É possível haver libertação animal sem libertação humana? E libertação humana sem libertação animal? (Parte 1)

Libertação animal e libertação humana separadas?

O sonho de muitos é lutar por uma dessas libertações sem dar a mínima, ou mesmo opondo-se abertamente, à outra (obs.: a “rachadura emendada” na verdade é um arame)

Leia também a segunda parte deste artigo, para saber a resposta à pergunta “É possível haver libertação humana sem libertação animal?”.

Há atualmente um forte debate, no qual se tenta responder às seguintes perguntas:

  • É possível libertar os animais não humanos sem libertar os seres humanos das desigualdades e dominações?
  • É possível libertar os seres humanos sem libertar os animais não humanos da exploração especista?

É uma discussão dupla que invoca ora sensibilidades ideológicas, ora apegos psicológicos a certos desejos de consumo. Sempre que esse assunto vem à tona, a polêmica se esquenta.

Para esclarecer tanto os que estão chegando agora no veganismo como aqueles que têm dúvidas e mente aberta sobre esse problema, quero responder a essas duas perguntas. Ressalto que este artigo, dividido em duas partes, não esgota o debate, estando aberto a contrapontos.

Primeiro, falo da mentalidade de quem defende libertação animal mas rejeita a libertação humana.

 

Os problemas de crer que pode haver libertação animal sem libertação humana

Meme vegano de direita

Exemplo de meme vegano de direita

Muitos veganos de direita, talvez a maioria deles, acreditam que:

  • Veganismo é “apenas” pelos animais não humanos, deixando aberta a possibilidade de alguém ser ético por estes e indiferente ou mesmo antiético para com seres humanos;
  • O capitalismo é um grande aliado do veganismo no objetivo da abolição da exploração animal;
  • Questões políticas e ético-morais envolvendo seres humanos não têm nenhuma ligação com o especismo, a exploração animal, os Direitos Animais, o veganismo e sua difusão na sociedade.

Creem que seria possível sim uma realidade futura em que os animais desfrutariam de direitos fundamentais devidamente respeitados, vivendo em paz livres da dominação humana, enquanto a ordem social, moral (entre humanos), econômica e política vigente permaneceria a mesma de hoje, ou ainda mais radicalizada à direita.

Mas será que a crença deles faz sentido? É o que veremos.

 

As contradições de uma moralidade ao mesmo tempo não especista e conservadora

Em primeiro lugar, pensemos: faz sentido uma convicção ético-moral que acredita na possibilidade de libertar apenas os animais não humanos e deixar o respeito aos humanos como meramente opcional ou indesejável? E que poder ela tem para realmente fazer prevalecer uma convicção ética e política de plena consideração moral e completa emancipação para os primeiros?

Para perceber isso, observemos o comportamento de muitos (não todos) veganos que se autorrotulam como de direita ou assim podem ser considerados. Podemos perceber que esses muitos, em termos de moralidade:

  • Não hesitam em promover preconceitos como machismo, racismo, xenofobia, heterossexismo, transfobia, intolerância religiosa, elitismo, gordofobia e capacitismo;
  • Dedicam intolerância e xingamentos a vegans de posições políticas diferentes;
  • São indiferentes ao sofrimento dos seres humanos prejudicados pelas desigualdades e injustiças da ordem capitalista e das hierarquias humanas;
  • Dedicam uma atenção apenas marginal à população pobre, no que se refere a divulgar o veganismo e a consciência antiespecista;
  • Afirmam categoricamente que os princípios do veganismo não lhes servem para promover o respeito moral a outros seres humanos;
  • Têm como ídolos na causa animal ativistas e artistas promotores de discursos de ódio contra minorias políticas, contra os não veganos em geral e misantrópico;
  • Não hesitam em defender violência policial contra movimentos sociais e medidas autoritárias para “impor a ordem” na política e na moral no Brasil, como um novo golpe militar;
  • entre outras atitudes.

Em resumo, para os animais não humanos, defendem compaixão, amor e respeito incondicional, enquanto para a grande maioria dos seres humanos dedicam algo entre a indiferença moral e o ódio declarado.

É fácil perceber que essa mentalidade não só é uma maneira de defender os Direitos Animais fadada ao fracasso. Também é um obstáculo para a consolidação global do paradigma ético vegano-abolicionista, que, queiram ou não os veganos de direita, é imensamente diferente da postura moral e ideológica promovida por eles.

