É certo consumir o leite da vaca e o ovo da galinha se elas forem “de estimação”?

Vaca e galinha se olham em fazenda nos EUA (Foto: Scott Mason/The Winchester Star/AP)

Muito provavelmente você já perguntou ou viu alguém perguntar algo assim:

Se eu tutelo uma vaca, ou uma galinha, com tanto amor quanto eu daria a um cachorro, e não tenho nenhuma intenção de abatê-las, tem algum problema ético se eu ordenhar o leite da vaca, ou coletar os ovos não fecundados que a galinha pôs, exclusivamente para eu comer, sem comercializá-los?

Conheça, logo a seguir, a resposta da ética vegano-abolicionista a esse questionamento. E tenha uma dúvida a menos sobre situações específicas de obtenção de matéria-prima animal que muitas pessoas consideram “excepcionais”.

É ético e necessário consumir o leite e os ovos excedentes das fêmeas “de estimação”?

Leite e ovos: por que não consumi-los em nenhuma hipótese

A resposta vegana para essa questão é que não é nem ético, nem necessário para nós humanos.

Para justificar, falo primeiro da questão ética, e a seguir abordo a inexistência da necessidade desse consumo. E deixo claro que ambas são interligadas.

 

Roubando alimentos que naturalmente servem apenas à espécie desses animais

Sobre as mamíferas, antes de tudo, a função natural exclusiva do leite delas é alimentar os seus filhotes. Fêmeas de raças que não secretam leite em excesso o produzem apenas quando estão amamentando.

Ou seja, quando o indivíduo está ordenhando uma vaca para só ele mesmo beber o leite, está na verdade roubando o alimento dos filhotes dela.

Além disso, vacas, cabras, búfalas etc. de raças “superleiteiras”, cujo corpo cria leite até quando não está prenha, não podem nem devem ser tuteladas domesticamente.

Afinal, elas requerem cuidados veterinários especiais, e podem sofrer muito se a pessoa não souber as maneiras específicas de cuidar da saúde dela e ajudá-la a viver bem com secreção excessiva de leite.

Em relação às galinhas, codornas etc., elas mesmas precisam ingerir os ovos não galados que põem. Afinal, perdem cálcio quando os produzem, e comer a casca do ovo vai ajudá-las a repor esse nutriente.

Em outras palavras, o ovo não galado também tem uma importância que diz respeito apenas à própria espécie da ave que a libera.

Tomar o ovo e o leite dessas fêmeas é roubar delas alimentos que têm uma função natural para elas mesmas ou suas crias.

 

A manutenção do uso das fêmeas como propriedade do seu “tutor”

Tem outra questão essencial que você precisa levar em consideração.

A partir do momento em que você regularmente toma para si as secreções “comestíveis” da vaca ou da galinha, está lhes impondo uma “função” utilitária que diz respeito a interesses que, entre você e elas, apenas você tem.

Nesse contexto, elas não são mais simplesmente animais “de estimação” tutelados por puro amor altruísta. Mas sim “fornecedoras” de leite e ovos, servas não humanas consideradas necessárias para você continuar consumindo alimentos de origem animal.

Em suma, você está tratando-as como sua propriedade, por mais carinho que diga lhes dedicar. Está explorando animais.

 

E se eu comer esses ovos ou tomar esse leite só uma vez, sem ser regularmente?

Com essa indagação, entramos agora no âmbito da necessidade.

Antes de fazer essa pergunta, questione-se: você precisa mesmo consumir esses ovos ou esse leite?

Você tem necessidades nutricionais que te obrigam a ingeri-los? Existe alguma razão vital de consumi-los numa frequência tão rara?

O fato é que você tem tanta “necessidade” pelo ovo da galinha “de estimação” e pelo leite da vaca “da família” quanto tem pelos ovos da passarinha que sua avó mantém aprisionada numa gaiola, ou pelo leite da cadela que seu tio deixou que cruzasse e procriasse. Ou seja, nenhuma.

Então vale se questionar: qual o pretexto desse desejo, mesmo que apenas imaginário, de consumir secreções de fêmeas domesticadas, com intervalos de várias semanas ou meses?

Se é a saudade do gosto, existem sabores vegetarianos muito melhores e mais saudáveis, que você pode consumir regularmente.

Se é o uso em pratos culinários, há diversas opções vegetarianas para substituir os ovos e o leite animal, como a baba da linhaça, a banana, a aquafaba e os leites vegetais.

Isso sem falar dos altos riscos de se consumir leite in natura e ovos não pasteurizados à saúde humana, como o de contrair salmonelose (nos ovos) e ingerir pus, sangue dissolvido e micro-organismos patogênicos (no leite).

 

A ética vegana é clara: não precisamos nem devemos ingerir secreções de animais não humanos

Nós não somos ingredientes!

Nós não somos ingredientes!

O veganismo e o vegetarianismo nos deixam muito claro: não temos a menor necessidade de consumir alimentos de origem animal.

Todos os nutrientes encontrados nas carnes, leites, ovos e outros produtos animais podem ser obtidos em vegetais, no banho de sol, no suplemento sintético de B12 e, em alguns casos específicos, nos suplementos veganos de EPA/DHA (derivados do ômega-3) e vitamina D.

E se a produção daquele alimento faz mal para os animais não humanos e não é necessária para nós humanos, então não há por que obtê-lo e consumi-lo.

Além disso, o vegetarianismo nos provê um mundo inteiro de milhares ou milhões de sabores diferentes, que dispensam completamente o uso de matéria-prima obtida por exploração animal.

 

Considerações finais

Nem ordenhar a vaca, nem pegar os ovos da galinha. Nada é desculpa para continuar explorando animais

 

Fica muito evidente que não há nenhuma desculpa válida para não abandonar por completo o consumo de alimentos de origem animal. Nem a ingestão de secreções “excedentes” de fêmeas “de estimação” encontra sustentação e justificativas plausíveis.

Não é ético, não é necessário, não é saudável.

Então, respondida a questão sobre a (inexistente) justificação moral para esse caso específico, reiteremos nosso compromisso de respeitar os animais não os explorando, não os “utilizando” como “fontes de matéria-prima”.

Siga-me aqui

Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
Siga-me aqui

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *