mitos-desmontados

Índice dos mitos antiveg(etari)anos desmontados

1. Alimentação e ética não têm nada a ver uma com a outra.

O abolicionismo animal e a observação dos impactos ambientais da pecuária e da pesca mostram, com abundância de provas documentadas, que alimentação e ética cruzam-se numa vasta interseção. A alimentação onívora implica consequências severas a inúmeros pacientes morais, incluídos animais não humanos, o meio ambiente como um todo e os próprios seres humanos – no caso dos últimos, diretamente, vide exploração de mão-de-obra, e indiretamente, através dos conflitos rurais iniciados por latifundiários e da degradação da qualidade e condições de vida de bilhões de pessoas por via dos impactos ambientais.

Por um outro ângulo, dizer que alimentação não tem nada a ver com ética implica que somos livres para assassinar outros seres humanos por canibalismo, visto que a finalidade alimentar tornaria isenta de considerações ético-morais a violência infligida contra as vítimas.

 

2. Os animais existem para nos servir. É determinação de Deus.

A afirmação antropocêntrica de que Deus entregou os animais não humanos ao domínio humano é justificada por pelo menos duas passagens do livro bíblico de Gênesis – a Criação e os instantes seguintes ao Dilúvio –, os quais fundamentam o dogma da dominação humana sobre os demais animais.

Mas nem todos os cristãos e judeus concordam com o especismo que as escrituras do Velho Testamento exibem a uma interpretação literal. Muitos afirmam que o que Deus lhes deu foi o poder de governar sobre os animais com responsabilidade, com o caráter de um guardião e administrador, não o de dominá-los com exploração cruel como se fosse um proprietário opressor de escravos.

Torna-se interessante revelar também que a determinação bíblica de “governar os animais” tinha todo um contexto cultural, em que a pecuária, a caça e a pesca eram essenciais para a alimentação dos hebreus/judeus, sendo a exploração aprovada por Deus um instrumento necessário para que se obtivesse nutrientes da carne e do leite dos animais.

 

3. Nós humanos somos superiores aos demais animais, logo podemos fazer o que quisermos com eles.

Essa afirmação é repleta de impressões subjetivas e envolve toda uma cultura milenar de interesse na exploração animal. É tão volátil no que tange à mudança progressiva de valores quanto o machismo e o racismo, uma vez que, da mesma forma que hoje ainda se acredita na superioridade humana sobre outras espécies sencientes e no gradiente filogenético antropocêntrico de consideração moral, antigamente também se acreditava que os homens eram superiores às mulheres e os brancos eram uma raça superior à negra e à ameríndia. Essa desigualdade moral implicava a arrogância de propriedade dos “superiores” para com os “inferiores”, o que gerou a escravidão dos negros e indígenas e a submissão das mulheres.

Outra semelhança entre o especismo – em que o mito em questão se fundamenta – e os outros dois pensamentos preconceituosos é que os três enxergam as diferenças e alegadas “desvantagens” de uns em relação aos outros como pretextos para a imposição de uma ordem de desigualdade moral. Da mesma forma que existe diferença entre os músculos dos homens (via de regra mais volumosos) e os das mulheres e os brancos europeus tinham uma notável vantagem tecnológica sobre os negros africanos e os ameríndios, o ser humano tem capacidades exclusivas em relação aos demais animais no que tange ao nível de inteligência, linguagem e capacidade de raciocínio e ao nível de habilidade de criar cultura, artes, moralidade e tecnologia complexas.

Curiosamente, o pensamento de “superioridade” humana sobre os demais animais, em conjunto com a arrogância de o ser humano achar-se “racional” em contraste com o “puro instinto” dos “irracionais”, leva o ser humano a ações evidentemente antirracionais, no que tange a destruir o meio ambiente e comprometer suas próprias condições de sobrevivência; infligir a outrem, humano ou não, uma violência de bruteza igual ou pior que a dos predadores selvagens e empreender uma violência intraespecífica – em que humanos matam humanos de forma totalmente desnecessária e injustificável – numa frequência que não é vista em nenhuma outra espécie.

É questão de tempo para que o especismo de achar que o ser humano é “superior” aos demais animais torne-se tão ultrapassado moralmente quanto o racismo, e que passe a prevalecer o paradigma da igualdade ético-moral entre os diferentes, de modo que vantagens e desvantagens relativas não sejam mais usadas como pretextos para a imposição de, respectivamente, superioridade e inferioridade.

 

4. Bois, galinhas, porcos, bodes, peixes de aquicultura etc. nasceram para serem mortos mesmo.

Essa afirmação é comum pelo fato de que tais animais realmente nascem (e morrem) apenas graças à vontade dos pecuaristas e aquicultores e, indiretamente, dos onívoros, pois caso contrário sequer teriam nascido. Porém, na Natureza silvestre nenhum animal nasce apenas para morrer ou virar alimento, muito embora a morte e a predação natural sejam partes fundamentais no funcionamento ecológico da biosfera. Cada animal senciente possui seus próprios interesses, e mesmo os não sencientes, como as esponjas, têm uma função ecológica que não se restringe a morrer ou serem comidos.

É válido dizer que o dito acima só é proferido porque vigora hoje, largamente aceito, o costume social de se escravizar animais. É perceptível também que, em outras épocas, dizia-se algo muito parecido sobre as mulheres, que se dizia terem nascido “para encantar e servir aos homens”, e os escravos humanos, que os livres achavam que existiam “para servir aos seus senhores”.

 

5. A alimentação onívora é ética, porque quem mata os animais a sangue frio não é quem come, o comedor já os compra mortos.

Essa justificativa não faz sentido, uma vez que os animais só são mortos porque há pessoas que compram sua carne. Os matadouros só funcionam porque há uma clientela desejosa daquilo que eles fornecem. Quem come carne não mata diretamente, mas financia e incentiva aqueles que matam. Logo, é cúmplice do abate e elemento indispensável no sistema que domina e abate animais.

Pensemos: se a compra e consumo de carne acabassem, os matadouros não funcionariam mais, deixariam de matar mais e mais animais.

 

6. O vegetarianismo, através da agricultura, mata animais que vivem na terra, como minhocas, ratos e tatus, logo é hipócrita e não faz sentido.

Queiramos nós ou não, a agricultura acaba ocasionando mortes contingenciais de animais rasteiros e insetos, seja pela aplicação de agrotóxicos, seja pelo atropelamento e esmagamento por parte de tratores, seja por desmatamento ou poluição, e virtualmente nada se pode fazer para zerar essas mortes. Deve-se deixar claro, porém, que o veganismo não tem como objetivo zerar as mortes totais causadas pelo ser humano, uma vez que sempre haverá mortes contingenciais, seja no meio urbano, pelo pisoteio de pequenos insetos e pelo controle de vetores de doenças os quais não podem ser individualmente livrados dos parasitas que hospedam, seja no meio rural.

O objetivo real e alcançável do veganismo, na verdade, é acabar com a exploração animal e, por tabela, as mortes intencionais que ela causa diretamente. E erradicar a exploração animal acabará resultando também, colateralmente, numa enorme redução das mortes contingenciais de animais que vivem furtivos em plantações e nos ecossistemas silvestres, uma vez que a agricultura será desonerada de dedicar uma enorme parte de sua produção à pecuária e esta, deixando de existir nas sociedades modernas, parará de causar destruição ambiental.

Assista também a este vídeo que comenta o argumento dos animais mortos na agricultura

 

7. O vegetarianismo mente ou se contradiz ao dizer que milita em defesa da vida, pois não leva em consideração a vida vegetal e microbiana.

Atribuir ao vegetarianismo e ao veganismo a missão de defender a vida propriamente dita é uma falácia do espantalho. O vegetarianismo e o veganismo não militam generalizadamente pela vida, mas sim pela vida senciente. Visa poupar e proteger da escravidão aqueles seres capazes de sentir dor, sofrer, ter consciência de si mesmos, lutar pela vida e manifestar interesse de continuar vivendo. E isso não inclui vegetais e micro-organismos unicelulares, que não são seres sencientes, capazes de sentir dor, sofrer e manifestar interesse pela vida. O que não quer dizer, no entanto, que vegetarianos e veganos destroem plantas sem necessidade.

 

8. A vaca não pensaria duas vezes em te matar se tivesse a oportunidade. Assim sendo, não há obrigação de lhe prestar respeito moral.

Essa afirmação é uma falácia de falsa analogia, por comparar dois seres que, no contexto dado, não podem ser comparados. O bovino não tem o discernimento moral que o ser humano tem, e nem por isso o ser humano é livre para abrir mão de sua capacidade de discernir o certo e o errado, o ético do antiético.

 

9. Tratamos animais com crueldade na pecuária porque somos cruéis por natureza. A única coisa que podemos fazer em relação a isso é aceitar essa realidade.

Tal argumento conservador se baseia às vezes na crença, de raízes bíblicas, na imutabilidade e malignidade da “natureza humana”. Ele não faz sentido na ética secular, que progride ao longo dos séculos e mostra que o ser humano não é uma entidade “naturalmente” perversa e cruel. Se o ser humano de fato tivesse uma natureza aeticamente cruel, hoje ainda veríamos como regras aceitas em todo o planeta atividades como a escravidão, comércio e tortura de seres humanos; o expansionismo militar; a guerra de agressão; os crimes de guerra; o racismo; a anomia ambiental e a própria violência gratuita contra animais não humanos.

 

10. Pensar nos animais como seres dotados de sentimento é antropomorfização, não faz sentido.

É mais que comprovado que as espécies mais complexas de animais possuem sim sentimentos e diversas outras características que as tornam mais semelhantes ao ser humano do que o pensamento cartesiano-positivista acreditava. Aliás, não é necessário entrar fundo em artigos ou reportagens de Zoologia para se comprovar isso: um exemplo de que a inteligência animal não é mera antropomorfização vem dos animais domésticos. Quem tutela ou tutelou um cão e/ou um gato que todos os dias demonstra(va)(m) sentimentos, afetividade e senciência sabe que animais não humanos podem sim ter muitas características de inteligência semelhantes aos seres humanos.

Esse mito costuma ser utilizado para reduzir animais rurais e aquáticos ao atributo de máquinas estúpidas e brutas e, logo, suscetíveis e indiferentes ao aprisionamento, exploração e abate por pecuaristas ou pescadores. Tenta-se assim minimizar a onerosidade ética do consumo de carne, leite e outros. Ignora-se ao se fazer essa afirmação, no entanto, que a condição principal a tornar animais seres dotados de direitos não é a semelhança sentimental e cognitiva entre animais rurais e aquáticos e seres humanos, mas sim sua capacidade de sentir dor e desejar continuar vivendo – sua senciência

 

11. Ética e Moral são conceitos humanos que só servem para humanos. Não faz sentido proteger outros animais com a Ética humana.

Essa afirmação não encontra respaldo nem mesmo no atual paradigma ético predominante, que é antropocêntrico mas já faz diversas concessões aos animais não humanos enquanto parciais sujeitos de direito, e talvez não encontre legitimidade em nenhum outro sistema ético no mundo. Entre as concessões na ética antropocêntrica, exemplificam-se a guarda responsável de cães e gatos, a tentativa de combate ao tráfico de animais silvestres, as políticas ambientais de preservação e conservação da fauna selvagem, a criminalização dos maus tratos óbvios e gratuitos contra animais e até mesmo as políticas de “bem-estar animal” adotada por uma certa porcentagem de fazendas e granjas.

Se Ética e Moral fossem conceitos aplicáveis apenas a sujeitos morais humanos, a violência contra toda e qualquer espécie de animal não humano seria livre e legalizada. Não existiria qualquer legislação que visasse nem mesmo o bem-estar dos animais não humanos. Espancar e matar cães, gatos e outros animais seria totalmente liberado. Mas esse não é o caso nem mesmo atualmente.

A verdade é que apenas seres humanos em sua maioria são dotados da plena capacidade de abstrair e compreender os dois conceitos e assumir o papel de agentes morais. Mas isso não quer dizer que sejam os únicos capazes de sofrer as consequências de ações morais. Os demais animais sofrem integralmente as consequências das ações que os têm como alvo direto ou colateral, no que tange à violação de seus interesses individuais próprios, e por isso são integrados à guarida da Ética como sujeitos/pacientes morais.

 

12. Tanto faz para um animal como o boi e o peixe estar vivo ou morto.

Se assim fosse, esses animais não fugiriam de ameaças externas que lhes ameaçassem causar dor e sofrimento e/ou tirar a vida, como predadores e, em vão, matadouros que exalam cheiro de sangue. Nem expressariam claro sentimento de sofrimento quando já estivessem tendo seus corpos violados por um predador. Não lhes existiria o sentimento do medo. O caso dos frangos que fogem da apanha que precede o transporte ao matadouro é emblemático: há no momento da apanha uma luta dura entre o frango que foge querendo continuar fisicamente íntegro e o funcionário de granja que quer capturá-lo e levá-lo embora.

Se os animais da pecuária não fogem de granjas, fazendas e matadouros, é porque lhes falta completamente qualquer condição de fazê-lo. No caso das duas primeiras, vivem confinados em cercados que não têm força de derrubar ou gaiolas que não podem arrombar, ou, quando estão sendo mutilados, foram totalmente imobilizados pelos peões da propriedade para serem castrados, descornados ou mutilados em outra parte do corpo. Já nos matadouros, estão completamente cercados por paredes – no caso dos bovinos, estão presos, em fila, em um corredor tão estreito quanto seus próprios corpos, além de muitas vezes estarem sendo incitados a continuar andando rumo à sala de insensibilização mediante choques elétricos.

 

13. A senciência animal é um conceito muito duvidoso. Não sabemos que experiência de fato passa pela mente dos animais quando estão sentindo dor.

A senciência denomina a capacidade de um animal de sentir dor e sofrimento e, através dela, manifestar, ainda que não tenha consciência abstrata do que seja dor, sofrimento, desejo, integridade física e vida, que deseja continuar vivo e fisicamente íntegro. Aqueles que duvidam dessa definição, a partir do desconhecimento sobre como seria a experiência do próprio animal em sentir dor, acabam relativizando tal capacidade dos animais não humanos e, assim, duvidando do próprio sentido dos Direitos Animais como um todo.

Tal ceticismo se aproveita do fato de que atualmente não é completa a compreensão do ser humano sobre como é de fato a experiência dos animais de cada espécie ao sofrerem de dor. Porém, esse conhecimento vem sendo ampliado a cada ano por via das experiências da Psicologia Comparativa e da Etologia. Vem sendo possível saber, ainda que parcialmente, além das capacidades cognitivas e inteligentes de cada espécie, o que de fato os animais pesquisados experienciam quando têm algum sentimento ruim, incluindo a dor. Mesmo hoje, ainda que sem haver 100% do conhecimento sobre o que se passa pela cabeça dos animais não humanos, é possível perceber empiricamente que sentir dor e ver-se impedido de continuar vivendo com integridade física é para eles algo ruim e indesejado.

Além disso, é impossível para o indivíduo humano ter 100% de certeza sobre que experiência mesmo as pessoas próximas dele vivenciam quando estão num momento de dor. O único ser cujo experienciamento emocional ele pode conhecer com total certeza é ele mesmo.

 

14. Os animais estão numa escala evolutiva inferior aos seres humanos, logo não há nada de errado em usá-los para nossas necessidades e comê-los.

Na Teoria da Evolução não existe “superioridade” ou “inferioridade” evolutiva, tampouco a determinação de uma desigualdade moral entre os animais. A escala evolutiva em nada diz respeito a “superioridades” ou “inferioridades”, falando, ao invés, de adaptabilidade e inadaptabilidade. Mesmo aquelas espécies outrora prevalecentes que hoje não existem mais eram adaptadas às condições ecológicas locais de seu tempo.

Algumas pessoas usam a “inferioridade” da escala evolutiva dos demais animais para justificar, por exemplo, a exploração até mesmo de primatas não humanos, que elas próprias consideram filogeneticamente mais próximas dos humanos, em pesquisas científicas. Mas não há qualquer inferioridade evolutiva desses animais em relação aos humanos, considerando-se que apenas tomaram um caminho evolutivo diferente desde quando o ancestral comum deu origem aos dois ramos que originariam no então futuro os humanos e outros primatas modernos. Vista a confusão entre os conceitos de diferença e desigualdade por parte dos especistas, é notável a semelhança entre esse especismo evolucionário e o evolucionismo antropológico do século 19: ambos se baseiam na premissa de que as diferenças (biológicas ou socioculturais) implicariam desigualdades morais naturais, tendo assim os “superiores” ou “civilizados” o direito de subjugar os “inferiores” ou “selvagens”/”bárbaros”.

Aqueles que acreditam em escala evolutiva dotada de seres inferiores e superiores acabam caindo numa pegadinha: seguindo-se tal linha de raciocínio, os humanos da espécie atual (Homo sapiens sapiens) que restassem num futuro que vislumbrasse o surgimento de uma espécie pós-humana poderiam ser explorados em laboratórios e criações pecuárias pelos pós-humanos, já que estes últimos seriam “superiores” aos Homo sapiens sapiens.

 

15. O veganismo é baseado numa filosofia misantrópica e anti-humanista.

Isso é uma falácia do espantalho. Não há absolutamente nada de misantrópico ou anti-humanista entre os princípios do veganismo. Acredita-se entre muitos carnistas que os veganos superiorizam moralmente os animais não humanos em detrimento dos humanos, mas isso é o contrário do que realmente se defende nos Direitos Animais, uma vez que estes preconizam a igualdade moral entre os animais humanos e não humanos, e não a inversão da desigualdade moral hoje existente. Também é inerente ao veganismo a máxima Libertação animal também é libertação humana, visto que a libertação dos animais não humanos do estatuto de propriedade humana vai beneficiar, direta ou indiretamente, inúmeros seres humanos, quiçá todos.

 

16. O veg(etari)anismo e os Direitos Animais são apenas mais uma ética diferente entre tantas. Assim sendo, prefiro continuar com a ética tradicional.

Na verdade a ética do veg(etari)anismo e dos Direitos Animais não é uma ética exótica, alienígena em relação aos códigos morais das sociedades modernas, mas sim uma expansão, aprimoramento, reforço e correção dos preceitos éticos atualmente vigentes nas mesmas. Está se incorporando à ética ocidental da mesma forma que o respeito às diferenças (por orientação sexual, crença ou descrença religiosa, etnia, nacionalidade, raça, gênero, presença ou ausência de necessidades especiais etc.) vem sendo assimilado pelas sociedades seculares do Ocidente. Estende-se a qualidade de ser protegido pelo código moral aos animais não humanos, no que tange à relação unilateral de humanos com outros animais. Resolve-se a contradição de simultaneamente pregar respeito a alguns animais (seres humanos e animais “carismáticos” incluídos) e desprezar outros. Em outras palavras, a ética supra-humanista não é um preceito estranho à ética ocidental, mas sim uma versão expandida e menos contraditória dela.

