mitos-desmontados

Índice dos mitos antiveg(etari)anos desmontados

1. Se o vegetarianismo crescer mais, a população bovina, suína, ovina, caprina, galinácea etc. vai crescer descontroladamente e vai causar um desequilíbrio ecológico fora de controle.

Essa afirmação só seria verdadeira se fosse possível tornar toda a humanidade, ou a maioria dela, vegetariana ou vegana instantaneamente ou em pouquíssimo tempo. Mas é sabido que uma transformação generalizada a curto prazo é impossível e ilógica. O vegetarianismo vem crescendo e sempre crescerá de forma gradual, ainda que o esteja em propagação mais rápida do que no século 20.

A reprodução de animais explorados na pecuária é geralmente induzida por incitação ao acasalamento ou inseminação artificial, de modo que as fêmeas “forneçam” animais o bastante para se atender à demanda local, regional, nacional ou global por alimentos de origem animal. Assim sendo, o crescimento gradual do vegetarianismo diminuirá essa demanda. Com menos consumidores, os pecuaristas serão forçados a criar menos e menos animais e assim diminuir a frequência das reproduções. Caso o vegetarianismo nunca pare de crescer, a população animal será reduzida mais e mais de modo que, no ponto em que a pecuária for sendo abandonada por não ser mais uma atividade lucrativa ou acabar proibida por lei, os poucos animais cativos restantes à época serão movidos para santuários e, de tão diminuta sua população, não representarão mais risco ao meio ambiente.

 

2. Se o vegetarianismo crescer muito nos próximos anos, não vai haver mais terra suficiente para plantar o que vegetarianos comem.

A realidade é exatamente o contrário: se a pecuária crescer mais ainda nas próximas décadas como está previsto, haverá risco de escassez de terras e suplantação de mais áreas de ecossistemas virgens pela expansão das fronteiras agrícolas. É fato que a exploração animal para fins alimentares promove um enorme desperdício de terras, alimentos vegetais e água. Se (ou quando) a pecuária entrar em declínio por causa do crescimento do veg(etari)anismo, cada vez menos terras serão necessárias para criar animais de forma extensiva ou fornecer forragem para criações intensivas ou semiextensivas. As plantações que hoje dedicam uma enorme parte de sua produção para a alimentação animal serão desoneradas e poderão dedicar mais e mais de seus cultivos para a alimentação humana. E a terra ociosa, outrora ocupada com pastos ou áreas excedentes de plantação, poderá ser parcialmente reflorestada caso possível.

Em suma, o vegetarianismo tende a estabilizar ou mesmo diminuir a demanda global por terras aráveis, em vez de aumentá-la, já que aproveitará plantações e terras que antes a pecuária ocupava e desperdiçava.

 

3. Hoje as florestas são destruídas para dar lugar a pastos. Se o veganismo triunfar, veremos as florestas sendo derrubadas para dar lugar a plantações.

Isso é improvável de acontecer, porque a abolição da pecuária implicará necessariamente a desoneração de grande parte, senão a maioria, da produção agrícola. Abolida tal atividade, por exemplo, grande parte dos 70-80% da soja e do milho atualmente destinados à alimentação animal passará a ser dedicada ao consumo humano – ou então parte dessas plantações será substituída por culturas de outros alimentos ou mesmo desocupada para reflorestamento. Será desnecessário desmatar para produzir alimentos para uma humanidade vegetariana, porque os novos vegetarianos não serão nem mesmo numericamente suficientes, mesmo tão numerosos, para substituir totalmente a pecuária como demandantes da produção agrícola global.

 

4. A soja que os vegetarianos comem em forma de derivados está destruindo a Amazônia.

O relatório Comendo a Amazônia do Greenpeace nos mostra que cerca de 80% de toda a soja plantada pelo mundo, inclusive na Amazônia Legal, são destinados à alimentação dos rebanhos da pecuária semiextensiva e intensiva. O maior parte do restante é direcionada à produção de óleo de soja e biocombustível, sendo uma pequena minoria destinada à produção de derivados como a proteína texturizada, o extrato (“leite”) de soja e o tofu. Lembremo-nos de que, à exceção da proteína texturizada de soja, já disponível a preços cômodos, e talvez do tofu, com preço próximo de muitos queijos animais comuns, os demais derivados de soja ainda são substancialmente caros hoje em dia, o que provavelmente indica baixa oferta do grão para a produção de derivados.