Afinal, suas crenças e práticas morais são diametralmente opostas aos princípios éticos do veganismo. Como descrevi num artigo sobre o “veganismo” anti-humanista:

  • Enquanto o veganismo defende igualdade moral nivelada por cima entre animais humanos e não humanos, os anti-humanistas colocam os últimos num patamar superior à maioria dos primeiros, rejeitando abandonar a ideia de considerar todos merecedores do mesmo respeito igualitário;
  • Enquanto o veganismo usa a senciência e os interesses vitais como parâmetros de consideração moral, os anti-humanistas apoiam que seres humanos sofram e declaram um respeito superior aos animais não humanos em função de supostas características destes que seres humanos não teriam;
  • Enquanto o veganismo prega a inclusão moral de todos os seres sencientes, os anti-humanistas costumam excluir moralmente seres humanos de minorias políticas;
  • Enquanto o veganismo questiona e combate hierarquias morais que ditam que alguns mereceriam mais respeito que outros, os anti-humanistas criam sua própria hierarquia, colocando eles mesmos, os animais não humanos e outros veganos que pensam parecido com eles na parte superior e os seres humanos de minorias políticas e outras posições ideológicas num patamar inferior;
  • Enquanto o veganismo se baseia em empatia, alteridade e compaixão para todos os seres que podem sofrer e querem viver, os anti-humanistas negam as três para a maioria dos humanos;
  • entre outras oposições.

Fica muito evidente que o mundo “ideal” que defendem não é o mesmo mundo de igualdade, justiça, empatia e respeito universal defendido pela ética vegana. É, na verdade, um de desigualdades conservadas, injustiças diversas e empatia e respeito apenas seletivos – tal como o atual mundo contaminado de especismo, machismo, racismo, elitismo e outras formas de discriminação.

E como isso implica a perpetuação da exploração animal? Por esses motivos:

  • Seu próprio estado de vegans é demasiadamente frágil, por ser desprovido de bases racionais éticas e ter como motivos a misericórdia de animais em sofrimento, o desejo de seguir o “estilo de vida da moda” – considerando que a mídia e o mercado vendem o veganismo como um estilo de vida diferenciado para quem pode pagar – e se diferenciar do “povão” e o anseio por uma alimentação mais saudável. Portanto, tendem a ser mais suscetíveis a abandonar o consumo vegano a partir do momento em que o mercado de alimentos de origem animal souber estrategicamente atraí-los de volta;
  • Sua postura de discriminação afugenta a maioria das pessoas, que é de integrantes de minorias políticas, do interesse de conhecer o veganismo. Muitos que são repelidos pela atitude arrogante, elitista e discriminatória de muitos veganos de direita ficam com a impressão de que o veganismo é exclusivo para quem pode pagar por um estilo de vida gourmet e torna seus adeptos menos sensíveis e respeitosos para com outras pessoas;
  • Seu conservadorismo os inibe de perceber as ligações entre os ditames morais da nossa sociedade desigual e as tradições culturais e econômicas especistas. Não reconhecem, por exemplo, a ligação íntima entre o egoísmo dos capitalistas e a falta de empatia por seres humanos e não humanos, a natureza capitalista da objetificação de corpos sencientes humanos (para fins de uso de mão-de-obra) e não humanos (como “fontes de matéria-prima”) e a tradição moderna de inferiorizar os seres considerados “da Natureza” ou “mais próximos” dela em favor dos “da cultura”;
  • Rejeitam perceber o limite no qual o capitalismo deixa de favorecer a difusão do veganismo e passa a atrapalhá-la e esvaziar de sentido o modo de vida vegano, permitindo assim que as forças econômicas ligadas aos produtos animais e o elitismo inerente à ordem capitalista inibam o crescimento desse “veganismo” desprovido de princípios éticos e políticos. Sobre esse ponto, falo com mais detalhes a seguir.

 

Até que ponto o capitalismo é benéfico para a causa animal e vegana?

Muitos exaltam o capitalismo e o empreendedorismo como “grandes aliados” da expansão do veganismo. Afinal, segundo dizem, os cada vez mais numerosos novos negócios de produtos vegetarianos e veganos estão mostrando para o mundo que o veganismo veio para ficar e aumentando o acesso das pessoas em geral a alimentos e outros itens de consumo veganos.

Também argumenta-se que, por meio do capitalismo, as grandes empresas que hoje fabricam alimentos de origem animal, calçados de couro, roupas não veganas etc. irão se render ao mercado vegano e substituir sua linha de produção especista pela livre de componentes animais. Além disso, a pressão por meio do boicote induz à gradativa abolição dos famigerados testes em animais.

Mas até que ponto o capitalismo é favorável à causa vegana? Ele não tem mesmo o perigo de deixar de ser aliado para se tornar um adversário do ideal da libertação animal? Realmente não há problemas e limitações nessa linha de raciocínio?

A resposta é que há diversas questões que os veganos de direita não conseguem, ou muitas vezes não querem mesmo, resolver.

A primeira é a tendência de gourmetização. Até o momento, a grande maioria dos negócios veganos tem tido as classes média, média-alta e rica como público-alvo. Apenas um número muito pequeno de negócios declaradamente veganos, fora das universidades e seus arredores, tem arriscado comercializar para os pobres e a classe média-baixa nas periferias.

Afinal, a maneira mais rápida de garantir aquele lucro fácil e pomposo é vender para quem tem dinheiro, está relativamente pouco afetado pela crise econômica e está embarcando no consumo vegano com gosto. Com isso, vendem caro para quem pode e quer pagar.

Nesse contexto, já que, até o momento, o veganismo tem crescido muito pouco nos bairros pobres e os moradores destes foram pegos em cheio pelos problemas da economia, a maioria dos empreendedores vegetarianos e veganos prefere não arriscar atender a um público-alvo provavelmente ainda muito pequeno.

A segunda é a eliminação da essência política e ativista do veganismo. A cada matéria da imprensa que fala do “nicho de mercado vegano”, fica claro que muitos empresários não veem o nosso modo de vida como uma prática de princípios éticos, mas sim um mero hábito de consumo da moda, um “estilo de vida” lucrativo.

Com isso, está aumentando muito o número de pessoas que se autorrotulam “veganas” mas nada entendem sobre os Direitos Animais e a ética vegano-abolicionista. Como foi dito anteriormente, tendem a ser “veganas” por misericórdia puramente emocional pelos animais não humanos e uma questão de moda e “estilo de vida”, não pelo ideal de atuar pela libertação dos animais não humanos da exploração e do especismo.

Se depender dessa tendência, o veganismo vai acabar deixando de significar o que significa hoje – um modo de vida orientado por princípios éticos e objetivos políticos focado no respeito aos animais não humanos e no combate ao especismo. Vai se tornar vazio de sentido e ser apropriado pelos capitalistas, tal como tem acontecido pouco a pouco com lutas como o ambientalismo, a inclusão social LGBT e até mesmo o feminismo negro.

A terceira é o perigo da oligopolização do “mercado vegano”. É altamente provável que, dentro de poucas décadas ou anos, grandes corporações comprem as atuais mercearias e açougues veganos um a um, tal como tem acontecido com os pequenos mercadinhos nos centros de cidades como São Paulo.

Nessa onda de compras, empresas veganas gradualmente deixariam de existir. Os veganos consumistas passariam a comprar de empresas não veganas simplesmente dotadas de alguns produtos veganos, não comprometidas com os Direitos Animais. E assim o projeto de sobrepujar o comércio de produtos animais por meio do “capitalismo vegano” fracassaria.

Afinal, com o ideal político da libertação animal esvaziado e o veganismo relegado a uma moda de consumo, as grandes empresas deixariam de se preocupar em acabar com seus produtos não veganos.

E quarta, mas não última, é a associação intrínseca do capitalismo com valores e costumes morais totalmente avessos à lógica utópica do abolicionismo animal. Temos no sistema capitalista tradições como:

  • Objetificar seres sencientes, convertendo-os em mercadoria, matéria-prima e/ou mão-de-obra servil;
  • Buscar o lucro egoísta como objetivo máximo do empresário ao comandar uma empresa, por mais que ela diga seguir princípios de responsabilidade socioambiental e humanitarismo e respeitar as leis trabalhistas;
  • A lógica do crescimento econômico infinito, o que implica objetificar e escravizar a Natureza e seus integrantes, num mundo de recursos finitos;
  • A existência de hierarquias e desigualdades sociais, nas quais um trabalhador de baixa patente sempre ganha uma fração ínfima da renda do CEO, como “fundamental” para a ordem da sociedade;
  • O pouco apreço pelos direitos trabalhistas, pela legislação ambiental e pela regulação estatal da economia, vistos como “obstáculos” para a liberdade econômica dos empreendedores.

