É possível haver libertação animal sem libertação humana? E libertação humana sem libertação animal? (Parte 2)

Especista de esquerda 99

Leia também a primeira parte deste artigo, para saber a resposta à pergunta “É possível haver libertação animal sem libertação humana?”.

E libertação humana sem libertação animal?

É possível promover a liberdade, a justiça e a igualdade para os seres humanos deixando-se os animais não humanos subjugados a uma ordem em que essas três lhes são completamente negadas?

Quero responder a esse questionamento nesta segunda parte, lembrando que esta abordagem não esgota o debate.

 

Os problemas de crer na possibilidade da libertação humana sem libertação animal

Esquerda antivegana e ruralistas

A parcela antivegana da esquerda, que faz coro a gente da estirpe de Kátia Abreu

Assim como nas crenças dos veganos de direita, há fortes problemas na postura de pessoas de esquerda especistas, quando defendem uma nova ordem pacífica, igualitária e livre que tenha como plano de fundo uma realidade conservadamente violenta, desigual e aprisionante.

Vamos ver que questões são essas, e se elas inviabilizam a sonhada libertação dos seres humanos e as utopias que lhe sucederão.

 

As contradições morais de se libertar uns e manter outros sob absoluto jugo opressor

Muitas pessoas sonham com um futuro utópico em que os seres humanos serão todos iguais em consideração moral, direitos e desfrutamento de amplas liberdades, e não haverá mais injustiças, opressões, autoritarismo e relações de dominação. Mas esse sonho tem um inconveniente detalhe no segundo plano.

São as criações pecuárias, aquícolas e apícolas de animais não humanos. Nelas estes permaneceriam mantidos como propriedade seja de indivíduos, famílias ou comunidades, submetidos às mesmas violências das fazendas e granjas de hoje e usados vivos ou mortos como se fossem coisas desprovidas de consciência e vontades.

Seriam, na prática, o reduto de tudo aquilo que se consideraria abolido entre os seres humanos. O recanto onde residiriam preservados velhos valores e tradições de hierarquias e desigualdades, dominação dos “mais fortes” e privilegiados sobre os “mais fracos” e despossuídos e naturalização da violência e da crueldade.

Ou seja, ao contrário do que muita gente hoje pensa de um futuro assim, não seria uma realidade efetivamente livre do pior que existe atualmente em crenças e costumes morais.

A partir desse vislumbramento absurdo desse hipotético futuro, percebemos que a atitude dos especistas de esquerda acaba se assemelhando, guardando-se as devidas distinções e peculiaridades, a posturas como a de quem, por exemplo, defende o anarquismo mas conserva teimosamente atitudes autoritárias e machistas, ou prega a revolução socialista com a conservação de valores hierárquicos, militaristas e contrários a muitas liberdades humanas.

No final das contas, o mundo idealizado de pessoas assim não é tão diferente do cruel mundo dos veganos direitistas, já que:

  • A defesa da igualdade moral e da compaixão para uns se contrasta com a aceitação ou apoio deliberado à imposição de desigualdade e insensibilidade contra outros;
  • A liberdade teria os mesmos limites de espécie, só que no sentido inverso: vegans de direita defendem-na apenas para os animais não humanos, enquanto os especistas de esquerda advogam que ela beneficie apenas seres humanos;
  • Fala-se do “fim da violência desnecessária”, mas só até os limites da conveniência moral de quem o defende – o desfrutar de alimentos de origem animal ou “sonhos de consumo” capitalistas;
  • Ambas as categorias usam falácias, mitos e distorções para defender seus pontos de vista;
  • Ambos promovem empatia seletiva e apoiam a conservação da dominação e violentação daqueles pelos quais eles não querem se sensibilizar;
  • Como já foi mencionado, sua utopia tem um lado conservadoramente distópico sobre o qual se recusam a pensar;
  • A atitude reacionária e violenta perante quem lhes questiona as contradições e seletividades morais é a mesma.

Diante dessas incoerências, é de se perceber que as fronteiras do ideal libertário de quem rejeita desconstruir seu lado conservador e antiético são como um alto muro que passa por cima da estrada que os levaria ao futuro melhor que desejam. Obstruem-na e impedem que eles avancem até um certo ponto.

 

Os momentos em que a exploração animal e sua (falta de) moralidade implicam exploração humana

Essa obstrução fica muito clara quando percebemos que a atitude de aceitar ou defender a exploração animal implica também consentir a perpetuação de inaceitáveis violências contra seres humanos, ou no mínimo não lhes esboçar a merecida reação adversa.

Isso ficou muito claro nas duas primeiras semanas em que foi tornada pública a Operação Carne Fraca. Por meio dela, a Polícia Federal descobriu desde esquemas de corrupção até a autorização fraudulenta da comercialização de carnes estragadas e/ou adulteradas.