No uso do mito da livre escolha de uma ética a ser respeitada, é observável o uso do relativismo moral para tentar tornar livremente recusável o respeito aos Direitos Animais. Porém, os mesmos que tratam assim os Direitos Animais curiosamente não se comportariam da mesma forma quando respondessem a eventuais questionamentos dos Direitos Humanos, os quais por sua vez costumam ser tratados pelos carnistas como um preceito ético quase ou totalmente absoluto.

 

17. O veganismo tem bases mais emocionais do que racionais.

Há inúmeras, e crescentes em número, fontes científicas e filosóficas que apoiam o veganismo e os Direitos Animais. Seja por relatórios ambientais, artigos científicos, pareceres e guias de associações nutricionais e médicas, tratados de Filosofia ou trabalhos de abordagem lógica, o veganismo tem hoje fontes muito seguras que corroboram cada um dos seus argumentos válidos.

 

18. O veganismo não tem bases racionais para se firmar como um hábito de consumo coerente. Seus argumentos científicos são todos furados.

O que foi dito no mito anterior se aplica também a este. Isso além do fato de que até hoje não foram lançados ao conhecimento público trabalhos científicos que reconhecidamente refutassem as bases nutricionais do vegetarianismo ou as consequências da pecuária e da pesca aos animais não humanos e ao meio ambiente como um todo. Por isso é precipitado dizer, sem qualquer refutação em mãos, que os argumentos científicos do veganismo são “furados”.

 

19. O veg(etari)anismo se baseia apenas em crenças.

O que foi dito em relação aos dois mitos anteriores também se aplica integralmente a este.

 

20. Os motivos éticos para se tornar vegetarianos são centrados na pena de animais fofinhos.

Esse mito tem como premissa a falsa crença de que o veg(etari)anismo teria sua motivação baseada na subjetividade estética (no caso, animais “fofinhos”) e na emoção (a “pena”). Na verdade o veg(etari)anismo tem fundamentos éticos sólidos, que, transcendendo a mera pena efêmera, implicam o respeito pleno, racional e permanente aos animais não humanos, não só aos esteticamente cativantes, e a defesa do reconhecimento do direito animal de não ser propriedade de outrem. Respeito aos animais não humanos em geral é algo totalmente diferente de “pena de bichinhos fofinhos”.

 

21. Os onívoros pensam diferente dos vegetarianos. Estes últimos deveriam se restringir a respeitar a opinião dos primeiros, em vez de lhes ficar questionando a alimentação.

Acontece muito de os carnistas exigirem que os vegetarianos não lhes questionem a alimentação, que respeitem incondicionalmente seus hábitos e crenças alimentares tal como respeitam (ou dizem respeitar) o veg(etari)anismo de outrem. É totalmente possível respeitar os onívoros, mas sua ideologia alimentar oculta merece sim ser criticada, visto que é responsável pelo sofrimento e morte violenta evitáveis de um número enorme de animais. Ideologias, crenças ou mesmo religiões que se calquem no desrespeito ao outro, na negação da dignidade intrínseca do outro, na opressão contra os mais fracos, não só podem como devem ser criticadas e questionadas.

Porém, essas críticas ao carnismo, através da quais se apontam as contradições e consequências dessa ideologia oculta, devem ser feitas nos momentos e lugares certos. Não convém discursar contra o consumo de animais, por exemplo, no café-da-manhã da família ou numa festa em que todos só pensam em se divertir.

 

22. Comer carne não faz mal para ninguém. Os vegetarianos deveriam parar de dar pitaco em nossa alimentação e de tentar nos impor sua opção alimentar.

Não faltam provas documentadas, incluindo-se documentários, livros e diversos outros tipos de conteúdo, de que o consumo de produtos de origem animal faz muito mal para os animais, sejam não humanos ou mesmo humanos, e para o meio ambiente. Promove escravidão e sofrimento desnecessários a animais não humanos, mata violentamente bilhões de animais anualmente, destrói ou degrada uma significativa porção de áreas de ecossistema a cada ano, desvia para a forragem animal alimentos que poderiam estar alimentando seres humanos, impõe trabalhos degradantes para inúmeras pessoas roubando-lhes a saúde e a integridade física. Portanto, comer alimentos como carne faz muito mal para muitos seres sencientes, incluindo pessoas.

Ações que causam consequências negativas para outrem, ainda mais quando estas incluem a morte violenta e dolorosa, não só podem como devem ser criticadas. É por isso que os vegetarianos criticam tanto a alimentação onívora e fazem tanta questão de expressar seu desejo de que todos os onívoros das sociedades modernas se tornem veg(etari)anos um dia.

 

23. Abate não é assassinato!

Abater um animal é tirar-lhe a vida mediante ação violenta – mesmo sendo por técnica virtualmente indolor –, lhe contrariando o desejo de continuar vivendo. E isso é de fato um assassinato, o que se tornaria óbvio ao senso comum se em tal situação um ser humano fosse posto no lugar do animal não humano. Geralmente fala-se no senso comum que humanos são assassinados e outros animais são abatidos (ou caçados, quando em meio selvagem), embora assassinato e abate sejam ações semelhantes cuja única “diferença” é a espécie do animal que vitima. Na prática, se for removida a distinção especista, ambos se tornam a mesma coisa.

 

24. Medidas que regulamentem as condições de bem-estar animal em fazendas, granjas e fazendas-fábrica, tais como gaiolas maiores, abate humanitário e proibição de carnes como a vitela e o foie gras, já seriam o bastante para dar aos animais uma vida digna e tirar do consumo de alimentos de origem animal todo o peso ético que os vegetarianos denunciam.

Essa é a ideia predominante no bem-estarismo, que defende que os animais têm o direito apenas ao bem-estar e que os únicos deveres “éticos” de seus exploradores são prover-lhes condições confortáveis de vida e utilizar métodos supostamente indolores de abate. Entretanto, o bem-estar não é o bastante para retirar dos alimentos de origem animal o peso ético. Na verdade é impossível essa retirada. O interesse maior dos animais não é um conforto maior dentro do regime de escravidão perpétua, não é uma jaula ou cocho maior e aconchegante, mas sim os direitos de viver, ser livres e participar da natureza, que se aglutinam no direito maior de não ser propriedade de outrem. Como diz Tom Regan, não queremos jaulas maiores, queremos jaulas vazias.

É de se relevar que a reforma bem-estarista de instalações pecuárias, mesmo que diminua o sofrimento dos animais servos da pecuária, não irá combater a exploração animal, dar aos animais não humanos a plena liberdade e a propriedade exclusiva sobre seu próprio corpo. Pelo contrário, irá torná-la mais aceitável e aumentar os lucros da pecuária, já que as pessoas darão mais valor a empresas que tratam “bem” os animais mantidos prisioneiros do que àquelas que conhecidamente causam maus tratos.

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25. A produção de leite e ovos não precisa matar animais como na indústria da carne. Por isso, dá para ser vegetariano estacionando na fase ovolacto. O mínimo de não comer carne já é o suficiente.

A afirmação de que a produção ovoláctea não precisa matar animais é inverídica. Há o costume na pecuária de se abater fêmeas que, por exemplo, passaram da idade “produtiva”, sofreram aborto (no caso das fêmeas ditas “leiteiras”), contraíram doenças sérias, produzem leite e ovos numa taxa inferior às expectatias de seus criadores, entre outras causas. Além da “necessidade” de matá-las, também há privações e mutilações contra elas, como, por exemplo, a mutilação de tetas “extranumerárias” nas mamíferas leiteiras, a separação dos filhotes delas, a debicagem de aves poedeiras, a muda forçada de galinhas e, no caso das criações semiextensivas e intensivas, o confinamento permanente em pequenos espaços ou alternado com horas de soltura.

Na verdade, há ainda mais escravidão, violência e privações nas criações ovolácteas do que nas próprias criações “de corte”, porque, ao contrário dos animais criados e mortos exclusivamente para virar carne, as fêmeas secretoras têm seus corpos forçados por toda a vida, são mais suscetíveis a confinamentos, sua vida de sofrimento é mais extensa do que o tempo de vida total dos animais das criações “de corte” e elas também são inexoravelmente abatidas em matadouros.

Mas isso não implica que os vegetarianos possam voltar a comer carne e evitar apenas os laticínios e ovos, já que indiscutivelmente a produção de carne também é intrinsecamente escravista e violenta. Porém, é um indicativo de que a fase (ovo)lactovegetariana, caso aderida, deve ser a mais provisória e breve possível, de modo que a pessoa conheça a culinária vegana e se desapegue de uma vez por todas de todo e qualquer alimento de origem animal.

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26. Mais de 99% dos matadouros brasileiros são higienizados e abatem os animais com métodos indolores. Logo, não há problemas em comer carne.

Esse mito revela desconhecimento sobre a realidade da pecuária no Brasil. Os abates clandestinos são vistos como um problema grande até mesmo pelos próprios pecuaristas. Como exemplos: em Pernambuco, metade dos matadouros eram clandestinos em 2011 e 83% de todos os matadouros, incluindo mesmo muitos não clandestinos, não tinham condições higiênicas mínimas. Já na Bahia, 45,6% de todos os abates bovinos de 2010 foram realizados sob condições irregulares, que abrangem desde a irregularidade dos matadouros até o método explicitamente cruel de abate. No Mato Grosso, por sua vez, mais de 50% dos abates bovinos em 2010 foram clandestinos. E mesmo São Paulo capital tem abatedouros clandestinos: em 1º de dezembro de 2011 a polícia fechou na cidade quatro matadouros clandestinos de aves, que presumivelmente não eram os últimos ilegais existentes lá. Há no Brasil muito mais matadouros clandestinos e abates explicitamente cruéis do que as crenças carnistas imaginam.

E mesmo que o Brasil tivesse 100% de seus matadouros bem higienizados e com abates “humanitários”, isso ainda não faria a pecuária uma atividade livre de objeções éticas, já que ela continuaria criando animais escravizados com fins diversos aos interesses próprios deles, privando-lhes de direitos básicos e matando-os com violência a cada segundo.

 

27. Marretadas sempre funcionam, sempre matam ou desmaiam o animal instantaneamente.

Segundo a Zootecnia, idealmente as marretadas deveriam matar ou desmaiar suas vítimas instantaneamente, mas, até por dedução estatística, é impossível haver 100% de acerto. De qualquer forma, por mais habilidosos que os carrascos fossem, sempre haveria uma chance de a marretada sair menos forte do que o pretendido ou errar a pontaria e deixar o animal golpeado em agonia, com seu cérebro, crânio e/ou coluna gravemente danificados.

Até por causa de sua significativa chance de falhar – e pelo próprio caráter cruel dessa técnica –, a marretada vem sendo substituída por métodos “humanitários” de abate em muitos matadouros regulamentados, como as pistolas de ar ou dardo cativo. O que evidentemente, porém, não quer dizer que isso torne o ato de abater animais algo ético e aceitável.

 

28. Os animais são tratados como verdadeiros reis pela pecuária.

Isso é uma falácia de falsa analogia. Reis não são traumaticamente roubados de suas mães, mutilados, confinados em pequenos espaços ou propriedades cercadas nem mortos em matadouros para terem sua carne comida e sua pele vestida. Mesmo segundo o olhar da própria Zootecnia, há muitas violências, incluindo privações, mutilações corporais e procedimentos estressantes, na pecuária das mais diversas espécies.

 

29. Não é necessário nos preocuparmos com o que a pecuária faz com os animais. A fiscalização por parte do Estado pune quem comete crueldades.

O próprio conceito de “crueldade contra animais” utilizado pelo Estado brasileiro é confuso e volátil. Atualmente, pelo que se pode observar, considera-se crueldade predominantemente atos de violência gratuita, como espancamento e tortura desprovida de interesse utilitário. Porém, a legislação relativiza demais tal conceito quando se questiona se também é crueldade, por exemplo, aprisionar animais em gaiolas por toda a vida, abatê-los com sofrimento e/ou torturá-los em laboratório.

