mitos-desmontados

Índice dos mitos antiveg(etari)anos desmontados

1. Veganismo é coisa de quem não tem o que fazer.

Dentre todos os mitos, esse é o mais ofensivo e o que menos deve ser levado a sério. Assim como qualquer pessoa, vegetarianos e veganos trabalham e estudam. Uma grande parte deles, é importante frisar, é engajada no ativismo de defesa animal – e/ou em filantropia humanitária – e é capaz de sacrificar muito de seu tempo livre em causas que certamente são muito mais nobres do que o que é defendido pela afirmação de que veg(etari)anos “não têm o que fazer” e pela pessoa que a fala.

 

2. Veganos adoram julgar e criticar os onívoros e lhes pregar a “palavra da alface”. Sua conduta social não é inspiradora, pelo contrário.

Vegetarianos e veganos que se comportam mal diante de onívoros existem e infelizmente são muitos, mas não devem ser generalizados, não correspondem a todos os vegetarianos e veganos. Não é o veganismo em si que leva a atitudes de julgamento, crítica e pregação impertinente, mas sim a incapacidade da própria pessoa de ser tolerante e paciente e sua falta de habilidade de transmitir os ensinamentos pró-veganismo de forma conveniente e adequada.

Aliás, é de se relevar que os próprios vege(tari)anos também sofrem bastante com julgamentos, críticas – mesmo quando estas são infundadas – e provocações. Poucos são aqueles veg(etari)anos que nunca sofreram, por causa de sua escolha alimentar, críticas, desdém ou insistências para voltar a comer carne e outros alimentos animais por parte de algum conhecido, amigo ou parente.

 

3. O veganismo parece mais uma religião.

Muitos veem o veganismo como algo análogo a uma religião que impõe dogmas e normas morais rígidas e exige a prática do proselitismo. Mas há diferenças essenciais entre o veganismo e os diversos tipos de religião, como a inexistência de uma teologia, de uma mitologia e de elementos sobrenaturais.

Quanto à pregação e às normas morais, deve-se deixar claro que o veganismo não inclui por definição o proselitismo, pelo qual se deveria persuadir a todo custo outras pessoas a se tornarem veganas, nem uma normativa moral baseada em recompensas e punições. Aquilo que se confunde com pregação vegetariana muitas vezes consiste em nada além de transmitir uma nova visão ética de mundo, apontar as falhas e contradições do pensamento carnista e fazer com que as pessoas decidam por si sós se ou quando irão se tornar veg(etari)anas, respeitando-se sua vontade e a espontaneidade de sua consciência. E o mais importante: o veganismo não é motivado pela expectativa de recompensas ou pelo temor de punições, mas sim pela própria convicção ética de que comer animais implica consequências destrutivas evitáveis e por isso é considerado errado.

Mas curiosamente o veganismo, mesmo não sendo em si uma religião, tem um ponto em comum com as religiões: defende que não devemos fazer aos outros o que não queremos para nós.

 

4. Veganismo é coisa de hippie e bicho-grilo.

Ainda que tenha em comum com os hippies e as pessoas adotantes de um estilo de vida espiritualista a preocupação com o desenvolvimento de uma cultura de paz e de respeito aos diferentes, o veganismo não determina comportamentos culturais. Entre os vegetarianos, existem muitos ateus, cristãos, hindus, budistas, muita gente que gosta do estilo de vida urbano, muitos punks – com destaque ao movimento Straight Edge –, muitos, mauricinhos e patricinhas… Existem pessoas dos mais variados estilos e tribos urbanas no vegetarianismo.

 

 

5. O veganismo é uma moda e vai perder força em breve.

Realmente muitos são adeptos do vegetarianismo como se fosse “a moda do momento”, interpretando-o como uma tendência ligada à saúde e/ou uma espécie de “ambientalismo fashion”. Mas isso não quer dizer que o vegetarianismo e o veganismo só estejam crescendo hoje por ser uma moda. Muitos dos aderentes da alimentação sem animais o fizeram por legítima consciência ética, tendo o aprimoramento da saúde e a preocupação ambiental como consequências, não por mero comportamento maria-vai-com-as-outras.

Além disso, um vegetariano modista costuma deixar de sê-lo em pouco tempo, visto que há muitos obstáculos e inconvenientes sociais que apenas vegetarianos sérios e veganos são capazes de enfrentar, superar e contribuir para diminuírem. É provável que o vegetarianismo-moda irá decair com o tempo, tal como qualquer outra tendência de momento, e dar lugar ao crescimento integral do veganismo propriamente dito.

 

6. Sendo vegano, vou acabar me vendo obrigado a adotar um estilo de vida hippie ou zen-budista. Não é minha praia.

Como citado anteriormente, o veganismo não é atrelado a estilos de vida específicos. Alguém pode muito bem ser vegano e continuar com o estilo de vida que sempre teve. Não é obrigado a virar hippie ou zen por causa da alimentação.

 

7. Não faz mal eu oferecer uma galinha ou um fruto-do-mar para um vegetariano, ele pode comer essas coisas – só não come carne (vermelha).

O vegetariano recusa o consumo de qualquer tipo de carne, qualquer alimento que envolva animais mortos. Se alguém lhe oferecer carne branca (peixe, frango ou outros) acreditando que vegetarianos comem carne branca, irá chateá-lo ou mesmo ofendê-lo. O mesmo se aplica aos veganos.

 

8. Como o vegetariano se define por não comer carne, posso oferecer-lhe, sem problemas, um bolo ou doce que leva leite e ovos.

Não é recomendável – inclusive é eticamente duvidoso – oferecer derivados de origem animal a um vegano ou mesmo a um vegetariano. Ainda que um vegetariano não vegano possa eventualmente aceitar um alimento que contenha ingredientes de origem ovoláctea ou apícola, essa não é uma ação razoável. Não se deve mal acostumar vegetarianos a continuarem consumindo alimentos de origem animal, mesmo que não haja outro alimento a ser oferecido naquele momento.

 

9. O veganismo não é bom, porque atenta contra a liberdade dietética.

Na verdade não existe, nem nunca existiu, uma liberdade dietética absoluta para a humanidade, mesmo nas dietas mais onívoras. Tanto por motivos biológicos – por exemplo, o ser humano não pode comer carniça podre, fungos venenosos e formigas vivas nem beber água de pântano ou lava de vulcão – como por motivos morais e/ou culturais – como no não consumo de carne humana, carne de cachorro ou ovos de papagaio. Mesmo o onivorismo brasileiro não permite uma liberdade dietética verdadeira – pelo contrário, de vez em quando ela reforça, via costumes e coerção sociocultural sutil, que “devemos” consumir alimentos como carne bovina, arroz misturado com feijão, leite de vaca e cerveja.

O veganismo não atenta contra a liberdade dietética porque ela simplesmente não existe. Ele veda sim a liberdade de se consumir alimentos de origem animal, por levar em conta que liberdades individuais não estão acima dos direitos de outrem – como os direitos dos seres sencientes de não serem tratados como propriedade e não serem mortos desnecessariamente pelos humanos.

Deve-se deixar claro também que o vegano não deixa de comer alimentos de origem animal por causa de coerção externa que lhe proíbe o consumo de tais alimentos sob pena de punição, mas sim por sua própria consciência, por sua própria convicção moral de que comer animais e suas secreções é errado.

 

10. O veganismo é uma imposição à população. Os veganos estão obrigando as pessoas a não comerem mais carne, leite e ovos.

Embora alguns veg(etari)anos, ao divulgarem a alimentação vegetariana, usem indevidamente de uma linguagem de tom impositivo, de modo a constranger e/ou culpar os onívoros a quem falam e lhes deixar entender que “têm que virar veg(etari)anos logo”, ninguém atualmente tem o poder de impor por vias legais o veganismo, de realmente obrigar, sob pena de alguma punição, os onívoros brasileiros a pararem de comer carnes.

O que deixa os carnistas a entender que a divulgação vegana seria uma imposição é a forma como alguns militantes os abordam e divulgam as razões da alimentação vegetariana, por diversos aspectos dessa forma de abordagem. A adoção generalizada de uma forma compreensiva, dialética e cordial de educação informal pró-vegana e o abandono da postura impositiva irão fazer as pessoas deixarem de ver os veganos como “impositores” de sua alimentação.

Saiba mais assistindo a esse vídeo e lendo esse texto

 

11. O vegano é antissocial, não pode frequentar churrascos, rodízios de pizza, feijoadas, quaisquer eventos de confraternização centrados na alimentação.

O vegano é livre para ir aonde quiser. Não há uma norma que o proíba de ir aos lugares onde o churrasco de seus amigos ou o rodízio de pizza da família está sendo realizado. Ele só não desejará comer o que está sendo oferecido. Poderá, se quiser, levar comida pronta de casa. Mas provavelmente irá sentir uma boa dose de chateação e constrangimento, por estar diante de um evento que só está acontecendo porque animais ou foram explorados para terem suas carnes ou ovos extraídos, fornecidos e comprados, ou foram obrigados a fornecer o leite que compõe o queijo das pizzas.

A decisão – a saber, voluntária – de muitos veganos de não frequentarem eventos centrados em alimentos de origem animal também é motivada pelas muitas chateações vivenciadas nessas ocasiões: a falta de alimentos veganos; as provocações vindas de colegas, envolvendo piadinhas carnistas e tentações maliciosas; sabatinas com perguntas invariáveis (“Você não come nada mesmo?”, “Não come nem frango?”, “Não come nem peixe?” etc.); críticas carnistas infundadas, que exigem do vegano uma postura defensiva e não mais de entretenimento; entre outros acontecimentos infelizes.

 

12. Aderir ao veganismo é um grande sacrifício do prazer de comer. Os veganos sofrem de saudade e tentação de comer carne e guloseimas à base de ovos e laticínios.

Mesmo se for considerado que muitos veganos gostavam de carne, laticínios e ovos antes de sua mudança e tiveram que empreender algum esforço para abandonar o consumo de animais, isso não significa que o abandono desses alimentos foi um tremendo sacrifício. Banir um alimento gostoso de seu prato é de certa forma um fardo naquele momento, mas não algo sofrido e lamentado como se imagina na crença carnista.

Para os vegetarianos e veganos que adotam a não exploração animal como filosofia de consumo, a consciência do respeito aos animais, sejam eles tanto os não humanos vitimados pela pecuária e pela pesca como os humanos explorados em fazendas, frigoríficos e matadouros, supera por completo a eventual saudade do sabor da carne. Pesa-lhes muito mais o fato de que a carne é um produto de atividade antiética e exploratória do que o seu mero saborear. Consegue-se assim, em não muito tempo, naturalizar psicologicamente a decisão de não comer nada de origem animal, não importa o quanto outras pessoas tentem e provoquem, e também a repulsa e o nojo a elas, tornando-as simbolicamente não alimentos.

Isso sem falar na mudança da imagem mental da carne: de um alimento delicioso e suculento a um pedaço semipútrido de animal morto, esfolado e esquartejado. O mesmo se aplica aos laticínios, ovos e alimentos compostos que os têm como ingredientes: toma-se-lhes uma imagem mental de não alimentos carregados de impurezas (como pus, hormônios, gordura visível e salmonelas) e frutos de violência e sofrimento animal (vide procedimentos como aprisionamento de aves, extermínio de pintinhos machos e roubo de filhotes das mamíferas).

 

13. O veganismo exige muita abnegação, por isso é inviável acreditar que vá se tornar maioria no futuro.

Atualmente os veganos vivem encarando dificuldades sociais e lutando contra elas. Mas, dependendo da luta dos próprios veganos e de como eles associam o veganismo com outras formas de luta pelos Direitos Animais, isso não só não é permanente como vem gradativamente diminuindo ao longo dos últimos anos.

A diminuição das dificuldades em ser vegano na sociedade atual deverá diminuir ainda mais tão logo os veganos se engajem em mobilização política, por exemplo, pela inclusão obrigatória em rótulos e embalagens das informações “Essa empresa faz/não faz testes em animais” e “Contém/não contém ingredientes de origem animal”. E também as próprias qualidades de nicho de mercado crescente e ameaçadores de imagem institucional de empresas antiéticas fazem e farão os veganos, cedo ou tarde, serem visados por parte das empresas, que verão como vantajoso ou institucionalmente necessário abandonar práticas industriais de mancomunação com a exploração animal.

O veganismo realmente envolve abrir mão de alguns usos e costumes – como o próprio consumo de alimentos de origem animal, o uso de qualquer produto à venda no mercado e a oportunidade de comer fora em 95% dos restaurantes existentes –, mas isso não será uma constante para o futuro, e isso depende dos próprios veganos, que devem se associar em mobilização. As dificuldades não são motivos para desistir de ser vegano, mas sim para lutar ainda mais pelo respeito aos veganos.