 

5. A agricultura que provê alimento aos vegetarianos causa tanto estrago ao meio ambiente quanto a pecuária.

Isso é uma inverdade, porque a agricultura como um todo não tem o mesmo impacto ambiental da pecuária, seja pela emissão de poluentes e gases-estufa, seja pelo desmatamento, seja pelo gasto de água e terras. Um exemplo clássico é a soja, mencionada no mito anterior. E outra evidência disso é o relatório Terraclass do INPE. Além do mais, grande parte da agricultura atual está comprometida em fornecer forragem justamente à pecuária, o que torna o impacto ambiental da agricultura de consumo humano apenas uma fração em comparação à soma dos impactos diretos e indiretos da pecuária.

 

6. Se o gado contribui para as mudanças climáticas emitindo metano, o melhor a se fazer é comer os bois e as vacas.

Essa crença não leva em conta que os bovinos só nascem e passam entre dois e quatro anos (até nove anos no caso das vacas ditas “leiteiras”) emitindo metano por arrotos, flatulências e emanações gasosas de suas fezes porque há pessoas que vão comer suas carnes. Que o único propósito de sua existência – claramente extrínseco e adverso à sua natureza biológica – é ser escravizado para fornecer carne, leite e outros subprodutos de seus corpos. É justamente o consumo de carne e laticínios que incentiva a reprodução, a vinda à existência de mais cabeças de gado e a consequente continuidade da emissão de metano. Ou seja, comer carne faz a pecuária emitir cada vez mais metano, e não diminuir sua emissão.

Tal afirmação também ignora que o impacto ambiental atmosférico da pecuária bovina vai muito além da emissão de metano. Envolve também a redução da capacidade da Terra de absorver carbono, por via do desmatamento, e a emissão de óxido nitroso.

 

7. O maior problema ambiental da bovinocultura são as flatulências e arrotos dos animais, não é algo tão sério assim.

Como diz a frase popular, o buraco é mais embaixo. A emissão de metano por meio das flatulências, arrotos e emanações de gases fecais dos animais de rebanho é apenas uma parcela de toda a problemática ambiental da pecuária. Há, além da emanação de metano, o desmatamento para abertura de pastos e de plantações majoritariamente dedicadas à produção de forragem animal, a poluição causada por dejetos de criações intensivas, a degradação do solo em pastos, a mortandade de animais aquáticos em função da poluição, entre outros problema.

E mesmo a emissão de metano isoladamente considerada não é um problema pequeno: segundo o relatório da FAO Pollution from industrializes livestock production, em 2005 a pecuária foi responsável pela exalação de 90 milhões de toneladas do gás à atmosfera, cerca de 16% de toda a emissão antrópica mundial desse gás-estufa.

 

8. Abater os animais mais cedo é uma grande solução para diminuir a emissão de gases-estufa causada pela pecuária.

Não é o que se vê atualmente. Nas últimas décadas, tem-se diminuído a idade de abate de muitos animais ditos “de corte”, mas nem por isso a emissão de gases-estufa pela pecuária diminuiu. A rotatividade de plantéis nas criações acaba fazendo com que tal emissão não diminua, uma vez que faz a população dos rebanhos só crescer a cada ano à medida em que o próprio negócio pecuário se expande.

E mesmo se realmente diminuísse a exalação de gases-estufa, a diminuição da idade de abate tem o peso ético do enrijecimento da escravidão e da negação ainda mais estrita do direito de viver a esses animais.

 

9. A pesca é essencial para evitar uma superpopulação de animais nos mares, rios e lagos do planeta.

Essa afirmação, incomum mas possivelmente já usada por alguém, é absurda, porque a pesca pelo ser humano só vem de milênios atrás, enquanto os peixes, crustáceos e moluscos habitam as águas da Terra há centenas de milhões de anos. É impensável que tenha havido um desequilíbrio ecológico por todo esse tempo até que a “heroica” pesca salvasse a vida aquática. O que vem acontecendo é exatamente o contrário: a pesca é que vem causando desequilíbrio ecológico e ameaça de extinções em massa depois de várias eras geológicas de equilíbrio, à parte os episódios catastróficos naturais de extinção massiva.

 

10. Não é necessário parar de comer carne e outros produtos de origem animal para salvar o meio ambiente. Uma gestão ambiental competente é tudo o que precisamos para tornar a pecuária e a pesca atividades sustentáveis.

