5 momentos em que movimentos sociais se revoltaram com mensagens veganas e animalistas impróprias

Afropress denuncia racismo na causa vegana

Trecho de matéria da Afropress, de 2007, que noticiava ação contra um site animalista que comparava o abate de porcos com o Holocausto nazista e cães com focinheira com a Escrava Anastácia

Você já compartilhou, ou mesmo criou, imagens que fazem certas comparações entre a exploração animal e violências históricas sofridas por pessoas?

Se já, foi acreditando que as pessoas iriam se sensibilizar e se colocar na pele dos animais não humanos e dos humanos vítimas de violência?

Então, se você já fez isso, diversos movimentos sociais, no Brasil e no exterior, ligados ou não ao veganismo, têm algo a dizer sobre esse costume. E o que eles dizem pode induzir você a repensar o uso desse tipo de imagem “conscientizadora”.

Conheça cinco momentos em que movimentos como o feminista e o negro consideraram péssima a ideia de comparar o sofrimento animal com as violências que mulheres, negros, judeus e outras categorias sofrem – e protestaram veementemente pelo abandono do uso desse tipo de analogia.

Conheça esses cinco momentos

Tweet racista Vegan Revolution

Tweet racista do perfil “Vegan Revolution”: “Vidas negras importam… mais do que vidas de galinhas e vacas… aparentemente.”

1. ABC Sem Racismo denunciou, em 2007, imagens que comparavam exploração animal com holocausto e escravidão

Em outubro de 2007, a ONG ABC Sem Racismo, do ABC Paulista, denunciou ao Ministério Público um site, hoje fora do ar, que falava do “holocausto animal”, por meio de imagens que comparavam o Holocausto nazista com o abate de porcos e colocavam um desenho da Escrava Anastácia, que se tornou lendária e hoje é venerada por devotos no Brasil e na África, lado a lado com cães com focinheiras.

Noticiou a AfroPress:

“A denúncia está sendo feita pela ONG ABC sem Racismo, que na semana passada (11/10) protocolou representação junto ao Ministério Público de S. Paulo, pedindo a abertura de investigação para apurar os crimes de apologia à escravidão e ao holocausto. A prática pode ser enquadrada como crime de racismo previsto na Lei 7.716/89, com redação dada pela Lei 9.459/97, que pune quem ‘praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional’, e sujeita o infrator a uma pena de reclusão de dois a cinco anos e multa.”

“‘Curiosa, perversa e tétrica a associação subliminar que o Representado [o compartilhador das imagens de comparação] faz associando as imagens de judeus vítimas do holocausto a porcos e de negros a cães. Tais práticas são degradantes e ofensivas à história e ao sentimento de auto-estima da população negra e atentatórias às vítimas do holocausto nazista e suas famílias, bem como aos sobreviventes daqueles crimes, considerados crimes contra a humanidade, e são merecedoras do opróbrio e da vergonha de toda a sociedade brasileira’, diz a representação, assinada pelo presidente da ONG ABC sem Racismo, o jornalista Dojival Vieira.”

 

2. Vegan Feminist Network expõe, em tom de denúncia, uma galeria de imagens misóginas feitas por defensores dos animais e do vegetarianismo

Aviso: a página em questão pode acionar traumas em mulheres vitimas de violência. Se você sofre ao ver imagens do tipo, tenha muita cautela ao abrir a página em questão.

Na página Gallery of Sexist Imagery (Galeria de imagens machistas) do site da Vegan Feminist Network, a autora Corey Lee Wrenn a inicia dizendo (tradução livre):

“Alerta de Conteúdo: exibições de violência física e sexual contra mulheres. INADEQUADO PARA VER NO TRABALHO.

As seguintes imagens, coletadas de noticiários online e espaços ativistas, exibem a sistemática exploração de mulheres sob o propósito de promover campanhas antiespecistas. Embora pessoas de todos os gêneros sejam ativas no movimento (e não humanos de todos os sexos sejam explorados), são desproporcionalmente mulheres que são voluntariadas para encenar violências contra corpos animais não humanos. Há duas razões para esse padrão.

Primeiro, numa sociedade misógina, o público já tem afinidade com imagens de mulheres sofrendo. Segundo, o movimento de direitos dos Animais Não Humanos tem uma longa história de machismo institucionalizado. Evidências científicas não concordam que essa abordagem seja eficaz. Pelo contrário, ela repele o público, aliena potenciais aliados em outros movimentos de justiça social e agrava os níveis epidêmicos de violência contra mulheres e meninas ao redor do mundo.”

Há ali dezenas de imagens mostrando mulheres em sofrimento, sob violências que lembram a exploração animal, além de fotos de pôsteres que hipersexualizam mulheres e até meninas adolescentes. Também há nesse meio imagens machistas que não exibem mulheres, mas trazem frases bastante preconceituosas e discriminatórias.

Se você não tiver problemas de trauma ou sensibilidade em ver imagens machistas, visitar a página em questão é uma oportunidade de se perceber o quanto a comparação entre violências humanas e a exploração animal pode ser mais do que imprópria e tornar-se uma agressão explícita.

 

3. Comparações entre as violências racistas e as especistas são parte de um sério problema do veganismo com raça, segundo o site Media Diversified

Assim denuncia Claire L. Heuchan, na postagem do site Media Diversified intitulada Veganism has a serious race problem (O veganismo tem um sério problema com raça):

“O veganismo tem um sério problema com raça. Digite ‘vegan’ no Google e você não precisará rolar muitas páginas para ver o que eu quero dizer. As rotineiras comparações entre o abuso de animais e a escravização de pessoas negras mostram exatamente quão pouco valor membros brancos da comunidade vegana, geralmente considerada uma cria liberal, atribuem à vida negra. Esse racismo, entregue de maneira tão casual, é feito para adicionar um valor de choque – para acionar uma epifania dietética. Na realidade, a única mensagem que esses materiais de campanha mandam para pessoas negras é essa: o veganismo não é para você.

Uma rápida procura por imagens “veganas” revela fileiras de pessoas brancas amordaçadas, acorrentadas e agrilhoadas de modo a transmitir uma mensagem. No Pinterest, moças brancas entusiasmadas uma atrás da outra exibem um pôster mesclando veganismo com política antirracista. Ativistas veganos vão ao Twitter questionar se vidas negras – vidas humanas negras – são tão significantes quanto as vidas de vacas e galinhas. Um ativista vegano branco levou o #AllLivesMatter [Todas as Vidas Importam] para um nível inteiramente novo.

O material designado para provocar uma audiência branca é também propenso a alienar uma audiência negra. Por usar a escravidão como uma ferramenta de promover valores veganos, ativistas veganos deixam claro que espaços veganos são frequentemente espaços racistas. Assim como geralmente é o caso em espaços predominantemente brancos onde o racismo segue despercebido, há pouco espaço para pessoas não brancas. Essa marginalização resulta na percepção de que o veganismo é um movimento feito por e para pessoas brancas, o que certamente não é o caso.”

 

4. Ravishly: “Igualar o sofrimento de pessoas não brancas ao de animais (ou considerá-lo ainda menos trágico do que o animal) era a essência filosófica e legal da escravidão”

Uma autora não identificada escreveu, para o site Ravishly, um artigo que denuncia a tendência racista e até supremacista branca de boa parte do movimento animalista ocidental. Escancarou, como exemplo, as trapalhadas do perfil do Twitter Vegan Revolution e da PETA, figura carimbada em violações de Direitos Humanos.

Denunciou que é comum a PETA fazer intervenções de rua promovendo comparações explícitas entre a violência racista sofrida por pessoas negras – desde séculos atrás até hoje – e a exploração animal. A entidade compara, por exemplo, o abate de animais na pecuária com o linchamento de pessoas negras, e a exploração de cães em canis e exposições da Ku-Klux Klan. E chegou ao ponto de chantagear famílias negras na cidade estadunidense de Detroit prometendo pagar suas contas de água sob a condição de que parassem de comer (especificamente) carne.

