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Editado em 03/12/2015 às 17h55

Obs.: Este post não traz as imagens carniceiras que outros blogs e páginas têm divulgado.

Na última terça-feira, diversos blogs de notícias e páginas radicais de direita noticiaram um massacre de animais na Fazenda Cedro, em Marabá/PA. Nessa matança, em torno de vinte vacas prenhas (outras fontes falam de 29) foram mortas e tiveram seus fetos arrancados do útero, e as páginas apressaram-se em atribuir o crime ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terras (MST). Mas há inconsistências nessa acusação, o que faz das notícias divulgadas uma meia-verdade.

A princípio procurei a origem das fotos, e realmente não encontrei versões delas anteriores a anteontem (dia 1), o que me leva a crer que realmente houve a matança de vacas. Mas não precisei tentar invalidar inteiramente a notícia para perceber que ela não condiz totalmente com a verdade.

 

O ocorrido

Segundo as fontes relatam, um grupo de invasores (que as mesmas dizem que pertenciam ao MST) teria vindo de um acampamento do MST, adentrou a Fazenda Cedro e decapitou e estripou entre 20 e 29 vacas que estavam grávidas. A fazenda em questão está em processo de negociação e provavelmente será desaproriada para reforma agrária, segundo afirma o Movimento dos Sem-Terras. As fotos, extremamente chocantes, foram divulgadas em praticamente todos os meios que repercutiram o ocorrido. Mas estranhamente nenhum portal de notícias de grande porte (Folha, G1, Estadão etc.) o repercutiu, o que deu a impressão inicial de que estaríamos diante de um boato criado por extremistas de direita e latifundiários.

As seguintes fontes repercutiram (Aviso: as páginas em questão contêm cenas fortes): Pecuária Brasil, Fernando Francischini, Revoltados On LineCompre RuralPortal Canaã, Ijuí.com, Blog do Bacana, entre outros.

 

A meia-verdade

Tudo leva a crer que o crime realmente aconteceu. Mas nada no que foi repercutido por blogs da região rural do Pará e páginas ligadas à pecuária e ao “movimento” reacionário brasileiro aponta objetivamente para a autoria ter sido realmente de membros do MST.

Note-se que as diversas fontes já atiram a acusação sem que tenha havido a devida investigação policial. Segundo o Blog do Bacana, os criminosos “chegaram vindos do acampamento do MST, que ocupa uma área da fazenda de frente para a rodovia que liga Marabá a Parauapebas”. Mas isso não exclui a possibilidade de serem, por exemplo, jagunços infiltrados no acampamento, uma vez que, em movimentos sociais, são muito comuns os infiltrados, como os P2 (policiais à paisana) dentro de protestos de rua.

A fonte original da matéria, o Pecuária Brasil – que havia noticiado o ocorrido às 7h14 do dia 1 -, acusa o MST precipitadamente, sem exigir investigações, sem que nenhuma perícia tenha sido feita, sem que nenhuma testemunha tenha sido ouvida. Trata-se, assim, de uma acusação precipitada e talvez até mal-intencionada, uma vez que, entre latifundiários, há interesses de sobra para defender ao se atacar o MST, coletivo que ameaça frontalmente esses interesses.

Não há nenhuma prova conclusiva de que realmente tenha sido o Movimento dos Sem-Terra. E mesmo que tenha sido de autoria de pessoas do movimento, nada indica no momento que tenham cometido o crime em nome dele, representando-o institucionalmente.

O caso de fato foi um inaceitável crime contra os animais, de uma crueldade extrema, e deve ser investigado e seus responsáveis descobertos e punidos. Isso eu não nego de maneira nenhuma. Mas isso não quer dizer que seja defensável apontar culpados precipitadamente, sem que tenha havido um flagrante que comprove por A mais B que tenha sido cometido por membros do MST e em nome do MST.

 

O MST nega as acusações

A coordenação estadual do MST no Pará negou veementemente as acusações dirigidas pelos pecuaristas e reacionários. O site nacional do movimento divulgou a nota de esclarecimento abaixo:

NOTA DE ESCLARECIMENTO

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Pará (MST/PA) vem a público manifestar REPÚDIO as investidas dos latifundiários do Pará para criminalizar o Movimento e as centenas de famílias de trabalhadores e trabalhadoras rurais Sem Terra, que resistem nos acampamentos dessa região transformando fazendas antes improdutivas em comunidades de trabalho e produção de alimentos saudáveis. 

Pesa sobre nós – divulgado por uma comunidade do facebook denominada de “Pecuária Brasil” – a acusação de ter “abatido centenas de vacas prenhas” em fazendas do sul e sudeste do Pará e, em especifico na Fazenda Cedro (localizada em Marabá). Para nós, Movimento Sem Terra, isso não passa de mais uma acusação infundada com o intuito de incitar o ódio de setores conservadores da sociedade contra as formas legitimas de manifestação pelos direitos sociais garantidos pela constituição brasileira.

Não é a primeira vez que se usam as redes sociais para manipular informações acerca da realidade das famílias Sem Terras com o intuito de criminalizar, disseminar ódio, confundir e colocar a sociedade contra as organizações populares, no caso o MST do Pará.

Queremos afirmar que a postagem que estão circulando está dentro desta investida da direita raivosa que busca camuflar quem realmente comete crimes ambientais e assassinatos de trabalhadores rurais, indígenas, povos tradicionais, como o que está acontecendo em São Felix do Xingu e Anapú (aonde foi assassinada em 2005 a freira Dorothy Stang) que neste ano de 2015, 7 trabalhadores foram assassinados pelos latifundiários e pelos patrocinadores do Agronegócio e da morte.

A origem duvidosa das fotos mostra quão é frágil essa acusação, onde qualquer apuração mais séria e menos tendenciosa pode atestar a falsidade destas informações. Como seria possível, se em 2012, durante um ato de manifestação ao passar em frente à fazenda em questão (Cedro) os seguranças da fazenda, fortemente armados, atiraram contra os manifestantes deixando 22 pessoas feridas, dentre estas uma criança. Como seria possível, entrar na fazenda para “abater” 20 vacas no interior da sede e nada ter acontecido? Nem mesmo um meio de comunicação ser notificado? Ou a delegacia de conflitos agrários ser acionada?

A fazenda em questão está em processo de negociação e muito seguramente se transformará em Assentamento de Reforma Agrária.

Neste sentido o MST Pará se coloca a disposição da sociedade para contribuir com qualquer possível investigação sobre este acontecimento. Seguimos em luta pela desapropriação da área para fins da Reforma Agrária, e pelo fim do Latifúndio nesse país.

Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!

Coordenação Estadual do MST Pará
Marabá, 2 de dezembro de 2015

 

Os interesses políticos por trás dessa acusação

Há claríssimos interesses políticos do lobby latifundiário – no qual algumas páginas listadas acima se enquadram – e de formadores de opinião reacionários – entre eles, o Francischini, que havia sido o secretário de Segurança Pública corresponsável pela violência policial contra professores no Paraná no começo deste ano – de difamar o MST e lhes atribuir crimes que podem na verdade não ter sido cometidos por membros seus e em seu nome.

Isso ficou extremamente evidente na acusação precipitada da “Pecuária Brasil” e de Francischini contra a organização camponesa. Em momento nenhum, aliás, eles exigem investigação especializada e punição. Preferem, ao invés, ser eles mesmos os juízes e o júri do “julgamento” precipitado.

E é perceptível que estejam incitando seus leitores e o Estado (leia-se atualmente os governos estaduais por meio de suas Polícias Militares) a serem os “executores” da “pena” por esse crime. Intencionam que essa “pena” seja ora a propagação da estigmatização do MST como um movimento de “bárbaros” que não pensam duas vezes em massacrar animais e destruir propriedades por motivos fúteis, ora, finalmente, a ilegalização, criminalização e perseguição política armada contra o movimento.

De um lado, os pecuaristas e demais latifundiários querem se livrar do MST para que não sejam obrigados a aceitar, num futuro ideal, a reforma agrária e a redistribuição justa das terras do meio rural brasileiro e das verbas do governo federal – que atualmente são destinadas 6,5 vezes mais para o agronegócio do que para a agricultura familiar.

Do outro, direitistas radicais, que nada têm a oferecer para a política no Brasil além de ódio, fanatismo e intolerância, também são interessados em difamar e pregar o ódio a movimentos sociais, entre eles o MST. Como são avessos a qualquer ideia genuína de democracia, a atuação desses movimentos lhes é intolerável, por eles ameaçarem o status quo e quererem promover uma quebra de privilégios sem precedentes na história do Brasil.

Assim sendo, não perderão a oportunidade de instigar na população o ódio ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terras e a todos os demais movimentos sociais. Isso mesmo quando o ato de abuso “denunciado” é na verdade ação de infiltrados a mando dos próprios interessados em difamá-los – não sei se é o caso do massacre das vacas em Marabá, e saber isso vai requerer a devida investigação imparcial.

 

Especismo e indignação seletiva

Tem sido muito notado, entre os vegans, que muitas pessoas não veganas ficaram revoltadas com o que aconteceu. Mas tem-se percebido que essa revolta não foi pela violação do direito à vida das vacas mortas, mas sim tanto pelo crime ter sido supostamente cometido “pelo MST” – o que é o bastante para dar vazão a muito ódio político – como pelo ocorrido ter acarretado cenas tão cruéis e bizarras aos olhos do senso comum.

A maioria dos que se indignaram não estão nem aí para a vida dos animais – exceto cães e gatos -, menos ainda para a vida de vacas, que consideram “animais de produção” e “abatíveis” em matadouros. Não hesitam em comer carne de animais que foram mortos, estripados, eviscerados e retalhados nesses locaismuito pior do que as vacas vítimas do crime de Marabá. Nem em tomar leite de vacas que terão esse mesmo destino cruel “padrão” para “virar” carne de segunda.

Esse caso pode servir como um exercício de autopercepção do especismo. Se você se indignou com o caso de Marabá, reflita: por que você não sente a mesma revolta quando bovinos, porcos, aves etc. são mortos com igual requinte de violência para fins de consumo e têm seus cadáveres tratados de maneira ainda mais cruel em abatedouros?

 

Considerações finais

Não nos deixemos enganar, nem induzir a conclusões e acusações precipitadas, perante reacionários militantes, pecuaristas e especistas de indignação seletiva. O que está por trás dessas “denúncias” contra o MST não é nenhum propósito altruísta, tampouco amor aos animais, mas sim ódio ideológico e muitos interesses políticos contra a reforma agrária e os movimentos sociais. Antes de atirar pedras no Movimento dos Sem-Terras, aguarde as investigações chegarem à sua conclusão e apontarem se os criminosos matadores de animais realmente eram sem-terras agindo em nome da organização, ou eram infiltrados a mando de latifundiários que intencionavam difamar o movimento, ou mesmo um crime cometido por motivos de vingança pessoal contra o dono da Fazenda Cedro.

14 comments

    1. Foi uma mancada forte da ANDA ter divulgado essa matéria carimbando no título que “foi o MST” que matou as vacas. E originalmente o portal tinha apagado essa matéria, ou uma similar. Mas já que a ANDA publicou (até o momento em que fiz a postagem, não tinha visto tal matéria lá), editei o post.

    2. A Anda não costuma produzir notícia, muito menos no interior do Pará. Em geral atuam como um clipping de reprodução jornalística. Nada contra, é um serviço essencial. Mas reproduzir notícias de maneira séria inclui, por exemplo, citar a fonte em lugar bem visível e pesquisar/ponderar muito antes de passar adiante relatos nebulosos. Neste caso específico, a Anda não foi séria mesmo.

  1. é robson nem vc e nem o alex conhecem estes vagabudnos do mst vcs lembram o que eles fizeram aqui no parana e estao fazendo ainda na araupel ?
    foram apoiados perlo safado do requiao que ra governador na epoca
    para invadirem a singenta e tudo a singenta nao quie pagar propina ao safado do requiao e vcs sendo os deus da verdade vem falar que é mentira que nao foram integrantes do mst
    duvid que nao foram .

  2. Se você quer ter o direito de comentar por aqui, faça críticas mais decentes e respeitosas do que chamar o texto de “mimimi asqueroso”. Comentário ofensivo e desrespeitoso apagado. RFS

  3. Sou totalmente contra a qualquer movimento que não siga as regras de um estado democrático de direito.A propriedade privada é garantida pela Constituição, portanto quem a invade torna-se um fora da lei e a ele deve ser aplicada as penas da lei. As ações de invasão do MST são ilegais, por isso as repudio.

    1. Sobre a sacralidade da propriedade privada: http://veganagente.consciencia.blog.br/a-acao-direta-na-granja-de-israel-e-o-que-ela-tem-a-ver-com-conviccao-ideologica-de-direita-e-respeito-seletivo-pelos-seres-sencientes/
      (não é um texto sobre matar animais em fazendas, mas sim sobre ser “errado invadir propriedade privada”)

      P.S: Não sei se vc percebeu, mas vc acaba de legitimar que animais não humanos continuem sendo tratados como propriedade privada de humanos.

  4. Isso é padrão do MST, que está buscando o poder pela intimidação e crimes contra os que querem trabalhar direito. Não só nessa região a relatos concretos de vandalismos, assaltos e destruição de patrimônios cometidos pelo MST. Se o movimento fosse legítimo, teriam a decência de mostrar experiências de assentados que transformaram as terras doadas em sustento para suas famílias. Essa deveria ser a bandeira do mst.

  5. Pode buscar uma outra forma, de defender o mst, más dizer que nao cometen vandalismo( no linguajar interno: fazer pressao), e até patético. De duas uma, ou vc nao conhece como sao… ou vc conhece e está tentando convencer ao contrario. Agora até eu fiquei na duvida…rsrsr….
    Bueno … “folha verde” até as senhas internas sao engracadas.

  6. Dá para esclarecer se as vacas se suicidaram e foi um suicídio coletivo ? Ou seja o assunto merece investigação rápida e séria, identificação e punição dos autores, antes que o episódio resulte em acirramento de ânimos e traga violências que como de infeliz hábito faz vítimas principalmente entre os inocentes que nada tinham a ver com o problema.

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