não aos laticínios e ovos

Existe hoje uma polêmica sobre a definição do vegetarianismo. Afinal de contas, o que é ser vegetariano?

O vegetarianismo é a simples abstenção de carne, com seu adepto apenas opcionalmente evitando outros alimentos de origem animal, ou é a eliminação dessa categoria inteira de produtos de suas refeições?

Saiba aqui o que a história ético-moral do vegetarianismo traz como resposta a essa cabeluda dúvida, que tem deixado na defensiva muitos daqueles que se dizem “vegetarianos” enquanto continuam consumindo laticínios, ovos e/ou produtos da apicultura e se recusam a transicionar para o veganismo.

O contexto histórico do vegetarianismo enquanto abstenção especificamente de carne

cartaz Vegetarian Society
Cartaz da Vegetarian Society do Reino Unido. Clique na imagem para lê-la em tamanho completo

Antes de respondermos a essa pergunta, pensemos no histórico do conceito clássico de vegetarianismo. Pensemos no porquê de ele ter recebido essa definição lá no século 19.

Historicamente – desde 1842 – o vegetarianismo tem sido lido como sendo uma alimentação desprovida no mínimo de carne, que pode “eventualmente” retirar outros alimentos de origem animal do prato.

Mas antes de considerar esse conceito como permanente, perceba que existe todo um contexto para essa definição, relativo aos limites dos questionamentos morais de cada época e à dificuldade que havia, antes da modernidade, de se ter uma alimentação sem nada de origem animal.

Havia, no século 19, duas grandes razões para o que, naquela época, viria a ser denominado como vegetarianismo: a convicção moral e a busca da saúde e purificação do corpo e do espírito.

Era comum que religiões como a Igreja Adventista, o hinduísmo e o jainismo focassem em ambas. Por outro lado, a “dieta pitagórica” estava sendo crescentemente vista sob a ótica da segunda razão.

Foi inspirado nessa “alimentação pitagórica”, provedora de saúde e purificação, que foi pensado no vegetarianismo como algo inspirado não na palavra vegetable, mas sim nos termos latinos vegetare (crescer) e vegetus (forte, vigoroso). Portanto, o vegetarianismo tem esses dois sentidos históricos atribuídos a si: o de alimentação vegetal e o de dieta sem carne potencializadora da saúde humana.

É de se pensar que muitos definiam o vegetarianismo a partir de vegetus e vegetare por causa da dificuldade que existia, muito maior do que hoje, em se ter uma alimentação completamente baseada em vegetais e, ocasionalmente, fungos comestíveis.

Era difícil desfrutar, numa dieta apenas com vegetais, dos benefícios de se manter um nível saudável da então desconhecida vitamina B12, mesmo com as plantas mantendo um pouco da B12 do solo ou da água por não serem tão sanitizadas quanto hoje.

Não é à toa que, via de regra, as religiões que defendiam a abstenção de carne aceitavam o consumo de laticíniosmesmo o jainismo, que apenas mais recentemente passou a se atentar para a violência na exploração de mamíferas “leiteiras”.

Ou seja, se o vegetarianismo teve que ser definido como uma alimentação tolerante ao consumo de derivados ovolácteos e apícolas, foi em função de ser praticado numa época muito diferente da atual.

 

A história do vegetarianismo é uma história de evolução ética

motivação de ser vegetariano

Perceba, também, que a história do vegetarianismo também é uma história do avanço da ética do respeito aos animais.

Historicamente, religiões como o hinduísmo, o budismo e o jainismo defendem a abstenção do consumo de carnes e ovos levando em conta o princípio ético-moral da ahimsa, a não violência contra seres sencientes.

Só que a ahimsa das religiões indianas era um conceito um tanto bem-estarista. Afinal, não defendia a abolição do uso de animais como propriedade dos seres humanos – tanto é que até hoje pessoas dessas religiões toleram o consumo de laticínios e mel.

Ou seja, o vegetarianismo religioso da Antiguidade levava em conta justamente esse contexto no qual era muito difícil nutrir-se impecavelmente consumindo apenas vegetais.

Além disso, não havia, naquela época, a atenção que existe hoje à questão de objetificar e se apropriar de outras pessoas (não humanas e também humanas), ou seja, com o quanto é antiético tratar seres sencientes como propriedade de humanos quando não se implica o uso de crueldades explícitas nessa relação. Na Índia das religiões “lactovegetarianas”, mesmo a preocupação ética com a escravização de seres humanos, a promoção de guerras e a igualdade como ideal social não era tão difundida.

De lá para cá, a moral humana vivenciou grandes avanços, como o combate à escravatura de seres humanos, a criação e reconhecimento dos Direitos Humanos e a inclusão da preocupação ambiental na ética humana. É seguindo essa trajetória que o vegetarianismo também tem se transformado.

Ao longo dessa história, também conseguiu-se a segurança de ser um vegetariano saudável sem colocar na boca um grama que seja de alimento de origem animal. Surgiu o questionamento de se tratar animais não humanos como propriedade, por meio do veganismo e da criação do conceito de especismo. E o vegetarianismo tem sido crescentemente visto não mais como um fim em si mesmo, mas sim como um passo na transição para o modo de vida vegano.

Hoje é cada vez mais visto como absurdo uma pessoa que se diz “vegetariana” consumir despreocupadamente e sem remorso laticínios e ovos oriundos da mais pesada crueldade contra vacas e galinhas.

Percebe-se crescentemente que alguém assim tem uma saúde tão prejudicada pelos produtos animais e financia a exploração animal tanto quanto qualquer consumidor de carne. Ou seja, que sua alimentação nem é moralmente preocupada com os animais, nem é realmente saudável e purificadora do corpo e do espírito.

Ou seja, o “vegetarianismo” dessa pessoa não faz nenhum sentido. Se antigamente ser vegetariano era abster-se de carne para se evitar a violência explícita contra os animais não humanos e evitar os maus efeitos desses produtos na saúde, hoje a mesma atenção negativa é dada aos laticínios, ovos e produtos apícolas. Afinal, são tão prejudiciais aos animais e à saúde humana quanto a carne.

 

Ou seja…

Voldemort não é vegetariano

Esse histórico nos faz perceber que o verdadeiro conceito moderno de vegetarianismo, aquele que realmente faz sentido hoje, é o de alimentação livre de todo e qualquer componente de origem animal. O “vegetarianismo” focado apenas em não comer carne é algo de um passado já distante.

Hoje em dia, ao mesmo tempo em que se considera que pessoas que pararam de comer carne mas continuam consumindo outros “alimentos” de origem animal não são mais vegetarianas, tem-se o cuidado de não as considerar meramente onívoras – já que pelo menos não comem mais carne -, mas sim protovegetarianas, uma categoria intermediária entre os indivíduos onívoros e os vegetarianos.

Então, se você ainda acredita que para ser considerado vegetariano basta pelo menos retirar a carne do prato, é hora de atualizar essa percepção de vegetarianismo.

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