Duas imagens anti-interseccionais de setembro de 2016: o que você precisa saber sobre elas e o veganismo interseccional

As duas imagens que circularam em setembro de 2016 criticando o veganismo interseccional

Em setembro de 2016, uma página social de veganismo no Facebook compartilhou duas imagens que criticam quem está supostamente exigindo que o veganismo também defenda causas humanas. Afinal, afirma ela, a preocupação do veganismo seria exclusivamente com os animais não humanos.

Talvez você tenha visto essas figuras, já que elas tiveram uma repercussão bem notável naquele mês, antes de darem lugar a outros assuntos nos grupos facebookianos brasileiros de veganismo.

Mas será que as duas figuras-mensagem condizem mesmo com as demandas do veganismo interseccional (VI) sobre aliar a luta pelos Direitos Animais com a de libertação dos seres humanos?

 

As duas imagens

Imagem critica a suposta demanda vegana interseccional de inserir pautas humanas na definição do veganismo

A primeira imagem das duas a ser postada na página em questão diz:

Existem centenas de movimentos libertários para os seres humanos
e apenas 1 movimento coerente focado nos animais: veganismo.
Por isso, não faz o menor sentido inserir pautas do opressor em um movimento tão sobrecarregado que se propõe a erradicar o extermínio de 70 bilhões de animais por ano no mundo.

E a segunda afirma:

Defender assuntos humanos dentro do veganismo equivale a:
– incluir brancos oprimidos dentro do movimento negro;
– incluir héteros oprimidos dentro do movimento LGBT;
– incluir homens oprimidos dentro do feminismo.

Analogias feitas entre o veganismo interseccional e algumas situações absurdas supostas

Soaram convincentes para milhares de pessoas, que compartilham dos discursos de que o veganismo e as lutas humanas, por serem diferentes, não deveriam se interseccionar e que os defensores da aliança entre ambos são “adeptos do humans first”.

Será que essas duas figuras realmente fazem sentido em relação a questionar as demandas do VI?

 

As falácias da linha de raciocínio das duas imagens

Espantalhos, símbolos do uso de falácias argumentativas

Uma análise crítica dessas mensagens nos revela a presença de diversas falácias combinadas:

  1. Falácia do espantalho: Ela atribui aos veganos interseccionais a crença, na verdade inexistente entre estes, de que o veganismo deveria ser redefinido, de modo a defender diretamente os Direitos Humanos e o anticapitalismo e abandonar seu foco específico nos animais não humanos;
  2. Falso pressuposto: As imagens partem de um pressuposto que nada mais é do que uma falácia do espantalho, e por tabela trazem premissas falsas que levam a conclusões também equivocadas;
  3. Falsa analogia: A segunda imagem, a partir dessa premissa errada, realiza comparações que não fazem sentido. A verdade é que o VI não intenciona aumentar o número de motivações e parâmetros do boicote e ativismo veganos. Nossa defesa é outra, como será mostrado mais adiante. Portanto, as três analogias são falsas;
  4. Falácia da bola de neve: A segunda figura deixa a entender que, já que o VI estaria defendendo a inclusão direta de causas humanas no modo de vida vegano, daqui a pouco vai-se começar também a exigir que as feministas defendam homens, o movimento negro lute pelos brancos e a comunidade LGBT represente pessoas cisgêneras heterossexuais. Atrela uma série de consequências absurdas e falsas a um primeiro acontecimento também absurdo e falso;
  5. Distorção de fatos: As imagens distorcem o que o VI realmente defende, como é mostrado nas próximas seções deste artigo.

 

A distorção do veganismo interseccional pelos anti-interseccionais

Imprensa distorce e manipula a realidade, tal como fazem os veganos anti-interseccionais

Distorção da realidade é algo bastante comum quando vegans anti-humanistas criticam o veganismo interseccional

Ao longo dos últimos dois anos, as diversas reações de vegans interseccionais a atitudes inadequadas e mesmo antiéticas de muitos outros veganos têm despertado um temor infundado em quem não se identifica com a proposta de aliança entre os Direitos Animais e as lutas humanas.

Foi em momentos como:

  • Os debates sobre os efeitos e motivações de uma eventual proibição legal dos sacrifícios de animais em religiões como o candomblé e a quimbanda;
  • A repercussão de imagens e vídeos que acionavam traumas em mulheres vítimas de violência;
  • E as manifestações de repúdio a ocorrências de misoginia, racismo, gordofobia, pauperofobia, intolerância política e outras violências discriminatórias em grupos virtuais veganos.

Ficou claro, para muitas pessoas, que posturas de ódio e discriminação contra minorias políticas caem numa grave contradição com os princípios éticos dos Direitos Animais e ameaçam o próprio sucesso do abolicionismo animal.

Diante dessas reações de vegans que defendem também Direitos Humanos, a ala direitista do veganismo brasileiro entrou em polvorosa. Dedicou manifestações depreciativas contra o veganismo interseccional. Deixou clara sua defesa de que “veganismo é só pelos animais não humanos” e “nada tem a ver com as causas humanas”.

E passaram a temer por um futuro em que o veganismo fosse “tomado de assalto” pelos interseccionais e estes mudassem “pela força” o conceito do modo de vida vegano para algo pautado principal e obrigatoriamente em demandas humanas.

Por exemplo, o temor de muitos, acredito eu, é que o VI passe a exigir que o boicote vegano também seja definido por evitar produtos de empresas envolvidas com propagandas machistas, alimentos produzidos em latifúndios (como industrializados que contêm soja ou milho transgênicos) e lojas que discriminam homossexuais, bissexuais e pessoas trans. E que quem não boicotar o óleo de soja vindo de grandes plantações, ou a roupa da marca machista ou vendida pela loja LGBT-fóbica seja tachado de “não vegano”.

Outro temor deles, de acordo com que eu tenho visto, é que o VI tente “cassar a carteirinha vegana” de pessoas que defendem o capitalismo, têm convicções políticas liberais ou conservadoras e não concordam com a interseccionalidade. Nessa crença, especulam que, por exemplo, veganos flagrados em machismo e elitismo seriam considerados “não veganos”.

Essa polêmica entre vegans interseccionais e não interseccionais esteve em seu auge em 2015 e nos primeiros meses de 2016, tendo perdido grande parte de sua repercussão durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff e os meses iniciais do governo ilegítimo de Michel Temer.

As duas imagens foram postadas numa época em que as discussões sobre e contra o VI haviam esfriado mais. Presume-se que a intenção do seu criador foi tentar não deixar que a interseccionalidade voltasse a incomodar as conveniências morais dos veganos de direita.

Elas revelam uma parte das crenças de quem é contra a aliança entre a libertação animal e a libertação humana. Uma parcela maior das pressuposições anti-interseccionais foi exposta e comentada nas minhas respostas aos textos “Debates interseccionais e veganismo” e “Manifesto pelos animais”.

Vale então completar a resposta às duas imagens aqui comentadas e contrastar com elas as reais demandas do VI.

 

O que o veganismo interseccional realmente defende

Libertação animal e libertação humana andam de mãos dadas

Respondo a seguir, de maneira mais direta, a cada uma das duas figuras-mensagem anti-interseccionais:

Existem centenas de movimentos libertários para os seres humanos
e apenas 1 movimento coerente focado nos animais: veganismo.
Por isso, não faz o menor sentido inserir pautas do opressor em um movimento tão sobrecarregado que se propõe a erradicar o extermínio de 70 bilhões de animais por ano no mundo.

O VI não intenciona “inserir pautas do opressor” no “tão sobrecarregado” movimento animalista. O que ele preconiza é:

  • Fazer com que o termo Ética da expressão Ética vegana seja levado mais a sério. Ou seja, que sua consciência ética não se restrinja seletivamente ao modo de vida vegano e, ao invés, respeite de verdade também mulheres, pessoas não heterossexuais, pobres, pessoas trans, negros, imigrantes e refugiados, pessoas gordas etc.;
  • Denunciar que o machismo, o racismo, o heterossexismo, a transfobia, a pauperofobia e elitismo, o capacitismo, a gordofobia, a intolerância religiosa, a xenofobia, a misantropia e outras formas de preconceito e discriminação são tão nocivos a seres sencientes demandantes de direitos fundamentais quanto o especismo, e deixar nítido que é necessário pelo menos respeitar a pessoa e a luta daqueles que combatem todas essas formas de injustiça;
  • Alertar que o movimento seja mais responsável e prudente ao confeccionar seus materiais de conscientização. Que evite, por exemplo, comparar os negros escravizados do passado com os animais não humanos vítimas de exploração (e vice-versa); usar cenas de mulheres sendo abusadas para denunciar comparativamente as mazelas da pecuária leiteira, por reativar traumas de mulheres que realmente sofreram violências do tipo; e usar indiscriminadamente termos como “escravidão animal” e “holocausto animal”, por despertarem a repulsa de negros e judeus não veganos que, se fossem introduzidos ao tema dos Direitos Animais de outra maneira, poderiam ser mais bem receptivos;
  • Conscientizar os veganos para evitarem se opor a lutas políticas que tanto defendem parte dos seres sencientes quanto o abolicionismo animal. Nesse caso, deixa-se claro que não faz sentido, em termos de ética e luta por direitos e libertação, um vegano ser contra o feminismo;
  • Lutar para que as práticas veganas e lutas abolicionistas não excluam ou prejudiquem minorias políticas, sob pena de causar violência e injustiça às mesmas e pôr a perder o objetivo de salvar ou poupar de exploração e morte violenta os animais não humanos defendidos. É o caso da defesa de meios não violentos para se lidar com a questão do sacrifício animal nos rituais do candomblé e da crítica ao elitismo de alguns meios e eventos de difusão do veganismo;
  • Chamar os movimentos sociais de defesa de seres humanos para serem aliados do abolicionismo animal, e vice-versa. Afinal, não existe libertação total de humanos, nem de não humanos, se a cultura de hierarquização moral, violências injustas, moralidade sem ética e dominação sistemática continuar prevalecendo e submetendo e assassinando bilhões de seres humanos e não humanos.

Nada disso consistirá em alterar o conceito de veganismo. Ele continuará voltado para os animais não humanos.

Aliás, em nenhum momento os conceitos de veganismo e abolicionismo animal aceitam que a luta pelos animais não humanos passe por cima do sofrimento humano. Nem a Vegan Society, criadora da primeira definição oficial de veganismo no mundo, admite violação de Direitos Humanos pelas práticas e formas de ativismo veganas. Afinal, humanos também são seres sencientes.

Além disso, um veganismo que não desrespeita nem exclui seres humanos, ainda que não inclua diretamente lutas humanas em seu conceito, tem muito mais chances de dar certo e libertar os animais não humanos do que um que conserve o status quo de desigualdade moral, hierarquias de dominação X submissão, injustiças, exclusão social, autoritarismo e violência.

Defender assuntos humanos dentro do veganismo equivale a:
– incluir brancos oprimidos dentro do movimento negro;
– incluir héteros oprimidos dentro do movimento LGBT;
– incluir homens oprimidos dentro do feminismo.

Como já foi dito, essa é uma falácia de falsa analogia. A hipótese de que o VI defende que o veganismo passe conceitualmente a incluir parâmetros humanos é equivocada.

Defender que vegans sejam mais do que apenas vegans, respeitem pessoas de minorias políticas e não se oponham à libertação humana não é o mesmo que exigir que o veganismo seja um modo de vida baseado em parâmetros feministas, de igualdade racial, ecológicos, anticapitalistas etc. Nem é igual a obrigar vegans em geral a serem feministas, adeptos do movimento negro, ambientalistas, opositores do capitalismo etc.

Os veganos não precisam disso para serem capazes de serem éticos com os outros e aceitar e respeitar a luta alheia por libertação.

E além disso, ser uma pessoa ética não deveria ser encarado da maneira como muitos anti-interseccionais e anti-humanistas têm feito. Eles têm usado malabarismos absurdos, como o uso das falácias associadas à expressão “humans first, para tentar se isentar da obrigação moral de serem respeitosos e terem bom caráter para com outros seres humanos.

Se vegans direitistas acham que a obrigação moral de respeitar mulheres, negros, LGBTs, gordos etc. e suas lutas contra o preconceito implica a adesão a um conceito “antropocêntrico” e “distorcido” de veganismo, há algo muito errado com a mentalidade dessa parcela do meio vegano.

 

Considerações finais

Você não precisa de um conceito modificado de veganismo para ser capaz de respeitar seres humanos diferentes de você

Ninguém precisa alterar o conceito de ser vegano, para se dar o dever de respeitar igualmente bem os animais não humanos e os seres humanos em geral. O veganismo interseccional não reivindica essa modificação ao demandar que os veganos sejam éticos sem seletividade e limites ideológicos.

Fica claro, assim, que as duas imagens aqui respondidas partem de uma visão distorcida e falaciosa sobre a necessidade de se reivindicar o respeito incondicional aos seres sencientes humanos e não humanos e aliar, na medida do possível e praticável, as bandeiras sociopolíticas.

Nossa luta é pela libertação de todos os seres sencientes. E isso requer mais lutas e movimentos do que apenas o vegano-abolicionismo. Mais posições éticas individuais e coletivas do que ser unicamente vegan.

Se você já é vegan e defende ativamente, à sua maneira, a abolição do especismo, isso já é muito bom. Mas você pode fazer ainda mais, aderindo, apoiando ou pelo menos respeitando as outras causas pelas quais os seres humanos progressistas lutam. Isso não requer mudar, tampouco “antropocentrizar”, o seu veganismo.

Adotar uma dessas atitudes só fará bem para os animais não humanos, os seres humanos e também você. Hostilizar a bandeira alheia e alegar que a demanda por respeito ao próximo implica ser forçado(a) a aderir a um veganismo “adulterado”, pelo contrário, só traz malefícios aos seres sencientes em geral, inclusos os humanos e os não humanos.

 

Este artigo esclareceu para você sobre o veganismo interseccional? Desmontou em você crenças distorcidas anteriores sobre essa versão do veganismo? Comente logo abaixo e compartilhe-o.

Robson Fernando de Souza
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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
Robson Fernando de Souza
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3 Comments on “Duas imagens anti-interseccionais de setembro de 2016: o que você precisa saber sobre elas e o veganismo interseccional

  1. Muito bom o artigo. Devemos sim, por ética, respeitar todos os movimentos que buscam justiça e igualdade. Entretanto, é incomodo apoiar pessoas (não os movimentos) que buscam respeito e liberdade, quando os mesmos praticam exatamente o oposto em relação aos animais.

    Educação e informação são as aramas mais poderosas que possuímos. Go Vegan.

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