As lições trazidas pelos retrocessos do “mercado vegano”

Adeus, produtos veganos da marca Mãe Terra

Repercutiu muito, nesses últimos dias, a compra da marca Mãe Terra, conhecida entre os veganos, pela Unilever, corporação mundialmente repudiada por insistir nos testes em animais.

Quando os veganos souberam, receberam a notícia com estarrecimento e indignação. Afinal, acabaram de perder uma opção de alimentos veganos e descobriram que a Mãe Terra não prezava pela libertação animal, já que se entregou a uma grande corporação que se recusa a abandonar a crueldade contra animais.

Uma hora como essa é muito propícia para conversarmos sobre um tema que tem despertado paixões e polêmicas entre os veganos: até que ponto podemos confiar no capitalismo como se conhece hoje como aliado na difusão do veganismo e dos produtos veganos? E que lições podemos tirar de más notícias como essa?

Convido você a ler sobre isso, e aposto que terá boas reflexões sobre como manter as chances de sucesso do veganismo.

Os reveses do mercado de produtos veganos nos últimos anos

Sabonetes Phebo e retrocesso vegano

Sabonetes Phebo e compra de parte da Granado por uma multinacional que testa em animais: um dos retrocessos do “mercado vegano”

A população vegana tem crescido bastante no Brasil e em muitos outros países, em especial na classe média. Mas o mercado de produtos veganos tem encontrado substanciais dificuldades de se solidificar, e a tentativa de inserir valores éticos no capitalismo não tem rendido frutos graúdos.

Isso tem sido percebido numa série de retrocessos recentes, ao longo dos últimos anos:

  • A própria venda da Mãe Terra, que tinha muitos veganos em seu público, à Unilever;
  • A venda de parte das ações da Granado, fabricante dos sabonetes Phebo e Granado, para uma multinacional que testa em animais;
  • A venda da empresa alimentícia Yoki, em 2012, para a estrangeira General Mills, que também subsidia testes em animais;
  • A extinção de produtos como o gel dental Fresh Sensation da Condor, os cremes dentais Carrefour e os sabonetes sólidos Pluii;
  • As oscilações na distribuição e venda de produtos como os cremes dentais Contente em várias cidades no Brasil – retornando e sumindo periodicamente dos mercados locais;
  • O fechamento de diversos estabelecimentos que apostavam suas fichas no público vegano em cidades como Recife;
  • A revelação de que empresas alimentícias que pareciam estar defendendo o veganismo no exterior, como a Impossible Foods e a Hampton’s Creek, encomendaram cruéis testes de seus produtos em animais;
  • O encarecimento acentuado de lanches e almoços veganos – incluindo até mesmo os sanduíches vegetarianos da rede Subway -, a taxas muito acima da inflação geral, tendo alguns produtos dobrado de preço nos últimos três ou quatro anos.

Não bastasse isso, o crescimento ainda lento do veganismo nas periferias pobres tem inibido eventuais investimentos por parte de empreendedores e da indústria nas classes populares.

Portanto, existe hoje uma concentração de comedorias veganas e protovegetarianas nas zonas centrais e bairros de classe média das capitais e outras metrópoles brasileiras, e pouco ou nenhum investimento em produtos como itens para cabelo, de higiene dental e limpeza doméstica que levem em consideração a existência de vegans pobres.

Ou seja, o “mercado vegano” não tem dado respostas muito favoráveis ao nosso crescimento populacional e aos nossos comportamentos de consumo. E é desse desfavorecimento que extraímos algumas lições.

 

Aprendendo algumas lições importantes

Meme de direita, capitalismo e veganismo

Meme criado por alguém que ainda acredita que o capitalismo é aliado do veganismo

Desses retrocessos podemos fazer algumas reflexões e tirar aprendizados, sobre a importância que muitos atribuem ao capitalismo para o avanço do veganismo e, por tabela, do ideal da libertação animal.

 

1. É ingênuo tentar imbuir o capitalismo dos empresários não veganos com valores éticos

A única linguagem entendida pelo capitalismo, incluindo as empresas que têm ou tinham um público vegano, é o lucro egoísta. É empreender políticas de responsabilidade socioambiental apenas visando manter ou melhorar a imagem institucional da empresa e, assim, elevar seus lucros por meio da preservação ou expansão de seu público consumidor. Ou seja, fazer o bem motivado por interesses individualistas.

Nesse contexto, o veganismo não será visto pelos empresários como uma luta pela libertação animal, mas sim como uma oportunidade de faturar mais. E ao primeiro sinal de que o investimento no público vegano não correspondeu às expectativas de lucro, ou que há formas ainda melhores de aumentar as vendas da empresa, essas companhias descartarão, de maneira covarde, os consumidores veganos.

Ou seja, a única maneira de uma empresa ser vegana em seus valores fundacionais é seus sócios e proprietários serem eles próprios veganos e, assim, decidirem que ela jamais irá fabricar qualquer produto com ingredientes de origem animal, nem subsidiar testes em animais, nem patrocinar eventos de exploração animal. Isso mesmo que essa atitude acarrete lucros baixos e dificuldades financeiras nos primeiros anos pela população vegana atual ainda ser baixa.

Além disso, a empresa precisará ter a missão de expandir o veganismo, convencer à sua maneira os não veganos a gostarem dos seus produtos e se interessarem em conhecer o nosso modo de vida.

Fora casos assim, virtualmente nenhuma empresa vai estar realmente preocupada com sua imagem perante o público vegano, já que o lucro estará sempre acima do respeito antiespecista aos animais e este ainda não é um fator suficientemente forte de pressão às indústrias.

Assim sendo, ainda não estamos num momento de começar a contemplar o mercado parando de explorar animais, já que nossa reduzida população não é tentadora nem intimidadora para os interesses econômicos da grande maioria das empresas. E não devemos nos deixar levar pela inocência de crer que as empresas não veganas cederão a nós por boa vontade ética e que vamos moralizar o capitalismo.

 

2. O mercado hoje é traiçoeiro demais para os veganos

Considerando a primeira lição, percebemos que o mercado de hoje é muito traiçoeiro para nós, não nos inspira confiança e temos pouco a fazer no sentido de intervir diretamente para torná-lo mais amigável a nós. Nosso consumo está dependendo dos caprichos aéticos de quem nos vê como uma mera parcela de seu público consumidor.

Com isso, não botemos fé de que aquele produto que hoje é o “xodó dos veganos” vai ser vegano para sempre. A qualquer momento a empresa pode ser comprada por uma multinacional exploradora de animais, ou o item vai receber ingredientes não veganos, ou a empresa vai passar a testar em animais, ou ele simplesmente sairá do mercado.

Esses dois fatores nos fazem pensar na terceira lição a seguir.

 

3. O capitalismo tem um poder muito maior de atrapalhar do que de ajudar o veganismo

Ao contrário do veganismo, o capitalismo não é alicerçado em princípios éticos, e o bem-estar alheio é um eventual resultado do trabalho de uma empresa apenas se lhe proporcionar lucro.

Com isso, ele não irá assimilar qualquer objetivo político de caráter libertador e consolidador de direitos. Como falei, só atende aos veganos enquanto eles lhe correspondem a expectativas prévias de lucratividade.

Nesse sentido, enquanto a população vegana brasileira for de alguns milhares de pessoas num universo de 200 milhões, a maioria esmagadora da indústria continuará nos ignorando, obtendo matéria-prima de origem animal e financiando entretenimentos que exploram animais, já que não somos suficientes para garantir a prosperidade da indústria e investir no especismo ainda é mais rentável.

Se encontramos produtos que correspondem a nossos parâmetros de escolha, é muito mais por sorte do que por consciência e bom coração dos empresários.

A situação se complica ainda mais quando lembramos do encarecimento de muitos produtos veganos, como lanches e queijos vegetais. A demanda crescente por eles está fazendo-os aumentar de preço acima da inflação. Isso também acaba sendo um fator que restringe muito a inclusão dos veganos no mercado.

Esses dois fatores nos revelam que o capitalismo é muito mais um obstáculo do que um aliado da causa vegana.

 

4. Enfrentar o capitalismo promovendo uma economia alternativa é necessário para difundir o veganismo

Já que o capitalismo mainstream é indiferente, se não hostil à sua maneira, ao veganismo, ficamos com a obrigação de enfrentar esse mercado aético promovendo a economia solidária e o faça-você-mesmo (também conhecido como DIY).

Os pequenos produtores locais, incluindo cooperativas, se tornam a melhor opção a quem comprar produtos em muitos contextos. Eles podem nos oferecer, por exemplo, alimentos deliciosos, mais saudáveis do que os industrializados e muitas vezes também mais baratos.

Já por meio do faça-você-mesmo, podemos fazer nossos próprios lanches e outros produtos caseiros para consumo próprio. A depender da sua habilidade no DIY, aliás, é possível você convertê-la numa forma de ajudar outros veganos e ganhar uma boa renda.

Dessa maneira, inclusive será mais fácil também difundir o modo de vida vegano nas periferias, trazendo empregos dignos para quem precisa, oferecendo produtos bons e baratos e fomentando a geração solidária e não concentrada de riquezas.

 

Considerações finais

Economia solidária e veganismo

Depois do revés em relação à Mãe Terra – marca cujo nome agora deixa completamente de fazer sentido -, espero sinceramente que o máximo possível de pessoas reflita sobre a ingenuidade de se achar que já temos hoje, como consumidores veganos, algum poder no capitalismo industrial.

Ele não é nosso aliado. Pelo contrário, nos tem na mão, nos exclui enquanto consumidores em muitas ocasiões e só vai lançar mais produtos veganos se seu capricho sedento de lucro quiser, não por respeito ético aos animais.

Portanto, vamos nos desiludir – no sentido original de des-iludir – sobre apostar no mercado como “salvador dos animais”. Para aumentarmos nossa população e melhorarmos nosso modo de vida, precisamos promover a economia alternativa e difundir com ativismo a bandeira dos Direitos Animais – desde que aliada com os movimentos sociais que defendem e beneficiam quem mora nas periferias.

É assim que poderemos consumir bem, com saúde, pagando pouco e às vezes até ganhando uma renda. E, com o tempo, à medida que nos tornamos mais numerosos, deixaremos a indústria não vegana com medo de nós e verdadeiramente pressionada a parar de explorar animais.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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