Pirâmide alimentar protovegetariana, incluindo laticínios, ovos e mel
No final das contas, essa pirâmide alimentar é tão “vegetariana” quanto uma que inclui carnes brancas na parte das proteínas

Atualizado em 29/10/2018

Há alguns anos está em avanço, na comunidade vegana brasileira, um processo descentralizado de redefinição do termo vegetarianismo.

Pouco a pouco, ele está passando a abranger apenas a alimentação totalmente livre de ingredientes de origem animal.

Antigos tipos de “vegetarianismo”, como lacto e ovolactovegetarianismo, estão sendo considerados protovegetarianismo, um intermédio entre o onivorismo e o vegetarianismo.

Nessa tendência, é hora propícia para justificar e defender esse processo de reconceituação e deixar claro (por) que laticínios, ovos e mel são “alimentos” tão “vegetarianos” quanto, segundo diria a velha confusão entre vegetarianismo e flexitarianismo, carnes de frango e peixe.

Por que os laticínios, ovos e mel ainda são considerados produtos “vegetarianos”

O século 20, mesmo antes da massificação da internet, vivenciou uma franca expansão daquele “vegetarianismo” clássico.

A maioria de seus adeptos acreditava que o banimento das carnes das refeições e lanches já seria algo tão significativo que não seria (tão) errado dar-se o luxo de passar anos e anos sendo “vegetariano” sem se preocupar em abolir outros alimentos de origem animal.

Em tal linha de argumentação, falava-se que a carne era o principal alimento a ser expulso da mesa.

Afinal, sua produção envolve obrigatoriamente a morte de incontáveis animais, além dos sofrimentos, privações e violências vivenciados pelos animais dos rebanhos “de corte” durante suas curtas vidas.

Já o leite, os ovos e o mel eram considerados mais aceitáveis, já que as vacas, galinhas, cabras, codornas, abelhas etc. não são mortas especificamente para se obter tais produtos, diferentemente da carne, vinda diretamente de animais mortos.

Isso fazia as pessoas acreditarem que o lacto ou ovolactovegetarianismo já seria um patamar de consciência ética suficientemente superior ao onivorismo.

O lado sombrio dos alimentos de origem animal não cárneos

Mas a cada dia que tem passado, tem sido mais e mais denunciada a exploração existente na produção de alimentos de origem animal não cárneos.

E tem sido destacado o fato de que as atividades que exploram fêmeas para lhes obter secreções comestíveis necessariamente matam animais também.

No caso das criações de mamíferas e aves, as fêmeas são levadas para o abate em situações como fim da “vida produtiva”, produção insuficiente de leite ou ovos, problemas que ocasionam abortos espontâneos ou postura de ovos malformados e doenças infectocontagiosas.

Além disso, muitos de seus filhotes, em especial os machos, são mortos muito precocemente, já que sua única “serventia” é serem “transformados” em carne de vitela ou matéria orgânica triturada.

Isso sem falar na desmama forçada, que separa violentamente fêmeas “produtoras de leite” de seus filhotes nas primeiras horas ou dias de vida destes, para desespero de ambos.

Já na apicultura, abelhas rainhas são mortas para se obter geleia real e se estabelecer um ritmo de substituição regular das líderes e muitas operárias morrem depois de tentar picar a roupa do apicultor.

Mais informações sobre essa triste realidade desses insetos você pode conhecer no artigo de Sérgio Greif intitulado O mel.

No final das contas, a produção de leite, ovos e mel não é menos exploradora de animais, violenta e cruel do que a de carne – ou pior, tem um impacto ainda mais severo sobre suas vítimas.

Além disso, devemos nos lembrar de que a produção de qualquer alimento de origem animal é essencialmente fundamentada em tratar animais como coisas, produtos, objetos sob propriedade dos seus criadores.

Considerações finais

Não é lógico considerar a produção de secreções comestíveis de origem animal menos antiética e inaceitável do que a de carnes vermelhas ou brancas.

No final das contas, “vegetarianos” que se recusam a manter uma transição ao veganismo estão sendo tão cúmplices e financiadores da exploração animal quanto onívoros e flexitarianos consumidores de carnes brancas.

Ou seja, quando juntamos isso à lembrança da tradicional confusão que muita gente ainda tem sobre a antiga definição de vegetarianismo – acreditando que vegetarianos comem carnes brancas e só evitam vermelhas –, amadurece em nós a ideia de que laticínios, ovos e mel são tão “vegetarianos” quanto carnes de peixe e frango.

E percebemos também que aquele restaurante “vegetariano” com pratos ovolactos está sendo tão cumplicemente violento contra os animais quanto os estabelecimentos alimentícios que oferecem carne.

6 comments

  1. Oi Robson!

    Compartilhei seu texto no @veganapobre sem a devida preparação para “aguentar o tranco” dos comentários, rs. Pela primeira vez tivemos textões negativos, infelizmente. Vim aqui agradecer novamente a clareza nos textos e ressaltar o quanto este assunto é delicado… Para tratá-lo precisamos de duas vezes mais cuidado com as palavras para não afastarmos as pessoas da transição… Incrível como um só post pode cortar vínculos que meu, demoramos dois anos (!) postando para criar.

    (ah, o ego, sempre ele)

    1. Oioi, Barbarinha =)

      Acabei de ver lá os protovegetarianos pistolas com o post que vcs compartilharam. Infelizmente eles colocaram o ego deles acima dos animais não humanos, e se sentiram “ofendidos” porque meu artigo veio com papo reto sobre como o consumo de derivados animais é tão ou mais prejudicial aos animais do que o de carne.

      O negócio é seguir a vida sem esses ex-“seguidores” condicionais, que no final das contas não levam tanto em conta assim a vida dos animais.

  2. Seu texto é perfeito
    Parabéns!
    Precisamos divulgar mais sobre urgente.
    A indústria criou esse rótulo de ovolacto.. e td mais para as pessoas ficarem na zona de conforto. Sem prnsarem… sem raciocinarem…

    Parabéns mais uma vez

  3. Muio massa porque o que vc trata no artigo é a pura verdade. Para mim, ovolactovegetariano, me fez bem ler.
    Faz tempo que sei que quero deixar ovos e lácteos. Não como nenhuma carne faz mais de 30 anos e não uso nada animal.
    Será meu passo quântico.

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