 

14. Como carne porque eu assim escolhi. Eu é que escolho se quero virar vegetariano ou não.

Na verdade o consumo de animais não é tanto um fruto de livre arbítrio assim como os carnistas acreditam. O seu surgimento para cada indivíduo, com raras exceções de ex-vegetarianos filhos de pais vegetarianos, foi lá na infância, com os pais lhe impondo e lhe naturalizando o consumo de carne e outros derivados animais. A naturalização dos filhos pequenos ao onivorismo geralmente se dá explicando de forma rodeada ou “mitológica”, para aplacar a curiosidade das crianças, como a carne surgiu enquanto carne, o leite foi extraído e chegou até a mesa de casa e os ovos foram postos e disponibilizados à alimentação humana. Também é frequente muitos pais carnistas ameaçarem filhos de castigos, físicos ou não, se não consumirem carne e leite. Seria muito difícil que uma criança continuasse comendo carne e mesmo leite e ovos à vontade se seus pais revelassem todo aquele processo pecuário que envolve escravidão, separação de mães e filhotes, mutilações, confinamento (em criações intensivas) e abate sangrento.

Já a manutenção do indivíduo no consumo de alimentos de origem animal também em nada lembra a livre vontade própria. Consiste nas apologias por parte da mídia e na coerção social sutil, que se expressa pelos tantos eventos festivos centrados em alimentos de origem animal, pela negligência de opções alimentares sem animais em estabelecimentos alimentícios e nas casas e pelas “ameaças” proferidas por nutricionistas carnistas que não conhecem o suficiente a alimentação vegetariana contra quem pensa em parar de comer carne. Sem o contato prévio com vegetarianos e veganos, é quase impossível enxergar vida humana fora do consumo de alimentos de origem animal.

Isso leva à conclusão de que obedecer ao carnismo não é realmente uma escolha do indivíduo. Nem mesmo o é de verdade nas primeiras vezes em que é exposto aos argumentos pró-vegetarianos, aos quais adquire de imediato uma resistência e se nega a fazer uma análise e comparação honestas entre o carnismo e o vegetarianismo. Assim sendo, não dá para dizer que a pessoa escolhe livremente continuar onívora, visto que está visceralmente apegada a toda uma tradição e vida social baseadas na alimentação onívora e não se empenhou em conhecer de verdade o veg(etari)anismo.

Uma escolha realmente racional, que demora semanas, meses ou anos depois do primeiro contato com os argumentos veganos, procurará engajadamente pelos prós, contras e contradições de cada um. E nisso o vegetarianismo, seguido do veganismo, acabará sendo visto como uma opção mais racionalizada e menos contraditória.

Saiba mais assistindo a este vídeo e lendo este texto

 

15. É uma catequização desnecessária induzir os filhos pequenos a serem vegetarianos e impor-lhes essa alimentação.

Em primeiro lugar, até certa idade, uma opção alimentar acaba tendo que ser imposta à criança, seja ela vegetariana estrita, não estrita ou onívora. Porque ela sozinha não pode escolher que alimentação quer, por não ter discernimento nem tampouco noções de Nutrição. Isso é fato para qualquer alimentação: toda ela acabará sendo uma imposição às crianças pequenas. Isso torna sem sentido acusar apenas os pais veg(etari)anos de impositores.

Em segundo, à medida em que a criança cresce, os pais veg(etari)anos educam-na para respeitar os animais de formas mais variadas e coerentes do que a maioria dos onívoros ensina. E isso inclui a alimentação: a certo ponto da vida da criança, seus pais revelam por que não a deixaram comer carne em nenhum momento de sua vida. Racionalizam a outrora imposta alimentação, transformando-a em convicção ético-alimentar. Criam alguém que respeita os animais não humanos desde o berço e estende esse respeito à alimentação.

Algo mais que torna muito incoerente a acusação de “catequização” e imposição vinda dos carnistas contra pais veg(etari)anos é que a indução das crianças a uma alimentação onívora é muitas vezes, como foi afirmado no comentário ao mito anterior, baseada justamente em dogmas míticos mal explicados – “Os animais nasceram para nos servir”, “O ser humano precisa de carne”, “O leite vem do supermercado”, “Precisamos matar animais para sobreviver” etc. – e/ou em coerção movida por preconceito e/ou ameaça – “Se não comer carne, vai apanhar!”, “Vai ficar com anemia se não comer carne”, “Se não tomar leite, vai pegar descalcificação óssea” etc. E os mesmos carnistas que criticam os pais veg(etari)anos não criticam os pais carnistas que incidem em tais práticas coercitivas.

Leia também este artigo, questionando as acusações de imposição

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