A gestão ambiental, caso intencione respeitar a crescente demanda por carnes, não será capaz de recuperar ou diminuir significativamente o percentual de 30% das terras emersas que a pecuária ocupa. Não irá diminuir a enorme demanda existente para carnes terrestres e aquáticas de modo a tornar a pecuária e a pesca atividades sustentáveis. Não poderá fazer muito para diminuir a níveis razoáveis a gigantesca demanda da pecuária e da indústria frigorífica por água – embora possa promover, por exemplo, o reuso da água ou o aproveitamento de fontes locais de água. É improvável que seja capaz de diminuir suficientemente a emissão de gases-estufa pelos rebanhos e prevenir outros impactos ambientais intrínsecos às atividades pecuárias e pesqueiras.

E também importante: a gestão ambiental pecuarista não poderá tirar da pecuária sua essencial necessidade de tratar animais como escravos e lhes manter o jugo como propriedade humana.

 

11. O vegetarianismo não é uma boa ação para se preservar o meio ambiente, porque o veg(etari)ano continua gastando energia e água desnecessariamente e não separando o lixo.

A afirmação acima é uma falácia non sequitur, já que a conclusão, sobre o vegetarianismo supostamente não ser uma boa ação, em nada tem a ver com a premissa, de que o veg(etari)ano não pratica outras ações individuais domésticas. O veganismo em si não tem nenhum laço de dependência com práticas ecológicas individuais como economizar água e energia elétrica e separar o lixo.

Aliás, mesmo que o indivíduo veg(etari)ano não costume tomar outras providências por desleixo ou por falta de condições (no caso da separação do lixo, quando não há coleta seletiva na localidade), sua alimentação contribui muito mais do que se pensa no senso comum para a preservação ambiental. Ajuda a evitar os enormes impactos ambientais da pecuária e da pesca. Em outras palavras, mesmo que esteja longe da pegada ecológica ideal, um vegetariano que não se esforça para economizar água e energia e separar o lixo ainda assim é bem mais próximo da sustentabilidade do que um onívoro que não pratica essas outras ações. O que não quer dizer, porém, que o indivíduo possa se conformar em apenas ser vegano enquanto negligencia outras práticas possíveis.

6 comments

  1. Alternativas sustentáveis, existem, segundo a USP:
    “A integração lavoura-pecuária é uma técnica, também conhecida como rotação de culturas anuais com pastagens, em que os produtores utilizam a terra tanto para a produção animal como a vegetal, realizando um revezamento de acordo com a época do ano. Entre os benefícios encontrados na implantação da técnica estão: o aumento na renda, melhora da situação do solo, melhor aproveitamento do maquinário, além de aumento da necessidade de mão-de-obra, gerando mais empregos locais.”

    “A integração lavoura-pecuária é uma forma mais sustentável de produção e várias organizações não-governamentais [ONGs] são favoráveis ao seu uso”.

    Fonte: http://www.usp.br/agen/?p=141604

    O Governo Federal, por meio do Ministério da Agricultura, defende a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF):
    “A integração também reduz o uso de agroquímicos, a abertura de novas áreas para fins agropecuários e o passivo ambiental. Possibilita, ao mesmo tempo, o aumento da biodiversidade e do controle dos processos erosivos com a manutenção da cobertura do solo. Aliada a práticas conservacionistas, como o plantio direto, se constitui em uma alternativa econômica e sustentável para elevar a produtividade de áreas degradadas.”

  2. Pesquisei, a resposta que achei é que, embora ainda precise de investimento, pode ser sim:
    “Não se trata de algo a ser utilizado apenas por pequenas propriedades”, diz o docente, ressaltando que “são necessários investimento e conhecimento técnico para que produções em maior escala tornem-se viáveis e rentáveis”.

    1. O que você disse é sim um método bom e viável, mas não implica que precise produzir carne. Pode produzir somente laticínios e derivados ou simplesmente ter função de manutenção (o que ainda é bom pois as espécies “de corte” não são aptas a sobreviverem em habitats naturais, e isso fará com que elas sejam preservadas, tenham sua população controlada, ajudem na produção de alimentos e ainda forneçam um excedente de derivados. Isso sim seria uma relação benéfica para ambos humanos quanto animais.)

  3. E , sobre cadeia alimentar, os fitoplânctons e o que pode causar eutrofização das águas? Os fitoplânctons são quem mais produzem oxigênio o qual no mundo há 70% de água. . Basta pensar. .

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