A lei brasileira pode até, teoricamente, punir casos como espancamentos de animais em granjas, mas é leniente e permissiva a inúmeras outras violências evidentes promovidas pela pecuária, como o confinamento em gaiolas minúsculas, a desmama brusca, as mutilações a frio, a muda forçada de galinhas “poedeiras” e o abate com marretadas ou pauladas. Isso além de o mesmo Estado desconhecer o conceito de Direitos Animais, reconhecendo hoje, ainda assim muito parcialmente, apenas o direito de não sofrer crueldade gratuita, o que é apenas uma mínima fração do que seria o efeito integral do direito de não ser propriedade de outrem. Portanto, não é nem um pouco razoável esperar que o Estado use seu vago conceito de “crueldade contra animais” para “moralizar” a pecuária.

Além desse fator, é necessário deixar claro que o Serviço de Inspeção Federal (SIF) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento não é uma entidade onipotente nem onipresente. Por mais eficientemente que o SIF fiscalize fazendas, granjas e matadouros – supondo que trabalhe com eficiência –, ele nunca conseguirá evitar todas as violências óbvias. E a entidade hoje não tem o poder de proibir engaiolamentos, mudas forçadas, desmamas bruscas, criações de vitelos, mutilações e outras ações violadoras, visto que o conceito legal atual de “crueldade” não abrange tais ações.

Isso sem falar que a pecuária, atividade antiética por excelência pelos mais diversos motivos, é legalizada no Brasil – e no mundo inteiro. Esperar que o Estado atual extirpe a antiética da pecuária e preste respeito aos Direitos Animais é ingenuidade.

 

30. Animais de criações “orgânicas” ou caipiras são bem tratados, logo os produtos dessas origens não têm procedência cruel e são eticamente aceitáveis.

Uma resposta a esse argumento é dada nesse artigo.

 

31. Há um pacto entre criadores e animais criados: o primeiro protege os últimos dos predadores naturais, recebendo em troca carne, leite e ovos.

Este mito é abordado nesse artigo, sobre a consideração da “opção” de comer “carne feliz”, leite orgânico e ovos caipiras. Mas convém repetir: não existe nenhum pacto entre criadores e rebanhos nem tampouco benefícios aos últimos. Porque tal “pacto” é algo unilateralmente imposto, os animais não têm capacidade de aceitá-lo ou recusá-lo. E aquele que protege os animais de predadores externos é ninguém menos que seu próprio futuro assassino.

 

32. A humanidade tem muito respeito pelos animais “de criação”, dada a imensa contribuição que eles lhe dão.

Aqui o termo “respeito” é distorcido tal como previa o dito desconexo de Tom Regan, em que o sentido original de uma palavra é manipulado de modo a denominar algo totalmente diferente dele. Na concepção imaginada pelo autor do mito acima,  “respeitar” alguém permite ao indivíduo roubá-lo ainda bebê da mãe, escravizá-lo, mutilá-lo, confiná-lo e assassiná-lo.

A mesma linha de raciocínio do referido mito também serviria para afirmar que “os senhores de engenho tinham muito respeito aos seus escravos, uma vez que estes contribuíam importantemente para a sua riqueza e o funcionamento da economia do Brasil colonial”, embora esta segunda afirmação certamente fosse alvo de muito estranhamento por parte das pessoas, incluindo muitos dos que acreditam na coerência do mito do “respeito” dos carnistas aos animais explorados pela pecuária.

 

33. O vegetarianismo é radical demais, e o veganismo, por sua vez, é um extremismo. O ideal é que façamos tudo, incluindo comer carnes, com moderação e não nos aperreemos com atos extremos como dispensar ovos, laticínios e mel.

A afirmação de que o vegetarianismo e veganismo são radicais está certa quando tomamos a palavra radical por algo que vai à raiz. O veg(etari)anismo de fato ataca a raiz do problema da escravidão e/ou assassinato de animais no meio rural e nas águas do planeta. É uma prática que atua para parar as consequências destrutivas que as atividades de exploração animal, alimentícias ou não, causam aos animais e ao meio ambiente. Uma segunda definição correta de radicalismo no vegetarianismo e veganismo é não aceitar a negociação e flexibilização dos direitos dos animais humanos e não humanos nem um meio termo como solução para suas reivindicações.

Mas não são esses os sentidos do radicalismo que a afirmação em questão acusa o veg(etari)anismo de portar. O sentido utilizado na acusação carnista contra o veg(etari)anismo é o de comportamento extremista, algo necessariamente ruim e potencialmente violento por ser muito forte. O fato por trás disso é que qualquer ação que, sem margem a qualquer flexibilização, quebre tradições e questione hábitos culturalmente enraizados é vista como “radical” no mau sentido. Tome-se alguns exemplos:

– Numa sociedade patriarcal e machista como a ocidental euro-americana, o feminismo foi e ainda é considerado algo “radical”;

– A proposta de tornar o Tibete independente da China é considerada “radical” por muitos, mesmo tendo a China submetido aquele país ao seu domínio político;

– Na sociedade euro-americana como um todo, qualquer proposta ideológica, mesmo não violenta, que vise a suplantação socioeconômica e política do capitalismo é considerada “radical” pelos direitistas e por quem aceita meios-termos como a socialdemocracia e o centrismo.

O vegetarianismo e o veganismo são considerados “radicais” aqui no Brasil em parte porque nossa sociedade e economia são muito apegadas ao consumo de carne, laticínios e ovos – por outro lado, não há essa acusação ao vegetarianismo de radicalismo na Índia, onde o lactovegetarianismo é tradição e boa parte da população não come carne nem ovos.

Sobre a proposta de comer animais e seus “produtos” com moderação, vale esclarecer que, mesmo quando a pessoa o faz de forma moderada, ela continua financiando uma indústria que vive de explorar e matar animais, ainda que lhe dedicando menos dinheiro. Continua sendo cúmplice dos efeitos destrutivos da pecuária e da pesca e aquicultura. O abuso institucionalizado dos animais e a negação de seus direitos não vão parar se as pessoas comerem menos carne, menos ovos, menos laticínios e menos mel, mas sim se pararem definitivamente de consumi-los – e se os defensores dos Direitos Animais passarem a promover ações ainda mais incisivas.

 

34. Querer a extinção dos animais da pecuária é um absurdo moral.

Depois de milênios de seleção genética, as espécies escravizadas pela pecuária, em sua maioria, perderam as condições de voltar ao ambiente natural de onde seus ancestrais haviam sido tirados ao serem criados pelos primeiros pecuaristas, visto que possuem vulnerabilidades físicas e também mentais que os tornarão frágeis demais para sobreviver enquanto indivíduos e espécies no selvagem por muito tempo. Além disso, mesmo suas espécies já foram substituídas, depois de tantos anos, nas teias alimentares de suas regiões de origem. E a liberação de bovinos, ovinos, galináceos e outros animais historicamente criados em propriedades humanas em habitats naturais, por menor que fosse sua população, teria impactos ambientais imprevisíveis, uma vez que seriam e se comportariam como espécies invasoras. Hoje a humanidade, mesmo que deixe algum dia de tratá-los como propriedade, possui responsabilidade sobre esses animais e seus impactos sobre o meio ambiente.

Por isso, alguns teóricos de Direitos Animais defendem que, uma vez abolida a pecuária, os animais remanescentes das últimas fazendas e granjas sejam, depois de encaminhados a santuários de refúgio animal, esterilizados de modo que não possam se reproduzir mais. A esterilização e a incapacidade de se reproduzir não irão lhe causar qualquer sofrimento nem vão rebaixá-los novamente ao status de propriedade humana. E, à parte talvez os momentos de cio, não há entre os interesses individuais dos animais o desejo manifesto de dar à luz novos filhotes.

Visto que não irá escravizar nem causar sofrimento nos últimos animais sobreviventes da pecuária, a extinção por via de controle de natalidade não é algo intrinsecamente antiético perante a ética da senciência, ainda que hoje em dia seja um assunto muito polêmico e de fato vá demandar ainda muita discussão enquanto durar a luta pela libertação animal.

 

35. A água potável que os veganos usam no dia-a-dia foi extraída de um manancial onde vivem muitos peixes e outros animais aquáticos. Por isso, a água que usam não é vegana.

A extração de água dos mananciais não envolve escravidão animal nem matança generalizada de animais – ainda que alguns possam acabar morrendo contingencialmente por serem sugados pelas bombas e dutos de sucção. Por isso, não faz sentido dizer que isso faz a água potável não ser vegana.

 

36. Devemos muito à pecuária e à vivissecção por tantos avanços tecnológicos. É impensável aboli-las algum dia.

A importância tecnológica passada de determinada ação não determina sua retidão ética. Da mesma forma que a pecuária e a vivissecção impulsionaram alguns avanços tecnológicos na história da humanidade, as guerras, a escravidão humana, o militarismo, a tortura e o desmatamento também foram essenciais no desenvolvimento de muitas tecnologias, como fatores impulsionadores e/ou como usuários então indispensáveis dos novos instrumentos tecnológicos.

 

37. Com tantas crianças passando fome, tanta gente sofrendo na África, na Ásia, nas favelas de todo o mundo, por que você tem que perder tempo pensando em animais?

Essa é uma falácia de falsa dicotomia. Exclui a possibilidade de o indivíduo levantar várias bandeiras de justiça/igualdade social ao mesmo tempo. Nada impede que a mesma pessoa seja militante pelo vegano-abolicionismo e também pelos Direitos Humanos – causas, a saber, profundamente interligadas.

Leia mais sobre esse mito neste artigo

 

38. Esses defensores do vegetarianismo compõem um lobby político interesseiro. Interessa-lhes pessoalmente que a pecuária acabe.

Um dos problemas da atual militância pró-Direitos Animais e pró-veg(etari)anismo no Brasil é justamente a insuficiência de mobilização e influência políticas. Não há ainda no país uma mobilização em massa que tenda a criar uma agremiação política abolicionista. O que hoje há de Direitos Animais na política são apenas alguns poucos deputados estaduais e federais e vereadores que atualmente trabalham em temas relativos à proteção animal tradicional, como tratamento de cães e gatos, exploração de animais puxadores de carroças e fortalecimento das leis atuais de punição a crueldades gratuitas, ou na adoção da Segunda Sem Carne em órgãos públicos.

Além disso, não há qualquer interesse egoísta entre a coletividade que defende a libertação animal. Mas sim a autêntica alteridade, que visa a consideração dos interesses dos animais não humanos. Se há, por outro lado, militantes veg(etari)anos interessados mais em prestígio, fama e promoção pessoal do que na própria abolição do especismo, isso diz respeito apenas aos indivíduos que assim são, não sendo um problema generalizado ou coletivo na militância como um todo.

 

39. Matar plantas é mais cruel, porque elas não podem fugir, ao mesmo tempo em que o animal a ser abatido pode se defender ou fugir.

No matadouro não há qualquer condição de defesa para o animal. A forma como ele é “manejado” no caminho para a morte e na sala de abate impede qualquer possibilidade de ele tentar machucar os operários que vão matá-lo. E também a própria posição dos executores, encarregados da insensibilização e da degola, lhes dá a segurança de não poderem ser feridos por algum animal que eventualmente esteja nervoso a ponto de querer bater em todos ao seu redor.

É impossível, por exemplo, um bovino prestes a ser morto chifrar alguém ao seu redor, porque ele está cercado de obstáculos que protegem os funcionários do matadouro; estes estão acima do ponto final do corredor da morte, ou do outro lado da mureta que cerca o final desse corredor; e o próprio animal teve os chifres mutilados em algum momento de sua vida, pelo processo de descorna ou pelo de amochamento.

Em relação a fugir, apenas um entre bilhões de animais consegue a sorte de fugir, mas a fuga geralmente se dá enquanto está sendo descarregado do caminhão de “carga viva”. Uma vez dentro dos confinamentos do abatedouro, incluindo o estreitíssimo corredor da morte, feito já para que o animal evite virar para trás, as chances de fuga tendem a zero.

Quanto às plantas, já foi comentado na resposta aos mitos biológicos que elas não sentem dor nem possuem consciência, e não há crueldade em matar seres que não têm o interesse de continuarem vivos e fisicamente íntegros.

 

40. “Não é o que entra na boca que torna o homem (sic) impuro, mas sim o que dela sai.”

Esse mito é diretamente inspirado na crença também mítica de que “alimentação e ética não têm nada a ver uma com a outra” (vide o mito nº 1 deste post). Mas se esse mito conviesse para a realidade, seria ético-moralmente aceitável seres humanos comerem absolutamente quem/o que quisessem, incluindo a carne dos seus próprios cães e gatos tutelados e carne humana.

Hoje o consumo de alimentos de origem animal em geral (ainda) não é associado a desvio de caráter, menos ainda quando o indivíduo não tem noções de Direitos Animais e veganismo – e portanto desconhece as consequências éticas de sua alimentação -, mas é visível que a pessoa falta com a ética quando contribui conscientemente para que se inflija violência assassina contra animais. Quando alguém sabe plenamente que comer carne, leite, ovos etc. implica necessariamente privar animais de seus direitos e lhes tirar a vida de forma violenta e indesejável, mas mesmo assim continua consumindo esses alimentos e não liga para a miséria proporcionada, está necessariamente sendo eticamente “impuro”, por sabidamente estar incidindo em ações antiéticas.

 

41. As reformas de bem-estar animal podem diminuir o número de abates de animais de criação (sic).

Nada evidencia que isso possa acontecer num contexto de disseminação de reformas bem-estaristas. Pelo contrário, o mais provável é que o número de abates aumente ainda mais, e não diminua, por três motivos principais.

Em primeiro lugar, alimentos como a “carne feliz” e os ovos “caipiras”, desde que a um preço tão acessível quanto suas versões ditas convencionais, tendem a atrair uma demanda maior, já que supostamente estão “livres” do estigma das violências chocantes e têm “melhor qualidade” de aparência e sabor.

Em segundo lugar, a imagem institucional de fazendas, granjas e empresas ovolactofrigoríficas tende a se tornar mais “positivada” quando elas adotam políticas de “bem-estar animal”, e isso atrai mais clientes.

Em terceiro lugar, a massificação do bem-estarismo no mercado de produtos de origem animal pode tornar mais difícil o convencimento das pessoas leigas em Direitos Animais de que o uso de animais é por si só uma violência, já que essa exploração passa a ter menos consequências práticas aparentes. Em outras palavras, uma exploração animal sem gaiolas apertadas e sem espancamentos tende a parecer menos inaceitável do que uma exploração que choca as pessoas com suas gaiolas minúsculas e suas cenas frequentes de violência explícita.

E em quarto lugar, animais cuja “produção” de carne, leite e ovos não seja impulsionada por hormônios, antibióticos e/ou alimentação avançadamente selecionada, como é o caso daqueles animais de criações bem-estaristas, “renderão” individualmente uma quantidade menor desses produtos. “Produzirão” menos carne, darão menos leite e porão menos ovos, já que muitas vezes são tratados com métodos de criação orgânica, que não “turbinam” o “fornecimento” de produtos animais. E para que uma demanda cada vez maior seja atendida, será necessário criar um número maior de animais, já que, por exemplo, o mesmo peso de carne “produzido” por cinco bois numa fazenda convencional seria “fornecido” por seis de uma fazenda orgânica bem-estarista.

Por esses quatro motivos, a demanda por abates tende a só aumentar e se tornar ainda mais difícil de diminuir. E isso implica logicamente que mais animais, e não menos, serão explorados e mortos para atender a essa demanda crescente e fidelizada. Um exemplo de que o bem-estarismo aumenta o número de mortes, pode ser visto nessa matéria da Folha de S. Paulo de 2013.

 

42. Os animais vivem melhor nas fazendas e granjas do que viveriam soltos na Natureza.

Fala-se muito que os animais não humanos “vivem melhor” sob a dominação humana do que se vivessem livres em habitats naturais. O pretexto dado é que, em liberdade, estariam sujeitos a serem abatidos com muita violência e sofrimento por seus predadores naturais, ou poderiam ser abandonados pela mãe enquanto filhotes, ou sucumbiriam a doenças.

Mas não há uma vida “melhor” ao ser submetido às violências humanas do que num ambiente natural. Na pecuária ou na aquicultura, os animais explorados também são submetidos a diversas violências, como a mutilação de diversas partes periféricas do corpo (principalmente chifres, testículos, bicos, caudas, dentes e tetas, dependendo da espécie e do sistema reprodutor com que o animal nasce), marcações que violam seus corpos (com queimaduras ou danos às orelhas), confinamentos em espaços muito mais limitados do que seriam os limites de um habitat natural, desmama forçada a uma idade muito menor do que a época do desgarramento natural entre mães e filhotes, transporte tortuoso da fazenda ou granja para o abatedouro, abate marcado pelo desespero, sujeição a diversas doenças (brucelose, febre aftosa, mal da vaca louca, verminoses, mastite, gravatá etc.), entre outras.

Além disso, o tempo de vida de um animal submetido à pecuária é muito menor do que o de animais livres que conseguem escapar da predação. No caso dos bovinos, eles poderiam viver mais de vinte anos em liberdade, mas são abatidos ou com poucos meses de vida (bezerros vitelos), ou com menos de dois anos (bovinos “de corte”), ou com menos de dez anos (quase todas as vacas “leiteiras”). No dos frangos e galinhas, são mortos com menos de dois meses (frangos e galetos) ou com menos de dois anos (galinhas “poedeiras”).

Lembremo-nos também do fato de que animais com características anatômicas indesejadas ou com baixa ou nula “produtividade” são mortos muito antes do abate dos animais “normais”. Vacas que sofreram abortos espontâneos ou produzem leite de menos, galinhas que põem ovos “anormais”, animais reprodutores homossexuais, búfalos que resistem a todas as tentativas de doma, entre tantos outros, são casos de animais abatidos muito mais cedo.

Também é relevante lembrar que a exploração de fêmeas para produção de leite ou ovos submete-as a um rígido controle e a fortes violências e privações. Elas são ordenhadas com uma enorme frequência, submetidas a acasalamentos ou inseminações artificiais em intervalos relativamente pequenos, são submetidas ao sofrimento de ter seus filhotes diariamente afastados de sua guarda ou roubados em plena idade de amamentação, vivem sob confinamentos temporários ou permanentes e são mortas a uma idade muito mais baixa do que seu tempo natural de vida.

Relembremos, sobretudo, que os animais não estão protegidos de predadores, porque são indivíduos da própria espécie predadora que os mantêm sob prisão e exploração em fazendas e granjas.

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