eles, crescerem, e depois vê-los na sopa. A moda aqui agora é comprar cabrito, tratam igual cachorro, eles pulam com a pintcher da minha prima pelo jardim e depois matam! Não como, me chamam de fresca mas não como.

    1. Nossa que horrivel deve ser! Eu quando piazinha presenciei matarem um porco na minha frente… hoje tenho 28 anos e nunca pude esquecer-me daqueles urlamentos de desespero… Aquele olhar no fundo dos nossos olhos é de doer :(

  4. Aqui em Santa Catarina tem a farra do boi, que agora foi proibida. Eu tive uma professora que dizia: vcs tem pena do boi gente? então não comam! Tem pena de gato e cachorro jogado na rua mas de matar os que os alimentam não tem.

  5. Ola! Adorei o seu lindo depoimento!
    Faz tanto tempo que eu penso em pelo menos virar ovo-lactio-vegetariana mas eu moro na SUiça e aqui é muito pobre em produtos vegan e quando encontro custa uma fortuna…
    Enfim, a sua historia vai me ajudar a tentar e tentar até conseguir! Sou tabagista e bebo eventualmente bebidas alcoolicas porém o meu unico objetivo em parar de consumir carnes é pelo respeito a vida animal!
    Um abraço!
    J.T.R

  6. Tenho uma enorme dúvida. Virei vegana, tenho que jogar minhas coisas que foram testadas em animais fora?? Sapatos de couro e bolsas ??
    Ou posso ficar com meus pertences e simplesmente não comprar mais??
    HELP!!!

    1. Ludmila, agora que você as comprou já foi. O importante é vc não financiar, cada vez que voce deixar de comprar algo vai ser 1 animal a menos que precisa ser morto para suprir as necessidades da população

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