E a própria autora tomou um abuso tão grande do racismo, machismo e gordofobia do movimento animalista de seu país que desistiu do vegetarianismo. Pensou o quanto pessoas como ela não são bem vindas no meio vegano de lá.

 

5. Ashitha Nagesh, no Independent, demanda que veganos brancos parem de comparar a exploração animal com a escravidão humana

Ashitha Nagesh, vegana desde o final de 2011, afirma que é OK dizer que a exploração animal é uma forma de escravidão e defender que a vida animal é moralmente igual à vida humana, desde que não se promova as infames analogias. Diz ela em seu artigo:

“Entretanto, há um limite moral no quão longe você pode levar esse argumento. Ou mais especificamente, aonde você pode levá-lo. Não importa o quão forte seja seu sentimento sobre os direitos dos animais, ainda assim é muito errado usar imagens da escravidão de outras pessoas para sustentar seu ponto. Não é porque seria ofensivo comparar um humano com uma vaca – o ponto central do veganismo é que os animais são iguais aos humanos, no fim das contas -, mas é enormemente ofensivo e insensível cooptar a história de brutal opressão de outro grupo.

E além de ofender pessoas, o que os veganos por trás dessas imagens pensam que estão conseguindo ao fazer tais comparações? O veganismo é um processo longo e difícil. Eu fui afortunada em ter tido um início [de transição ao veganismo] favorável já sendo uma [proto]vegetariana. Mas a carne é uma parte imensa de muitas culturas e religiões e é muito difícil se mover para longe disso. Para qualquer um que pense em mudar seus hábitos alimentares, não vai ajudar se virem veganos circulando tais memes com comparações envolvendo linchamentos [de pessoas negras]. E também, não importa o quanto você discorda da indústria lacto-frigorífica, é importante ter em mente que comparar negros escravizados só vai insultar e magoar um montão de pessoas.”

 

Considerações finais

Diga não a comparações irresponsáveis

É um fato que não se pode negar: usar imagens que comparam momentos abomináveis da história humana – ou mesmo o racismo e a misoginia do presente – com cenas de exploração animal é uma péssima estratégia de se tentar despertar a consciência das pessoas. Uma das piores, ao lado das campanhas da PETA e da atitude de xingar e discriminar não veganos.

Muitas pessoas se sentem desumanizadas e moralmente inferiorizadas diante dessas campanhas, por mais que a intenção destas seja nivelar por cima a consideração moral de humanos e não humanos. E assim, são repelidas da possibilidade de aderir ao veganismo, ou mesmo se tornam opositoras assumidas do modo de vida vegano e do movimento que o defende.

Essa é uma lição muito importante para quem tem o costume de compartilhar imagens de comparação como a que eu respondo nesse outro artigo. Sejamos inteligentes e racionais ao promovermos o veganismo, e evitemos fazer o que simplesmente nos der na telha sem considerar as violências, sensibilidades e particularidades históricas das categorias das pessoas com quem queremos falar.

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Robson Fernando de Souza

Autor dos blogs Consciencia.blog.br e Veganagente e do livro Veganismo: as muitas razões para uma vida mais ética. Formado em Licenciatura em Ciências Sociais (UFPE, 2016) e Tecnologia em Gestão Ambiental (IFPE, 2008). Adora Sociologia, meio ambiente, Direitos Animais & Veganismo e autoajuda.
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4 Comments on “5 momentos em que movimentos sociais se revoltaram com mensagens veganas e animalistas impróprias

    • Acredite, Danil, é ainda pior que do que vc acredita já hoje. Tenho um artigo na fila (só que, no momento, tem baixa prioridade) que menciona 20 podres dessa ong, e o quanto ela é uma ameaça, não uma aliada, à luta pelos Direitos Animais.

  1. Confesso que já compartilhei tais imagens, mas não o farei mais. Eu não sabia que podia ser ofensivo para essas pessoas, nem que podia afastar gente do veganismo. A partir de agora, tomarei mais cuidado com o que compartilho.

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