A reação de grande parte da esquerda brasileira foi de ignorar ou negar todos os indícios de crime encontrados, além de “apagar” de sua memória todas as denúncias de crimes ambientais (desmatamento, poluição, fraudes etc.) e trabalhistas (emprego de mão-de-obra escrava e semiescrava, negação de direitos, omissão de assistência à saúde etc.) contra fazendas de gado, granjas, frigoríficos e matadouros.

Não bastasse isso, alguns chegaram ao ponto de fazer coro à radicalmente conservadora bancada ruralista e ao odiado Governo Temer, em defesa da cruel indústria brasileira de carne.

Nisso fica evidente que, para a pejorativamente rotulada “esquerda Friboi”, as vidas dos trabalhadores explorados pela pecuária e pela indústria frigorífica e dos consumidores das carnes produzidas por ambas valem menos do que a de milhões de outros seres humanos.

Também se vislumbra evidências de que, no imaginário de quem se opôs incondicionalmente à Operação Carne Fraca, mesmo as utopias comunistas e anarquistas iriam eventualmente tolerar a exploração de parte dos seres humanos e a manutenção de propriedades privadas, em nome do consumo de alimentos de origem animal, além da preservação de todas as violências contra animais não humanos.

Esse é um dos diversos motivos pelos quais o antiveganismo dessa parcela da esquerda acaba sendo um duro e pesado obstáculo para a missão e a esperança de converter a opressão, a dominação e a injustiça contra seres merecedores de direitos em peças de museu.

 

Como a defesa de uma libertação humana sem libertação animal é atada ao status quo capitalista e hierarquista

Um outro aspecto da atitude de defender simultaneamente a libertação humana e a conservação do especismo é sua natureza pró-capitalismo, pró-mercado e pró-hierarquias.

A princípio, já mencionei mais acima que a defesa de justiça e liberdade pelos especistas assumidos de esquerda é tornada seletiva pela conveniência do desejo de continuar desfrutando de alimentos de origem animal. Isso é, essencialmente, um hábito de consumo tipicamente capitalista e sustentado por exploração intensiva, abusiva e degradante de mão-de-obra.

É necessário perceber que a intensificação do consumo de carne, laticínios e ovos se deu com a Revolução Industrial, que levou a lógica da produção em série para as criações animais e granjas.

Antes disso, o consumo abastado de alimentos como as carnes era restrito às elites, estando reservada às classes pobres uma ingestão apenas residual e ocasional delas, a exemplo do que acontecia nas antigas civilizações do Egito, da Grécia, de Roma e da Europa medieval.

É possível, por isso, dizer que esforços como a defesa dedicada à indústria brasileira de carne contra a Operação Carne Fraca implicam basicamente, se não têm como objetivo explícito, a manutenção do capitalismo alimentício, do consumismo e de seus absurdos impactos ambientais, políticos e sócio-humanitários.

Outra manifestação desse conservadorismo enrustido de quem defende libertação humana sem libertação animal é quando muitas dessas pessoas aceitam declaradamente que os mais pobres continuem dependendo de alimentos de péssimo valor nutricional, como carnes processadas, brancas e vermelhas de segunda e lámens cheios de sódio e carboidratos, por serem baratos, para não passarem fome.

Nesse caso, para manterem seu “direito” de consumir frutos da exploração animal, consentem a pobreza e insegurança alimentar dos outros. Não parece lhes passar pela cabeça a ideia de que, por meio de lutas como a camponesa, a agroecológica e a ambientalista, passem a desfrutar de alimentos (vegetarianos, livres de componentes animais) orgânicos, nutritivos e portanto saudáveis.

Defendem, portanto, não só a conservação do seu próprio consumismo alimentício de classe média, mas também que as desigualdades sociais provocadas pelo capitalismo permaneçam.

Mesmo o futuro utópico que defendem, ao conservar a exploração animal, herdaria as mesmas pecuária, pesca, aquicultura e apicultura do capitalismo. Uma vez que, como dito, o consumo atual de alimentos de origem animal é um fenômeno moderno, é de se pensar que continuaria havendo exploração trabalhista, pobreza e propriedade privada ou semiprivada nesse meio.

Em outras palavras, a revolução socialista-comunista ou anarquista não chegaria aos trabalhadores dos permanentemente sobrecarregados frigoríficos, matadouros, fazendas e granjas, nem beneficiaria tanto assim os consumidores dos produtos desses estabelecimentos. Ou sequer chegaria a acontecer, dada a posição defensora e aliada dedicada ao empresariado e à propriedade privada desse setor, que nem mesmo reformista chega a ser, por parte dos antiveganos “de esquerda”.

Fica claro que esse conservadorismo especista de muitos que se autorrotulam revolucionários de esquerda impediria a consolidação dos valores éticos e sociopolíticos sustentadores dos sonhos utopistas e das lutas sociais. E proporcionaria a preservação das hierarquias de poder, trabalho, renda e riqueza do capitalismo.