Com isso, há limites muito evidentes, em se tratando de considerar o capitalismo um “aliado” e “parceiro” na difusão do veganismo. Para além deles, o sistema econômico e sua moralidade passa a prejudicar a causa vegano-abolicionista.

 

Desigualdades sociais X difusão do veganismo

Um outro grande problema do “veganismo de direita” é o conflito entre as desigualdades sociais, com todas as privações e violências proporcionadas por elas, e a necessidade de se massificar o veganismo em todas as classes socioeconômicas.

Como foi mostrado anteriormente, o “veganismo capitalista” foca em quem pode pagar, ou seja, os novos veganos das classes média e alta. Uma vez que a difusão da consciência animalista tem sido muito reduzida nas periferias pobres, a atenção dada pelos empreendedores a essas regiões é residual, já que os riscos hoje são muito altos.

Além disso, a própria divulgação do modo de vida vegano tem sido, muitas vezes, marcado pelo elitismo. Receitas com ingredientes caros e de difícil acesso, eventos com produtos e comidas pelos quais pessoas pobres não podem pagar regularmente, mercadinhos veganos com todos os produtos ou a maioria a preços irrazoáveis, atenção pouca ou nula a quem tem baixa renda etc.

Isso sem falar na falta de sensibilidade de muitos divulgadores do veganismo às necessidades e particularidades de quem tem pouco dinheiro. Hoje em dia ainda são poucas as oficinas de culinária vegana popular gratuitas ou a preços simbólicos, as palestras e rodas de conversa que discutem a inclusão social no veganismo e o combate aos preconceitos no nosso meio e as campanhas de divulgação de dicas em prol de um consumo vegano econômico e acessível.

No mais, tem-se hoje uma difusão vegana pouco atenta às desigualdades sociais e às demandas populares. É um dos resultados da convicção dos muitos que creem na possibilidade de libertar os animais não humanos sem se pensar nas questões humanas.

Com isso, a maioria da população está alheia ao crescimento do nosso modo de vida, e esse alheamento tende a pôr a perder os objetivos de massificar o veganismo, eliminar a demanda consumidora dos produtos animais e forçar a veganização da agricultura e da indústria.

 

Conclusão da primeira parte

Produtos veganos caros

Nicho de mercado, estilo de vida individualista e consumista, pena de animais sofrendo, compra de produtos caros, acesso socioeconomicamente restrito, exclusão social e chance zero de libertar os animais: o futuro do “veganismo de direita”. Foto: Vegan Luvies

Todos esses motivos nos levam a perceber que a libertação animal não tem nenhuma possibilidade de acontecer numa realidade em que as injustiças e desigualdades entre os seres humanos sejam conservadas e a maioria da humanidade esteja excluída das oportunidades do modo de vida vegano e da consciência abolicionista.

O mundo conservadoramente regido por hierarquias, discriminações, explorações e violências, tido como “ideal” pelos “veganos” anti-humanistas, não é o mesmo mundo que o abolicionismo animal, a partir de seus princípios éticos e políticos, defende. Isso já basta para saber que não é viável a libertação apenas parcial dos seres sencientes.

Com isso, responde-se à primeira pergunta essencial deste texto: não haverá libertação animal sem que se promova a emancipação dos seres humanos da mesma ordem desigual que castiga ambas as categorias de seres sencientes.

Leia também a segunda parte deste artigo, para saber a resposta à pergunta “É possível haver libertação humana sem libertação animal?”.

 

Você é vegan e este artigo te influenciou a repensar se o veganismo tem ou não necessidade de se conectar a outras lutas sociais? Comente logo abaixo quais as suas impressões sobre o assunto.

Gostou do texto? Deseja mostrar para vegans de direita que você conhece para debater sobre a questão de não ser possível a libertação animal sem libertação humana? Compartilhe-o.

Robson Fernando de Souza
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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do vlog Canal Veganagente. Articulista desde 2007, blogueiro desde 2008, vlogueiro desde 2011. Atualmente estuda Ciências Sociais na UFPE
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