Introdução ao veganismo interseccional: respondendo a 10 perguntas sobre essa forma amadurecida do veganismo

Veganismo, contra qualquer crueldade e injustiça

Obs.: Este artigo não tem a pretensão de estabelecer uma definição oficial e imutável, nem qualquer espécie de “doutrina canônica”, do veganismo interseccional.

Uma “nova” maneira de encarar e promover a luta pela libertação animal veio para ficar. E tem causado reações conservadoras bem raivosas.

Trata-se do veganismo interseccional, que, como diz o nome, intersecciona o veganismo e os Direitos Animais com causas humanas.

Neste artigo, quero introduzir você a essa “nova” versão da defesa e prática ética do veganismo, respondendo a dez perguntas básicas.

Se você tem tido uma visão avessa sobre ela, acredito que irá repensar esse preconceito e passar a ver com outros olhos a luta pela libertação animal que se alia com a libertação humana.

 

Respondendo às 10 perguntas

"Humans first": nada a ver com veganismo interseccional

1. O que é o veganismo interseccional?

Defino o veganismo interseccional (VI) como uma versão amadurecida de veganismo que reconhece os inquebráveis elos entre o modo de vida vegano, a luta pelos direitos dos animais não humanos e as lutas pela libertação dos seres humanos, em especial das minorias políticas (mulheres, pessoas negras, pessoas pobres, LGBTs, pessoas com deficiência e neurodiversas, imigrantes e pessoas refugiadas, minorias religiosas e irreligiosas etc.).

 

2. O que o veganismo interseccional defende?

O VI defende que:

  • A defesa do veganismo precisa reconhecer as necessidades particulares das minorias políticas e levar em conta recortes sociais como o de classe, o de gênero e o de raça. Leva em conta que o veganismo não é vivido pelas mulheres negras das periferias pobres da mesma maneira que os homens brancos de classe média;
  • As explorações e violências contra os humanos são intrinsecamente ligadas às contra os animais não humanos, a exemplo da associação entre o consumo de carne e o machismo ao longo da história humana e da exploração degradante de mão-de-obra humana em fazendas de gado e frigoríficos, e portanto devem ser combatidas juntamente, numa só grande luta;
  • O combate às violências contra seres humanos – racismo, machismo e misoginia, elitismo e pauperofobia, heterossexismo, transfobia, gordofobia, capacitismo e psicofobia, intolerância religiosa etc. – é essencial e indispensável para se promover a difusão da consciência vegana;
  • Os princípios éticos do veganismo devem ser respeitados sempre, e são violados quando o “vegano” incide em alguma forma de ódio, preconceito, discriminação e/ou violência contra seres humanos;
  • O veganismo não é “só pelos animais não humanos”. O conceito de veganismo não exclui seres humanos da abrangência de seus princípios. Apesar de o veganismo interseccional não defender (até o momento), por exemplo, o boicote a marcas que promovem publicidade machista ou trabalho escravo como uma prática propriamente vegana, evidencia que aquele “vegano” que não respeita seres humanos, dedicando-lhes, ao invés, ódio e/ou desprezo, está violando a ética que fundamenta os Direitos Animais;
  • O vegano-abolicionismo é uma luta fundamentalmente política e coletiva, não um “estilo de vida” individualista que irá libertar os animais por meio do simples consumo;
  • As lutas pelos animais não humanos, pelos seres humanos e pelo meio ambiente possuem o mesmo grau de importância nivelado por cima. Se o indivíduo não pode lutar com a mesma intensidade por todos esses e só pode se dedicar de corpo e alma a um dos três, então que ao menos tenha solidariedade, simpatia ou no mínimo respeito pelos outros dois;
  • A violência e o autoritarismo contra seres humanos são incompatíveis com a defesa dos animais não humanos. Por exemplo, o uso da criminalização e da repressão policial contra religiões que sacrificam animais, como o candomblé, tende a fracassar em promover a abolição e substituição desse tipo de ritual – já que o fará acontecer às escondidas e na clandestinidade – e também acabará recrudescendo o racismo e a intolerância religiosa contra candomblecistas;
  • O capitalismo e seu mercado não são grandes meios de promoção da massificação do veganismo, e muitas vezes até atrapalha. Afinal, seus valores morais são opostos à ética vegana, e a tendência dos empreendedores é de buscar o lucro, investir nas classes endinheiradas, promover aumentos exorbitantes dos preços já altos à medida que a demanda cresça e, portanto, excluir a maioria pobre e de classe média-baixa da maior parte das facilidades do mercado vegano e vegetariano;
  • A difusão do veganismo precisa promover também inclusão e acolhimento social e conscientização política, para que sejam tratados os motivos que impedem ou inibem muitas pessoas de aderir ao veganismo, como condições de vida precárias, sofrimento de violência doméstica, vida sobrevivencialista (pensar apenas em sobreviver um dia após o outro numa vida marcada por violências e privações) e falta de acesso econômico ao mercado vegano;
  • Atitudes machistas, racistas, pauperofóbicas, xenófobas, intolerantes-religiosas, transfóbicas, heterossexistas, intolerantes-políticas, capacitistas e psicofóbicas, gordofóbicas etc. devem ser combatidas também dentro do meio vegano;
  • Algumas “concessões” precisam ser feitas, no que se refere à linguagem e às imagens usadas para se falar da exploração animal. Por exemplo, deve(ria)m ser evitadas expressões que promovem comparação explícita entre atrocidades cometidas contra seres humanos e tradições de exploração animal, como “holocausto animal” e “escravidão animal”, assim como o uso de imagens que comparam violências racistas e misóginas com aquelas desferidas contra animais não humanos. Afinal, muitas pessoas que poderiam estar se interessando pelo veganismo tomam repulsa por se sentirem “comparadas” com porcos, vacas ou outros animais, dado o histórico do uso da animalização para se inferiorizar e discriminar mulheres, negros e judeus;
  • A misantropia deve ser desencorajada entre os veganos, por ser algo totalmente oposto à educação vegana, à ética e ao próprio princípio da igualdade moral entre animais humanos e não humanos;
  • entre outras visões.

 

3. O que diferencia os veganos interseccionais dos veganos mais tradicionais?

É a observância mais madura e avançada aos princípios éticos do veganismo e dos Direitos Animais. Nesse amadurecimento, levamos em conta que os seres humanos, por serem sencientes e desejosos de viver com integridade, serem felizes e livres e desfrutar de direitos, também devem ser defendidos, ou ao menos respeitados, pelos vegano-abolicionistas em geral.

Como já foi dito, os veganos interseccionais fazem recortes de classe, raça, gênero e outros em suas ações de divulgação do veganismo, e levam em conta as particularidades e sensibilidades de cada minoria política em suas campanhas. São muito críticos perante atitudes que violam a ética animal humana e não humana. Levam ao pé da letra a igualdade moral nivelada por cima de humanos e não humanos.

Essas são atitudes que se costuma notar muito mais nos veganos interseccionais do que naqueles que não conhecem ou não endossam os valores do VI.

 

4. Existem práticas tipicamente veganas interseccionais?

Não há práticas exclusivas que distingam o VI do veganismo tradicional. Mas há uma frequência maior de atitudes de responsabilidade ético-social avançada, como:

  • Divulgação vegana nas periferias;
  • Acolhimento de pessoas de minorias políticas;
  • Junção entre a prática do veganismo e o ativismo político de emancipação humana;
  • Consideração de recortes sociais na promoção do veganismo;
  • Divulgação das possibilidades de pessoas pobres terem um modo de vida vegano;
  • E a realização ou participação em eventos que subvertam o capitalismo como meio de se difundir o veganismo.

 

5. O veganismo interseccional tem alguma posição político-ideológica?

Virtualmente todos os veganos interseccionais são de esquerda, ainda que as posições sobre haver ou não a necessidade de se abolir toda e qualquer forma de Estado sejam diversas. Ou seja, há desde anarquistas até socialistas e socialdemocratas no VI.

Além disso, muitos deles acreditam que as ideologias de direita são parcial ou totalmente incompatíveis com a ética vegana.

 

6. O VI é contra o capitalismo?

Via de regra, sim. Afinal, o capitalismo:

  • Possui princípios morais incompatíveis com a ética dos Direitos Animais, como o egoísmo, a hierarquização da sociedade humana e também dos não humanos, a naturalização das desigualdades sociais e morais, as agressões ao meio ambiente, a objetificação dos seres humanos e não humanos, a desobrigação do respeito ético ao outro e a supremacia do lucro sobre a ética;
  • É diretamente responsável ou corresponsável por abomináveis violências, entre elas a radicalização do especismo, que resultou na criação da pecuária moderna e suas fazendas e granjas industriais, na pesca em grande escala, na disseminação dos testes industriais e pesquisas científicas em animais e no ecocídio que extermina bilhões ou trilhões de animais a cada quilômetro quadrado desmatado;
  • Causa um sofrimento incomensurável para animais humanos e não humanos, por meio da miséria, da destruição ambiental, da exploração, da violência dos Estados e corporações etc.;
  • Move máquinas militares nacionais que literalmente existem para matar;
  • Está, pouco a pouco, desfigurando o veganismo, fazendo-o deixar de ser um modo de vida voltado a um objetivo ético e político e se tornar um mero “estilo de vida” despolitizado voltado para o consumo e o bem-estar individual;
  • entre outras características.

 

7. Por que algumas pessoas têm tanta raiva e repulsa pelo veganismo interseccional?

O VI tem o muito mal compreendido costume de questionar e peitar figuras de autoridade, celebridades e indivíduos comuns que dão tiros no pé da causa vegana e não se arrependem dos erros cometidos.

Por exemplo, os veganos interseccionais são implacáveis ao repudiar:

  • Celebridades “veganas” machistas, gordofóbicas e capacitistas;
  • Campanhas de defesa animal que promovam racismo, misoginia e/ou gordofobia;
  • Gente que incide em discursos de ódio em grupos de veganismo em redes sociais;
  • Empreendedores “veganos” que promovem métodos antiéticos de autopromoção e sabotagem da concorrência;
  • Veganos homens que tentem ditar às feministas como elas “devem” agir e se comportar;
  • Ativistas veganos que pregam a misantropia e outros ódios

Isso incomoda muita gente, que, do alto de seu orgulho, não se permite reconhecer que errou, que faltou com a ética. Além disso, também não deixa tranquilos os veganos de direita, que também se sentem desafiados.

É por isso que muitos declaram uma agressiva oposição aberta, muitas vezes descambando para o ódio explícito, ao VI.

 

8. Por que dizem por aí que o VI não é uma forma verdadeira de veganismo?

Por causa de uma série de argumentos falsos, entre eles diversas falácias do espantalho.

Por exemplo, a posição de grande parte dos veganos interseccionais contrária ao uso da criminalização legal e da repressão policial contra sacrifícios religiosos de animais levou muita gente a acreditar que nós seríamos “a favor” da perpetuação desse tipo de ritual, e que estaríamos colocando os interesses dos religiosos em questão “acima” da vida dos animais não humanos.

Outro exemplo é o protesto de muitas veganas feministas e veganos aliados contra imagens que comparem a violência contra a mulher com a exploração de vacas “leiteiras”. Muitos que assistem de longe acham que nós interseccionais estamos defendendo que as mulheres não veganas “continuem sendo especistas” por causa de sua sensibilidade a cenas de violência misógina.

Em outras palavras, é tudo uma questão de interpretação preguiçosa e precipitada do verdadeiro propósito dos veganos interseccionais. Em tudo aquilo que os anti-interseccionais dizem que estamos defendendo a “superioridade dos humanos”, estamos na verdade levando a sério a igualdade moral nivelada por cima entre humanos e não humanos.

 

9. É verdade que o VI coloca os seres humanos na frente dos animais não humanos em suas pautas?

De maneira nenhuma. O que fazemos é colocar ambos num patamar igualmente elevado de consideração moral. Em cada uma de nossas defesas, queremos respeito ético sincero a ambos, e não que um seja colocado acima ou abaixo do outro.

E sobretudo, nossa luta é para que ambos deem certo. Afinal, os animais não humanos não serão libertados por meio de violência contra humanos, e vice-versa.

 

10. O que vocês acham dos veganos de direita? E da esquerda não vegana?

Essa questão só posso responder por mim mesmo. Sobre os veganos de direita, recomendo esses três artigos:

Sobre os não veganos de esquerda, meu foco de críticas são os antiveganos:

 

Considerações finais

Libertação animal e libertação humana andam de mãos dadas

Muitos dos protestos e declarações intolerantes contra o veganismo interseccional têm como motivo, no final das contas, a desinformação e/ou pouco conhecimento sobre esse tema tão importante para a luta pelos Direitos Animais.

Assim sendo, se você só tem ouvido falar do VI por meio de quem o detesta, recomendo que procure conversar com os próprios veganos interseccionais. Só por meio de quem o defende é que você pode de fato saber o que nós defendemos e o que queremos para os animais não humanos e os seres humanos.

Também somos veganos de verdade, já que defendemos a igualdade de interesses dos animais não humanos e dos humanos. Também defendemos a libertação animal, da mesma maneira que promovemos a libertação humana. E também defendemos empatia, compaixão e alteridade pelos animais não humanos, já que essas três são valores intrínsecos à nossa luta.

Então, convido você a conhecer melhor o veganismo interseccional. Converse com um de nós e saiba como o veganismo pode se tornar ainda mais ético, eficaz e libertador para todos os seres sencientes.

 

Links recomendados

Qual sua opinião sobre o veganismo interseccional e suas propostas? Concorda em tudo, só em parte, ou em nada? Comente logo abaixo.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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15 Comments on “Introdução ao veganismo interseccional: respondendo a 10 perguntas sobre essa forma amadurecida do veganismo

  1. Isso é muito bonito na teoria, mas na vida real animais e humanos possuem interesses​ conflitantes e às vezes até opostos, e é dever dos defensores dos animais ficarem do lado deles que são os mais fracos e não tem outro apoio.

  2. Esse trecho:
    “o uso da criminalização e da repressão policial contra religiões que sacrificam animais, como o candomblé, tende a fracassar em promover a abolição e substituição desse tipo de ritual – já que o fará acontecer às escondidas e na clandestinidade – e também acabará recrudescendo o racismo e a intolerância religiosa contra candomblecistas;”

    Vejo que faz tanto sentido quanto isso:
    “o uso da criminalização e da repressão policial contra a vaquejadas tende a fracassar em promover a abolição e substituição desse tipo de entretenimento – já que o fará acontecer às escondidas e na clandestinidade – e também acabará recrudescendo o xenofobismo. contra nordestinos.”

    Quando a criminalização funciona e quando não funciona?

  3. O texto é muito bom e necessário, mas eu não chamo isso de interseccional, eu chamo isso de Veganismo Revolucionário mesmo. Pq esse veganismo é anti capitalista obrigatoriamente.
    O que estamos vendo por aí aos montes,em grupos de facebook e crescimento da direita vegana é o veganismo liberal, existindo apenas na base equivocada de que o boicote individual é alguma forma válida de luta, e que o mercado irá atender a demanda vegana e rumando para o suposto fim da exploração animal, que parece mais um bem estarismo se pegar muitos discursos veganos nos grupos e textos da internet.
    Um veganismo baseado em consumo, em ideias muitas vezes anti científicas, e em argumentação que não se sustenta.

    • Valeu, Fabíola. Sobre o veganismo liberal, perceba o quanto ele é apartado das bases filosóficas e políticas do veganismo. Os grupos veganos do Face estão assim, tomados por um veganismo que nada mais é do que um “estilo de vida” individualizado e focado no consumo e bem-estar dos adeptos, não mais na ética animal.

  4. “Lutas pela libertação dos seres humanos”. Pelo amor!!! Existem causas e causas que lutam pela libertação dos seres humanos!!! Veganismo não é sobre seres humanos!!! Parem de ser egoístas! Eu não vou ficar passando a mão na cabeça de NINGUÉM dentro do veganismo! Muito menos na cabeça de quem defende sacrifício animal baseado em religião e ACHA que é vegano.

    • Veganos interseccionais defendem ao mesmo tempo animais humanos e não humanos e você os considera “egoístas”?

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