 

Conclusão da segunda parte

Exemplo de antivegano fazendo "cosplay de pobre"

Exemplo de antivegano “de esquerda” fazendo “cosplay de pobre”

Percebemos que o especismo é um grande aliado da ultracapitalista agroindústria de alimentos de origem animal. Afinal:

  • Conserva todos aqueles valores antiéticos da ordem atual baseados em desigualdades, violência e exploração;
  • Promove a exclusão moral e social dos animais não humanos e dos seres humanos empregados e/ou mal alimentados por esse setor econômico;
  • Fomenta a falta de compaixão e empatia por quem sai prejudicado pelo desastre político, humanitário e ambiental que esse ramo provoca;
  • Preserva o consumismo privilegiado das classes média e rica, no que se refere aos alimentos mais gourmetizados de origem animal;
  • E é defendido pelos mesmos argumentos e artifícios ideológicos da direita política.

Portanto, deixa evidente que não deixará a libertação humana acontecer. Ou que, no máximo, ela só beneficiará uma parcela da sociedade, o que se esperaria não do anarquismo, do socialismo e do comunismo, mas sim do liberalismo e do reformismo.

Em outras palavras, assim como não é possível haver libertação animal verdadeira e universal sem libertação humana, também não haverá emancipação humana inclusiva e abrangente sem que se pense na necessidade de libertar os animais não humanos.

Aliás, o próprio pensamento libertário de esquerda acaba se degenerando em antilibertacionismo e conservadorismo quando rejeita se empenhar em desconstruir o especismo e combater a libertação animal.

Então não há saída para os assumidamente especistas de esquerda fora abandonar o especismo e passar a repudiá-lo, assim como abominam o reacionarismo e as hierarquias sociais e políticas humanas. Ou seja, abraçar o veganismo e a defesa dos Direitos Animais.

 

Considerações finais

plano cartesiano veganismo e política

Libertação animal e libertação humana andam de mãos dadas, e dependem uma da outra para acontecer. Afinal, a exploração e os valores conservadores são os mesmos no especismo e no anti-humanismo capitalista.

Por isso, as lutas de quem exclui de sua consideração moral e política os animais não humanos ou os seres humanos tendem a fracassar, ou no máximo ter um sucesso muito incompleto, frágil e insustentável.

Fica clara, assim, a necessidade estrita de se interligar as lutas políticas pelos seres humanos e pelos animais não humanos. E, assim, lutar por todos os seres sencientes ao mesmo tempo, mesmo que cada movimento social foque sua categoria específica de pessoas defendidas – mas nunca excluindo de sua moralidade o restante dos animais humanos e não humanos.

Então, que se enfrente e desconstrua o conservadorismo ideológico tanto dos veganos de direita como dos antiveganos de esquerda. E a libertação senciente seja universal e inclusiva.

Leia também a primeira parte deste artigo, para saber a resposta à pergunta “É possível haver libertação animal sem libertação humana?”.

 

Este artigo ajudou você a pensar melhor sobre que futuro para os seres humanos e não humanos realmente se quer? Te fez pensar que realmente a dominação e explorãção de humanos não será extinta se o especismo também não o for? Comente logo abaixo, e compartilhe-o.

Você já é vegan e gostou de ver esta resposta àquelas pessoas de esquerda que defendem a pecuária e o consumo de produtos animais? Comente o que achou e compartilhe este artigo.

Robson Fernando de Souza
Siga-me aqui

Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
Robson Fernando de Souza
Siga-me aqui




2 Comments on “É possível haver libertação animal sem libertação humana? E libertação humana sem libertação animal? (Parte 2)

  1. Espero que alcancemos um mundo sem crueldade intencional e desnecessária com todo e qualquer ser vivo e também contra a natureza não viva, valorizando mesmo a paisagem como parte dessa harmonia. Mas é preciso estar ciente e compromissado com o fato de que esse processo irá levar à eliminação de várias raças animais com as quais convivemos, não só animais dos quais fazemos uso para consumo, mas também dos quais fazemos uso como companhia. Também devemos estar conscientes de que eliminaremos praticamente todos os povos tradicionais, pois suas culturas estão intrinsecamente ligadas às maneiras como produzem e consomem alimentos.

    • “Mas é preciso estar ciente e compromissado com o fato de que esse processo irá levar à eliminação de várias raças animais com as quais convivemos, não só animais dos quais fazemos uso para consumo, mas também dos quais fazemos uso como companhia.”

      A extinção (por controle reprodutivo) das espécies (não “raças”) que não podem mais se reintroduzir na Natureza selvagem será algo a se apreciar. Além disso, como essa indução à extinção dessas espécies não viola os interesses dos indivíduos animais não humanos, então não é uma violência contra eles.

      “Também devemos estar conscientes de que eliminaremos praticamente todos os povos tradicionais, pois suas culturas estão intrinsecamente ligadas às maneiras como produzem e consomem alimentos.”

      Aqui vc cometeu falácia do espantalho e distorção de fato. O veganismo (em especial sua versão interseccional) pode dialogar com essas culturas, que desenvolvem à sua maneira uma consciência moral de respeito aos animais não humanos. Afinal, ele não defende que os animais não humanos são “superiores” aos seres humanos, mas sim que ambos são moralmente iguais, niveladamente por cima.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *